home artigos literatura business serviços venda direta links contato termos de uso

Literatura >> O TEMPO DO SER IRREMEMORÁVEL


Imaginação: sua fenomenologia e neurocognição

O TEMPO DO SER IRREMEMORÁVEL
Autobiografia da Imaginação, de Wordsworth

Francis F. Steen (1998) Univ. of California

Tradução: Pedro Lourenço Gomes

Introdução
Em outubro de 1798, William Wordsworth encontrava-se isolado, com sua irmã, em um quarto alugado na cidade alemã de Goslar, durante o inverno mais frio do século. Em um pequeno bloco de anotações encapado em madeira, iniciando pelo final, entre as notas gramaticais de Dorothy, ele começa a história de sua infância em Cockermouth e Hawkshead no English Lake District. Retornando a seus primeiros anos, ele subitamente faz uma pausa e coloca a interjeição
now I speak of things
That have been & that are no gentle dreams
Complacent fashioned fondly to adorn
The time of enrememberable being

(Agora falo de coisas/ que aconteceram e que não são sonhos agradáveis/ caracterizados com complacência e gosto para adornar/ o tempo do ser irrememorável)

As palavras pendem por um instante. Em uma carta a Coleridge, ele reclama de "uma inquietude em meu estômago e nos lados, com uma dor surda perto do coração". Retornando à sua ousada afirmação, ele risca a linha que talvez exiba demasiado protesto, deixando apenas uma rejeição hesitante:
talvez eu fale de coisas/caracterizadas com complacência e gosto para adornar/ os anos do ser irrememorável

Em versões subsequentes, estas linhas são suprimidas.

Nos primeiros dias após seu acidente vascular a Sra. B. M. recusou-se a reconhecer que faltava qualquer coisa. Apesar de um maciço infarto dos lobos parieto-occipitais direitos ter causado uma hemiplegia completa do lado esquerdo de seu corpo, quando indagada ela negava acaloradamente que estava com algum distúrbio. Ao lhe atribuírem uma tarefa que exigia as duas mãos ela persistia com tanta obstinação que sugeria que ela própria estava enganada. Sua anosogsonia estava acompanhada por uma somatoparafrenia: se reconhecia de algum modo o braço e a perna inertes, insistia que pertenciam a outra pessoa. Quanto a assuntos que não se relacionassem à sua paralisia, ela permanecia lúcida.

Em uma notável investigação sobre a máquina da mente, Vilayanur Ramachandran, do Center for Reasearch on Brain and Cognition da UC San Diego, começou perguntando a ela se tinha qualquer problema em mover seus braços, resultando como sempre em uma veemente negativa. Ele então irrigou sua orelha esquerda com água fria como gelo. Quase imediatamente seus olhos começaram a se mover rapidamente, da maneira característica do estado onírico (nistagma - nystagmus). Quando questionada, ela replicou que podia mover seu braço direito, mas não o esquerdo; de fato, disse ela, "ele tem estado paralisado por muitos dias até agora". Mais tarde, quando o efeito da água gelada passou, ela foi indagada sobre o incidente. Lembrava-se da água gelada e da conversa, afirmando: "Eu disse que meus braços estavam bem".

Qual é a arquitetura neurológica do eu autobiográfico, e por que ela provoca a modificação (rewriting) das lembranças? Quais são as salvaguardas sistemáticas da mente contra o pensamento ilusório? Estas questões são importantes não só para a neurociência da autobiografia como para a compreensão dos aspectos da cognição humana que até então tinham sido amplamente negligenciados (NT - ignorados - overlooked) no estudo científico da mente: os usos (e abusos) múltiplos de cenários fictícios. A neuropsicologia do jogo fingido (pretended play), da metacognição e da imaginação estão apenas começando a receber atenção séria (Nota 1). A mente imaginativa está sendo colocada sob a lente de aumento ou, mais apropriadamente, na máquina de imagens por ressonância magnética funcional. Como os dados empíricos adquirem significado apenas no contexto de uma teoria, nós humanistas, enquanto habitantes do imaginário, faríamos bem em participar da elaboração de uma estrutura teórica que faça justiça à complexidade das questões abordadas.

Numa tal elaboração a rica e sutil fenomenologia das obras literárias pode ser de particular interesse, por exemplo, fornecendo um registro publicamente disponível e psicologicamente poderoso das íntimas operações da mente individual. Tal registro não precisa ser literalmente verídico para fornecer dados úteis; traços de distorções e de enganos podem ser igualmente informativos. Inversamente, as estruturas explanatórias rivais da neurociência podem esclarecer nossa compreensão dos textos literários, colocando as suposições picológicas por demais familiares que usamos para interpretá-los sob uma luz nova e desafiadora. À medida que uma leitura cognitiva da literatura não se encaixa perfeitamente nas tradições disciplinares nem da crítica literária nem da ciência cognitiva, os melhores trabalhos mostram que ambos os campos podem se beneficiar, e uma nova e habitável área está emergindo no frutífero hiato entre as ciências e as humanidades (Nota 2). Questões persistentes do estudo da literatura, como a problemática do eu, podem ser abordadas de maneira nova em um contexto psicológico assim como em um contexto histórico. Neste ensaio escolhi examinar os manuscritos dos primeiros rascunhos de William Wordsworth daquilo que eventualmente tornou-se sua magnum opus, a obra autobiográfica publicada postumamente The Prelude, à procura de evidências sobre a natureza do eu autobiográfico - o eu que é uma história e que ainda assim funciona como o foco (locus) do ser.

Por que Wordsworth? Numa época em que os modelos científicos dominantes de cognição, embebidos (steeped) na ontologia objeto-orientada da tradição newtoniana, concentravam-se na mecânica de como as sensações dão surgimento às idéias, ele defendeu a experiência subjetiva da imaginação. Sua poesia auto-conscientemente psicológica captura algo da dinâmica da mente - em particular, os aspectos emotivos da metacognição - que hoje encontramos na linha de frente da neurociência cognitiva (Nota 3). Na noção de "poder combinado" (blended might) da mente e do mundo externo (Wordsworth, Home 1013; 104), Wordsworth também pressagia a recente renovação da apreciação da natureza incorporada (embodied) da cognição. Como aponta Andy Clark, ao contrário de uma longa tendência nas pesquisas de ciência cognitiva e de inteligência artificial, "as mentes não são dispositivos desincorporados de raciocínio lógico" (Nota 4). Em particular, a noção de Wordsworth das afinidades intrínsecas entre a mente em crescimento e o mundo natural - seu primitivismo, ao qual logo retornarei - representa uma ruptura com a idéia de que a mente não tem nenhuma estrutura inerente, e ecoa a ênfase da psicologia evolutiva sobre a relevância do ambiente ancestral humano para a compreensão da cognição contemporânea (Nota 5).

No outono de 1798, quando iniciou seu projeto autobiográfico, Wordsworth estava em um ponto de transição em sua carreira. Seis anos antes ele tinha deixado para trás sua amante grávida na França revolucionária, e acabou vendo os dois países em guerra, evitando seu retorno. À medida que a euforia inicial da revolução tornava-se terror fratricida, suas esperanças na política radical se esvaíram, e através de difíceis anos ele lutou para obter um novo senso de direção. Ajudado por sua irmã Dorothy, ele procurou refúgio em uma visão pessoal de redenção na relação do homem com o mundo natural. Naquela primavera, sob a tutela filosófica de Coleridge, ele começou a formular um projeto poético crescentemente ambicioso - "de fato, não conheço nada que não vá entrar no âmbito do meu plano" (Nota 6) - mas ainda assim sentia-se inseguro quanto às suas habilidades. O retorno imaginativo à sua infância tornou-se um meio de aliviar sua ansiedade e fornecer um fundamento para sua identidade como poeta (Nota 7). Ele parece não ter tido nenhuma estrutura filosófica e psicológica já pronta para esta tarefa. Na verdade, os modelos explícitos de cognição que lhe estavam disponíveis fracassaram espetacularmente em sancionar suas intuições, apesar desta mesma falha parecer ter estimulado suas aspirações. Coleridge apresentou-o à obra de David Hartley, cujas Observations on Man tentavam fazer pela cognição o que Newton tinha feito pela física: fornecer uma explicação causal e materialista, baseada em princípios, aninhada em uma fé na beneficência de um Projetista Divino (Divine Designer). Como as descrições materialistas subsequentes da cognição, a de Hartley foi levada a ver a agência humana como ilusória. Em contraste, Wordsworth passou a ver a poesia como um ato de imaginação criativa e o poeta como o notável gerador do que é novo. Suas esperanças eram de que havia uma vocação e um meio de vida nisso.

No que vem a seguir, eu inicio examinando como a tentativa de Wordsworth de criar uma base para seu próprio gênio poético implicou uma ruptura inovadora com as teorias cognitivas de sua época, instigada por um encontro com um radical esquema educacional proposto por Thomas Wedgwood. Através de uma leitura atenta de seus primeiros rascunhos autobiográficos que datam de outubro de 1798 até abril de 1799, eu demonstro como criativamente ele lembra-se de sua infância em termos do desenvolvimento dos poderes da imaginação. Formando a distorção (warp) da estrutura material (fabric) deste ensaio, então, está a mais antiga tentativa autobiográfica de Wordsworth de tentar traçar a ontogenia da imaginação até o estado onírico, os jogos, e as combinações perceptuais e conceituais, enquanto a trama (do tecido) tece os resultados da neurociência cognitiva, valendo-se de pesquisas sobre memória, pesquisas sobre sono, ciência cognitiva e psicologia evolutiva, adicionando à sua ontogenia uma filogenia ou história evolutiva da cognição ficcional. O desenrolar bem-sucedido da imaginação, eu argumento, só é possível quando acompanhado por sistemas adequados de monitoramento (NT - ou monitoração) de fontes, definidos como a capacidade de se distinguir entre o que se origina na percepção e o que é resposta da memória. A tapeçaria resultante tem como meta ser suficientemente complexa para permitir a formulação de uma hipótese neurológica sobre o eu do qual encontramos traços em um fragmento poético que Wordsworth escreveu como um comentário sobre o primeiro período de composição: a de que um eu-enquanto-ser autobiográfico surge como um vírus dentro do próprio sistema de monitoramento (NT - ou monitoração) de fontes (NT - doravante, SMF) para prevalecer sobre a ação da propriocepção cognitiva.

O desafio: Que caos de percepções!

Em um par de artigos publicados em 1956, David Erdman argumenta que o interesse de Wordsworth no desenvolvimento da mente da criança em geral e no de sua própria em particular foi ocasionado pelo seguinte incidente divertido. Em setembro de 1797, Tom Wedgwood, o jovem herdeiro das cerâmicas de Etruria, fez uma visita de uma semana aos Wordsworths e a Coleridge na Quantock Hills. Ele tinha se correspondido com Godwin e veio a propor um projeto para "antecipar em um século ou dois o rápido progresso do crescimento humano" (Nota 8). Tais momentosos avanços eram possibilitados, acreditava ele, por uma nova ciência da mente, efetivamente vários refinamentos do modelo de Locke. A proposição chave era de que todas as estruturas conceituais se derivam do input perceptivo; a mente ao nascer é como uma "página em branco, desprovida de quaisquer caracteres", e os conceitos são elaborados através de um processo de associação. Era óbvio para o jovem Wedgwood que este modelo identificava um dramático obstáculo para o desenvolvimento intelectual: os complexos fluxos sensoriais do mundo real certamente não eram o input ótimo. Como disse Wedgwood: "Que caos de percepções! Se não conhecêssemos o resultado do que é produzido, a idiotia certamente seria sugerida como o único possível".

Dado que não desconhecemos o resultado produzido, o fato de que as crianças são confiavelmente capazes de tirar sentido do mundo poderia razoavelmente ser alinhado contra o modelo. O que impressionou a mente empresarial de Wedgwood, entretanto, foi a outra possibilidade: a de que uma cuidadosa administração do input perceptivo melhoraria dramaticamente a eficiência e a produção do sistema. As crianças - e obviamente nunca se começaria cedo demais - deveriam ser criadas em condições laboratoriais de modo que seu desenvolvimento sensorial não ficasse sobrecarregado por dados aleatórios e sem significado.Um berçário com "paredes completamente cinzentas" manteria alta a taxa de sinal/ruído, e "um ou dois objetos vívidos para visão e tato" forneceriam o estímulo necessário. O florescente prodígio deveria ser poupado de todo contato com o mundo exterior. "A explicação gradual da natureza seria realizada com grande dificuldade", admite Wedgwood em sua carta a Godwin, e deveria ser adiada o mais possível; claramente, "a criança nunca deve ir para fora de casa".

Pode-se pensar porque Wordsworth, de todas as pessoas imagináveis, foi considerado como a pessoa certa para dirigir esta fábrica de gênios, mas Wedgwood não tinha dúvida de que ele "só tinha que ser convencido de que este é o modo mais promissor de se beneficiar a sociedade para atraí-lo ao projeto rapidamente". E por que não o seria? Dentro da estrutura associacionista que Wordsworth defendia amplamente na época e para a qual certamente não tinha nenhuma alternativa articulada, os argumentos de Wedgwood eram convincentes. Se as estruturas conceituais da criança deveriam ser erigidas do nada com base no input perceptivo, isto impõe uma tarefa extremamente delicada para seus educadores: reduzir a devastadora desordem de estímulos naturais a um nível de complexidade administrável pelas habilidades conscientes de solução de problemas de um recém-nascido. Uma simplificação radical do meio ambiente da criança apresenta-se como uma necessidade urgente. A aparente inevitabilidade desta conclusão deve ter atingido Wordsworth com a força total de sua absurda falta de sentido.

Seguindo seu modelo associacionista da mente como uma página em branco até sua reductio ad absurdum (NT - desaprovação de uma proposição demonstrando-se o absurdo de sua conclusão inevitável), Wedgwood efetivamente pôs a nu seu calcanhar de Aquiles: o chamado problema de composição (frame), ou a aparente impossibilidade computacional de se localizarem os fragmentos espalhados da agulha das características relevantes no palheiro infinito da realidade. Abordado explicitamente pela primeira vez pela comunidade de Inteligência Artificial na década de 1960 (McCarthy & Hayes), ele representa um dos mais persistentes e esclarecedores obstáculos ao desenvolvimento de modelos de processamento de informação (Dennett). Como os bebês que ainda babam, que parecem ter habilidades intelectuais severamente limitadas, rotineiramente têm sucesso em manejar objetos, identificar indivíduos, navegar por aposentos cheios de obstáculos e falar qualquer língua a que sejam expostos, pareceu aos primeiros pesquisadores de AI (NT - inteligência artificial) uma justa suposição inicial dizer-se que estas tarefas, computacionalmente, são relativamente comuns. Entretanto, os problemas de se programarem mesmo tarefas rudimentares como a movimentação de blocos comprovaram ser surpreendentemente intratáveis; na prática, os projetistas de sistemas artificiais tinham que recorrer ou a dispositivos extremamente especializados que funcionavam apenas em um domínio altamente restrito, ou a uma elaborada composição (frame) "inata" interpretativa (Tooby & Cosmides).

A adaptação convencionalmente pouco valorizada entre a criança em crescimento e seu ambiente natural tornou-se um importante tema da poesia e da prática de Wordsworth. Em sua educação do pequeno Basil Montagu, que morou com eles em Alfoxden, ele e Dorothy demonstraram uma confiança implícita "naquelas afinidades do recém-nascido que adaptam/ nossa nova existência às coisas existentes" (Nota 9) para guiarem a criança. Céticos quanto a "esta era de sistemas", eles o encorajaram a passear livremente fora de casa, deixando-o investigar o ambiente à procura de características relevantes com uma "insaciável curiosidade". As próprias aspirações de William pelo gênio não encontraram nenhuma ressonância no esquema de Wedgwood; dada sua infância, ele podia se considerar afortunado por ter evitado a idiotia. Em nível pessoal enquanto poeta, educador e um ser humano intensamente envolvido em sua relação imaginativa com a natureza, ele acha o projeto profunda e inspiradamente desencaminhado. "Existem aqueles que nos dizem em épocas recentes", escreve ele em seu bloco de notas,
We have been great discoverers, that by dint/ Of nice experience we have lately given/ To education principles as fixed/ And plain as those of a mechanic trade [que] (Nós fomos grandes descobridores, que por esforço/ de boa experiência nós vimos dando/ à educação princípios tão fixos/ e diretos como aqueles da indústria mecânica)

Algo lhe diz que a educação das crianças não é um domínio de meta apropriado para a projeção mecanicista, e ele começa a embarcar em um projeto próprio: uma ontogenia da faculdade imaginativa, formulada em termos do crescimento da mente em resposta aos objetos naturais (Nota 10).

A Resposta: A Tempestade em Goslar

Em 16 de setembro de 1798 os Wordsworths e Coleridge velejaram para a Alemanha - Wordsworth motivado para aprender a língua com esperanças de trabalhos bem pagos de tradução, e Coleridge para absorver novas beberagens intelectuais. Após algumas semanas em Hamburgo, William e Dorothy começaram a "achar tudo muito caro", e decidiram alojar-se na provinciana Goslar, ali chegando no princípio de outubro. Está frio; eles não são convidados para visitas, talvez (como presume Coleridge) o Bürgerstand tome "irmã" como um eufemismo transparente. "Como não tinha livros", escreve Wordsworth a Coleridge no meio de dezembro, "fui obrigado a escrever como auto-defesa". Estes meses de inverno vêem a produção de algumas de suas melhor poesias líricas, e fervorosamente ele inicia o projeto de reimaginar sua infância. Através do que Coleridge veio a chamar de "O Crescimento do Gênio a partir da influência dos objetos naturais sobre a imaginação na Meninice e na Adolescência" - uma autobiografia criativa de seu próprio poder imaginativo - ele afirma sua identidade como um "ser favorecido" (Prelude 1; 245), digno de exercer a capacidade civil de um poeta. É uma brilhante defesa de suas aspirações e habilidades poéticas, um objeto textual que privadamente ancora sua identidade pública. Repetidamente estendido e revisado através de uma vida de auto-edição, The Prelude permanece sendo um totem pessoal compartilhado entre amigos próximos e publicado apenas em sua morte, em 1850.

Foi para isto

O projeto de Wordsworth de criar um eu autobiográfico começa com uma superabundância de materiais, uma explosão combinatorial de possíveis eus. O eu que é agregado a partir da memória - o eu narrativo - pode ser constituído a partir de um número infinito de vestígios a partir de um passado que nem precisa ser o dele próprio, ligado a um futuro imaginário através de uma cadeia infinita de fios narrativos. É neste ato situado de restauração, sugere o pesquisador canadense sobre memória Endel Tulbing, que a memória é ecforizada ou tornada operacional (Gazzaniga) (NT - ecphoratic = que serve para remover obstruções). Apesar de poder ser produtivo pensar em vestígios do passado como existindo objetivamente nos tecidos neurais, esta condição de armazenamento está condicionada à dinâmica da reminiscência. Evidências experimentais sugerem que a memória se distribui por todo o cérebro, e que o ato de relembrar ativa os mesmos elementos neurais que participaram da experiência original (Farah; Frith & Dolan), mas o acesso é determinado pela relevância, avaliada no sistema límbico (Cytowic). As dimensões motivacionais da restauração - o sentido de um propósito significativo e organizacional - é o que evita que o projeto de construir um eu se dissipe em um emaranhado de vias subversoras, distratoras e duplicantes.

Nas páginas do manuscrito está uma série de rascunhos, "presumivelmente com vistas a um preâmbulo", sugere Parrish. Eles falam de "uma leve brisa criativa" que se transforma em uma perturbadora tempestade, valendo-se da aerodinâmica para transmitir o sentido da fluidez mental e ainda assim do processo emocionalmente concentrado da auto-criação. A parte contínua principal da poesia - umas 150 linhas - começa no meio de um pensamento:

was for this
That one, the fairest of all rivers, loved
To blend his murmurs with my nurse's song,
And from his alder shades and rocky falls
And from his fords and shallows sent a voice
To intertwine my dreams...

foi para isso/ Que aquele, o mais agradável dos rios, adorava/ Misturar seus murmúrios às minhas canções de ninar, / E das sombras de seus arbustos e rochas pendentes/ e de seus vaus e regatos mandou uma voz/ Para entrelaçar meus sonhos...

A procura por um projeto - "foi para isto" - é a força estruturante da escrita e estabelece o propósito central: ostensivamente reavaliar, mas mais significativamente acessar e dominar, à luz do que ele é e do que realizou agora, os complexos recursos do passado a serviço do presente. É este ato combinado de crescimento e poda - o impulso metacognitivo da "leve brisa criativa" - que promete reunir os pedaços dispersos em uma história coerente para criar um novo eu às expensas do eu antigo.

Dois aspectos distintos e interatuantes do eu autobiográfico emergem como componentes funcionais no ato de auto-criação de Wordsworth: vamos chamá-los de narrativa e de eu homuncular. Quanto à primeira, a explicação mais direta de uma renarração do eu é aquela da revisão do conhecimento do caráter. Experimentos feitos pelos psicólogos sociais Stanley Klein e Judith Loftus indicam que o conhecimento do próprio caráter em períodos estáveis geralmente não depende da reminiscência episódica, mas está armazenado na memória semântica (categorial). A produção poética de Wordsworth pode coerentemente ser vista como uma tentativa de revisar suas idéias sobre ele mesmo em um período de modificações através de uma relembrança seletiva e imaginativa de uma sequência de episódios da infância que levava a um conjunto revisto de lembranças semânticas, ou registros atualizados do caráter (trait) funcional.

A revisão do eu narrativo, entretanto, não é simplesmente uma questão de armazenar novos bits de informação, mas sim um ato de imersão experiencial em uma estimulação visceral coerente, com o complemento completo das imagens perceptuais e das respostas motoras desacopladas. Tais simulações são frequentemente acompanhadas pelo senso de um observador interno, ou de um eu homuncular. A psicóloga Marcia Johnson argumenta plausivelmente que o eu enquanto agente interno é parte da solução para o desafio de se distinguir entre o que é imaginado e o que é real ("Reflection"). O que é imaginado ou pensado pode ser referido ou atribuído utilmente a um "pensador" interno - apesar de verdadeiramente não existir nenhum "homenzinho dentro da cabeça" responsável pela execução do pensamento - para se distinguir o conteúdo do que é percebido diretamente. O eu homuncular parece se formar ao longo de uma analogia com o corpo, de modo que ele se posiciona na mesma relação com a realidade virtual da imaginação que o corpo tem com seu meio ambiente, habitando-o como se fosse um agente (NT - Alan Leslie diz que "A brincadeira de fingir exige um novo conjunto de primitivas conceituais: um agente que tem uma atitude sobre um conteúdo"). Ainda assim a proposição não é desprovida de problemas. O eu homuncular, plausivelmente inventado para se simplificar o monitoramento das fontes, é ele próprio mais tendente do que outras elaborações da imaginação a ser erradamente tomado como uma entidade que existe independentemente. O projeto autobiográfico de Wordsworth, que procurarei mostrar mais adiante, cria uma quimera ilusória a partir de seu bestiário de eus, combinando uma narrativa histórica limitada e uma imagem funcional de um agente interno com o senso de um ser infinito.

No contexto da cognição situada pode-se pensar a modificação do eu como a criação de uma nova dinâmica entre a mente e o mundo externo - um feito que é iniciado através da ativação de simulações emocionalmente carregadas e perceptualmente vívidas. Como se pensa geralmente que as implementações de software no wetware (NT - refere-se provavelmente aos neurotransmissores) do cérebro implicam modificações no hardware (NT - estruturas materiais do cérebro) (Jackendoff), as simulações não só criam novos significados como também estruturas que permitem a replicação daquele significado - o que pode ser chamado de roteiros perceptuais e comportamentais, orquestrados através de um senso de propósito carregado emocionalmente. Nas primeiras poesias autobiográficas de Wordsworth a nova relação entre o interno e o externo é (uma relação) onde a mente não está simplesmente recebendo passivamente, mas sim participando ativamente, na criação de significado. A história auto-conscientemente imaginativa da nova dinâmica é lançada como uma história da passagem desta faculdade criativa para a existência, constituindo uma autobiografia da imaginação.

Sonho Ancestral

A dupla busca de Wordsworth por um eu poético e por uma filosofia educacional leva-o a uma única narrativa neurológica: o nascimento da imaginação. Como a valorização da importância do pensamento ficcional é tão recente no estudo científico da mente, e como os próprios fenômenos são tão complexos, uma teoria unificada e abrangente do surgimento da cognição desacoplada ainda está por ser formulada. Em si mesmo isto é uma condição saudável do conhecimento humano, e uma condição adequada a um diálogo aberto entre a imaginação ficcional e a investigação factual da mente. A proposta de Wordsworth, acima, de que a origem da imaginação retorna ao estado onírico do início da infância, é neurologicamente respeitável. A imaginação - e permita que deixemos suas características e sua importância se desenrolarem à medida que prosseguimos - é minimamente caracterizada como uma forma de cognição desacoplada ou de pensamento representacional não devotada às demandas imediatas do processamento perceptual e do controle motor. Esta definição mínima também se adapta ao estado onírico, e sua história natural - seu lugar na ontogenia e na filogenia humanas, e suas características neurofisiológicas e cognitivas - nos fornece um conjunto de ferramentas conceituais que é central para o entendimento dos problemas mais exigentes da imaginação desperta.

A neurologia do sonho esteve amplamente inexplorada até que as pesquisas sobre sono da década de 1950 tropeçassem em um insuspeitado e paradoxal terceiro estado no qual a mente estava bem desperta e o corpo paralisado (Aserinsky & Kleitman; Hobson). Os eletroencefalogramas apresentavam ondas cerebrais de baixa voltagem dessincronizadas, quase indistinguíveis das ondas do estado desperto, e uma atonia completa dos músculos esqueletais - uma paralisia autoinduzida causada pela inibição dos neurônios do comando motor na medula espinhal e no tronco encefálico (spinal cord and brain stem) (Hobson). Pequenas descargas (NT - erupções, detonações, ativações, etc.) de movimentos rápidos dos olhos pontuam este estado, dando-lhe seu nome científico, sono REM (NT - de rapid eye movement (Dement; Hobson). As narrativas episódicas visualmente detalhadas de sonhos alucinatórios, nos quais a mente toma suas próprias produções, não importa o quanto bizarras, por uma realidade independentemente existente, correlaciona-se estreitamente com estas descargas (Symons). Sua origem está bem fundo na região da ponte do tronco encefálico, a partir do qual as ondas se irradiam para fora até o núcleo geniculado do sistema límbico e se espalham pela área occipital (visual) do neocórtex. São estas ondas ponte-genículo-occipitais (PGO) que ativam a poderosa máquina de realidade virtual dos sonhos alucinatórios (Symons). Orquestradas pelas populações rivais de neurotransmissores - a acetilcolina induzindo o estado REM, a norepinefrina inibindo-o (Hobson) - elas fazem parte da "incessante música" que "compunha" os pensamentos do Wordsworth criança.

Por que a mente fica iludindo a si mesma durante a noite? Os sonhos associados às ondas PGO são profundamente esquizóides (NT - delusional, delirantes), no sentido de que cenários internamente produzidos são subjetivamente experimentados como eventos externos reais - uma confusão que seria psicótica em uma pessoa desperta. Como uma pessoa afligida por esquizofrenia, a mente que sonha atribui vozes relembradas a pessoas reais. Indicações de irrealidade tais como modificações disjuntivas de cenas, transformações impossíveis de pessoas e desvios das leis naturais são despreocupadamente desconsideradas (Hobson). As células nervosas que transportam o input perceptual para dentro do cérebro são despolarizadas no tronco encefálico, isolando desta maneira a mente das evidências corretivas do mundo real (Hobson). Entretanto, as ilusões não têm nenhum efeito inconveniente; os comandos motores são inibidos antes de alcançarem os músculos, e os eventos sonhados são tipicamente esquecidos quando se desperta. O desacoplamento da atividade mental (mentation) onírica da realidade desperta torna o estado REM um forte candidato para a mente ficcional primordial. Nos sonhos, a mente pode se engajar em intensas alucinações participativas porque foi criado um espaço que a isola da realidade.

A inofensividade dos sonhos, entretanto, é menos do que suficiente para explicá-los. Eles nos acompanham em nossos períodos do mais explosivo crescimento neural: enquanto o feto está quase constantemente no estado REM, os neonatos passam metade de seu tempo nele (Roffwarg, Muzio, & Dement). À medida que envelhecemos a proporção diminui, mas a maioria de nós consegue registrar num horário uns cativantes seis anos de sonhos antes de chegarmos aos setenta (Hobson). E este estado não é peculiar aos seres humanos; comum a todos os mamíferos, ele só desaparece nos monotremados (NT - membros da ordem dos mamíferos que põem ovos, restrita à Austrália e à Nova Guiné, e que consiste apenas do ornitorrinco e da eqüidna) (Cytowic). Então para que existe este estado paradoxal, onde o cérebro está completamente desperto e o corpo paralisado? Os pesquisadores concordam amplamente que a função do primeiro sono REM é promover o desenvolvimento do sistema nervoso central (Symons): especificamente, Hobson sugere que esta função pode ser "desempenhar testes de ativação que levem a modificações estruturais" no desenvolvimento dos sistemas sensóriomotores. As evidências neurológicas indicam que os mesmos circuitos que mediam as experiências despertas e os comandos motores são ativados nos sonhos (Hobson); o sonho pode talvez ser coerentemente visto como uma maneira de ativar simulações que preparam e mantêm a programação neural de comportamentos importantes.

Esta hipótese de ensaio de comportamento foi proposta pela primeira vez por Michel Jouvet, que em um cruel mas engenhoso experimento teve sucesso em reverter a atonia muscular do estado onírico em gatos por meio de lesões no tegmento( NT - grafia de Angelo Machado; o Aurélio grafa "tegumento") da ponte. Animais de estimação dóceis e bem-alimentados arremessavam-se para a vida em seu sono REM, desempenhando os atos ancestrais de espreitar a caça, esconder-se, e apoderar-se de presas imaginárias de uma maneira geralmente aleatória. No caso dos seres humanos, Hobson mostra que "um substrato para o comportamento no nível da programação neural" está indicado pela "rica sobre-representação de comportamentos importantes: medo, agressão, defesa e ataque; evitação de aproximação; e sexo". O componente emocional é proeminente; os sonhos ensaiam não só os sistemas sensóriomotores como também suas conexões com os centros motivacionais do cérebro límbico (Cytowic). Uma função básica dos sonhos, então, pode ser a de ensaiar comportamentos que têm tido, em nossa história evolutiva, importante valor para a sobrevivência.

A hipótese do ensaio de comportamento nos dá uma entrada para o primitivismo de Wordsworth, e para as atividades básicas, animalísticas, do poeta enquanto criança. Os passatempos favoritos daquele menino de quatro anos - tomar sol para se esquentar e mergulhar no riacho para se refrescar, correndo pelas margens arenosas - ensaiam um repertório fundamental, ainda que sem imaginação, de comportamentos. Tal repertório é em certo sentido trivial, o tipo de coisa que qualquer animal pode fazer - só que os animais são maravilhas de cognição incorporada que estão muito à frente de qualquer coisa que até hoje fomos capazes de entender ou reproduzir, e é apenas nossa familiaridade com estas habilidades que as fazem parecer simples (Clark). O raciocínio de Wedgwood está certo: existe algo de improvável na habilidade de uma criança em dominar o mundo, e o ambiente natural deveria antes desencorajar do que cativar a mente despreparada. A criança que sonha pode nos fornecer uma ligação para uma prolongada história evolutiva que contruiu no interior da mente humana um conjunto de suposições estruturantes (framing) especificamente adaptadas à natureza, precisamente "aquelas recém-nascidas afinidades que adaptam/ nossa nova existência às coisas existentes".

Em uma linha auto-conscientemente primitivista, o poeta lembra-se de ficar só

when the hilltops
The woods & all the distant mountains
Were bronzed with a deep radiance
a naked savage in the thunder shower.

(quando os cimos das colinas/ os bosques e todas as montanhas distantes/ se bronzeavam com uma irradiação profunda/ um selvagem nu sob a tempestade trovejante)

Esta imagem aborígene surpreendentemente evocativa - o menino molhado em brilho sob a chuva que caía, admirando as colinas iluminadas - traz um sentido de poder primordial e dirige-se a uma convicção de que o ambiente natural é o domínio apropriado da experiência humana. Numa veia similar, as atividades descritas quando ele era um menino pequeno frequentando a Hawkshead Grammar School do Vale de Esthwaite - colhendo ovos de corvos e pegando galinholas em armadilhas - ressoam com o período estendido de tempo no qual viviam nossos ancestrais coletando e caçando. Novamente a questão é trivial: é claro que meninos pequenos gostam de pegar aves e roubar ovos. Nossas intuições nos cegam para a improbabilidade a priori de tais predileções; mesmo aquilo que é natural requer uma explicação. Enquanto a civilização e a agricultura têm apenas alguns milhares de anos - (um tempo) muito breve para deixar um legado genético - muitas centenas de milhares de anos nos quais a procura natural por alimento era um modo de vida plausivelmente deixaram vias em nossas mentes que são ensaiadas através dos sonhos. Para Wordsworth, estes ecos dos modos ancestrais de vida é que ligam os desejos e medos da criança ao mundo natural, que "entrelaçam/ As paixões.../ Com a vida e a natureza". Ele descobriu sua infância e seu gênio particular: as habilidades cognitivas são despertadas ali, quando os aposentos cinzentos de Wedgwood iriam reprimí-las.

Sonhos Despertos

Se estado REM é o foco (locus) original do pensamento desacoplado, podemos pensar a imaginação como um desencadeamento do poder alucinatório dos sonhos no âmbito do estado desperto. Não é auto-evidente que isto seja um desenvolvimento vantajoso ou desejável. Se os relés (relays) perceptuais não forem despolarizados, as representações (vindas) do interior iriam se intercalar com as apresentações (vindas) do exterior, produzindo potencialmente um estado confuso e psicótico. Responder a aparências tão enganosas seria altamente precário, e parece provável que qualquer tendência de extravasamento para o estado desperto seria podada pela seleção natural. De fato, a disseminada capacidade dos mamíferos de sonhar não se traduz automaticamente em uma capacidade de relembrar imagens vívidas no estado desperto. É por uma boa razão que o mundo desacoplado dos sonhos é guardado tão estreitamente; é perigoso ativar simulações quando você está desempenhando para valer.

Entretanto, existem usos para a imaginação nas restritas áreas da vida desperta. O mais simples é o da formulação de representações intencionais apropriadas, que envolve um loop (NT - arco em curva recorrente) ficcional breve mas crucial (Nota 12).

O estado básico da mente-cérebro é determinado pela ativação reticular do tronco encefálico, que se irradia acima para dentro do sistema límbico e do neocórtex. Os centros motivacionais do sistema límbico, por sua vez, mobilizam as capacidades imaginativas do neocórtex para que produzam uma simulação que alimente (abaixo) de volta o sistema límbico. O propósito do loop de simulação é formular uma intenção calibrada - um plano emocionalmente carregado de ação - que se vale das lembranças sensóriomotoras do neocórtex e que é formada pelas prioridades estabelecidas pelo sistema límbico. Uma vez que a imaginação tenha formulado um cenário que satisfaça as emoções, os sistemas motores podem começar a executar a intenção em um loop de ação. Nos sonhos o estágio final é inibido à medida que os comandos motores alcançam o tronco encefálico.

O loop de simulação, ativado para calibrar representações intencionais, é um tipo simples de cognição desacoplada no estado desperto, uma faculdade que muito provavelmente compartilhamos com os outros mamíferos. A ativação do impulso animal (animal drive activation) pode exigir inputs perceptuais para ativar e sustentar o loop de simulação, para assegurar a relevância, e como salvaguarda contra a condição psicótica da imaginação desperta. O problema adaptativo básico dos mamíferos não é que o equipamento neurológico (usado) para se ativarem simulações visualmente vívidas e emocionalmente ricas não exista, e sim que existem apenas adaptações limitadas para se desacoplarem as simulações do estado desperto. Mais geralmente, a restrição da evolução da imaginação não está no maquinário para alucinações - este já está presente no estado onírico - mas no desenvolvimento de um equipamento de monitoramento de fontes para se distinguir entre o que é gerado pelo pensamento e o que tem uma existência independente. O que é exigido é uma diversidade de soluções tipo software que desempenhem a tarefa de desacoplamento básico executada no estado REM por intervenções do tipo hardware.

Assim, as operações de medo e de desejo podem estar enraizadas tanto no ensaio de comportamentos evolutivamente importantes do estado REM como em uma breve simulação desperta, ativada entre o neocórtex e o cérebro límbico emocional. Sob sua forma animal elas constituem uma imaginação rudimentar. Para Wordsworth, entretanto, a importância primária destas forças motivacionais básicas está em que forjam um elo de paixão entre a criança e o ambiente natural: elas são os motores fundamentais da cognição incorporada da criança. Ao mesmo tempo, ele considera as ações motivadas por estes sistemas primitivos de resposta como "inferiores" e "inglórias"; seu papel é apenas arrumar o palco para um "final" que não seja "ignóbil". É a experiência de suspensão que marca o nascimento da imaginação propriamente dita:

Oh when I have hung
Above the ravens nest, have hung alone
By half inch fissures in the slippery rock
But ill sustained and almost as it seemed
Suspended by the blast which blew amain
Against the naked cragg ah then
While on the perilous edge I hung alone
With what strange utterance did the loud dry wind
Blow through my ears the sky seemed not a sky
Of earth, and with what motion moved the clouds

(Oh, quando me pendurava sozinho acima do ninho dos corvos, me pendurava sozinho em fissuras de meia polegada na rocha escorregadia, mal sustentado e parecia quase suspenso pela rajada que soprava furiosamente contra o rochedo, ah, então quando na perigosa borda eu me pendurava sozinho com que voz estranha o vento seco e trovejante soprava por entre minhas orelhas, o céu não parecia um céu da terra, e com que movimentos se moviam as nuvens)

A causa distal ou o propósito organizacional, assinalados por Oh when e ah then, são eventos de ontologia incerta, caracterizada negativamente como o colapso da interpretação adequada - o vento, o céu e o movimento das nuvens têm um significado que não pode ser conceituado mas que é separado como (se fosse) uma série de perguntas evocativas. O momento de suspensão não é apenas uma perda física da terra firme, mas uma suspensão dos sistemas de resposta mais animalísticos e automáticos que o guiaram até a natureza.

Se considerarmos estes sistemas de resposta como soluções limitadas para a apreensão da complexidade infinita da realidade, sua suspensão involuntária e momentânea não ocasiona nenhum conhecimento positivo. Nossas faculdades cognitivas são soluções locais e parciais para as complexas demandas da sobrevivência; não existe nenhuma estrutura interpretativa "multipropósito". Na linguagem de Kant, não podemos ter acesso não-mediado à realidade numênica (NT - noumenal; o Aurélio define como númeno o objeto inteligível, em oposição a objeto que se conhece por meio dos sentidos). A linguagem de Wordsworth não parece afirmar tal acesso não-mediado, mas uma suspensão dos mecanismos normais de resposta, que deixa um hiato do qual ele se torna consciente. Poderíamos dizer que lhe parece que o ser do mundo é excessivo para seus modos de reconstruí-lo. A importância da experiência do sublime - seja na reconstrução poética ou no fato histórico, deve permanecer indeterminada - pode ser porque ela o desperta para a natureza construída de sua própria cognição, fazendo assim uma abertura para um papel auto-conscientemente participativo naquela construção - em uma palavra, (uma abertura) para a imaginação desperta.

Espaços Combinados

Nós empregamos a hipótese de que os sonhos ensaiam padrões cognitivos evolutivamente importantes para nos ajudar a entender a presença e o desenvolvimento de roteiros comportamentais altamente complexos e comuns tais como correr para se refrescar em um regato e escalar à procura de alimento no meio ambiente. Aquilo para o que Wordsworth está chamando a atenção é que estes roteiros, apesar de constituírem formas de cognição incorporada que desempenham a elogiável tarefa de forjar um elo emocional ativo entre a criança e seu ambiente natural, são relativamente mecânicos e limitados. A suspensão momentânea e involuntária dos sistemas de resposta cognitiva inatos chama a atenção para a natureza construída destes sistemas e introduz um despreendimento (looseness) ou jogo na relação entre estímulo e resposta.

Encontramos a ancestralidade neurológica deste jogo no estado onírico - no próprio ato de programar o cérebro. Lembre-se que Wordsworth falava de como o rio adorava "misturar seus murmúrios com minhas canções de ninar" e "entrelaçar meus sonhos". A mente da criança, na terminologia de Giles Fauconnier e Mark Turner, é conceitualizada em termos de um espaço combinado. No modelo de pensamento metafórico desenvolvido pelos linguistas cognitivos das décadas de 1970 e 1980, certos domínios conceituais têm suas próprias estruturas pré-conceituais, e elas são utilizadas para cartografar fenômenos em outros domínios (Lakoff). O que Turner e Fauconnier entenderam é que o produto metafórico não se adapta verdadeiramente em nenhum domínio; antes, cria-se um novo terceiro espaço, que contém elementos seletivos dos dois domínios. Wordsworth chama a atenção para uma forma inicial de tal pensamento metafórico, a combinação perceptual (perceptual blending), onde inputs dos dois domínios - as canções de ninar e o murmúrio do rio - se misturam.

No estado onírico o input perceptual pode por sua vez se combinar com a lembrança perceptual. A noção do rio enviando "uma voz/ Para entrelaçar meus sonhos" é uma imagem precisamente formulada para transmitir o senso de jogo ou de redireção de input envolvidos na combinação de espaços mentais. Ainda assim este jogo é excessivo; a combinação parece confusa. O sistema auditivo desenvolveu pelo menos dois motores interpretativos distintos - um parseia (parsers) os sons em um conjunto estável de fonemas para obter um sistema combinatorial discreto (NT - matematicamente discreto), e o outro não (Pinker). Por que o cérebro bombearia inputs não-linguísticos do rio para o parser fonético, como sugere Wordsworth? Em sua ontogenia poética da imaginação, ele se concentra no desvio de padrões estáveis de resposta para sugerir um aumento na fluidez cognitiva que é central para a criatividade. O rio não fala suavemente; é a babá que está cantando suavemente. Mas no espaço combinado dos sonhos os dois fluem juntos, de modo que é como se o rio estivesse murmurando. Uma tal redireção de input aparentemente confusa traz novo sabor à voz e ao rio, fazendo um feedback dos domínios de fonte. Parece provável que os sonhos fazem uso de uma integração cognitiva e de uma fertilização cruzada de níveis superiores que permitem os espaços combinados . Na cronologia de desenvolvimento de Wordsworth tal combinação marca o primeiro florescimento discernível da imaginação.

Na atividade desperta do jogo as confusões controladas passam a ter uma importância funcional ainda mais óbvia. Considere a descrição do episódio de patinação que Dorothy transcreveu para Coleridge em uma carta enviada em dezembro de 1798. As crianças fazem suas brincadeiras

Confederate, imitative of the chace
And woodland pleasures, the resounding horn,
the pack loud bellowing & the hunted hare

(em cumplicidade, à imitação da caça (NT - chace é uma ortografia antiga de chase)/ E de prazeres dos bosques, das cornetas ressonantes, a matilha aos urros & a lebre caçada)

Aqui a combinação está expressada na atividade externa; não há nenhuma atonia muscular e o input perceptual não está despolarizado. A atividade altamente proficiente da patinação no gelo, que depende de um loop de ação perceptualmente recalibrado continuamente, combina-se com o cenário fictício de uma caçada. O espaço combinado se vale seletivamente de características de cada domínio. As habilidades básicas da patinação dependem de se ter uma imagem precisa e realista de seu próprio corpo e do corpo dos outros, enquanto que outras características da própria identidade e aparência podem ser desconsideradas. O jogo de nível mais superior é organizado através da simulação de que se é um cachorro ou uma lebre apenas em certos respeitos: é relevante que as lebres fogem de seus predadores, mas não que tenham orelhas longas e felpudas. Podemos considerar isto como tolerância de input: os diversos sistemas que são erigidos para se determinar a identidade dos objetos do mundo relaxaram seus critérios. Se você quiser simular um certo fenômeno, faz sentido relaxar as restrições sobre a gama de eventos que ativam e introduzem um certo despreendimento ou jogo nas condições do input. Este jogo é central para a imaginação criativa.

Simular jogos pode ser considerado como uma proto-combinação comportamental e uma extensão natural do trabalho dos sonhos. Em ambos os casos, roteiros comportamentais básicos estão sendo praticados, como uma preparação estratégica para a ação real. No caso do jogo, as informações perceptuais são incorporadas no comportamento roteirizado de maneiras que são, num sentido rudimentar mas notável, criativas. A ação do jogo é estruturada de maneira tal que os colegas de patinação podem ser tratados, em certo sentido, como se fossem cachorros, ou a pessoa pode se comportar, de maneiras limitadas, como se ela fosse uma lebre. Ao mesmo tempo, as crianças não acreditam verdadeiramente que sejam cachorros; a estrutura de simulação permite que o conteúdo seja desacoplado de suas representações primárias de si mesmas e da realidade. A ação de estruturar é a criação de um espaço especial com seu próprio conjunto de regras - uma combinação conceitual que não pertence a qualquer de seus domínios de fonte.

O Surgimento da Faculdade Metacognitiva

O estado REM é uma criação neurológica orientada para hardware do espaço privilegiado descrito por Huizinga como característico de todo jogo: os músculos esqueléticos são desligados, o input é fortemente atenuado, e a função de registrar as lembranças (NT - a memória) é desligada. O desacoplamento, ou estruturação imaginativa, obtido simuladamente fornece a base para se introduzir o poder do estado onírico na vida desperta, onde as câmeras estão sempre ligadas. As habilidades cognitivas requeridas pelo jogo simulado - que de uma forma simples nós compartilhamos com os outros mamíferos - pode ter formado a base para um conjunto de habilidades mais singularmente humanas centrais para a imaginação. O jogo simulado, mostra Alan Leslie, exige um novo conjunto de primitivas conceituais: um agente que tem uma atitude sobre um conteúdo. A atitude de simulação é transmitida para outros agentes por meio de marcadores metapragmáticos: a simulação de sinal "conhecer os olhares e sorrisos", juntamente com gestos exagerados e entonação melódica. Estes marcadores permitem um desacoplamento do conteúdo da representação primária - você sabe que é um cachorro no espaço ficcional combinado, mas não no domínio de fonte factual. Ao mesmo tempo, o conteúdo desacoplado é executado: você age no mundo real como se você fosse um cachorro. A estrutura do jogo simulado sugere que ele está na base de nossa capacidade de compreender e antecipar comportamentos humanos com base em estágios mentais de conhecimento, crença e desejo invisíveis e intangíveis (Leslie) - o que pode ser chamado de leitura da mente (Baron-Cohen).

Assim como a simulação, a leitura da mente requer que formemos um modelo de um agente que tem uma certa atitude sobre um conteúdo. Quando lemos a poesia de Wordsworth, supomos que ela envolve uma tentativa explícita da parte do escritor de comunicar e reproduzir certas finas nuances de uma experiência subjetiva para o leitor e, como tal, pressupõe uma sofisticada capacidade de ler mentes. A experiência ficcional transmitida é tipicamente atribuída a alguma persona pseudo-ficcional tal como o próprio Wordsworth enquanto criança ou simplesmente a ele próprio no momento da composição. Nós ficamos na pista de tais níveis aninhados de atribuição dando a cada ser da narrativa um maquinário mental complexo capaz de sustentar uma ampla variedade de estados mentais invisíveis e intangíveis. Ao mesmo tempo em que estamos cônscios de que tais estados são direcionados representacionalmente mas de que são simplesmente reflexos de fatos independentemente existentes, esperamos que a pessoa aja como se seus estados fossem tais reflexos, já que supomos que os estados mentais ocasionam comportamento.

Por estarmos tão familiarizados com ela, a leitura da mente vai inevitavelmente parecer trivial e óbvia; entretanto, ela é claramente uma heurística extremamente poderosa para fazer sentido do mundo. Nós podemos chamar esta subespécie de cognição desacoplada de metacognição - o ato de pensar sobre o pensar, por exemplo, pensar sobre os pensamentos de outra pessoa. A realidade social seria totalmente misteriosa se nos faltasse esta habilidade, como testemunha a experiência dos autistas, que considera-se que tenham danos orgânicos nos subsistemas funcionais que manipulam a metacognição (Baron-Cohen). Surpreendentemente, parece que somos a única espécie dotada desta singular capacidade, com a limitada exceção dos chimpanzés (Baron-Cohen). O trabalho de campo de Seyfarth e Cheney entre os macacos vervet (Cercopithecus pygerythrus) indica fortemente que apesar de se comunicarem simbolicamente eles não dão atenção a como seus chamados afetam os estados mentais daqueles que os escutam, e parecem não conceber que aqueles que os ouvem tenham estados mentais.

Os manuscritos de Goslar, de Wordsworth, além de se valerem de suposições implícitas de que o leitor é capaz de atribuir estados mentais ao autor e suas personas, também contêm numerosos exemplos de atribuição explícita de estado mental. Entretanto, existe algo peculiar sobre estes atos de leitura da mente: eles não tratam do que normalmente consideraríamos como mentes. Característica da poesia, a atribuição aparentemente é uma atribuição de intenções, preferências, desejos e conhecimento a rios, montanhas e entidades invisíveis vagamente especificadas ligadas a um local. Qual é a importância dos antropomorfismos onipresentes de Wordsworth?

Extinção da Mente Tipo Canivete-Suiço?

As combinações de Wordsworth, como já vimos, concentram-se em desvios dos padrões estáveis de resposta para indicar um aumento na fluidez cognitiva. Em sua The Prehistory of the Mind, o paleoantropólogo Steven Mithen sugere que só este aumento caracteriza o mais recente e até agora o último passo da evolução humana. Nossos ancestrais imediatos, argumenta ele, tinham capacidades mentais sofisticadas comparáveis às nossas, mas suas diversas inteligências (Wellman e Gelmann) eram acentuadamente separadas em domínios distintos. "Todos os Primeiros Humanos", escreve Mithen, referindo-se aos hominídios de 1,8 milhões de anos atrás até o surgimento do homem totalmente moderno há 100.000 anos, "compartilhavam o mesmo tipo básico de mente: uma mentalidade tipo canivete-suiço. Tinham inteligências múltiplas, cada uma dedicada a um domínio específico de comportamento, com muito pouca interação entre elas... Os Primeiros Humanos parecem ter sido muito parecidos conosco em alguns respeitos, porque tinham estes domínios cognitivos especializados; mas parecem tão diferentes porque lhes faltava um ingrediente vital da mente moderna: a fluidez cognitiva". Evidências arqueológicas mostram que as culturas dos Primeiros Humanos ficaram notavelmente estáveis por dezenas de milhares de anos, com pequena variação geográfica, em agudo contraste com as culturas rapidamente diversificadas do Homo sapiens. O registro do aparecimento deste último - há uns 100.000 anos na África e no Oriente Médio, 60.000 anos na Austrália e 40.000 anos na Europa - conta a história de uma incessante inovação cultural, ferramentas de multi-projeto e de multi-componentes, enterros rituais, e arte. Quais são as novas habilidades cognitivas que capacitaram estas transformações?

A explicação de Mithen é que as barreiras que anteriormente insulavam os diferentes domínios cognitivos uns dos outros tornaram-se porosas de algum modo. Isto parece nos deixar num dilema: será que este vazamento entre domínios - talvez um relaxamento irrestrito das condições de input - não causaria uma confusão conceitual maciça? Precisamente esta confusão, retruca Mithen, é característica dos humanos modernos. Apesar de termos perdido as descrições narrativas do mundo de nossos antepassados modernos, se podemos julgar pelas dos caçadores-coletores contemporâneos, elas se caracterizavam por sofisticadas combinações conceituais entre domínios. As representações do mundo destes últimos não estão divididas nitidamente entre animais, plantas, ferramentas e relações sociais. Tipicamente, "eles raciocinam sobre o mundo natural como se fosse um ser social" (Mithen). Os Mbuti, do Zaire, e outros grupos de florestas tropicais concebem a floresta como um de seus pais; é um "ambiente dadivoso" do mesmo modo que um parente próximo de alguém é dadivoso (Bird-David). Os Inuit, do Ártico, "tipicamente vêem seu mundo enquanto imbuído com as qualidades humanas de vontade e propósito" (Riddington). Para os Aborígenes Australianos, "os poços que estão na paisagem estão onde seus antepassados cavaram o chão, as árvores estão onde gravetos foram enterrados, e os depósitos de ocre vermelho onde eles derramaram seu sangue" (Mithen). Para os modernos caçadores-coletores, escreve Tim Ingold, "não há dois mundos de pessoas (a sociedade) e coisas (a natureza), mas apenas um mundo - um meio ambiente - saturado com poderes pessoais e englobando tantos os seres humanos como os animais e as plantas dos quais dependem, e da paisagem na qual vivem e onde se movimentam".

Os pleitos são poderosos; entretanto, parece provável que Mithen esteja interpretando mal as evidências. Considere o uso de modelos antropomórficos nos manuscritos de Goslar, de Wordsworth. Sua recriação de si mesmo se articula neste movimento conceitual a um só tempo primitivo e moderno: esta impregnação de estados mentais no ambiente. Desde o início, "foi para isto" apela para um propósito que é atribuído ao rio enquanto ser intencional; sua ação, operando diretamente sobre sua mente para "entrelaçar" seus sonhos, é o emblema do nascimento da imaginação. Mais tarde ele invoca os "seres das colinas" e "vocês que andam por bosques e charnecas abertas/ à luz da lua ou das estrelas" como recipientes imaginários de um atributo de estado mental: um desejo afetuoso e tutelar de "entretecer" a paixão da criança com "a vida e a natureza". Através de seu "ministério" (NT - ministry, intervenção, mediação, etc.), os espíritos

Impressed upon the streams the woods the hills
Impressed upon all forms the characters
Of danger & desire & thus did make
The surface of the universal earth
With meanings of delight of hope & fear
Work like a sea.

([Os espíritos] imprimiram sobre as correntes os bosques e as colinas/ imprimiram sobre todas as formas caráteres de perigo e desejo e assim fizeram com que a/ superfície da terra universal/ com significados de prazer, de esperança e de medo/ funcionasse como um mar).

O resultado desta tutela dos espíritos da imaginação é precisamente cartografar a "superfície da terra universal" com estados mentais - "significados de prazer, de esperança e de medo".

O mundo antropomórfico é onde podemos nos sentir em casa, um mundo que claramente pertence à mesma família de mundos vividos como aqueles dos caçadores-coletores invocados por Mithen. A questão é: em que sentido Wordsworth pensou - ou esperou que seus leitores pensassem - que "os seres das colinas" eram responsáveis por ele enquanto criança? Claramente, suas referências a espíritos são felizes soluções para a meta narratológica da criação de uma impressão de "um ser favorecido" . Elas também são, entretanto, soluções ad hoc (NT - para o propósito [o caso, a situação] e para nenhum outro; também "soluções improvisadas"): variedades de espíritos são abertamente proferidas e multiplicadas sem restrição. Tais conjecturas arrebatadoras, argumenta o antropólogo Pascal Boyer, são características de concepções religiosas. Por um lado, um complemento completo e não-ambíguo de inferências pode ser estabelecido a partir das mentes de espíritos, que são modeladas sem problemas no (espírito) humano: elas têm intenções estruturadas pelo conhecimento causal e dirigidas pela emoção. Em agudo contraste, quase nada pode ser inferido sobre as vidas dos próprios seres - as inferências normais simplesmente não se aplicam. Nós não perguntamos, por exemplo, como chegam eles a viver em lagos, como se reproduzem, ou mesmo como se parecem. Estas questões são vagas e deixadas em aberto, para que cada pessoa as preencha. Com efeito, temos um grau de desacoplamento que excede o da leitura da mente, já que o próprio status destes seres é mantido em uma categoria conjectural distinta e pobremente especificada. Assim, há limites para a confusão causada pela fluidez cognitiva. A ordem é salvaguardada por uma contabilidade relativamente clara porém não infalível.

O que vemos não é o colapso da especialização funcional, mas a criação de um espaço desacoplado - a imaginação - que incorpora uma combinação seletiva de elementos de diversas fontes de domínio - natureza, psicologia humana, seu passado pessoal - para criar o sentimento de ter tido uma infância privilegiada. O argumento dominante apela para uma psicologia intuitiva de responsabilidade e investimento dos pais e da comunidade: como "vocês espíritos" das fontes, das nuvens, dos lagos e dos remansos "perseguiram seus favoritos e suas alegrias" com tal "amor assíduo", Wordsworth erige uma obrigação fortemente sentida de não se desgastar este investimento, e sim de apreciá-lo e de afirmar seu direito de nascimento enquanto ser imaginativo. Desta maneira, as propriedades emergentes do imaginado combinam o feedback dentro do curso real de sua própria vida.

Apesar de Mithen poder estar exagerando a rigidez da mente dos Primeiros Humanos, há poucas dúvidas sobre a crescente fluidez cognitiva dos modernos. Em seções anteriores nós vimos como o sonho e o jogo, que aparecem nos mamíferos em geral, envolvem um relaxamento das condições de input e a formação de espaços combinados elementares. Ainda assim, tal cognição desacoplada provavelmente foi restringida a conjuntos relativamente estreitos de circunstâncias tais como estados oníricos, jogo juvenil e representações intencionais dependentes de input perceptivo. O que parece ser novo no homem moderno articula-se sobre a habilidade de sustentar simulações na ausência de qualquer input perceptivo. Quando Wordsworth fala de

...huge & mighty forms that do not live
Like living men moved slowly through the mind
By day, and were the trouble of my dreams -

(grandes e poderosas formas que não vivem/ como os homens vivem moviam-se devagar através da mente/ de dia, e eram as dificuldades de meus sonhos -)

o que está sendo demonstrado é a habilidade do cérebro em gerar seus próprios indícios para recuperar lembranças, libertando-se de sua dependência do presente e do percebido. O jovem Wordsworth está assombrado (haunted) e o adulto saboreia a evocação daquele evento. O que torna possíveis tais combinações complexas de domínios cruzados é o poder conjunto do pensamento desacoplado e a recuperação internamente indicada de lembranças episódicas explícitas. Juntando os trabalhos de Leslie e Turner, podemos agora ver que o pensamento desacoplado é a criação de um espaço combinado distinto no qual as condições de input podem ser relaxadas já que está separada da da representação primária . A combinação consiste de elementos retirados seletivamente de características dos diversos domínios de fonte. Seu uso principal é que tem características emergentes e que estas se retroalimentam (feedback) nos domínios de fonte, estruturando-os de maneiras novas e potencialmente esclarecedoras (Fauconnier e Turner).

O surgimento dos modernos seres humanos - Homo sapiens - parece coicndir com, e depender da, emergência da capacidade de relembrar e processar lembranças episódicas de diversos domínios em um espaço desacoplado privilegiado. O sinal inequívoco da presença de seres humanos modernos e imaginativos é a quimera, a combinação conceitual completa entre os domínios. A primeira obra de arte européia ainda existente é a estatueta do leão-homem feita de marfim de Hohlenstein-Stadel, na Alemanha, datando de pelo menos há 30.000 anos (Mithen). Enquanto seu autor sem dúvida deleitou-se com as ricas sensações da figura combinada, se ele tivesse capacidades mentais como as nossas em algum canto de sua mente ele reteria o conhecimento de que a figura era um produto de sua imaginação, não uma representação literal de um ser verdadeiro. Um conjunto de sofisticadas adaptações cognitivas permitiu a liberação do poder total dos sonhos na mente desperta.

O Eu e o Monitor da Realidade

Nós somos as pessoas imaginativas, os sonhadores despertos. "Como você pode determinar se neste momento nós estamos dormindo e todos os nossos pensamentos são um sonho; ou se estamos acordados e falando uns com os outros em estado desperto?" pergunta Sócrates, e Theaetetus (Teeteto) responde que não sabe; "A semelhança entre os dois estados é bastante surpreendente" (Platão). A resposta contemporânea é que temos diversas adaptações cognitivas para monitoramento de fontes, a tarefa de saber o rumo de tais coisas como a diferença entre o que estamos experimentando e o que simplesmente estamos imaginando. Johnson propõe o termo mais específico monitoramento de realidade para os processos envolvidos na discriminação entre lembranças que se originam na experiência perceptual e aquelas que surgem do "pensamento, da imaginação, da fantasia, dos sonhos, e de outros processos auto-gerados". Ela sugere que "nossas idéias de realidade e fantasia se originam de processos atributivos imperfeitos"; notavelmente, lembranças que surgem rápida e espontaneamente com grande quantidade de detalhes visuais e contextuais tendem a ser consideradas como originando-se na experiência. À medida que estes processos são geralmente confiáveis, eles são "imperfeitos" e ocasionalmente falham: como demonstrou Elizabeth Loftus, cenários vividamente imaginados são inclinados a serem confundidos com lembranças reais. tais falhas no sistema de monitoração da realidade constituem o que Tulving chamou de abuso representacional. Um de seus efeitos é a reescrita das lembranças.

O que comanda o abuso representacional? A suspeita de Wordsworth, nas linhas alteradas e apagadas que cito no início deste ensaio, é que as lembranças são selecionadas "amorosamente para adornar/ o tempo do ser irrememorável". Estas dúvidas parecem ter sido enterradas, entretanto, e o fragmento final do manuscrito fala amorosamente

Those beauteous colours of my early years
Which make the starting-place of being fair
And worthy of the goal to which [?she] tends
Those hours that cannot die those lovely forms
And sweet sensations which throw back our life
And make our infancy a visible scene
On which the sun is shining.

(daquelas belas cores de meus primeiros anos/ que instituem o início de ser bonito/ e digno da meta à qual [?ela] tende/ aquelas horas que não podem morrer aquelas adoráveis formas/ e doces sensações que fazem retornar nossa vida/ e tornam nossa infância uma cena visível/ na qual o sol está brilhando)

A defesa do eu recriando imaginativamente uma infância favorecida está dando frutos. Aqui, a afirmativa é de que as "belas cores", as "adoráveis formas" e as "doces sensações" produzidas pela vívida reconstrução imaginativa do passado "levam nossa vida ao passado", ou nos levam de volta à experiência real da infância, fazendo de "nossa infância uma cena visível" agora, uma cena que é objetivamente real, "na qual o sol está brilhando".
Deixe-me chamar a atenção para três componentes desta afirmativa: o verídico, o experiencial e o causal.

Em primeiro lugar - estabelecendo a questão primária do monitoramento da realidade - ao escrever estas primeiras linhas, Wordsworth está voltando a lembranças da experiência ou construindo imaginativamente um passado? Em muitos casos, nota seu biógrafo Stephen Gill, é impossível discernir: "as únicas evidências que temos são evidências poéticas"; entretanto, "Wordsworth em outros locais não tinha escrúpulos em alterar 'os fatos' se eles estragassem uma concepção imaginativa". Falando de um episódio acrescentado no começo de 1799, Jonathan Wordsworth comenta: "Como quase sempre é verdade no Prelude, a despeito de detalhes circunstanciais não estamos lidando com fatos, mas com a poesia da imaginação". Alguns eventos estão claramente distorcidos. Mais obviamente, como demonstra Gill, os cinco anos que se passam entre a idade de quatro anos até sua residência em Hawkshead estão completamente ausentes - anos que foram "inquietantes e longe de uniformemente felizes". Por alguma razão desconhecida, William e sua irmã foram mandados para a casa dos avós; suas lembranças desta época incluem o pensamento em uma tentativa de suicídio e uma "irritação persistente, caprichosa e violenta". Ele nunca esqueceria o mau tratamento que recebeu, e sua projeção de um bando inteiro de espíritos invisíveis tomando para si a tarefa de sua educação espiritual parece em parte compensar sua falta de investimento dos pais. Como sugerem as linhas 270-276, o foco não está no passado per se, mas nas sensações evocadas por sua simulação. Ao mesmo tempo, o material é apresentado como a história de sua vida.

Em segundo lugar, Wordsworth está implicando que uma vez que as simulações tenham sido refinadas para satisfazerem as emoções, elas adquirem o sentido de "horas que não podem morrer", não simplesmnete porque não serão esquecidas, mas em um sentido mais forte de que a experiência pode ser reproduzida à vontade, como se os eventos estivessem ocorrendo no presente. Isto faz eco de sua afirmativa inicial de que ele está falando "de coisas/ que foram e que são" - uma dúbia alegação atacada subsequentemente. Mas aqui está ele ainda afirmando que sua infância está presente "como uma cena visível".

Em face disto, estas afirmativas terminam sendo um colapso celebrativo do sistema de monitoramento de fonte. A causa é descrita em detalhes: o fato de que as simulações foram aperfeiçoadas em doçura é o que compele a mente a aceitá-las como verdadeiras. O poeta até convida sua platéia a ser conivente, mudando imperceptivelmente de "meus primeiros anos" (270) para "nossa infância" (275). Ainda assim não precisamos supor que Wordsworth , ou nós leitores, estejamos literalmente enganados. Antes, o que estamos vendo é um delírio controlado, envolvendo a suspensão voluntária da descrença. Para que uma simulação acesse toda uma gama de inferências pode ser (um procedimento) ótimo abaixar o som do sistema de monitoramento de fonte. Nós acolhemos a noção de que a simulação é real porque isto a torna mais atraente - uma questão de controle de imersão, que deve ser diferenciado de um abuso representacional.

Entretanto, a simulação de uma infância imaginada em um delírio controlado retém uma relação problemática com a identidade. Ao tentar (falar daquelas cores) "que instituem o início de ser bonito/ e digno da meta à qual [?ela] tende" o poeta deliberadamente cria um passado que legitimizaria o futuro que ele deseja. A simulação é proposta para servir como base para se recalibrar certos valores relativos ao eu narrativo. Neste caso, até onde os registros de caráter são atualizados com base na fantasia, não fica mais claro se o delírio está controlado; antes, ele está fora de alcance. A infância que Worsworth almeja como maneira de justificar sua vocação poética é claramente em parte uma construção, mas uma construção da qual ele parece ter perdido o rumo. O importante é que ele precisa perder o rumo dela para poder realizar seu propósito; uma descrição factual não seria igualmente poderosa.

Se isto for auto-ilusão, pode parecer saudável e desejável. Wordsworth está simplesmente modificando sua auto-imagem em uma direção benéfica, capacitando-o a assumir a árdua tarefa da vocação poética. Mas existe algo tanto incoerente como perturbador na postura de que a auto-ilusão se faz com a melhor das intenções; acaba sendo um ato de abandonar-se ao ato do poder arbitrário de um mecanismo oculto. Pode ser útil relembrar o caso da paciente de Ramachandran, a Sra. B. M., descrito na introdução. O impulso é idêntico: ela imagina e estabelece como verdadeiro um passado que sustenta uma imagem preferível e forte de si mesma - uma imagem na qual ela age como se fossem as características de uma entidade real, ela própria. Enquanto que um dano em algum aspecto do sistema de monitoramento da realidade é presumivelmente culpado pelo contraste mais intenso entre a simulação e a realidade do que Wordsworth gera, este contraste ainda põe em relevo a natureza ilusória do processo.

É profundamente intrigante, entretanto, que a auto-imagem seja o que leva a ilusão para fora de alcance. "Um eu", escreve Johnson, "é um subproduto dos processos de monitoramento da realidade que distinguem informações geradas perceptualmente de informações geradas refletidamente, enquanto que a fenomenologia do eu-enquanto-controlador surge de várias interações do sistema de monitoramento da realidade, notavelmente entre os níveis perceptual e lógico". Este modelo provê uma origem plausível para o eu homuncular. Entretanto, ela não aborda a questão central deste ensaio: a ação distorsiva do eu, seu papel no abuso representacional e na reescrita das lembranças. Como podemos explicar o fato de que o eu, que credivelmente surge no processo de monitoramento da realidade, parece incitar uma falha orquestrada deste mesmo processo?

Se o eu-enquanto-fonte é designado como uma heurística para diferenciar "eu penso" de "você pensa" - e, suplementado por uma fenomenologia interna de agência - "eu imagino" de "eu me lembro", o palco está montado para uma rebelião de quinta-coluna (NT - segundo os dicionários, indivíduo estrangeiro ou nacional que age subrepticiamente em um país em guerra ou em vias de entrar em guerra com outro, preparando auxílio em caso de invasão, ou fazendo espionagem e propaganda subservisa). É por demais tentador concluir numa inferência que Descartes nada mais fez do que tornar explícito, aquele "penso, logo sou". Como o pensamento e o sentimento são atribuídos ao eu homuncular, há apenas um pequeno passo para a falácia de que ele deve ser uma entidade real. Que todos nós tenhamos um sentimento subjetivo do eu-enquanto-fonte é meramente uma parte do problema: eu argumentaria - e desafiaria meus leitores a investigarem por si mesmos - que este sentimento não é uma percepção de uma entidade real, e sim uma projeção da memória. No âmago do sistema atribucional de monitoramento da realidade parece estar (existir) um delírio de boa fé (bona fide). E quando o eu-enquanto-fonte (o eu homuncular) for erradamente visto como uma entidade real, o estrago inevitavelmente se espalha: o conteúdo do eu-enquanto-história (o eu narrativo) é experimentado como se fossem dimensões do próprio ser. Eu sugiro que isto é o que dirige a simulação de Wordsworth de sua infância, numa mistura de lembranças refletidas e perceptuais, de um delírio controlado na direção de um delírio que se põe fora de alcance.

Retornando ao diagrama de intencionalidade por um momento, vemos que o loop de simulação é sustentado, por um lado, pelos imperativos emocionais do sistema límbico. O poder representacional do neocórtex responde com uma projeção imaginativa que agrada ao cérebro límbico - por exemplo, uma narrativa autobiográfica. A projeção do prazer, que dispara uma torrente de substâncias neuroquímicas, estabelece uma pressão para que aquela projeção seja sustentada. Na ausência do input perceptual, este processo tenderá a se dissipar através do efeito de monitoramento da realidade ou da propriocepção cognitiva, já que ele depende apenas de lembranças e não tem nenhum fundamento na realidade independente. Então, como é sustentado o prazer da narrativa autobiográfica? É aqui onde entra o eu-enquanto-ser narrativo. Como uma heurística do sistema de monitoramento da realidade, a mente criou um eu interior imaginário - uma espécie de homúnculo, ao qual é dado o papel de experienciador, pensador e observador. Se este guarda-lugar heurístico for tomado literalmente - se lhe for atribuído ser - ele começa a sabotar radicalmente a função de monitoramento da realidade. Estabelecendo uma presença, um habitante ôntico (NT - que tem ser próprio), na realidade virtual tem o efeito de suprimir a propriocepção cognitiva e emprestar realidade ao irreal, para criar um sentido de urgência e de relevância para as simulações que o sistema de monitoramento da realidade teria rejeitado como projeções sem valor. Ele (NT - o eu-enquanto-ser narrativo, acho) cria um local para o ser e para a experiência no interior do mundo projetado da mente - precisamente o tipo de efeito que os sistemas de monitoramento da realidade são projetados para evitar.

Outra vez a reação defensiva da Sra. B. M., assim como sua lucidez induzida, apresentam um retrato mais asperamente iluminado dos mecanismos básicos. A defensividade indica que o sistema de monitoramento da realidade está operando de fato, distinguindo com sucesso "eu imagino" de "eu percebo" e "eu me lembro de perceber". O eu-enquanto-fonte parece ser tratado como um ser cujas características narrativas são representadas (intepretadas) como reais: a auto-imagem corrigida que incorpora informações sobre a paralisia é experimentada como aversiva e rejeitada. Que a defesa possa ser executada frente a clamorosas evidências em contrário pode ser debitado a dano orgânico no hemisfério direito (veja Ramachandran para uma extensa discussão). Então, como ela é capaz de sair deste delírio descontrolado? Quando o sistema de monitoramento da realidade é ele próprio infectado com ilusão, sua remoção poderia promover um retorno à realidade. A irrigação de água fria parece induzir um estado REM parcial na Sra. B. M., talvez por inibir o colapso de acetilcolina. (Nota 13). Como este estado, em seu projeto natural, não emprega monitoramento de fonte, isto pode eliminar o delírio experiencial do eu-enquanto-fonte. Libertada da pesada significância da auto-representação, a Sra. B. M. pode calmamente encarar os fatos. Esta circunstância tem o paradoxal efeito líquido de permitir que os sonhos - a tecnologia da ilusão - dêem voz a verdades que a mente desperta suprime devido a um erro no âmago do sistema de monitoramento de fonte.

A implicação deste modelo é que existe um aspecto do eu - o eu narrativo enquanto ser - que surge como uma forma de abuso representacional dentro do sistema de monitoramento da realidade. Nós podemos pensar sobre este aspecto distorcido do eu como um análogo cognitivo para o vírus humano da imuno-deficiência (NT - HIV), que ataca o próprio sistema imune. A função do eu-enquanto -ser narrativo parece ultrapassar a propriocepção cognitiva em uma aposta para prolongar os prazeres da realidade virtual. O eu então estabiliza as representações intencionais do desejo, o que permite uma identidade intencional de longo prazo concentrada (focused).

Entretanto, um dos resultados arbitrários do auto-engano envolvidos na tomada das "belas cores" projetadas como se fossem lembranças verdadeiras que constituem as "doces sensações" de um eu presente é que não há maneira de evitar que outras lembranças, menos gratificantes para os centros emocionais, também sejam consideradas como o eu-enquanto-fonte e façam surgir uma forte reação aversiva. Ao final do período de composição, Wordsworth reconhece esta reverberação. Ele elabora e dá crescente realidade a um eu autobiográfico - a quimera de uma narrativa e um agente interno hipostasiado (NT - essencializado, substancializado, etc.) - que auxilia e encoraja a criação de fantasias vívidas, convincentes e emocionalmente satisfatórias. Por um lado, a retomada explícita de lembranças episódicas e sua combinação conceitual permitem que os seres humanos reconceitualizem e modifiquem a si mesmos, para recriarem o que são. Por outro lado, esta renarração produz histórias, não ser, e a falha em compreender isto tem seu custo. Um sonhador desperto, Wordsworth anda pelos seus aposentos em Goslar "absolutamente consumido pelo pensamento e pelo sentimento e pelas operações corporais da voz ou dos membros", não muito diferente de um dos gatos lesionados de Jolivet. "Eu não sabia na época", escreve ele após terminar o primeiro período febril de composição, "... que o dia iria chegar"

When after loathings damps of discontent,
Returning ever like the obstinate pains
Of an uneasy spirit, with a force
Inexorable would from hour to hour
For ever summon my exhausted mind.

(Quando após têmperas abomináveis de descontentamento,/ sempre retornando como as dores obstinadas/ de um espírito perturbado, com uma força/ inexorável de hora em hora/ desafiariam sempre minha mente exausta)

Esta severa nota sobre a contínua dor psicológica indicada na carta de dezembro a Coleridge coloca todo o projeto autobiográfico sob uma nova luz. A tentativa de de basear o eu em imagens agradáveis e fortificantes deve se engajar em uma batalha contínua e frustrante com pensamentos negativos, "após têmperas abomináveis de descontentamento". O Prelude que Wordsworth acabou compartilhando com seus amigos e que durante as décadas seguintes expandiu e preparou para publicação não deixa nenhum traço desta agonia.

A tentativa de Wordsworth de criar uma identidade nova e poderosa tem sucesso, e em certo sentido constrói a base de sua carreira poética. Neste momento, entretanto, quando terminou o período de frenética composição, ele momentaneamente tira (daí) uma lição muito diferente, iluminadora em sua simplicidade. Numa reversão dramática, "Parece que aprendi", continua Wordsworth,

That what we see of forms and images
Which float along our minds & what we feel
Of active or recognizable thought
Prospectiveness or intellect or will
Not only is not worthy to de deemed
Our being, to be prized as what we are
But is the very littleness of life

(Que aquilo que vemos de formas e imagens/ que flutuam em nossas mentes e o que sentimos/ do pensamento ativo ou reconhecível/ prospectibilidade ou intelecto ou vontade/ não apenas não é digno de ser chamado/ de nosso ser, de ser valorizado como aquilo que somos/ como é a própria pequenez da vida)

O projeto autobiográfico se desenvolve. A percepção crucial é que os pensamentos e os sentimentos - de fato, toda a fenomenologia da cognição - são processos, visualizados como representações que "flutuam em nossas mentes". Não são mais atribuidos ao eu-enquanto-fonte, como prova de sua existência e importância central, revertendo assim a operação cartesiana. Isto liberta a mente do delírio de que nós somos nossas representações; enquanto processos, eles "não são dignos de ser chamados/ de nosso ser, de serem valorizados como aquilo que somos" (NT - notar a mudança de número nos verbos). As afirmações de verdade literal e presença experiencial são abandonadas; o conteúdo de consciência é despido de sua excessiva valorização e - talvez de novo excessivamente - preterido como (se fosse) "a própria pequenez da vida". "Tais consciências eu chamo apenas de acidentes", continua ele,

Relapses from that one interior life
That lives in all things sacred from the touch
Of that false secondary power by which
In weakness we create distinctions, then
Believe that all our punny boundaries are things
Which we perceive and not which we have made

(Relapsos daquela vida interior/ que vive em todas as coisas sagradas a partir do toque/ daquele falso poder secundário através do qual/ em nossa fraqueza nós criamos distinções, então/ acreditamos que todos os nossos limites epigramáticos são coisas/ que percebemos e não que fizemos)

"Tal consicência" é também caracterizada como "aquele falso poder secundário" - o poder, falando amplamente, de enganar a si próprio - "através do qual em nossa fraqueza nós criamos distinções". O que é esta fraqueza? É uma descrição de sua própria crise de identidade, uma fraqueza psicológica que ele procurou remediar através de uma recriação imaginativa das "belas cores" de seus primeiros anos? Se assim for, as "distinções" se relacionam à tentativa de modelar seletivamente a partir da memória uma identidade, um projeto carregado de frustração e que o condena a lutar contra auto-imagens negativas. À luz deste projeto, a solução é radical: para distinguir entre o que é refletivamente gerado pelo pensamento e projetado na consciência como "aquilo que nós fizemos", de uma realidade independentemente existente "que nós percebemos" . É o retorno ao monitoramento da realidade para reestabelecer a saúde psicológica.

Em contraste com o eu imaginado, a "una vida interior" é considerada intocada pelo poder enganador do pensamento. O apelo é para nossa experiência subjetiva de consciência (NT - sentience: sentimento enquanto distinto de percepção ou pensamento [American Heritage Dictionary]), tão próxima de nós e ainda assim tão pouco compreendida. Pinker sugere que é uma destas coisas que o projeto da mente humana evita que entendamos. Parece não ter características, mas "vidas em todas as coisas" - a um só tempo interior e sem limites. Enquanto o eu autobiográfico é descartado como trivial e ilusório em última análise, nosso verdadeiro ser é indiferenciado e absoluto, aquele

- In which all beings live with god themselves
Are god existing in one mighty whole
As undistinguishable as the cloudless east
At noon is from the cloudless west when all
The hemisphere is one cerulean blue

(- no qual todos os seres vivem eles próprios com deus/ são deus existindo em um todo poderoso/ tão indistinto como o leste sem nuvens/ ao meio-dia o é do oeste sem nuvens quando todo/ o hemisfério é um azul cerúleo)

Este estado transcendental, Wordsworth parece estar dizendo, não pode ser realizado até que o problema do monitoramento da realidade seja resolvido. Esta solução implica o final do eu autobiográfico, agora visto como um produto ilusório "daquele falso poder secundário". O ficcional é aqui não apenas desacoplado, mas abolido até virar um "todo poderoso" e "indistinto".

Esta rejeição última - se momentânea - da imaginação e do sonho desperto encontra sua contrapartida neurológica no locus ceruleus, uma estrutura nuclear da ponte, pouco acima da medula oblonga (NT - terminologia de Angelo Machado para medulla oblongata) e fazendo limite com o quarto ventrículo (Jouvet, Hobson). Seu azul cerúleo (o neurotransmissor norepinefrina, manufaturado em seu corpo celular e visível a olho nu), mediado através de uma extensa rede axonal extensivamente ramificada que distribui sua influência através do cérebro, funciona para inibir a atividade excitatória dos gigantescos neurônios reticulares da ponte que induzem o estado REM e seus sonhos fantasmagóricos.

Observações Finais

A introspecção é um guia falível para a mente. Ainda mais do que Freud, as ciências cognitivas vêem a vasta massa de operações mentais como inacessível à percepção consciente. Existe uma circunstância, entretanto, onde a atenção para o movimento dos próprios pensamentos é o necessário: a do auto-engano. O auto-engano implica não só um erro corrigível como uma ação contínua para evitar a correção deste erro. No caso do eu-enquanto-ser autobiográfico, a compreensão de que os sentimentos de um eu estável são gerados pelo pensamento mais do que por uma realidade independentemente existente requer prestar cuidadosa atenção à necessidade de se ocultar este fato e ao desconforto gerado pela possibilidade de sua revelação. Pontuando a tentativa corrente de construir um novo eu a partir da memória e do desejo, um clarão de entendimento, de difícil sustentação, pode momentaneamente desnudar as limitações deste projeto, "como se uma lanterna mágica pusesse os nervos como formas numa tela" (Eliot).

Meu interesse primário em desenvolver este modelo de auto-engano em ligação com a poesia de Wordsworth foi o de entender um fenômeno geral e de esclarecer um processo sutil da mente através dos registros remanescentes dos atos de criação poética. Ainda assim a análise propõe algumas questões fascinantes com relação à carreira poética de Wordsworth. Será funcional enganar a si mesmo? Será que o ato de reimaginar sua infância para legitimar suas alegações poéticas gera mesmo a identidade estável que lhe permitiu fazer sua obra enquanto poeta? Ou será que confundir uma narrativa autobiográfica, por mais atraente que seja, com "aquilo que somos", cria e sustenta uma identidade - um conjunto de caráteres e de representações intencionais - que seja repetitiva e carente de flexibilidade?

Ao primeiro rubor (NT - blush, enrubescimento, envergonhamento, etc.), o projeto de Wordsworth de auto-criação parece ter sido um retumbante sucesso. Ele enfrentou o desafio proposto por Wedgwood projetando uma infância rica em poder imaginativo e em conexões emocionais com a natureza, fornecendo evidências de que a mente humana está singularmente adaptada ao mundo natural. Através do ato de reimaginar sua infância ele parece não só ter ganhado confiança e inspiração como (também) ter elaborado a estrutura ideológica emocionalmente engajada para sua poesia. Estes resultados teriam sido altamente importantes em torná-lo um poeta produtivo.

Por que, então, seus poderes se enfraqueceram tão dramaticamente com a passagem dos anos? Podemos especular que enquanto seu novo eu renarrado comprovou ser adequado para diversos anos de poesia produtiva, sua crescente rigidez na vida posterior estava ligada à sua incapacidade de sustentar sua compreensão da importância central do monitoramento da realidade. Hipostaziar a história na qual ele reimagina sua infância e sua juventude em seu próprio ser reduz (NT - suprime, silencia, aquieta, etc.) o efeito do monitor da realidade e permite a formação de uma identidade estável, mas também cria uma rigidez excessiva na mente à medida em que ela se tranca em um estreito conjunto de representações intencionais repetidas - uma persona congelada.

Talvez o que a mente precise fazer, como Wordsworth demonstra momentaneamente no fragmento cerúleo, é suspender a crença no eu e permitir que a mente jogue de novo, de modo que o monitoramento normal da realidade possa recomeçar. Tal procedimento é provavelmente destrutivo para os circuitos delirantes da identidade - uma suave brisa criativa, talvez, ou uma tempestade poderosa e perturbadora: não uma transformação com uma finalidade fixa e final, mas uma auto-criação em progresso.

Notas

1. Ver, por exemplo, as transações (proceedings) da conferência sobre meta-representações na Simon Frazier University em fevereiro de 1997, editadas por Dan Sperber, e a serem publicadas pela Série Vancouver Studies in Cognitive Sciences, da Oxford University Press.
2. Veja, por exemplo, Spolsky, Turner, e Crane e Richardson.
3. Veja, por exemplo, o trabalho teoricamente sofisticado mas popularmente apresentado de Damasio e de Ramachandran.
4. As investigações de Clark sobre os "sistemas estendidos cérebro-corpo-mundo enquanto totalidades integradas computacionais e dinâmicas" fornecem uma perspectiva operacional sobre as noções Românticas de unidade orgânica.
5. Ver, por exemplo, Tooby e Cosmides.
6. Carta a James Tobin, de 6 de março de 1798; em de Selincourt, 212.
7. Para os problemas de identidade de Wordsworth na época, ver Gill, 117-119.
8. As citações são da carta de Thomas Wedgwood a William Godwin, de 31 de julho de 1797, que Erdman republica integralmente, 430-433.
9. Estas e subsequentes citações do Prelude de 1798 são de Parrish. São identificadas pelos números das linhas usados na transcrição editada de Parrish do manuscrito em "Wordsworth Prelude 1798-1799", 122-130. Uma versão editada das passagens pode ser encontrada no Prelude 1799, de Wordsworth.
10. Para uma extensa discussão, veja Erdman, 497-98.
11. Para um modelo de uma supressão adaptativamente seletiva do input perceptual, veja Symons.
12. Estou grato ao neurocientista And Umit Turken por conversações que levaram às idéias que sustentam esta figura.
13. Ramachandran não fornece uma explicação para este bizarro efeito. No encontro anual da Psychonomic Society em Los Angeles, 1996, ele especulou que a administração de água gelada ativa os núcleos do tronco cerebral que estão ativos durante o sono REM e são responsáveis por uma crescente atividade colinérgica durante este período (And Umit Turken, comunicação pessoal; conf. Hobson, 184-202).
14. A transcrição de Parrish inclui sugestões escritas à lápis que omiti; para uma versão editada, veja Wordsworth 495-496.

Obras Citadas

Aserinsky, Eugene, and Nathaniel Kleitman. "Regularly Occurring Periods of Eye Motility, and Concomitant Phenomena During Sleep." Science 118 (1953): 273-78.
Baron-Cohen, Simon. Mindblindness: An Essay on Autism and Theory of Mind. Cambridge, MA: MIT P, 1995.
Bird-David, Nurit. "The 'Giving Environment': Another Perspective On the Economic System of Gatherer-Hunters." Current Anthropology 31 (1990): 189-96.
Boyer, Pascal. The Naturalness of Religious Ideas. A Cognitive Theory of Religion. Berkeley, CA: U of California P, 1994.
Clark, Andy. Being There: Putting Brain, Body, and World Together Again. Cambridge, MA: MIT P, 1997.
Crane, Mary, and Alan Richardson. "Literary Studies and Cognitive Science: Towards a New Interdisciplinarity." Mosaic. Forthcoming.
Cytowic, Richard E. The Neurological Side of Neuropsychology. Cambridge, MA: MIT P, 1996.
Damasio, Antonio. Descartes' Error: Emotion, Reason, and the Human Brain. New York: G.P. Putnam, 1994.
Dement, William. "The Occurrence of Low Voltage, Fast, Electroencephalogram Patterns During Behavioral Sleep In the Cat." Electroencephalography and Clinical Neurophysiology (Amsterdam) 10 (1958): 291-96.
Dennett, Daniel C. "Cognitive Wheels: The Frame Problem of AI." Minds, Machines, and Evolution. Ed. Christopher Hookway. Cambridge: Cambridge UP, 1984. 129-151.
Descartes, René. Discourse on Method and the Meditations. Tr. F. E. Sutcliffe. London: Penguin, 1968.
Eliot, Thomas S. Collected Poems, 1909-1962. New York: Harcourt, 1963.
Erdman, David V. "Coleridge, Wordsworth, and the Wedgwood Fund." Bulletin of the New York Public Library 60 (1956): 425-43, 487-507.
Fauconnier, Giles, and Mark Turner. "Conceptual Integration Networks." Cognitive Science. In press.
Farah, M.J. "Psychophysical Evidence for a Shared Representational Medium for Mental Imagery and Percepts." Journal of Experimental Psychology: General 114 (1985): 91-103.
Frith, Chris, and Ray Dolan. "The Role of the Pre-frontal Cortex in Higher Cognitive Function." Cognitive Brain Research 5 (1996): 175-81.
Gazzaniga, Michael S., ed. Conversations in the Cognitive Neurosciences. Cambridge, MA: MIT P, 1997.
Gill, Stephen. Wordsworth: A Life. Oxford: Oxford UP, 1989.
Hartley, David. Observations on Man, His Frame, His Duty, and His Expectations. Bath, 1749.
Hobson, J. Allen. The Dreaming Brain. New York: Basic, 1988.
Huizinga, Johan. Homo Ludens: A Study of the Play Element in Culture. New York: Harper, 1970.
Ingold, Tim. "Comment on 'Beyond the Original Affluent Society' by N. Bird-David." Current Anthropology 33 (1992): 41-42.
Jackendoff, Ray. Consciousness and the Computational Mind. Cambridge, MA: MIT P, 1989.
Johnson, Marcia K. "Reality Monitoring: Evidence from Confabulation in Organic Brain Disease Patients." Awareness of Deficit after Brain Injury. Clinical and Theoretical Issues. Ed. George P. Prigatano and Daniel L. Schacter. New York: Oxford UP, 1991. 176-97.
-------------------. "Reflection, Reality Monitoring, and the Self." Mental Imagery. Ed. Robert G. Kunzendorf. New York: Plenum, 1991. 3-16.
Jouvet, Michel, and Delorme, F. "Locus coeruleus et sommeil paradoxal." Comptes Rendus des Séances et Mémoires de la Société de Biologie 159 (1965): 895-99.
Kant, Immanuel. Critique of Pure Reason. Trans. Norman Kemp Smith. New York: St. Martin's, 1964.
Klein, Stanley B., and Judith Loftus. "The Mental Representations of Trait and Autobiographical Knowledge about the Self." Advances in Social Cognition. Ed. T.K. Sruli and R.S. Wyer. Vol. 5. Hillsdale, NJ: Erlbaum, 1993. 1-49.
Lakoff, George. Women, Fire, and Dangerous Things: What Categories Reveal about The Mind. Chicago: U of Chicago P, 1987.
Leslie, Alan M. "The Necessity of Illusion: Perception and Thought in Infancy." Thought Without Language. Ed. Lawrence Weiskrantz. Oxford: Clarendon, 1988. 185-210.
Locke, John. An Essay Concerning Human Understanding. London, 1690.
Loftus, Elizabeth F. "Creating False Memories." Scientific American 277.3 (December 1997): 70-75.
McCarthy, J., and P.J. Hayes. "Some Philosophical Problems from the Standpoint of Artificial Intelligence." Machine Intelligence. Ed. Bernard Meltzer and Donald Michie. Vol. 4. New York: American Elsevier, 1969. 463-502.
Mithen, Steven J. The Prehistory of the Mind: The Cognitive Origins of Art, Religion and Science. Cambridge: Cambridge UP, 1996
Pinker, Steven. The Language Instinct. New York: Morrow, 1994.
---------------. How the Mind Works. New York: Norton, 1997.
Plato. Theaetetus. Trans. Benjamin Jowett. Internet Classics Archive, http://classics.mit.edu.
Ramachandran, Vilayanur S. "The Evolutionary Biology of Self-Deception, Laughter, Dreaming and Depression: Some Clues from Anosognosia." Medical Hypotheses 47 (1996): 347-62.
Riddington, R. "Technology, World View and Adaptive Strategy in a Northern Hunting Society." Canadian Review of Sociology and Anthropology 19 (1982): 469-81.
Roffwarg, Howard, Joseph Muzio, and William Dement. "Ontogenetic Development of the Human Sleep-Dream Cycle." Science 152 (1966): 604-17.
Seyfarth, Robert M., and Dorothy L. Cheney. "Meaning and Mind in Monkeys." Scientific American 267.6 (December 1992): 122-28.
Sperber, Dan. Explaining Culture: A Naturalistic Approach. Oxford: Blackwell, 1996.
Spolsky, Ellen. Gaps in Nature: Literary Interpretation and the Modular Mind. Albany: State U of New York P, 1993.
States, Bert O. Seeing in the Dark: Reflections on Dreams and Dreaming. New Haven, CT: Yale UP, 1997.
Symons, Donald. "The Stuff That Dreams Aren't Made of: Why Wake-State and Dream-State Sensory Experiences Differ." Cognition 47 (1993): 181-217.
Tooby, John and Leda Cosmides. "The Psychological Foundations of Culture." The Adapted Mind: Evolutionary Psychology and the Generation of Culture. Ed. Jerome H. Barkow, Leda Cosmides, and John Tooby. Oxford: Oxford UP, 1992. 19-136.
Tulving, Endel. "What is Episodic Memory?" Current Directions in Psychological Science 2 (1993): 67-68.
Turner, Mark. The Literary Mind. New York: Oxford UP, 1996.
Turner, Mark, and Gilles Fauconnier. "Conceptual Integration and Formal Expression." Metaphor and Symbolic Activity 10 (1995): 183-203.
Wellman, Henry M,. and Susan A. Gelman. "Cognitive Development: Foundational Theories of Core Domains." Annual Review of Psychology 43 (1992): 337-75.
Wordsworth, Jonathan. "The Two-Part Prelude of 1799." In William Wordsworth, Prelude 1799. 567-85.
Wordsworth, William. Home at Grasmere. Ed. Beth Darlington. Ithaca, NY: Cornell UP, 1977.
---------------------. The Prelude, 1798-1799. Ed. Stephen Parrish. Ithaca, NY: Cornell UP, 1977.
---------------------. The Prelude: 1799, 1805, 1850. Ed. Jonathan Wordsworth, Stephen Gill, and M.H. Abrams. New York: Norton, 1979.
Wordsworth, William, and Dorothy Wordsworth. The Letters of William and Dorothy Wordsworth. The Early Years 1787-1805. 2nd ed. Ed. Ernest de Selincourt and Chester L. Shaver. Oxford: Clarendon--Oxford UP, 1967.

© 1998 A/B: Autobiography Studies.