The
Chronicle of Higher Education
11
de outubro de 2004
Você
está despedido!
GERALD
MCGARRY
Experiências pessoais no mercado de trabalho
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
"Escute,
vamos elaborar um plano para você deixar a universidade
no final desse ano acadêmico".
Espere
aí, o que ela disse?
Eu
não tinha percebido que tínhamos chegado a
esse ponto.
Sou vice-presidente adjunto para assuntos acadêmicos
em uma pequena universidade de estudos liberais, e estava
em uma reunião com minha chefe, Ursula, para discutir
uma redistribuição de minhas responsabilidades.
Há meses já havíamos reconhecido que
eu fazia coisas demais, e também que eu me saía
melhor em algumas tarefas do que em outras. Diversas pessoas
estavam obtendo promoções, e esta era a hora
certa para passar algumas de minhas atribuições
para essas pessoas.
Eu
esperava que a reforma nos cargos permitisse maior concentração
nas coisas que faço bem, que eu tivesse mais tempo
para realizar tarefas que eu não tinha tempo de fazer
direito, e que eu assumisse algumas responsabilidades novas
e interessantes.
Mas
à medida em que a reunião transcorria, Ursula
descartava todas as minhas idéias sobre novas iniciativas
e não oferecia nenhuma idéia própria.
A seguir ela jogou a bomba.
Aparentemente,
Ursula tinha decidido que todas as minhas tarefas poderiam
ser transferidas para outros. Eu passaria este ano acadêmico
trabalhando em projetos especiais, e então... bem,
seria isso. Como não tenho estabilidade e não
há lugar no orçamento para se acrescentar
outra linha de ensino em meu departamento, eu teria que
deixar a universidade de vez.
Em
outras palavras, estou despedido. Só que eu não
sou um dos candidatos do reality show de Donald Trump,
The Apprentice. Não tinha nenhum outro
emprego para me apoiar.
Minha
primeira reação foi de choque, depois raiva
e perplexidade. Em que ela estaria pensando?
Ursula
teve o cuidado de me dizer como eu era valioso, como ela
gostava de mim pessoalmente, e o quanto ela tinha investido
em mim. Mas aparentemente não conseguia encontrar
nenhuma posição para mim no campus.
Certa
vez ela havia me emprestado um livro sobre como ser um bom
supervisor, e uma das regras do livro era que ao descobrir
boas pessoas você deveria mantê-las e usar os
recursos delas, fossem quais fossem, para o progresso da
organização. Subitamente ela parecia não
estar seguindo aquele conselho.
Como
eu não consigo fazer exatamente aquilo que ela quer
que eu faça, ela decidiu se livrar de mim (e passar
sem um diretor adjunto), e não tentar se adaptar
aos meus pontos fortes. Ou ela acha que eu não tenho
valor ou ela não está à altura da tarefa
de descobrir como me usar onde posso render mais.
Com
base naquilo que eu conhecia sobre Ursula nos anos em que
havia trabalhado para ela, na maneira como Ursula tinha
lidado com outros professores e funcionários e no
feedback positivo que eu recebia de outras fontes, decidi
que o fato de ser despedido referia-se mais às limitações
dela do que às minhas.
É
claro que a motivação de Ursula vem de algumas
críticas legítimas ao meu trabalho. Mas não
posso crer de maneira nenhuma que sou completamente inepto
para fazer esse trabalho. Isto vai contra as opiniões
de muitos colegas e alunos, e não resulta em qualquer
ação produtiva. Nesse momento, preciso de
uma ação produtiva.
Compreender
aquilo levou-me a três conclusões importantes
sobre minha situação.
Primeira:
não vou fazer um escândalo. Quando uma vice-presidente
diz que você está despedido, a única
pessoa para quem você pode apelar é o presidente.
Ainda que nosso presidente goste de mim e me respeite, eu
o conheço o suficiente para saber que ele não
vai reverter a decisão de uma vice-presidente
a menos que eu possa comprovar que ela é totalmente
incompetente.
Mesmo
se ele o fizesse, ou se ocorressem maciças passeatas
a meu favor e todos ameaçassem pedir demissão
a menos que eu fosse readmitido, e Ursula recuasse e me
readmitisse, eu estaria de mãos atadas porque Ursula
(compreensivelmente) se recusaria a dar apoio aos meus atos
ou a me conceder qualquer parcela de autonomia.
Portanto,
não vou lutar para manter meu emprego porque não
conseguiria trabalhar direito. E para ser justo com Ursula,
se ela não me quer trabalhando para ela não
há razão nenhuma para que me mantenha no cargo.
Segunda:
vou ficar de boca fechada. Vou contar apenas a duas pessoas
do campus e a duas outras de fora que estou sendo despedido,
e vou fazer com que jurem manter segredo. Sei que muita
gente recomenda uma atitude oposta, o que no meu caso faz
sentido porque as pessoas ajudam a arranjar outro emprego
se souberem que você está procurando.
Mas
eu tenho diversas razões para ficar calado:
-
É mais provável que outras universidades me
contratem se acharem que ainda estou empregado.
-
Posso render mais em meu último ano se as pessoas
acharem que vou prosseguir; de outro modo, quando houver
algum desacordo elas apenas esperarão minha saída.
-
Não quero passar o ano todo dizendo aos meus colegas
que estou indo embora mas não sei para onde vou.
-
Se eu contar para muitas pessoas de nossa pequena cidade,
amanhã todos saberão, e também
não quero que minha esposa e meus filhos lidem com
esssas reações.
-
Sendo honesto comigo mesmo, tenho que admitir uma outra
razão para ficar calado: se eu conseguir um emprego
rapidamente, ninguém precisará saber que fui
demitido.
Minha
terceira e última consideração sobre
meu problema é que não vou me candidatar a
outros empregos por causa da maneira como se ajustam a um
plano de carreira particular.
Durante
muito tempo eu quis ser vice-presidente para assuntos acadêmicos.
Mas a partir de minha vantajosa posição
de VP adjunto pude observar aspectos desta posição
superior dos quais não gostei. E como já deve
estar esclarecido, quando me esforcei no atual emprego para
fazer coisas das quais não gosto não consegui
fazê-las direito, daí não ter utilidade
para minha chefe - e é por isto que ela está
me despedindo.
Então,
ao invés de seguir um plano de carreira imposto,
minha estratégia é fazer alguma coisa da qual
goste e fazê-la bem.
Espero
que meu procedimento dê certo, mas estou fazendo um
improviso porque não sei onde encontrar sugestões
sobre como lidar com minha demissão. No mundo acadêmico
nos fazem pensar que a carreira normal decorre assim: arranje
um emprego, ganhe estabilidade (se tiver posição
para isso) e mantenha o emprego por toda a vida, a menos
que saia por vontade própria para um outro melhor.
E se a estabilidade lhe for negada pelo seu primeiro empregador,
consiga-a em outro lugar.
Acho
que no mundo acadêmico considera-se que o emprego
vitalício é tanto um sinal de excelência
como uma recompensa por bons serviços. Tendemos a
não pensar em demissão, até porque
poucos de nós são demitidos. O prolongado
desenvolvimento da educação superior e a expansão
constante de programas e serviços protegeram a grande
maioria das pessoas que têm empregos letivos ou administrativos.
Sim, arranjar um emprego é difícl, mas uma
vez empregado você está feito.
Às
vezes boas pessoas são despedidas, especialmente
hoje em dia, quando cortes orçamentários são
um fato comum na educação superior. Tenho
confiança de que estou no caminho certo, mas isto
não faz dele um caminho fácil.
Felizmente,
as necessidades práticas para procurar um novo emprego
e cumprir minhas tarefas por mais um ano quase sempre me
mantêm ocupado demais para cair no desespero. (Estou
preocupado com questões como: devo fazer meu currículo
em papel creme ou branco? Fiz uma pesquisa informal entre
meus amigos. Todos os que tinham emprego em instituições
particulares recomendaram papel creme, ao passo que todos
os de instituições públicas preferiram
o branco. Esta descoberta pode até gerar uma dissertação).
Já
vi muitos guias de carreira bons, que ajudam professores
a arranjar o primeiro emprego, mas não existem muitos
que nos ajudem a encontrar uma nova posição
depois que perdemos a que tínhamos. Acho que vou
escrever um livro desses.
Gerald
McGarry é o pseudônimo de um decano adjunto
para assuntos acadêmicos em uma universidade de estudos
liberais do Meio-Oeste.
http://chronicle.com/jobs/2004/10/2004101101c.htm
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