Imaginação:
sua fenomenologia e neurocognição
O
TEMPO DO SER IRREMEMORÁVEL
Autobiografia da Imaginação, de Wordsworth
Francis
F. Steen (1998) Univ. of California
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
Introdução
Em outubro de 1798, William Wordsworth encontrava-se
isolado, com sua irmã, em um quarto alugado
na cidade alemã de Goslar, durante o inverno
mais frio do século. Em um pequeno bloco de
anotações encapado em madeira, iniciando
pelo final, entre as notas gramaticais de Dorothy,
ele começa a história de sua infância
em Cockermouth e Hawkshead no English Lake District.
Retornando a seus primeiros anos, ele subitamente
faz uma pausa e coloca a interjeição
now I speak of things
That have been & that are no gentle dreams
Complacent fashioned fondly to adorn
The time of enrememberable being
(Agora falo de coisas/ que aconteceram e que não
são sonhos agradáveis/ caracterizados
com complacência e gosto para adornar/ o tempo
do ser irrememorável)
As
palavras pendem por um instante. Em uma carta a Coleridge,
ele reclama de "uma inquietude em meu estômago
e nos lados, com uma dor surda perto do coração".
Retornando à sua ousada afirmação,
ele risca a linha que talvez exiba demasiado protesto,
deixando apenas uma rejeição hesitante:
talvez eu fale de coisas/caracterizadas com complacência
e gosto para adornar/ os anos do ser irrememorável
Em
versões subsequentes, estas linhas são
suprimidas.
Nos
primeiros dias após seu acidente vascular a
Sra. B. M. recusou-se a reconhecer que faltava qualquer
coisa. Apesar de um maciço infarto dos lobos
parieto-occipitais direitos ter causado uma hemiplegia
completa do lado esquerdo de seu corpo, quando indagada
ela negava acaloradamente que estava com algum distúrbio.
Ao lhe atribuírem uma tarefa que exigia as
duas mãos ela persistia com tanta obstinação
que sugeria que ela própria estava enganada.
Sua anosogsonia estava acompanhada por uma somatoparafrenia:
se reconhecia de algum modo o braço e a perna
inertes, insistia que pertenciam a outra pessoa. Quanto
a assuntos que não se relacionassem à
sua paralisia, ela permanecia lúcida.
Em
uma notável investigação sobre
a máquina da mente, Vilayanur Ramachandran,
do Center for Reasearch on Brain and Cognition da
UC San Diego, começou perguntando a ela se
tinha qualquer problema em mover seus braços,
resultando como sempre em uma veemente negativa. Ele
então irrigou sua orelha esquerda com água
fria como gelo. Quase imediatamente seus olhos começaram
a se mover rapidamente, da maneira característica
do estado onírico (nistagma - nystagmus). Quando
questionada, ela replicou que podia mover seu braço
direito, mas não o esquerdo; de fato, disse
ela, "ele tem estado paralisado por muitos dias
até agora". Mais tarde, quando o efeito
da água gelada passou, ela foi indagada sobre
o incidente. Lembrava-se da água gelada e da
conversa, afirmando: "Eu disse que meus braços
estavam bem".
Qual
é a arquitetura neurológica do eu autobiográfico,
e por que ela provoca a modificação
(rewriting) das lembranças? Quais são
as salvaguardas sistemáticas da mente contra
o pensamento ilusório? Estas questões
são importantes não só para a
neurociência da autobiografia como para a compreensão
dos aspectos da cognição humana que
até então tinham sido amplamente negligenciados
(NT - ignorados - overlooked) no estudo científico
da mente: os usos (e abusos) múltiplos de cenários
fictícios. A neuropsicologia do jogo fingido
(pretended play), da metacognição e
da imaginação estão apenas começando
a receber atenção séria (Nota
1). A mente imaginativa está sendo colocada
sob a lente de aumento ou, mais apropriadamente, na
máquina de imagens por ressonância magnética
funcional. Como os dados empíricos adquirem
significado apenas no contexto de uma teoria, nós
humanistas, enquanto habitantes do imaginário,
faríamos bem em participar da elaboração
de uma estrutura teórica que faça justiça
à complexidade das questões abordadas.
Numa
tal elaboração a rica e sutil fenomenologia
das obras literárias pode ser de particular
interesse, por exemplo, fornecendo um registro publicamente
disponível e psicologicamente poderoso das
íntimas operações da mente individual.
Tal registro não precisa ser literalmente verídico
para fornecer dados úteis; traços de
distorções e de enganos podem ser igualmente
informativos. Inversamente, as estruturas explanatórias
rivais da neurociência podem esclarecer nossa
compreensão dos textos literários, colocando
as suposições picológicas por
demais familiares que usamos para interpretá-los
sob uma luz nova e desafiadora. À medida que
uma leitura cognitiva da literatura não se
encaixa perfeitamente nas tradições
disciplinares nem da crítica literária
nem da ciência cognitiva, os melhores trabalhos
mostram que ambos os campos podem se beneficiar, e
uma nova e habitável área está
emergindo no frutífero hiato entre as ciências
e as humanidades (Nota 2). Questões persistentes
do estudo da literatura, como a problemática
do eu, podem ser abordadas de maneira nova em um contexto
psicológico assim como em um contexto histórico.
Neste ensaio escolhi examinar os manuscritos dos primeiros
rascunhos de William Wordsworth daquilo que eventualmente
tornou-se sua magnum opus, a obra autobiográfica
publicada postumamente The Prelude, à
procura de evidências sobre a natureza do eu
autobiográfico - o eu que é uma história
e que ainda assim funciona como o foco (locus) do
ser.
Por
que Wordsworth? Numa época em que os modelos
científicos dominantes de cognição,
embebidos (steeped) na ontologia objeto-orientada
da tradição newtoniana, concentravam-se
na mecânica de como as sensações
dão surgimento às idéias, ele
defendeu a experiência subjetiva da imaginação.
Sua poesia auto-conscientemente psicológica
captura algo da dinâmica da mente - em particular,
os aspectos emotivos da metacognição
- que hoje encontramos na linha de frente da neurociência
cognitiva (Nota 3). Na noção de "poder
combinado" (blended might) da mente e do mundo
externo (Wordsworth, Home 1013; 104), Wordsworth
também pressagia a recente renovação
da apreciação da natureza incorporada
(embodied) da cognição. Como aponta
Andy Clark, ao contrário de uma longa tendência
nas pesquisas de ciência cognitiva e de inteligência
artificial, "as mentes não são
dispositivos desincorporados de raciocínio
lógico" (Nota 4). Em particular, a noção
de Wordsworth das afinidades intrínsecas entre
a mente em crescimento e o mundo natural - seu primitivismo,
ao qual logo retornarei - representa uma ruptura com
a idéia de que a mente não tem nenhuma
estrutura inerente, e ecoa a ênfase da psicologia
evolutiva sobre a relevância do ambiente ancestral
humano para a compreensão da cognição
contemporânea (Nota 5).
No
outono de 1798, quando iniciou seu projeto autobiográfico,
Wordsworth estava em um ponto de transição
em sua carreira. Seis anos antes ele tinha deixado
para trás sua amante grávida na França
revolucionária, e acabou vendo os dois países
em guerra, evitando seu retorno. À medida que
a euforia inicial da revolução tornava-se
terror fratricida, suas esperanças na política
radical se esvaíram, e através de difíceis
anos ele lutou para obter um novo senso de direção.
Ajudado por sua irmã Dorothy, ele procurou
refúgio em uma visão pessoal de redenção
na relação do homem com o mundo natural.
Naquela primavera, sob a tutela filosófica
de Coleridge, ele começou a formular um projeto
poético crescentemente ambicioso - "de
fato, não conheço nada que não
vá entrar no âmbito do meu plano"
(Nota 6) - mas ainda assim sentia-se inseguro quanto
às suas habilidades. O retorno imaginativo
à sua infância tornou-se um meio de aliviar
sua ansiedade e fornecer um fundamento para sua identidade
como poeta (Nota 7). Ele parece não ter tido
nenhuma estrutura filosófica e psicológica
já pronta para esta tarefa. Na verdade, os
modelos explícitos de cognição
que lhe estavam disponíveis fracassaram espetacularmente
em sancionar suas intuições, apesar
desta mesma falha parecer ter estimulado suas aspirações.
Coleridge apresentou-o à obra de David Hartley,
cujas Observations on Man tentavam fazer pela
cognição o que Newton tinha feito pela
física: fornecer uma explicação
causal e materialista, baseada em princípios,
aninhada em uma fé na beneficência de
um Projetista Divino (Divine Designer). Como as descrições
materialistas subsequentes da cognição,
a de Hartley foi levada a ver a agência humana
como ilusória. Em contraste, Wordsworth passou
a ver a poesia como um ato de imaginação
criativa e o poeta como o notável gerador do
que é novo. Suas esperanças eram de
que havia uma vocação e um meio de vida
nisso.
No
que vem a seguir, eu inicio examinando como a tentativa
de Wordsworth de criar uma base para seu próprio
gênio poético implicou uma ruptura inovadora
com as teorias cognitivas de sua época, instigada
por um encontro com um radical esquema educacional
proposto por Thomas Wedgwood. Através de uma
leitura atenta de seus primeiros rascunhos autobiográficos
que datam de outubro de 1798 até abril de 1799,
eu demonstro como criativamente ele lembra-se de sua
infância em termos do desenvolvimento dos poderes
da imaginação. Formando a distorção
(warp) da estrutura material (fabric) deste ensaio,
então, está a mais antiga tentativa
autobiográfica de Wordsworth de tentar traçar
a ontogenia da imaginação até
o estado onírico, os jogos, e as combinações
perceptuais e conceituais, enquanto a trama (do tecido)
tece os resultados da neurociência cognitiva,
valendo-se de pesquisas sobre memória, pesquisas
sobre sono, ciência cognitiva e psicologia evolutiva,
adicionando à sua ontogenia uma filogenia ou
história evolutiva da cognição
ficcional. O desenrolar bem-sucedido da imaginação,
eu argumento, só é possível quando
acompanhado por sistemas adequados de monitoramento
(NT - ou monitoração) de fontes, definidos
como a capacidade de se distinguir entre o que se
origina na percepção e o que é
resposta da memória. A tapeçaria resultante
tem como meta ser suficientemente complexa para permitir
a formulação de uma hipótese
neurológica sobre o eu do qual encontramos
traços em um fragmento poético que Wordsworth
escreveu como um comentário sobre o primeiro
período de composição: a de que
um eu-enquanto-ser autobiográfico surge como
um vírus dentro do próprio sistema de
monitoramento (NT - ou monitoração)
de fontes (NT - doravante, SMF) para prevalecer sobre
a ação da propriocepção
cognitiva.
O
desafio: Que caos de percepções!
Em
um par de artigos publicados em 1956, David Erdman
argumenta que o interesse de Wordsworth no desenvolvimento
da mente da criança em geral e no de sua própria
em particular foi ocasionado pelo seguinte incidente
divertido. Em setembro de 1797, Tom Wedgwood, o jovem
herdeiro das cerâmicas de Etruria, fez uma visita
de uma semana aos Wordsworths e a Coleridge na Quantock
Hills. Ele tinha se correspondido com Godwin e veio
a propor um projeto para "antecipar em um século
ou dois o rápido progresso do crescimento humano"
(Nota 8). Tais momentosos avanços eram possibilitados,
acreditava ele, por uma nova ciência da mente,
efetivamente vários refinamentos do modelo
de Locke. A proposição chave era de
que todas as estruturas conceituais se derivam do
input perceptivo; a mente ao nascer é como
uma "página em branco, desprovida de quaisquer
caracteres", e os conceitos são elaborados
através de um processo de associação.
Era óbvio para o jovem Wedgwood que este modelo
identificava um dramático obstáculo
para o desenvolvimento intelectual: os complexos fluxos
sensoriais do mundo real certamente não eram
o input ótimo. Como disse Wedgwood: "Que
caos de percepções! Se não conhecêssemos
o resultado do que é produzido, a idiotia certamente
seria sugerida como o único possível".
Dado
que não desconhecemos o resultado produzido,
o fato de que as crianças são confiavelmente
capazes de tirar sentido do mundo poderia razoavelmente
ser alinhado contra o modelo. O que impressionou a
mente empresarial de Wedgwood, entretanto, foi a outra
possibilidade: a de que uma cuidadosa administração
do input perceptivo melhoraria dramaticamente a eficiência
e a produção do sistema. As crianças
- e obviamente nunca se começaria cedo demais
- deveriam ser criadas em condições
laboratoriais de modo que seu desenvolvimento sensorial
não ficasse sobrecarregado por dados aleatórios
e sem significado.Um berçário com "paredes
completamente cinzentas" manteria alta a taxa
de sinal/ruído, e "um ou dois objetos
vívidos para visão e tato" forneceriam
o estímulo necessário. O florescente
prodígio deveria ser poupado de todo contato
com o mundo exterior. "A explicação
gradual da natureza seria realizada com grande dificuldade",
admite Wedgwood em sua carta a Godwin, e deveria ser
adiada o mais possível; claramente, "a
criança nunca deve ir para fora de casa".
Pode-se
pensar porque Wordsworth, de todas as pessoas imagináveis,
foi considerado como a pessoa certa para dirigir esta
fábrica de gênios, mas Wedgwood não
tinha dúvida de que ele "só tinha
que ser convencido de que este é o modo mais
promissor de se beneficiar a sociedade para atraí-lo
ao projeto rapidamente". E por que não
o seria? Dentro da estrutura associacionista que Wordsworth
defendia amplamente na época e para a qual
certamente não tinha nenhuma alternativa articulada,
os argumentos de Wedgwood eram convincentes. Se as
estruturas conceituais da criança deveriam
ser erigidas do nada com base no input perceptivo,
isto impõe uma tarefa extremamente delicada
para seus educadores: reduzir a devastadora desordem
de estímulos naturais a um nível de
complexidade administrável pelas habilidades
conscientes de solução de problemas
de um recém-nascido. Uma simplificação
radical do meio ambiente da criança apresenta-se
como uma necessidade urgente. A aparente inevitabilidade
desta conclusão deve ter atingido Wordsworth
com a força total de sua absurda falta de sentido.
Seguindo
seu modelo associacionista da mente como uma página
em branco até sua reductio ad absurdum (NT
- desaprovação de uma proposição
demonstrando-se o absurdo de sua conclusão
inevitável), Wedgwood efetivamente pôs
a nu seu calcanhar de Aquiles: o chamado problema
de composição (frame), ou a aparente
impossibilidade computacional de se localizarem os
fragmentos espalhados da agulha das características
relevantes no palheiro infinito da realidade. Abordado
explicitamente pela primeira vez pela comunidade de
Inteligência Artificial na década de
1960 (McCarthy & Hayes), ele representa um dos
mais persistentes e esclarecedores obstáculos
ao desenvolvimento de modelos de processamento de
informação (Dennett). Como os bebês
que ainda babam, que parecem ter habilidades intelectuais
severamente limitadas, rotineiramente têm sucesso
em manejar objetos, identificar indivíduos,
navegar por aposentos cheios de obstáculos
e falar qualquer língua a que sejam expostos,
pareceu aos primeiros pesquisadores de AI (NT - inteligência
artificial) uma justa suposição inicial
dizer-se que estas tarefas, computacionalmente, são
relativamente comuns. Entretanto, os problemas de
se programarem mesmo tarefas rudimentares como a movimentação
de blocos comprovaram ser surpreendentemente intratáveis;
na prática, os projetistas de sistemas artificiais
tinham que recorrer ou a dispositivos extremamente
especializados que funcionavam apenas em um domínio
altamente restrito, ou a uma elaborada composição
(frame) "inata" interpretativa (Tooby &
Cosmides).
A
adaptação convencionalmente pouco valorizada
entre a criança em crescimento e seu ambiente
natural tornou-se um importante tema da poesia e da
prática de Wordsworth. Em sua educação
do pequeno Basil Montagu, que morou com eles em Alfoxden,
ele e Dorothy demonstraram uma confiança implícita
"naquelas afinidades do recém-nascido
que adaptam/ nossa nova existência às
coisas existentes" (Nota 9) para guiarem a criança.
Céticos quanto a "esta era de sistemas",
eles o encorajaram a passear livremente fora de casa,
deixando-o investigar o ambiente à procura
de características relevantes com uma "insaciável
curiosidade". As próprias aspirações
de William pelo gênio não encontraram
nenhuma ressonância no esquema de Wedgwood;
dada sua infância, ele podia se considerar afortunado
por ter evitado a idiotia. Em nível pessoal
enquanto poeta, educador e um ser humano intensamente
envolvido em sua relação imaginativa
com a natureza, ele acha o projeto profunda e inspiradamente
desencaminhado. "Existem aqueles que nos dizem
em épocas recentes", escreve ele em seu
bloco de notas,
We have been great discoverers, that by dint/ Of
nice experience we have lately given/ To education
principles as fixed/ And plain as those of a mechanic
trade [que] (Nós fomos grandes descobridores,
que por esforço/ de boa experiência nós
vimos dando/ à educação princípios
tão fixos/ e diretos como aqueles da indústria
mecânica)
Algo
lhe diz que a educação das crianças
não é um domínio de meta apropriado
para a projeção mecanicista, e ele começa
a embarcar em um projeto próprio: uma ontogenia
da faculdade imaginativa, formulada em termos do crescimento
da mente em resposta aos objetos naturais (Nota 10).
A
Resposta: A Tempestade em Goslar
Em
16 de setembro de 1798 os Wordsworths e Coleridge
velejaram para a Alemanha - Wordsworth motivado para
aprender a língua com esperanças de
trabalhos bem pagos de tradução, e Coleridge
para absorver novas beberagens intelectuais. Após
algumas semanas em Hamburgo, William e Dorothy começaram
a "achar tudo muito caro", e decidiram alojar-se
na provinciana Goslar, ali chegando no princípio
de outubro. Está frio; eles não são
convidados para visitas, talvez (como presume Coleridge)
o Bürgerstand tome "irmã" como
um eufemismo transparente. "Como não tinha
livros", escreve Wordsworth a Coleridge no meio
de dezembro, "fui obrigado a escrever como auto-defesa".
Estes meses de inverno vêem a produção
de algumas de suas melhor poesias líricas,
e fervorosamente ele inicia o projeto de reimaginar
sua infância. Através do que Coleridge
veio a chamar de "O Crescimento do Gênio
a partir da influência dos objetos naturais
sobre a imaginação na Meninice e na
Adolescência" - uma autobiografia criativa
de seu próprio poder imaginativo - ele afirma
sua identidade como um "ser favorecido"
(Prelude 1; 245), digno de exercer a capacidade
civil de um poeta. É uma brilhante defesa de
suas aspirações e habilidades poéticas,
um objeto textual que privadamente ancora sua identidade
pública. Repetidamente estendido e revisado
através de uma vida de auto-edição,
The Prelude permanece sendo um totem pessoal compartilhado
entre amigos próximos e publicado apenas em
sua morte, em 1850.
Foi
para isto
O
projeto de Wordsworth de criar um eu autobiográfico
começa com uma superabundância de materiais,
uma explosão combinatorial de possíveis
eus. O eu que é agregado a partir da memória
- o eu narrativo - pode ser constituído a partir
de um número infinito de vestígios a
partir de um passado que nem precisa ser o dele próprio,
ligado a um futuro imaginário através
de uma cadeia infinita de fios narrativos. É
neste ato situado de restauração, sugere
o pesquisador canadense sobre memória Endel
Tulbing, que a memória é ecforizada
ou tornada operacional (Gazzaniga) (NT - ecphoratic
= que serve para remover obstruções).
Apesar de poder ser produtivo pensar em vestígios
do passado como existindo objetivamente nos tecidos
neurais, esta condição de armazenamento
está condicionada à dinâmica da
reminiscência. Evidências experimentais
sugerem que a memória se distribui por todo
o cérebro, e que o ato de relembrar ativa os
mesmos elementos neurais que participaram da experiência
original (Farah; Frith & Dolan), mas o acesso
é determinado pela relevância, avaliada
no sistema límbico (Cytowic). As dimensões
motivacionais da restauração - o sentido
de um propósito significativo e organizacional
- é o que evita que o projeto de construir
um eu se dissipe em um emaranhado de vias subversoras,
distratoras e duplicantes.
Nas
páginas do manuscrito está uma série
de rascunhos, "presumivelmente com vistas a um
preâmbulo", sugere Parrish. Eles falam
de "uma leve brisa criativa" que se transforma
em uma perturbadora tempestade, valendo-se da aerodinâmica
para transmitir o sentido da fluidez mental e ainda
assim do processo emocionalmente concentrado da auto-criação.
A parte contínua principal da poesia - umas
150 linhas - começa no meio de um pensamento:
was
for this
That one, the fairest of all rivers, loved
To blend his murmurs with my nurse's song,
And from his alder shades and rocky falls
And from his fords and shallows sent a voice
To intertwine my dreams...
foi
para isso/ Que aquele, o mais agradável dos
rios, adorava/ Misturar seus murmúrios às
minhas canções de ninar, / E das sombras
de seus arbustos e rochas pendentes/ e de seus vaus
e regatos mandou uma voz/ Para entrelaçar meus
sonhos...
A
procura por um projeto - "foi para isto"
- é a força estruturante da escrita
e estabelece o propósito central: ostensivamente
reavaliar, mas mais significativamente acessar e dominar,
à luz do que ele é e do que realizou
agora, os complexos recursos do passado a serviço
do presente. É este ato combinado de crescimento
e poda - o impulso metacognitivo da "leve brisa
criativa" - que promete reunir os pedaços
dispersos em uma história coerente para criar
um novo eu às expensas do eu antigo.
Dois
aspectos distintos e interatuantes do eu autobiográfico
emergem como componentes funcionais no ato de auto-criação
de Wordsworth: vamos chamá-los de narrativa
e de eu homuncular. Quanto à primeira,
a explicação mais direta de uma renarração
do eu é aquela da revisão do conhecimento
do caráter. Experimentos feitos pelos psicólogos
sociais Stanley Klein e Judith Loftus indicam que
o conhecimento do próprio caráter em
períodos estáveis geralmente não
depende da reminiscência episódica, mas
está armazenado na memória semântica
(categorial). A produção poética
de Wordsworth pode coerentemente ser vista como uma
tentativa de revisar suas idéias sobre ele
mesmo em um período de modificações
através de uma relembrança seletiva
e imaginativa de uma sequência de episódios
da infância que levava a um conjunto revisto
de lembranças semânticas, ou registros
atualizados do caráter (trait) funcional.
A
revisão do eu narrativo, entretanto, não
é simplesmente uma questão de armazenar
novos bits de informação, mas sim um
ato de imersão experiencial em uma estimulação
visceral coerente, com o complemento completo das
imagens perceptuais e das respostas motoras desacopladas.
Tais simulações são frequentemente
acompanhadas pelo senso de um observador interno,
ou de um eu homuncular. A psicóloga Marcia
Johnson argumenta plausivelmente que o eu enquanto
agente interno é parte da solução
para o desafio de se distinguir entre o que é
imaginado e o que é real ("Reflection").
O que é imaginado ou pensado pode ser referido
ou atribuído utilmente a um "pensador"
interno - apesar de verdadeiramente não existir
nenhum "homenzinho dentro da cabeça"
responsável pela execução do
pensamento - para se distinguir o conteúdo
do que é percebido diretamente. O eu homuncular
parece se formar ao longo de uma analogia com o corpo,
de modo que ele se posiciona na mesma relação
com a realidade virtual da imaginação
que o corpo tem com seu meio ambiente, habitando-o
como se fosse um agente (NT - Alan Leslie diz que
"A brincadeira de fingir exige um novo conjunto
de primitivas conceituais: um agente que tem
uma atitude sobre um conteúdo").
Ainda assim a proposição não
é desprovida de problemas. O eu homuncular,
plausivelmente inventado para se simplificar o monitoramento
das fontes, é ele próprio mais tendente
do que outras elaborações da imaginação
a ser erradamente tomado como uma entidade que existe
independentemente. O projeto autobiográfico
de Wordsworth, que procurarei mostrar mais adiante,
cria uma quimera ilusória a partir de seu bestiário
de eus, combinando uma narrativa histórica
limitada e uma imagem funcional de um agente interno
com o senso de um ser infinito.
No
contexto da cognição situada pode-se
pensar a modificação do eu como a criação
de uma nova dinâmica entre a mente e o mundo
externo - um feito que é iniciado através
da ativação de simulações
emocionalmente carregadas e perceptualmente vívidas.
Como se pensa geralmente que as implementações
de software no wetware (NT - refere-se provavelmente
aos neurotransmissores) do cérebro implicam
modificações no hardware (NT - estruturas
materiais do cérebro) (Jackendoff), as simulações
não só criam novos significados como
também estruturas que permitem a replicação
daquele significado - o que pode ser chamado de roteiros
perceptuais e comportamentais, orquestrados através
de um senso de propósito carregado emocionalmente.
Nas primeiras poesias autobiográficas de Wordsworth
a nova relação entre o interno e o externo
é (uma relação) onde a mente
não está simplesmente recebendo passivamente,
mas sim participando ativamente, na criação
de significado. A história auto-conscientemente
imaginativa da nova dinâmica é lançada
como uma história da passagem desta faculdade
criativa para a existência, constituindo uma
autobiografia da imaginação.
Sonho
Ancestral
A
dupla busca de Wordsworth por um eu poético
e por uma filosofia educacional leva-o a uma única
narrativa neurológica: o nascimento da imaginação.
Como a valorização da importância
do pensamento ficcional é tão recente
no estudo científico da mente, e como os próprios
fenômenos são tão complexos, uma
teoria unificada e abrangente do surgimento da cognição
desacoplada ainda está por ser formulada.
Em si mesmo isto é uma condição
saudável do conhecimento humano, e uma condição
adequada a um diálogo aberto entre a imaginação
ficcional e a investigação factual da
mente. A proposta de Wordsworth, acima, de que a origem
da imaginação retorna ao estado onírico
do início da infância, é neurologicamente
respeitável. A imaginação - e
permita que deixemos suas características e
sua importância se desenrolarem à medida
que prosseguimos - é minimamente caracterizada
como uma forma de cognição desacoplada
ou de pensamento representacional não devotada
às demandas imediatas do processamento perceptual
e do controle motor. Esta definição
mínima também se adapta ao estado onírico,
e sua história natural - seu lugar na ontogenia
e na filogenia humanas, e suas características
neurofisiológicas e cognitivas - nos fornece
um conjunto de ferramentas conceituais que é
central para o entendimento dos problemas mais exigentes
da imaginação desperta.
A
neurologia do sonho esteve amplamente inexplorada
até que as pesquisas sobre sono da década
de 1950 tropeçassem em um insuspeitado e paradoxal
terceiro estado no qual a mente estava bem desperta
e o corpo paralisado (Aserinsky & Kleitman; Hobson).
Os eletroencefalogramas apresentavam ondas cerebrais
de baixa voltagem dessincronizadas, quase indistinguíveis
das ondas do estado desperto, e uma atonia completa
dos músculos esqueletais - uma paralisia autoinduzida
causada pela inibição dos neurônios
do comando motor na medula espinhal e no tronco encefálico
(spinal cord and brain stem) (Hobson). Pequenas descargas
(NT - erupções, detonações,
ativações, etc.) de movimentos rápidos
dos olhos pontuam este estado, dando-lhe seu nome
científico, sono REM (NT - de rapid eye
movement (Dement; Hobson). As narrativas episódicas
visualmente detalhadas de sonhos alucinatórios,
nos quais a mente toma suas próprias produções,
não importa o quanto bizarras, por uma realidade
independentemente existente, correlaciona-se estreitamente
com estas descargas (Symons). Sua origem está
bem fundo na região da ponte do tronco encefálico,
a partir do qual as ondas se irradiam para fora até
o núcleo geniculado do sistema límbico
e se espalham pela área occipital (visual)
do neocórtex. São estas ondas ponte-genículo-occipitais
(PGO) que ativam a poderosa máquina de realidade
virtual dos sonhos alucinatórios (Symons).
Orquestradas pelas populações rivais
de neurotransmissores - a acetilcolina induzindo o
estado REM, a norepinefrina inibindo-o (Hobson) -
elas fazem parte da "incessante música"
que "compunha" os pensamentos do Wordsworth
criança.
Por
que a mente fica iludindo a si mesma durante a noite?
Os sonhos associados às ondas PGO são
profundamente esquizóides (NT - delusional,
delirantes), no sentido de que cenários internamente
produzidos são subjetivamente experimentados
como eventos externos reais - uma confusão
que seria psicótica em uma pessoa desperta.
Como uma pessoa afligida por esquizofrenia, a mente
que sonha atribui vozes relembradas a pessoas reais.
Indicações de irrealidade tais como
modificações disjuntivas de cenas, transformações
impossíveis de pessoas e desvios das leis naturais
são despreocupadamente desconsideradas (Hobson).
As células nervosas que transportam o input
perceptual para dentro do cérebro são
despolarizadas no tronco encefálico, isolando
desta maneira a mente das evidências corretivas
do mundo real (Hobson). Entretanto, as ilusões
não têm nenhum efeito inconveniente;
os comandos motores são inibidos antes de alcançarem
os músculos, e os eventos sonhados são
tipicamente esquecidos quando se desperta. O desacoplamento
da atividade mental (mentation) onírica da
realidade desperta torna o estado REM um forte candidato
para a mente ficcional primordial. Nos sonhos, a mente
pode se engajar em intensas alucinações
participativas porque foi criado um espaço
que a isola da realidade.
A
inofensividade dos sonhos, entretanto, é menos
do que suficiente para explicá-los. Eles nos
acompanham em nossos períodos do mais explosivo
crescimento neural: enquanto o feto está quase
constantemente no estado REM, os neonatos passam metade
de seu tempo nele (Roffwarg, Muzio, & Dement).
À medida que envelhecemos a proporção
diminui, mas a maioria de nós consegue registrar
num horário uns cativantes seis anos de sonhos
antes de chegarmos aos setenta (Hobson). E este estado
não é peculiar aos seres humanos; comum
a todos os mamíferos, ele só desaparece
nos monotremados (NT - membros da ordem dos mamíferos
que põem ovos, restrita à Austrália
e à Nova Guiné, e que consiste apenas
do ornitorrinco e da eqüidna) (Cytowic). Então
para que existe este estado paradoxal, onde o cérebro
está completamente desperto e o corpo paralisado?
Os pesquisadores concordam amplamente que a função
do primeiro sono REM é promover o desenvolvimento
do sistema nervoso central (Symons): especificamente,
Hobson sugere que esta função pode ser
"desempenhar testes de ativação
que levem a modificações estruturais"
no desenvolvimento dos sistemas sensóriomotores.
As evidências neurológicas indicam que
os mesmos circuitos que mediam as experiências
despertas e os comandos motores são ativados
nos sonhos (Hobson); o sonho pode talvez ser coerentemente
visto como uma maneira de ativar simulações
que preparam e mantêm a programação
neural de comportamentos importantes.
Esta
hipótese de ensaio de comportamento foi proposta
pela primeira vez por Michel Jouvet, que em um cruel
mas engenhoso experimento teve sucesso em reverter
a atonia muscular do estado onírico em gatos
por meio de lesões no tegmento( NT - grafia
de Angelo Machado; o Aurélio grafa "tegumento")
da ponte. Animais de estimação dóceis
e bem-alimentados arremessavam-se para a vida em seu
sono REM, desempenhando os atos ancestrais de espreitar
a caça, esconder-se, e apoderar-se de presas
imaginárias de uma maneira geralmente aleatória.
No caso dos seres humanos, Hobson mostra que "um
substrato para o comportamento no nível da
programação neural" está
indicado pela "rica sobre-representação
de comportamentos importantes: medo, agressão,
defesa e ataque; evitação de aproximação;
e sexo". O componente emocional é proeminente;
os sonhos ensaiam não só os sistemas
sensóriomotores como também suas conexões
com os centros motivacionais do cérebro límbico
(Cytowic). Uma função básica
dos sonhos, então, pode ser a de ensaiar comportamentos
que têm tido, em nossa história evolutiva,
importante valor para a sobrevivência.
A
hipótese do ensaio de comportamento nos dá
uma entrada para o primitivismo de Wordsworth, e para
as atividades básicas, animalísticas,
do poeta enquanto criança. Os passatempos favoritos
daquele menino de quatro anos - tomar sol para se
esquentar e mergulhar no riacho para se refrescar,
correndo pelas margens arenosas - ensaiam um repertório
fundamental, ainda que sem imaginação,
de comportamentos. Tal repertório é
em certo sentido trivial, o tipo de coisa que qualquer
animal pode fazer - só que os animais são
maravilhas de cognição incorporada que
estão muito à frente de qualquer coisa
que até hoje fomos capazes de entender ou reproduzir,
e é apenas nossa familiaridade com estas habilidades
que as fazem parecer simples (Clark). O raciocínio
de Wedgwood está certo: existe algo de improvável
na habilidade de uma criança em dominar o mundo,
e o ambiente natural deveria antes desencorajar do
que cativar a mente despreparada. A criança
que sonha pode nos fornecer uma ligação
para uma prolongada história evolutiva que
contruiu no interior da mente humana um conjunto de
suposições estruturantes (framing) especificamente
adaptadas à natureza, precisamente "aquelas
recém-nascidas afinidades que adaptam/ nossa
nova existência às coisas existentes".
Em
uma linha auto-conscientemente primitivista, o poeta
lembra-se de ficar só
when
the hilltops
The woods & all the distant mountains
Were bronzed with a deep radiance
a naked savage in the thunder shower.
(quando
os cimos das colinas/ os bosques e todas as montanhas
distantes/ se bronzeavam com uma irradiação
profunda/ um selvagem nu sob a tempestade trovejante)
Esta
imagem aborígene surpreendentemente evocativa
- o menino molhado em brilho sob a chuva que caía,
admirando as colinas iluminadas - traz um sentido
de poder primordial e dirige-se a uma convicção
de que o ambiente natural é o domínio
apropriado da experiência humana. Numa veia
similar, as atividades descritas quando ele era um
menino pequeno frequentando a Hawkshead Grammar School
do Vale de Esthwaite - colhendo ovos de corvos e pegando
galinholas em armadilhas - ressoam com o período
estendido de tempo no qual viviam nossos ancestrais
coletando e caçando. Novamente a questão
é trivial: é claro que meninos pequenos
gostam de pegar aves e roubar ovos. Nossas intuições
nos cegam para a improbabilidade a priori de
tais predileções; mesmo aquilo que é
natural requer uma explicação. Enquanto
a civilização e a agricultura têm
apenas alguns milhares de anos - (um tempo) muito
breve para deixar um legado genético - muitas
centenas de milhares de anos nos quais a procura natural
por alimento era um modo de vida plausivelmente deixaram
vias em nossas mentes que são ensaiadas através
dos sonhos. Para Wordsworth, estes ecos dos modos
ancestrais de vida é que ligam os desejos e
medos da criança ao mundo natural, que "entrelaçam/
As paixões.../ Com a vida e a natureza".
Ele descobriu sua infância e seu gênio
particular: as habilidades cognitivas são despertadas
ali, quando os aposentos cinzentos de Wedgwood iriam
reprimí-las.
Sonhos
Despertos
Se
estado REM é o foco (locus) original do pensamento
desacoplado, podemos pensar a imaginação
como um desencadeamento do poder alucinatório
dos sonhos no âmbito do estado desperto. Não
é auto-evidente que isto seja um desenvolvimento
vantajoso ou desejável. Se os relés
(relays) perceptuais não forem despolarizados,
as representações (vindas) do interior
iriam se intercalar com as apresentações
(vindas) do exterior, produzindo potencialmente um
estado confuso e psicótico. Responder a aparências
tão enganosas seria altamente precário,
e parece provável que qualquer tendência
de extravasamento para o estado desperto seria podada
pela seleção natural. De fato, a disseminada
capacidade dos mamíferos de sonhar não
se traduz automaticamente em uma capacidade de relembrar
imagens vívidas no estado desperto. É
por uma boa razão que o mundo desacoplado dos
sonhos é guardado tão estreitamente;
é perigoso ativar simulações
quando você está desempenhando para valer.
Entretanto,
existem usos para a imaginação nas restritas
áreas da vida desperta. O mais simples é
o da formulação de representações
intencionais apropriadas, que envolve um loop (NT
- arco em curva recorrente) ficcional breve mas crucial
(Nota 12).
O
estado básico da mente-cérebro é
determinado pela ativação reticular
do tronco encefálico, que se irradia acima
para dentro do sistema límbico e do neocórtex.
Os centros motivacionais do sistema límbico,
por sua vez, mobilizam as capacidades imaginativas
do neocórtex para que produzam uma simulação
que alimente (abaixo) de volta o sistema límbico.
O propósito do loop de simulação
é formular uma intenção calibrada
- um plano emocionalmente carregado de ação
- que se vale das lembranças sensóriomotoras
do neocórtex e que é formada pelas prioridades
estabelecidas pelo sistema límbico. Uma vez
que a imaginação tenha formulado um
cenário que satisfaça as emoções,
os sistemas motores podem começar a executar
a intenção em um loop de ação.
Nos sonhos o estágio final é inibido
à medida que os comandos motores alcançam
o tronco encefálico.
O
loop de simulação, ativado para calibrar
representações intencionais, é
um tipo simples de cognição desacoplada
no estado desperto, uma faculdade que muito provavelmente
compartilhamos com os outros mamíferos. A ativação
do impulso animal (animal drive activation) pode exigir
inputs perceptuais para ativar e sustentar o loop
de simulação, para assegurar a relevância,
e como salvaguarda contra a condição
psicótica da imaginação desperta.
O problema adaptativo básico dos mamíferos
não é que o equipamento neurológico
(usado) para se ativarem simulações
visualmente vívidas e emocionalmente ricas
não exista, e sim que existem apenas adaptações
limitadas para se desacoplarem as simulações
do estado desperto. Mais geralmente, a restrição
da evolução da imaginação
não está no maquinário para alucinações
- este já está presente no estado onírico
- mas no desenvolvimento de um equipamento de monitoramento
de fontes para se distinguir entre o que é
gerado pelo pensamento e o que tem uma existência
independente. O que é exigido é uma
diversidade de soluções tipo software
que desempenhem a tarefa de desacoplamento básico
executada no estado REM por intervenções
do tipo hardware.
Assim,
as operações de medo e de desejo podem
estar enraizadas tanto no ensaio de comportamentos
evolutivamente importantes do estado REM como em uma
breve simulação desperta, ativada entre
o neocórtex e o cérebro límbico
emocional. Sob sua forma animal elas constituem uma
imaginação rudimentar. Para Wordsworth,
entretanto, a importância primária destas
forças motivacionais básicas está
em que forjam um elo de paixão entre a criança
e o ambiente natural: elas são os motores fundamentais
da cognição incorporada da criança.
Ao mesmo tempo, ele considera as ações
motivadas por estes sistemas primitivos de resposta
como "inferiores" e "inglórias";
seu papel é apenas arrumar o palco para um
"final" que não seja "ignóbil".
É a experiência de suspensão que
marca o nascimento da imaginação propriamente
dita:
Oh
when I have hung
Above the ravens nest, have hung alone
By half inch fissures in the slippery rock
But ill sustained and almost as it seemed
Suspended by the blast which blew amain
Against the naked cragg ah then
While on the perilous edge I hung alone
With what strange utterance did the loud dry wind
Blow through my ears the sky seemed not a sky
Of earth, and with what motion moved the clouds
(Oh,
quando me pendurava sozinho acima do ninho dos corvos,
me pendurava sozinho em fissuras de meia polegada
na rocha escorregadia, mal sustentado e parecia quase
suspenso pela rajada que soprava furiosamente contra
o rochedo, ah, então quando na perigosa borda
eu me pendurava sozinho com que voz estranha o vento
seco e trovejante soprava por entre minhas orelhas,
o céu não parecia um céu da terra,
e com que movimentos se moviam as nuvens)
A
causa distal ou o propósito organizacional,
assinalados por Oh when e ah then, são
eventos de ontologia incerta, caracterizada negativamente
como o colapso da interpretação adequada
- o vento, o céu e o movimento das nuvens têm
um significado que não pode ser conceituado
mas que é separado como (se fosse) uma série
de perguntas evocativas. O momento de suspensão
não é apenas uma perda física
da terra firme, mas uma suspensão dos sistemas
de resposta mais animalísticos e automáticos
que o guiaram até a natureza.
Se
considerarmos estes sistemas de resposta como soluções
limitadas para a apreensão da complexidade
infinita da realidade, sua suspensão involuntária
e momentânea não ocasiona nenhum conhecimento
positivo. Nossas faculdades cognitivas são
soluções locais e parciais para as complexas
demandas da sobrevivência; não existe
nenhuma estrutura interpretativa "multipropósito".
Na linguagem de Kant, não podemos ter acesso
não-mediado à realidade numênica
(NT - noumenal; o Aurélio define como
númeno o objeto inteligível, em oposição
a objeto que se conhece por meio dos sentidos). A
linguagem de Wordsworth não parece afirmar
tal acesso não-mediado, mas uma suspensão
dos mecanismos normais de resposta, que deixa um hiato
do qual ele se torna consciente. Poderíamos
dizer que lhe parece que o ser do mundo é excessivo
para seus modos de reconstruí-lo. A importância
da experiência do sublime - seja na reconstrução
poética ou no fato histórico, deve permanecer
indeterminada - pode ser porque ela o desperta para
a natureza construída de sua própria
cognição, fazendo assim uma abertura
para um papel auto-conscientemente participativo naquela
construção - em uma palavra, (uma abertura)
para a imaginação desperta.
Espaços
Combinados
Nós
empregamos a hipótese de que os sonhos ensaiam
padrões cognitivos evolutivamente importantes
para nos ajudar a entender a presença e o desenvolvimento
de roteiros comportamentais altamente complexos e
comuns tais como correr para se refrescar em um regato
e escalar à procura de alimento no meio ambiente.
Aquilo para o que Wordsworth está chamando
a atenção é que estes roteiros,
apesar de constituírem formas de cognição
incorporada que desempenham a elogiável tarefa
de forjar um elo emocional ativo entre a criança
e seu ambiente natural, são relativamente mecânicos
e limitados. A suspensão momentânea e
involuntária dos sistemas de resposta cognitiva
inatos chama a atenção para a natureza
construída destes sistemas e introduz um despreendimento
(looseness) ou jogo na relação entre
estímulo e resposta.
Encontramos
a ancestralidade neurológica deste jogo no
estado onírico - no próprio ato de programar
o cérebro. Lembre-se que Wordsworth falava
de como o rio adorava "misturar seus murmúrios
com minhas canções de ninar" e
"entrelaçar meus sonhos". A mente
da criança, na terminologia de Giles Fauconnier
e Mark Turner, é conceitualizada em termos
de um espaço combinado. No modelo de
pensamento metafórico desenvolvido pelos linguistas
cognitivos das décadas de 1970 e 1980, certos
domínios conceituais têm suas próprias
estruturas pré-conceituais, e elas são
utilizadas para cartografar fenômenos em outros
domínios (Lakoff). O que Turner e Fauconnier
entenderam é que o produto metafórico
não se adapta verdadeiramente em nenhum domínio;
antes, cria-se um novo terceiro espaço, que
contém elementos seletivos dos dois domínios.
Wordsworth chama a atenção para uma
forma inicial de tal pensamento metafórico,
a combinação perceptual (perceptual
blending), onde inputs dos dois domínios -
as canções de ninar e o murmúrio
do rio - se misturam.
No
estado onírico o input perceptual pode por
sua vez se combinar com a lembrança perceptual.
A noção do rio enviando "uma voz/
Para entrelaçar meus sonhos" é
uma imagem precisamente formulada para transmitir
o senso de jogo ou de redireção de input
envolvidos na combinação de espaços
mentais. Ainda assim este jogo é excessivo;
a combinação parece confusa. O sistema
auditivo desenvolveu pelo menos dois motores interpretativos
distintos - um parseia (parsers) os sons em um conjunto
estável de fonemas para obter um sistema combinatorial
discreto (NT - matematicamente discreto), e o outro
não (Pinker). Por que o cérebro bombearia
inputs não-linguísticos do rio para
o parser fonético, como sugere Wordsworth?
Em sua ontogenia poética da imaginação,
ele se concentra no desvio de padrões estáveis
de resposta para sugerir um aumento na fluidez cognitiva
que é central para a criatividade. O rio não
fala suavemente; é a babá que está
cantando suavemente. Mas no espaço combinado
dos sonhos os dois fluem juntos, de modo que é
como se o rio estivesse murmurando. Uma tal redireção
de input aparentemente confusa traz novo sabor à
voz e ao rio, fazendo um feedback dos domínios
de fonte. Parece provável que os sonhos fazem
uso de uma integração cognitiva e de
uma fertilização cruzada de níveis
superiores que permitem os espaços combinados
. Na cronologia de desenvolvimento de Wordsworth tal
combinação marca o primeiro florescimento
discernível da imaginação.
Na
atividade desperta do jogo as confusões controladas
passam a ter uma importância funcional ainda
mais óbvia. Considere a descrição
do episódio de patinação que
Dorothy transcreveu para Coleridge em uma carta enviada
em dezembro de 1798. As crianças fazem suas
brincadeiras
Confederate,
imitative of the chace
And woodland pleasures, the resounding horn,
the pack loud bellowing & the hunted hare
(em
cumplicidade, à imitação da caça
(NT - chace é uma ortografia antiga de chase)/
E de prazeres dos bosques, das cornetas ressonantes,
a matilha aos urros & a lebre caçada)
Aqui
a combinação está expressada
na atividade externa; não há nenhuma
atonia muscular e o input perceptual não está
despolarizado. A atividade altamente proficiente da
patinação no gelo, que depende de um
loop de ação perceptualmente recalibrado
continuamente, combina-se com o cenário fictício
de uma caçada. O espaço combinado se
vale seletivamente de características de cada
domínio. As habilidades básicas da patinação
dependem de se ter uma imagem precisa e realista de
seu próprio corpo e do corpo dos outros, enquanto
que outras características da própria
identidade e aparência podem ser desconsideradas.
O jogo de nível mais superior é organizado
através da simulação de que se
é um cachorro ou uma lebre apenas em certos
respeitos: é relevante que as lebres fogem
de seus predadores, mas não que tenham orelhas
longas e felpudas. Podemos considerar isto como tolerância
de input: os diversos sistemas que são erigidos
para se determinar a identidade dos objetos do mundo
relaxaram seus critérios. Se você quiser
simular um certo fenômeno, faz sentido relaxar
as restrições sobre a gama de eventos
que ativam e introduzem um certo despreendimento ou
jogo nas condições do input. Este jogo
é central para a imaginação criativa.
Simular
jogos pode ser considerado como uma proto-combinação
comportamental e uma extensão natural do trabalho
dos sonhos. Em ambos os casos, roteiros comportamentais
básicos estão sendo praticados, como
uma preparação estratégica para
a ação real. No caso do jogo, as informações
perceptuais são incorporadas no comportamento
roteirizado de maneiras que são, num sentido
rudimentar mas notável, criativas. A ação
do jogo é estruturada de maneira tal que os
colegas de patinação podem ser tratados,
em certo sentido, como se fossem cachorros, ou a pessoa
pode se comportar, de maneiras limitadas, como se
ela fosse uma lebre. Ao mesmo tempo, as crianças
não acreditam verdadeiramente que sejam cachorros;
a estrutura de simulação permite que
o conteúdo seja desacoplado de suas representações
primárias de si mesmas e da realidade. A ação
de estruturar é a criação de
um espaço especial com seu próprio conjunto
de regras - uma combinação conceitual
que não pertence a qualquer de seus domínios
de fonte.
O
Surgimento da Faculdade Metacognitiva
O estado REM é uma criação neurológica
orientada para hardware do espaço privilegiado
descrito por Huizinga como característico de
todo jogo: os músculos esqueléticos
são desligados, o input é fortemente
atenuado, e a função de registrar as
lembranças (NT - a memória) é
desligada. O desacoplamento, ou estruturação
imaginativa, obtido simuladamente fornece a base para
se introduzir o poder do estado onírico na
vida desperta, onde as câmeras estão
sempre ligadas. As habilidades cognitivas requeridas
pelo jogo simulado - que de uma forma simples nós
compartilhamos com os outros mamíferos - pode
ter formado a base para um conjunto de habilidades
mais singularmente humanas centrais para a imaginação.
O jogo simulado, mostra Alan Leslie, exige um novo
conjunto de primitivas conceituais: um agente que
tem uma atitude sobre um conteúdo.
A atitude de simulação é transmitida
para outros agentes por meio de marcadores metapragmáticos:
a simulação de sinal "conhecer
os olhares e sorrisos", juntamente com gestos
exagerados e entonação melódica.
Estes marcadores permitem um desacoplamento do conteúdo
da representação primária - você
sabe que é um cachorro no espaço ficcional
combinado, mas não no domínio de fonte
factual. Ao mesmo tempo, o conteúdo desacoplado
é executado: você age no mundo real como
se você fosse um cachorro. A estrutura do jogo
simulado sugere que ele está na base de nossa
capacidade de compreender e antecipar comportamentos
humanos com base em estágios mentais de conhecimento,
crença e desejo invisíveis e intangíveis
(Leslie) - o que pode ser chamado de leitura da
mente (Baron-Cohen).
Assim
como a simulação, a leitura da mente
requer que formemos um modelo de um agente que tem
uma certa atitude sobre um conteúdo. Quando
lemos a poesia de Wordsworth, supomos que ela envolve
uma tentativa explícita da parte do escritor
de comunicar e reproduzir certas finas nuances de
uma experiência subjetiva para o leitor e, como
tal, pressupõe uma sofisticada capacidade de
ler mentes. A experiência ficcional transmitida
é tipicamente atribuída a alguma persona
pseudo-ficcional tal como o próprio Wordsworth
enquanto criança ou simplesmente a ele próprio
no momento da composição. Nós
ficamos na pista de tais níveis aninhados de
atribuição dando a cada ser da narrativa
um maquinário mental complexo capaz de sustentar
uma ampla variedade de estados mentais invisíveis
e intangíveis. Ao mesmo tempo em que estamos
cônscios de que tais estados são direcionados
representacionalmente mas de que são simplesmente
reflexos de fatos independentemente existentes, esperamos
que a pessoa aja como se seus estados fossem
tais reflexos, já que supomos que os estados
mentais ocasionam comportamento.
Por
estarmos tão familiarizados com ela, a leitura
da mente vai inevitavelmente parecer trivial e óbvia;
entretanto, ela é claramente uma heurística
extremamente poderosa para fazer sentido do mundo.
Nós podemos chamar esta subespécie de
cognição desacoplada de metacognição
- o ato de pensar sobre o pensar, por exemplo, pensar
sobre os pensamentos de outra pessoa. A realidade
social seria totalmente misteriosa se nos faltasse
esta habilidade, como testemunha a experiência
dos autistas, que considera-se que tenham danos orgânicos
nos subsistemas funcionais que manipulam a metacognição
(Baron-Cohen). Surpreendentemente, parece que somos
a única espécie dotada desta singular
capacidade, com a limitada exceção dos
chimpanzés (Baron-Cohen). O trabalho de campo
de Seyfarth e Cheney entre os macacos vervet (Cercopithecus
pygerythrus) indica fortemente que apesar de se
comunicarem simbolicamente eles não dão
atenção a como seus chamados afetam
os estados mentais daqueles que os escutam, e parecem
não conceber que aqueles que os ouvem tenham
estados mentais.
Os
manuscritos de Goslar, de Wordsworth, além
de se valerem de suposições implícitas
de que o leitor é capaz de atribuir estados
mentais ao autor e suas personas, também contêm
numerosos exemplos de atribuição explícita
de estado mental. Entretanto, existe algo peculiar
sobre estes atos de leitura da mente: eles não
tratam do que normalmente consideraríamos como
mentes. Característica da poesia, a atribuição
aparentemente é uma atribuição
de intenções, preferências, desejos
e conhecimento a rios, montanhas e entidades invisíveis
vagamente especificadas ligadas a um local. Qual é
a importância dos antropomorfismos onipresentes
de Wordsworth?
Extinção
da Mente Tipo Canivete-Suiço?
As
combinações de Wordsworth, como já
vimos, concentram-se em desvios dos padrões
estáveis de resposta para indicar um aumento
na fluidez cognitiva. Em sua The Prehistory of
the Mind, o paleoantropólogo Steven Mithen
sugere que só este aumento caracteriza o mais
recente e até agora o último passo da
evolução humana. Nossos ancestrais imediatos,
argumenta ele, tinham capacidades mentais sofisticadas
comparáveis às nossas, mas suas diversas
inteligências (Wellman e Gelmann) eram acentuadamente
separadas em domínios distintos. "Todos
os Primeiros Humanos", escreve Mithen, referindo-se
aos hominídios de 1,8 milhões de anos
atrás até o surgimento do homem totalmente
moderno há 100.000 anos, "compartilhavam
o mesmo tipo básico de mente: uma mentalidade
tipo canivete-suiço. Tinham inteligências
múltiplas, cada uma dedicada a um domínio
específico de comportamento, com muito pouca
interação entre elas... Os Primeiros
Humanos parecem ter sido muito parecidos conosco em
alguns respeitos, porque tinham estes domínios
cognitivos especializados; mas parecem tão
diferentes porque lhes faltava um ingrediente vital
da mente moderna: a fluidez cognitiva". Evidências
arqueológicas mostram que as culturas dos Primeiros
Humanos ficaram notavelmente estáveis por dezenas
de milhares de anos, com pequena variação
geográfica, em agudo contraste com as culturas
rapidamente diversificadas do Homo sapiens.
O registro do aparecimento deste último - há
uns 100.000 anos na África e no Oriente Médio,
60.000 anos na Austrália e 40.000 anos na Europa
- conta a história de uma incessante inovação
cultural, ferramentas de multi-projeto e de multi-componentes,
enterros rituais, e arte. Quais são as novas
habilidades cognitivas que capacitaram estas transformações?
A
explicação de Mithen é que as
barreiras que anteriormente insulavam os diferentes
domínios cognitivos uns dos outros tornaram-se
porosas de algum modo. Isto parece nos deixar num
dilema: será que este vazamento entre domínios
- talvez um relaxamento irrestrito das condições
de input - não causaria uma confusão
conceitual maciça? Precisamente esta confusão,
retruca Mithen, é característica dos
humanos modernos. Apesar de termos perdido as descrições
narrativas do mundo de nossos antepassados modernos,
se podemos julgar pelas dos caçadores-coletores
contemporâneos, elas se caracterizavam por sofisticadas
combinações conceituais entre domínios.
As representações do mundo destes últimos
não estão divididas nitidamente entre
animais, plantas, ferramentas e relações
sociais. Tipicamente, "eles raciocinam sobre
o mundo natural como se fosse um ser social"
(Mithen). Os Mbuti, do Zaire, e outros grupos de florestas
tropicais concebem a floresta como um de seus pais;
é um "ambiente dadivoso" do mesmo
modo que um parente próximo de alguém
é dadivoso (Bird-David). Os Inuit, do Ártico,
"tipicamente vêem seu mundo enquanto imbuído
com as qualidades humanas de vontade e propósito"
(Riddington). Para os Aborígenes Australianos,
"os poços que estão na paisagem
estão onde seus antepassados cavaram o chão,
as árvores estão onde gravetos foram
enterrados, e os depósitos de ocre vermelho
onde eles derramaram seu sangue" (Mithen). Para
os modernos caçadores-coletores, escreve Tim
Ingold, "não há dois mundos de
pessoas (a sociedade) e coisas (a natureza), mas apenas
um mundo - um meio ambiente - saturado com poderes
pessoais e englobando tantos os seres humanos como
os animais e as plantas dos quais dependem, e da paisagem
na qual vivem e onde se movimentam".
Os
pleitos são poderosos; entretanto, parece provável
que Mithen esteja interpretando mal as evidências.
Considere o uso de modelos antropomórficos
nos manuscritos de Goslar, de Wordsworth. Sua recriação
de si mesmo se articula neste movimento conceitual
a um só tempo primitivo e moderno: esta impregnação
de estados mentais no ambiente. Desde o início,
"foi para isto" apela para um propósito
que é atribuído ao rio enquanto ser
intencional; sua ação, operando diretamente
sobre sua mente para "entrelaçar"
seus sonhos, é o emblema do nascimento da imaginação.
Mais tarde ele invoca os "seres das colinas"
e "vocês que andam por bosques e charnecas
abertas/ à luz da lua ou das estrelas"
como recipientes imaginários de um atributo
de estado mental: um desejo afetuoso e tutelar de
"entretecer" a paixão da criança
com "a vida e a natureza". Através
de seu "ministério" (NT - ministry,
intervenção, mediação,
etc.), os espíritos
Impressed
upon the streams the woods the hills
Impressed upon all forms the characters
Of danger & desire & thus did make
The surface of the universal earth
With meanings of delight of hope & fear
Work like a sea.
([Os
espíritos] imprimiram sobre as correntes os
bosques e as colinas/ imprimiram sobre todas as formas
caráteres de perigo e desejo e assim fizeram
com que a/ superfície da terra universal/ com
significados de prazer, de esperança e de medo/
funcionasse como um mar).
O
resultado desta tutela dos espíritos da imaginação
é precisamente cartografar a "superfície
da terra universal" com estados mentais - "significados
de prazer, de esperança e de medo".
O
mundo antropomórfico é onde podemos
nos sentir em casa, um mundo que claramente pertence
à mesma família de mundos vividos como
aqueles dos caçadores-coletores invocados por
Mithen. A questão é: em que sentido
Wordsworth pensou - ou esperou que seus leitores pensassem
- que "os seres das colinas" eram responsáveis
por ele enquanto criança? Claramente, suas
referências a espíritos são felizes
soluções para a meta narratológica
da criação de uma impressão de
"um ser favorecido" . Elas também
são, entretanto, soluções ad
hoc (NT - para o propósito [o caso, a situação]
e para nenhum outro; também "soluções
improvisadas"): variedades de espíritos
são abertamente proferidas e multiplicadas
sem restrição. Tais conjecturas arrebatadoras,
argumenta o antropólogo Pascal Boyer, são
características de concepções
religiosas. Por um lado, um complemento completo e
não-ambíguo de inferências pode
ser estabelecido a partir das mentes de espíritos,
que são modeladas sem problemas no (espírito)
humano: elas têm intenções estruturadas
pelo conhecimento causal e dirigidas pela emoção.
Em agudo contraste, quase nada pode ser inferido sobre
as vidas dos próprios seres - as inferências
normais simplesmente não se aplicam. Nós
não perguntamos, por exemplo, como chegam eles
a viver em lagos, como se reproduzem, ou mesmo como
se parecem. Estas questões são vagas
e deixadas em aberto, para que cada pessoa as preencha.
Com efeito, temos um grau de desacoplamento que excede
o da leitura da mente, já que o próprio
status destes seres é mantido em uma categoria
conjectural distinta e pobremente especificada. Assim,
há limites para a confusão causada pela
fluidez cognitiva. A ordem é salvaguardada
por uma contabilidade relativamente clara porém
não infalível.
O
que vemos não é o colapso da especialização
funcional, mas a criação de um espaço
desacoplado - a imaginação - que incorpora
uma combinação seletiva de elementos
de diversas fontes de domínio - natureza, psicologia
humana, seu passado pessoal - para criar o sentimento
de ter tido uma infância privilegiada. O argumento
dominante apela para uma psicologia intuitiva de responsabilidade
e investimento dos pais e da comunidade: como "vocês
espíritos" das fontes, das nuvens, dos
lagos e dos remansos "perseguiram seus favoritos
e suas alegrias" com tal "amor assíduo",
Wordsworth erige uma obrigação fortemente
sentida de não se desgastar este investimento,
e sim de apreciá-lo e de afirmar seu direito
de nascimento enquanto ser imaginativo. Desta maneira,
as propriedades emergentes do imaginado combinam o
feedback dentro do curso real de sua própria
vida.
Apesar
de Mithen poder estar exagerando a rigidez da mente
dos Primeiros Humanos, há poucas dúvidas
sobre a crescente fluidez cognitiva dos modernos.
Em seções anteriores nós vimos
como o sonho e o jogo, que aparecem nos mamíferos
em geral, envolvem um relaxamento das condições
de input e a formação de espaços
combinados elementares. Ainda assim, tal cognição
desacoplada provavelmente foi restringida a conjuntos
relativamente estreitos de circunstâncias tais
como estados oníricos, jogo juvenil e representações
intencionais dependentes de input perceptivo. O que
parece ser novo no homem moderno articula-se sobre
a habilidade de sustentar simulações
na ausência de qualquer input perceptivo. Quando
Wordsworth fala de
...huge
& mighty forms that do not live
Like living men moved slowly through the mind
By day, and were the trouble of my dreams -
(grandes e poderosas formas que não vivem/
como os homens vivem moviam-se devagar através
da mente/ de dia, e eram as dificuldades de meus sonhos
-)
o
que está sendo demonstrado é a habilidade
do cérebro em gerar seus próprios indícios
para recuperar lembranças, libertando-se de
sua dependência do presente e do percebido.
O jovem Wordsworth está assombrado (haunted)
e o adulto saboreia a evocação daquele
evento. O que torna possíveis tais combinações
complexas de domínios cruzados é o poder
conjunto do pensamento desacoplado e a recuperação
internamente indicada de lembranças episódicas
explícitas. Juntando os trabalhos de Leslie
e Turner, podemos agora ver que o pensamento desacoplado
é a criação de um espaço
combinado distinto no qual as condições
de input podem ser relaxadas já que está
separada da da representação primária
. A combinação consiste de elementos
retirados seletivamente de características
dos diversos domínios de fonte. Seu uso principal
é que tem características emergentes
e que estas se retroalimentam (feedback) nos domínios
de fonte, estruturando-os de maneiras novas e potencialmente
esclarecedoras (Fauconnier e Turner).
O
surgimento dos modernos seres humanos - Homo sapiens
- parece coicndir com, e depender da, emergência
da capacidade de relembrar e processar lembranças
episódicas de diversos domínios em um
espaço desacoplado privilegiado. O sinal inequívoco
da presença de seres humanos modernos e imaginativos
é a quimera, a combinação conceitual
completa entre os domínios. A primeira obra
de arte européia ainda existente é a
estatueta do leão-homem feita de marfim de
Hohlenstein-Stadel, na Alemanha, datando de pelo menos
há 30.000 anos (Mithen). Enquanto seu autor
sem dúvida deleitou-se com as ricas sensações
da figura combinada, se ele tivesse capacidades mentais
como as nossas em algum canto de sua mente ele reteria
o conhecimento de que a figura era um produto de sua
imaginação, não uma representação
literal de um ser verdadeiro. Um conjunto de sofisticadas
adaptações cognitivas permitiu a liberação
do poder total dos sonhos na mente desperta.
O
Eu e o Monitor da Realidade
Nós
somos as pessoas imaginativas, os sonhadores despertos.
"Como você pode determinar se neste momento
nós estamos dormindo e todos os nossos pensamentos
são um sonho; ou se estamos acordados e falando
uns com os outros em estado desperto?" pergunta
Sócrates, e Theaetetus (Teeteto) responde que
não sabe; "A semelhança entre os
dois estados é bastante surpreendente"
(Platão). A resposta contemporânea é
que temos diversas adaptações cognitivas
para monitoramento de fontes, a tarefa de saber
o rumo de tais coisas como a diferença entre
o que estamos experimentando e o que simplesmente
estamos imaginando. Johnson propõe o termo
mais específico monitoramento de realidade
para os processos envolvidos na discriminação
entre lembranças que se originam na experiência
perceptual e aquelas que surgem do "pensamento,
da imaginação, da fantasia, dos sonhos,
e de outros processos auto-gerados". Ela sugere
que "nossas idéias de realidade e fantasia
se originam de processos atributivos imperfeitos";
notavelmente, lembranças que surgem rápida
e espontaneamente com grande quantidade de detalhes
visuais e contextuais tendem a ser consideradas como
originando-se na experiência. À medida
que estes processos são geralmente confiáveis,
eles são "imperfeitos" e ocasionalmente
falham: como demonstrou Elizabeth Loftus, cenários
vividamente imaginados são inclinados a serem
confundidos com lembranças reais. tais falhas
no sistema de monitoração da realidade
constituem o que Tulving chamou de abuso representacional.
Um de seus efeitos é a reescrita das lembranças.
O
que comanda o abuso representacional? A suspeita de
Wordsworth, nas linhas alteradas e apagadas que cito
no início deste ensaio, é que as lembranças
são selecionadas "amorosamente para adornar/
o tempo do ser irrememorável". Estas dúvidas
parecem ter sido enterradas, entretanto, e o fragmento
final do manuscrito fala amorosamente
Those
beauteous colours of my early years
Which make the starting-place of being fair
And worthy of the goal to which [?she] tends
Those hours that cannot die those lovely forms
And sweet sensations which throw back our life
And make our infancy a visible scene
On which the sun is shining.
(daquelas
belas cores de meus primeiros anos/ que instituem
o início de ser bonito/ e digno da meta à
qual [?ela] tende/ aquelas horas que não podem
morrer aquelas adoráveis formas/ e doces sensações
que fazem retornar nossa vida/ e tornam nossa infância
uma cena visível/ na qual o sol está
brilhando)
A
defesa do eu recriando imaginativamente uma infância
favorecida está dando frutos. Aqui, a afirmativa
é de que as "belas cores", as "adoráveis
formas" e as "doces sensações"
produzidas pela vívida reconstrução
imaginativa do passado "levam nossa vida ao passado",
ou nos levam de volta à experiência real
da infância, fazendo de "nossa infância
uma cena visível" agora, uma cena que
é objetivamente real, "na qual o sol está
brilhando".
Deixe-me chamar a atenção para três
componentes desta afirmativa: o verídico, o
experiencial e o causal.
Em
primeiro lugar - estabelecendo a questão primária
do monitoramento da realidade - ao escrever estas
primeiras linhas, Wordsworth está voltando
a lembranças da experiência ou construindo
imaginativamente um passado? Em muitos casos, nota
seu biógrafo Stephen Gill, é impossível
discernir: "as únicas evidências
que temos são evidências poéticas";
entretanto, "Wordsworth em outros locais não
tinha escrúpulos em alterar 'os fatos' se eles
estragassem uma concepção imaginativa".
Falando de um episódio acrescentado no começo
de 1799, Jonathan Wordsworth comenta: "Como quase
sempre é verdade no Prelude, a despeito
de detalhes circunstanciais não estamos lidando
com fatos, mas com a poesia da imaginação".
Alguns eventos estão claramente distorcidos.
Mais obviamente, como demonstra Gill, os cinco anos
que se passam entre a idade de quatro anos até
sua residência em Hawkshead estão completamente
ausentes - anos que foram "inquietantes e longe
de uniformemente felizes". Por alguma razão
desconhecida, William e sua irmã foram mandados
para a casa dos avós; suas lembranças
desta época incluem o pensamento em uma tentativa
de suicídio e uma "irritação
persistente, caprichosa e violenta". Ele nunca
esqueceria o mau tratamento que recebeu, e sua projeção
de um bando inteiro de espíritos invisíveis
tomando para si a tarefa de sua educação
espiritual parece em parte compensar sua falta
de investimento dos pais. Como sugerem as linhas 270-276,
o foco não está no passado per se,
mas nas sensações evocadas por sua simulação.
Ao mesmo tempo, o material é apresentado como
a história de sua vida.
Em
segundo lugar, Wordsworth está implicando que
uma vez que as simulações tenham sido
refinadas para satisfazerem as emoções,
elas adquirem o sentido de "horas que não
podem morrer", não simplesmnete porque
não serão esquecidas, mas em um sentido
mais forte de que a experiência pode
ser reproduzida à vontade, como se os eventos
estivessem ocorrendo no presente. Isto faz eco de
sua afirmativa inicial de que ele está falando
"de coisas/ que foram e que são"
- uma dúbia alegação atacada
subsequentemente. Mas aqui está ele ainda afirmando
que sua infância está presente "como
uma cena visível".
Em
face disto, estas afirmativas terminam sendo um colapso
celebrativo do sistema de monitoramento de fonte.
A causa é descrita em detalhes: o fato de que
as simulações foram aperfeiçoadas
em doçura é o que compele a mente a
aceitá-las como verdadeiras. O poeta até
convida sua platéia a ser conivente, mudando
imperceptivelmente de "meus primeiros anos"
(270) para "nossa infância" (275).
Ainda assim não precisamos supor que Wordsworth
, ou nós leitores, estejamos literalmente enganados.
Antes, o que estamos vendo é um delírio
controlado, envolvendo a suspensão voluntária
da descrença. Para que uma simulação
acesse toda uma gama de inferências pode ser
(um procedimento) ótimo abaixar o som do sistema
de monitoramento de fonte. Nós acolhemos a
noção de que a simulação
é real porque isto a torna mais atraente -
uma questão de controle de imersão,
que deve ser diferenciado de um abuso representacional.
Entretanto,
a simulação de uma infância imaginada
em um delírio controlado retém uma relação
problemática com a identidade. Ao tentar (falar
daquelas cores) "que instituem o início
de ser bonito/ e digno da meta à qual [?ela]
tende" o poeta deliberadamente cria um passado
que legitimizaria o futuro que ele deseja. A simulação
é proposta para servir como base para se recalibrar
certos valores relativos ao eu narrativo. Neste caso,
até onde os registros de caráter são
atualizados com base na fantasia, não fica
mais claro se o delírio está controlado;
antes, ele está fora de alcance. A infância
que Worsworth almeja como maneira de justificar sua
vocação poética é claramente
em parte uma construção, mas uma construção
da qual ele parece ter perdido o rumo. O importante
é que ele precisa perder o rumo dela para poder
realizar seu propósito; uma descrição
factual não seria igualmente poderosa.
Se
isto for auto-ilusão, pode parecer saudável
e desejável. Wordsworth está simplesmente
modificando sua auto-imagem em uma direção
benéfica, capacitando-o a assumir a árdua
tarefa da vocação poética. Mas
existe algo tanto incoerente como perturbador na postura
de que a auto-ilusão se faz com a melhor das
intenções; acaba sendo um ato de abandonar-se
ao ato do poder arbitrário de um mecanismo
oculto. Pode ser útil relembrar o caso da paciente
de Ramachandran, a Sra. B. M., descrito na introdução.
O impulso é idêntico: ela imagina e estabelece
como verdadeiro um passado que sustenta uma imagem
preferível e forte de si mesma - uma imagem
na qual ela age como se fossem as características
de uma entidade real, ela própria. Enquanto
que um dano em algum aspecto do sistema de monitoramento
da realidade é presumivelmente culpado pelo
contraste mais intenso entre a simulação
e a realidade do que Wordsworth gera, este contraste
ainda põe em relevo a natureza ilusória
do processo.
É
profundamente intrigante, entretanto, que a auto-imagem
seja o que leva a ilusão para fora de alcance.
"Um eu", escreve Johnson, "é
um subproduto dos processos de monitoramento da realidade
que distinguem informações geradas perceptualmente
de informações geradas refletidamente,
enquanto que a fenomenologia do eu-enquanto-controlador
surge de várias interações do
sistema de monitoramento da realidade, notavelmente
entre os níveis perceptual e lógico".
Este modelo provê uma origem plausível
para o eu homuncular. Entretanto, ela não aborda
a questão central deste ensaio: a ação
distorsiva do eu, seu papel no abuso representacional
e na reescrita das lembranças. Como podemos
explicar o fato de que o eu, que credivelmente surge
no processo de monitoramento da realidade, parece
incitar uma falha orquestrada deste mesmo processo?
Se
o eu-enquanto-fonte é designado como uma heurística
para diferenciar "eu penso" de "você
pensa" - e, suplementado por uma fenomenologia
interna de agência - "eu imagino"
de "eu me lembro", o palco está montado
para uma rebelião de quinta-coluna (NT - segundo
os dicionários, indivíduo estrangeiro
ou nacional que age subrepticiamente em um país
em guerra ou em vias de entrar em guerra com outro,
preparando auxílio em caso de invasão,
ou fazendo espionagem e propaganda subservisa). É
por demais tentador concluir numa inferência
que Descartes nada mais fez do que tornar explícito,
aquele "penso, logo sou". Como o pensamento
e o sentimento são atribuídos ao eu
homuncular, há apenas um pequeno passo para
a falácia de que ele deve ser uma entidade
real. Que todos nós tenhamos um sentimento
subjetivo do eu-enquanto-fonte é meramente
uma parte do problema: eu argumentaria - e desafiaria
meus leitores a investigarem por si mesmos - que este
sentimento não é uma percepção
de uma entidade real, e sim uma projeção
da memória. No âmago do sistema atribucional
de monitoramento da realidade parece estar (existir)
um delírio de boa fé (bona fide).
E quando o eu-enquanto-fonte (o eu homuncular) for
erradamente visto como uma entidade real, o estrago
inevitavelmente se espalha: o conteúdo do eu-enquanto-história
(o eu narrativo) é experimentado como se fossem
dimensões do próprio ser. Eu sugiro
que isto é o que dirige a simulação
de Wordsworth de sua infância, numa mistura
de lembranças refletidas e perceptuais, de
um delírio controlado na direção
de um delírio que se põe fora de alcance.
Retornando
ao diagrama de intencionalidade por um momento, vemos
que o loop de simulação é sustentado,
por um lado, pelos imperativos emocionais do sistema
límbico. O poder representacional do neocórtex
responde com uma projeção imaginativa
que agrada ao cérebro límbico - por
exemplo, uma narrativa autobiográfica. A projeção
do prazer, que dispara uma torrente de substâncias
neuroquímicas, estabelece uma pressão
para que aquela projeção seja sustentada.
Na ausência do input perceptual, este processo
tenderá a se dissipar através do efeito
de monitoramento da realidade ou da propriocepção
cognitiva, já que ele depende apenas de lembranças
e não tem nenhum fundamento na realidade independente.
Então, como é sustentado o prazer da
narrativa autobiográfica? É aqui onde
entra o eu-enquanto-ser narrativo. Como uma heurística
do sistema de monitoramento da realidade, a mente
criou um eu interior imaginário - uma espécie
de homúnculo, ao qual é dado o papel
de experienciador, pensador e observador. Se este
guarda-lugar heurístico for tomado literalmente
- se lhe for atribuído ser - ele começa
a sabotar radicalmente a função de monitoramento
da realidade. Estabelecendo uma presença, um
habitante ôntico (NT - que tem ser próprio),
na realidade virtual tem o efeito de suprimir a propriocepção
cognitiva e emprestar realidade ao irreal, para criar
um sentido de urgência e de relevância
para as simulações que o sistema de
monitoramento da realidade teria rejeitado como projeções
sem valor. Ele (NT - o eu-enquanto-ser narrativo,
acho) cria um local para o ser e para a experiência
no interior do mundo projetado da mente - precisamente
o tipo de efeito que os sistemas de monitoramento
da realidade são projetados para evitar.
Outra
vez a reação defensiva da Sra. B. M.,
assim como sua lucidez induzida, apresentam um retrato
mais asperamente iluminado dos mecanismos básicos.
A defensividade indica que o sistema de monitoramento
da realidade está operando de fato, distinguindo
com sucesso "eu imagino" de "eu percebo"
e "eu me lembro de perceber". O eu-enquanto-fonte
parece ser tratado como um ser cujas características
narrativas são representadas (intepretadas)
como reais: a auto-imagem corrigida que incorpora
informações sobre a paralisia é
experimentada como aversiva e rejeitada. Que a defesa
possa ser executada frente a clamorosas evidências
em contrário pode ser debitado a dano orgânico
no hemisfério direito (veja Ramachandran para
uma extensa discussão). Então, como
ela é capaz de sair deste delírio descontrolado?
Quando o sistema de monitoramento da realidade é
ele próprio infectado com ilusão, sua
remoção poderia promover um retorno
à realidade. A irrigação de água
fria parece induzir um estado REM parcial na Sra.
B. M., talvez por inibir o colapso de acetilcolina.
(Nota 13). Como este estado, em seu projeto natural,
não emprega monitoramento de fonte, isto pode
eliminar o delírio experiencial do eu-enquanto-fonte.
Libertada da pesada significância da auto-representação,
a Sra. B. M. pode calmamente encarar os fatos. Esta
circunstância tem o paradoxal efeito líquido
de permitir que os sonhos - a tecnologia da ilusão
- dêem voz a verdades que a mente desperta suprime
devido a um erro no âmago do sistema de monitoramento
de fonte.
A
implicação deste modelo é que
existe um aspecto do eu - o eu narrativo enquanto
ser - que surge como uma forma de abuso representacional
dentro do sistema de monitoramento da realidade. Nós
podemos pensar sobre este aspecto distorcido do eu
como um análogo cognitivo para o vírus
humano da imuno-deficiência (NT - HIV), que
ataca o próprio sistema imune. A função
do eu-enquanto -ser narrativo parece ultrapassar
a propriocepção cognitiva em uma aposta
para prolongar os prazeres da realidade virtual. O
eu então estabiliza as representações
intencionais do desejo, o que permite uma identidade
intencional de longo prazo concentrada (focused).
Entretanto,
um dos resultados arbitrários do auto-engano
envolvidos na tomada das "belas cores" projetadas
como se fossem lembranças verdadeiras que constituem
as "doces sensações" de um
eu presente é que não há maneira
de evitar que outras lembranças, menos gratificantes
para os centros emocionais, também sejam consideradas
como o eu-enquanto-fonte e façam surgir uma
forte reação aversiva. Ao final do período
de composição, Wordsworth reconhece
esta reverberação. Ele elabora e dá
crescente realidade a um eu autobiográfico
- a quimera de uma narrativa e um agente interno hipostasiado
(NT - essencializado, substancializado, etc.) - que
auxilia e encoraja a criação de fantasias
vívidas, convincentes e emocionalmente satisfatórias.
Por um lado, a retomada explícita de lembranças
episódicas e sua combinação conceitual
permitem que os seres humanos reconceitualizem e modifiquem
a si mesmos, para recriarem o que são. Por
outro lado, esta renarração produz histórias,
não ser, e a falha em compreender isto tem
seu custo. Um sonhador desperto, Wordsworth anda pelos
seus aposentos em Goslar "absolutamente consumido
pelo pensamento e pelo sentimento e pelas operações
corporais da voz ou dos membros", não
muito diferente de um dos gatos lesionados de Jolivet.
"Eu não sabia na época", escreve
ele após terminar o primeiro período
febril de composição, "... que
o dia iria chegar"
When
after loathings damps of discontent,
Returning ever like the obstinate pains
Of an uneasy spirit, with a force
Inexorable would from hour to hour
For ever summon my exhausted mind.
(Quando
após têmperas abomináveis de descontentamento,/
sempre retornando como as dores obstinadas/ de um
espírito perturbado, com uma força/
inexorável de hora em hora/ desafiariam sempre
minha mente exausta)
Esta
severa nota sobre a contínua dor psicológica
indicada na carta de dezembro a Coleridge coloca todo
o projeto autobiográfico sob uma nova luz.
A tentativa de de basear o eu em imagens agradáveis
e fortificantes deve se engajar em uma batalha contínua
e frustrante com pensamentos negativos, "após
têmperas abomináveis de descontentamento".
O Prelude que Wordsworth acabou compartilhando
com seus amigos e que durante as décadas seguintes
expandiu e preparou para publicação
não deixa nenhum traço desta agonia.
A
tentativa de Wordsworth de criar uma identidade nova
e poderosa tem sucesso, e em certo sentido constrói
a base de sua carreira poética. Neste momento,
entretanto, quando terminou o período de frenética
composição, ele momentaneamente tira
(daí) uma lição muito diferente,
iluminadora em sua simplicidade. Numa reversão
dramática, "Parece que aprendi",
continua Wordsworth,
That
what we see of forms and images
Which float along our minds & what we feel
Of active or recognizable thought
Prospectiveness or intellect or will
Not only is not worthy to de deemed
Our being, to be prized as what we are
But is the very littleness of life
(Que
aquilo que vemos de formas e imagens/ que flutuam
em nossas mentes e o que sentimos/ do pensamento ativo
ou reconhecível/ prospectibilidade ou intelecto
ou vontade/ não apenas não é
digno de ser chamado/ de nosso ser, de ser valorizado
como aquilo que somos/ como é a própria
pequenez da vida)
O
projeto autobiográfico se desenvolve. A percepção
crucial é que os pensamentos e os sentimentos
- de fato, toda a fenomenologia da cognição
- são processos, visualizados como representações
que "flutuam em nossas mentes". Não
são mais atribuidos ao eu-enquanto-fonte, como
prova de sua existência e importância
central, revertendo assim a operação
cartesiana. Isto liberta a mente do delírio
de que nós somos nossas representações;
enquanto processos, eles "não são
dignos de ser chamados/ de nosso ser, de serem valorizados
como aquilo que somos" (NT - notar a mudança
de número nos verbos). As afirmações
de verdade literal e presença experiencial
são abandonadas; o conteúdo de consciência
é despido de sua excessiva valorização
e - talvez de novo excessivamente - preterido como
(se fosse) "a própria pequenez da vida".
"Tais consciências eu chamo apenas de acidentes",
continua ele,
Relapses
from that one interior life
That lives in all things sacred from the touch
Of that false secondary power by which
In weakness we create distinctions, then
Believe that all our punny boundaries are things
Which we perceive and not which we have made
(Relapsos
daquela vida interior/ que vive em todas as coisas
sagradas a partir do toque/ daquele falso poder secundário
através do qual/ em nossa fraqueza nós
criamos distinções, então/ acreditamos
que todos os nossos limites epigramáticos são
coisas/ que percebemos e não que fizemos)
"Tal
consicência" é também caracterizada
como "aquele falso poder secundário"
- o poder, falando amplamente, de enganar a si próprio
- "através do qual em nossa fraqueza nós
criamos distinções". O que é
esta fraqueza? É uma descrição
de sua própria crise de identidade, uma fraqueza
psicológica que ele procurou remediar através
de uma recriação imaginativa das "belas
cores" de seus primeiros anos? Se assim for,
as "distinções" se relacionam
à tentativa de modelar seletivamente a partir
da memória uma identidade, um projeto carregado
de frustração e que o condena a lutar
contra auto-imagens negativas. À luz deste
projeto, a solução é radical:
para distinguir entre o que é refletivamente
gerado pelo pensamento e projetado na consciência
como "aquilo que nós fizemos", de
uma realidade independentemente existente "que
nós percebemos" . É o retorno ao
monitoramento da realidade para reestabelecer a saúde
psicológica.
Em
contraste com o eu imaginado, a "una vida interior"
é considerada intocada pelo poder enganador
do pensamento. O apelo é para nossa experiência
subjetiva de consciência (NT - sentience:
sentimento enquanto distinto de percepção
ou pensamento [American Heritage Dictionary]), tão
próxima de nós e ainda assim tão
pouco compreendida. Pinker sugere que é uma
destas coisas que o projeto da mente humana evita
que entendamos. Parece não ter características,
mas "vidas em todas as coisas" - a um só
tempo interior e sem limites. Enquanto o eu autobiográfico
é descartado como trivial e ilusório
em última análise, nosso verdadeiro
ser é indiferenciado e absoluto, aquele
-
In which all beings live with god themselves
Are god existing in one mighty whole
As undistinguishable as the cloudless east
At noon is from the cloudless west when all
The hemisphere is one cerulean blue
(-
no qual todos os seres vivem eles próprios
com deus/ são deus existindo em um todo poderoso/
tão indistinto como o leste sem nuvens/ ao
meio-dia o é do oeste sem nuvens quando todo/
o hemisfério é um azul cerúleo)
Este
estado transcendental, Wordsworth parece estar dizendo,
não pode ser realizado até que o problema
do monitoramento da realidade seja resolvido. Esta
solução implica o final do eu autobiográfico,
agora visto como um produto ilusório "daquele
falso poder secundário". O ficcional é
aqui não apenas desacoplado, mas abolido até
virar um "todo poderoso" e "indistinto".
Esta
rejeição última - se momentânea
- da imaginação e do sonho desperto
encontra sua contrapartida neurológica no locus
ceruleus, uma estrutura nuclear da ponte, pouco acima
da medula oblonga (NT - terminologia de Angelo Machado
para medulla oblongata) e fazendo limite com
o quarto ventrículo (Jouvet, Hobson). Seu azul
cerúleo (o neurotransmissor norepinefrina,
manufaturado em seu corpo celular e visível
a olho nu), mediado através de uma extensa
rede axonal extensivamente ramificada que distribui
sua influência através do cérebro,
funciona para inibir a atividade excitatória
dos gigantescos neurônios reticulares da ponte
que induzem o estado REM e seus sonhos fantasmagóricos.
Observações
Finais
A
introspecção é um guia falível
para a mente. Ainda mais do que Freud, as ciências
cognitivas vêem a vasta massa de operações
mentais como inacessível à percepção
consciente. Existe uma circunstância, entretanto,
onde a atenção para o movimento dos
próprios pensamentos é o necessário:
a do auto-engano. O auto-engano implica não
só um erro corrigível como uma ação
contínua para evitar a correção
deste erro. No caso do eu-enquanto-ser autobiográfico,
a compreensão de que os sentimentos de um eu
estável são gerados pelo pensamento
mais do que por uma realidade independentemente existente
requer prestar cuidadosa atenção à
necessidade de se ocultar este fato e ao desconforto
gerado pela possibilidade de sua revelação.
Pontuando a tentativa corrente de construir um novo
eu a partir da memória e do desejo, um clarão
de entendimento, de difícil sustentação,
pode momentaneamente desnudar as limitações
deste projeto, "como se uma lanterna mágica
pusesse os nervos como formas numa tela" (Eliot).
Meu
interesse primário em desenvolver este modelo
de auto-engano em ligação com a poesia
de Wordsworth foi o de entender um fenômeno
geral e de esclarecer um processo sutil da mente através
dos registros remanescentes dos atos de criação
poética. Ainda assim a análise propõe
algumas questões fascinantes com relação
à carreira poética de Wordsworth. Será
funcional enganar a si mesmo? Será que o ato
de reimaginar sua infância para legitimar suas
alegações poéticas gera mesmo
a identidade estável que lhe permitiu fazer
sua obra enquanto poeta? Ou será que confundir
uma narrativa autobiográfica, por mais atraente
que seja, com "aquilo que somos", cria e
sustenta uma identidade - um conjunto de caráteres
e de representações intencionais - que
seja repetitiva e carente de flexibilidade?
Ao
primeiro rubor (NT - blush, enrubescimento,
envergonhamento, etc.), o projeto de Wordsworth de
auto-criação parece ter sido um retumbante
sucesso. Ele enfrentou o desafio proposto por Wedgwood
projetando uma infância rica em poder imaginativo
e em conexões emocionais com a natureza, fornecendo
evidências de que a mente humana está
singularmente adaptada ao mundo natural. Através
do ato de reimaginar sua infância ele parece
não só ter ganhado confiança
e inspiração como (também) ter
elaborado a estrutura ideológica emocionalmente
engajada para sua poesia. Estes resultados teriam
sido altamente importantes em torná-lo um poeta
produtivo.
Por
que, então, seus poderes se enfraqueceram tão
dramaticamente com a passagem dos anos? Podemos especular
que enquanto seu novo eu renarrado comprovou ser adequado
para diversos anos de poesia produtiva, sua crescente
rigidez na vida posterior estava ligada à sua
incapacidade de sustentar sua compreensão da
importância central do monitoramento da realidade.
Hipostaziar a história na qual ele reimagina
sua infância e sua juventude em seu próprio
ser reduz (NT - suprime, silencia, aquieta, etc.)
o efeito do monitor da realidade e permite a formação
de uma identidade estável, mas também
cria uma rigidez excessiva na mente à medida
em que ela se tranca em um estreito conjunto de representações
intencionais repetidas - uma persona congelada.
Talvez
o que a mente precise fazer, como Wordsworth demonstra
momentaneamente no fragmento cerúleo, é
suspender a crença no eu e permitir que a mente
jogue de novo, de modo que o monitoramento normal
da realidade possa recomeçar. Tal procedimento
é provavelmente destrutivo para os circuitos
delirantes da identidade - uma suave brisa criativa,
talvez, ou uma tempestade poderosa e perturbadora:
não uma transformação com uma
finalidade fixa e final, mas uma auto-criação
em progresso.
Notas
1.
Ver, por exemplo, as transações (proceedings)
da conferência sobre meta-representações
na Simon Frazier University em fevereiro de 1997,
editadas por Dan Sperber, e a serem publicadas pela
Série Vancouver Studies in Cognitive Sciences,
da Oxford University Press.
2. Veja, por exemplo, Spolsky, Turner, e Crane e Richardson.
3. Veja, por exemplo, o trabalho teoricamente sofisticado
mas popularmente apresentado de Damasio e de Ramachandran.
4. As investigações de Clark sobre os
"sistemas estendidos cérebro-corpo-mundo
enquanto totalidades integradas computacionais e dinâmicas"
fornecem uma perspectiva operacional sobre as noções
Românticas de unidade orgânica.
5. Ver, por exemplo, Tooby e Cosmides.
6. Carta a James Tobin, de 6 de março de 1798;
em de Selincourt, 212.
7. Para os problemas de identidade de Wordsworth na
época, ver Gill, 117-119.
8. As citações são da carta de
Thomas Wedgwood a William Godwin, de 31 de julho de
1797, que Erdman republica integralmente, 430-433.
9. Estas e subsequentes citações do
Prelude de 1798 são de Parrish. São
identificadas pelos números das linhas usados
na transcrição editada de Parrish do
manuscrito em "Wordsworth Prelude 1798-1799",
122-130. Uma versão editada das passagens pode
ser encontrada no Prelude 1799, de Wordsworth.
10. Para uma extensa discussão, veja Erdman,
497-98.
11. Para um modelo de uma supressão adaptativamente
seletiva do input perceptual, veja Symons.
12. Estou grato ao neurocientista And Umit Turken
por conversações que levaram às
idéias que sustentam esta figura.
13. Ramachandran não fornece uma explicação
para este bizarro efeito. No encontro anual da Psychonomic
Society em Los Angeles, 1996, ele especulou que a
administração de água gelada
ativa os núcleos do tronco cerebral que estão
ativos durante o sono REM e são responsáveis
por uma crescente atividade colinérgica durante
este período (And Umit Turken, comunicação
pessoal; conf. Hobson, 184-202).
14. A transcrição de Parrish inclui
sugestões escritas à lápis que
omiti; para uma versão editada, veja Wordsworth
495-496.
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