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AS LÍNGUAS DO NOSSO PLANETA ESTÃO MORRENDO
Payal Sampat 2002
Tradução: Pedro Lourenço Gomes

Marathi. Gujarati. Hindi. Inglês. Kutchi. Em Bombaim, na Índia, onde fui criado, eu usava estas línguas todos os dias. Para andar pelas ruas, pedir uma orientação e interagir com as pessoas eu tinha que ser capaz de falar marathi. Para ir à loja da esquina comprar arroz ou tomates para o jantar eu tinha que falar um pouco de gujarati, a língua de diversos comerciantes locais. Os meninos de minha escola vinham de tantas regiões linguísticas diferentes que nós conversávamos ou em inglês, a língua das aulas, ou em hindi, a língua mais amplamente falada da Índia.

Enquanto isto meus avós falavam kutchi, a língua dos nossos ancestrais que vieram dos desertos da Índia ocidental. A despeito de seus melhores esforços, eu fazia tudo que podia para evitar responder a meus avós em kutchi. Afinal, eles podiam conversar fluentemente em muitas das línguas de trabalho de Bombaim, e eu senti desde pequeno que o kutchi não era útil de qualquer maneira visível. Não podia me ajudar a fazer amigos, seguir o que estava na TV ou conseguir melhores notas. Então, desde o início, abandonei a língua dos meus ancestrais e ao invés escolhi operar no ambiente linguístico prevalecente.

Marathi, gujarati, hindi e inglês, cada uma delas é falada por pelo menos 40.000.000 de indianos. O kutchi, por outro lado, tem talvez 800.000 falantes - e este número está declinando à medida que mais e mais pessoas jovens que falam o kutchi se voltam para o gujarati ou para o inglês. Este declínio torna a língua crescentemente vulnerável a diversas outras pressões. Em janeiro de 2001, a Índia ocidental sofreu um catastrófico terremoto cujo epicentro foi em Kutch. Como resultado, o kutchi perdeu por volta de 30.000 falantes.

A Índia é um país densamente poliglota. As estimativas das línguas faladas lá variam muito, dependendo onde se traça a linha entre língua e dialeto. Um reconhecimento conservador colocaria o número de línguas nativas da Índia em torno de 400, das quais umas 350 estão perdendo falantes rapidamente. O mesmo se aplica a milhares de outras línguas por todo o mundo. A maioria destas línguas em extinção não chega perto do kutchi em termos de número de falantes. Das 6.800 línguas que restaram no mundo, quase metade são faladas hoje em dia por menos de 2.500 pessoas. À taxa atual de declínio, os peritos estimam que por volta do final deste século pelo menos metade das línguas do mundo terá desaparecido - uma taxa de extinção que resulta em uma morte linguística, em média, a cada duas semanas - e esta é a estimativa conservadora. Alguns peritos prevêem que as perdas podem chegar a 90%. Michael Krauss, um linguista do Alaskan Native Language Center e uma autoridade em perda linguística global, avalia que apenas umas 600 línguas do mundo estão "a salvo" da extinção, significando que elas ainda estão sendo aprendidas por crianças.

Acredita-se que a capacidade humana para a linguagem surgiu em algum ponto entre 20.000 e 100.000 anos atrás. Muitas línguas surgiram e se foram desde então, é claro, mas é improvável que o sortimento global tenha sofrido algum dia um declínio tão extenso e crônico. Este processo parece ter se originado no século 15, à medida que surgiu a era da expansão européia. Pelo menos 15.000 línguas eram faladas no início daquele século. Desde então, mais de 4.000 línguas desapareceram como resultado de guerras, genocídio, proibições legais e assimilação. Muitos antropólogos consideram o declínio análogo à perda de biodiversidade. Em ambos os casos, estamos perdendo rapidamente recursos que tomaram milênios para se desenvolver.

Hoje em dia, a fala do mundo está crescentemente homegeneizada. As 15 línguas mais comuns estão atualmente nos lábios de metade da população mundial, e as cem maiores são usadas por 90% da humanidade. As línguas européias ganharam desproporcionalmente com esta tendência, A Europa tem uma diversidade linguística relativamente baixa - apenas 4% das línguas do mundo se originaram ali - mas metade das dez línguas mais comuns são européias. É claro que, como primeira língua, a mais comum do mundo não é européia, mas asiática. O chinês mandarim hoje é falado por perto de 900.000.000 de pessoas. Entretanto, o inglês é o meio primário de comunicação em ciência, comércio e cultura popular. A maior parte dos livros, jornais e e-mails do mundo são escritos em inglês, atualmente falado por mais pessoas como segunda língua (350.000.000) do que como língua nativa (322.000.000). De acordo com uma estimativa, o inglês é usado de alguma forma por 1.600.000.000 de pessoas todos os dias.

A maioria das línguas, em contraste, têm uma distribuição muito limitada. A maior parte da diversidade linguística do planeta se concentra em apenas algumas regiões - todas elas extremamente ricas em biodiversidade também. A região do Pacífico, particularmente, produziu uma surpreendente diversidade da palavra falada. A ilha da Nova Guiné, que a nação de Papua Nova Guiné compartilha com o estado indonésio de Irian Jaya, produziu umas 1.100 línguas. A Nova Guiné é o lar de apenas 0,1% da população mundial, mas ainda assim estas pessoas falam talvez um sexto das línguas do mundo. Outras 172 são faladas nas Filipinas, e supreendentes 110 podem ser ouvidas no minúsculo arquipélago de Vanuatu, habitado por menos de 200.000 pessoas. No geral, mais de metade das línguas ocorrem em apenas oito países: Papua Nova Guiné e Indonésia têm 832 e 731, respectivamente; Nigéria, 515; Índia, umas 400; México, Camarões e Austrália, apenas umas 300 cada um; e o Brasil, 234. (Estes números vêm do Ethnologue, um banco de dados publicado pelo Summer Institute of Linguistics, em Austin, Texas. Os totais podem incluir línguas que recentemente se extinguiram).

Alguns destes "pontos quentes" linguísticos parecem estar à beira de uma implosão cultural. Na Austrália, por exemplo, uns 90% das 250 línguas aborígenes do país estão perto da extinção; apenas sete têm mais de 1.000 falantes; e apenas umas duas ou três provavelmente sobreviverão nos próximos cinquenta anos, mais ou menos. Fica aparente no Ethnologue que a Austrália está perdendo línguas a uma rápida taxa. A maioria das mais ou menos 50 línguas de Queensland estão listadas como tendo menos de 20 falantes, ou como já extintas. O futuro também parece ruim para muitas línguas do oeste e do sul da Austrália. Pessoas cujos pais falavam mangala ou tyaraity, por exemplo, preferem o inglês aborígene ou kriol, uma língua híbrida baseada no inglês. Este tipo de hemorragia linguística não está confinado aos pontos quentes. Sério declínio pode ser encontrado virtualmente por toda parte, como uma breve visão dos continentes do mundo mostrará.

Na América do Norte, a riqueza linguística que ainda caracteriza o México era antes a norma na maior parte do continente. Em 1492, o ano em que Cristóvão Colombo cruzou o Atlântico pela primeira vez, umas 300 línguas podiam ser ouvidas na região que hoje compõe os Estados Unidos. Atualmente, apenas cinco delas têm mais de 10.000 falantes. Das 260 línguas nativas ainda faladas nos Estados Unidos e no Canadá, 80% não são mais aprendidas pelas crianças. O coeur d'alene, do Idaho, só tem cinco falantes; Mary Smith (Jones) é o único falante remanescente de eyak, que é uma língua nativa da costa da Prince William Sound, no Alasca; e quando Roscinda Nolasquez de Pala, Califórnia, morreu em 1994, o cupeno tornou-se extinto. A Califórnia é considerada um dos tesouros linguísticos do mundo, tendo produzido talvez 100 línguas, incluindo o esselen, de Carmel, e o osbispeno, de Santa Barbara - ambos hoje extintos. Permanecem apenas 50, e só duas ou três têm mais de 200 falantes.

Na América do Sul, centenas de línguas foram varridas depois da conquista espanhola, mas as 640 línguas remanescentes do continente ainda são notavelmente diversas. Uma maneira de avaliar esta diversidade é pensar em termos de stocks-groups (NT - grupos de pilares, suportes, linhagens, estirpes, reservas, etc.) de línguas relacionadas. ( Os stocks são um conjunto mais finamente sintonizado e abrangente de categorias do que as famílias linguísticas convencionais, como a indo-européia ou a sino-tibetana). Johanna Nichols, a linguista da University of California, Berkeley, que desenvolveu este conceito, descobriu que as línguas nativas sul-americanas se derivam de 93 stocks, em comparação com os seis stocks nativos da Europa, ou os 20 da África. (Nichols identificou 250 stocks para o mundo como um todo). Uns 80% das línguas nativas sul-americanas são faladas por menos de 10.000 pessoas, e 27% estão se aproximando da extinção. No Brasil, um dos países que é um ponto quente, 42 línguas já estão extintas, e a maioria das remanescentes estão rapidamente sendo substituídas pelo português. O país perdeu diversas "isoladas" - línguas que não tinham parentes contemporâneas. Na região do Amazonas, poucas línguas nativas têm mais de 500 falantes hoje, e muitas já chegaram a menos de 100. O karahawyana, por exemplo, tem 40 falantes remanescentes; o katawixi, 10; e o arikapu, seis.

Na África, o berço de 30% das línguas do mundo, acredita-se que 54 línguas estejam mortas e outras 116 estejam perto da extinção. Entre as línguas que se perderam está o aasax, anteriormente falado por um grupo de caçadores-coletores do norte da Tanzânia até 1976. Esta cultura foi assimilada à masai e outros grupos bantos. Na Etiópia, o gafat, uma língua nativa de uma região próxima do Nilo Azul (NT - região do limítrofe Sudão oriental), foi substituído pela língua nacional amharic, falada por 17.000.000 de pessoas.

Na Ásia, em torno de metade das línguas nativas têm menos de 10.000 falantes, a despeito do fato de que o continente é o lar de mais de 3.000.000.000 de pessoas. A lista de línguas asiáticas em perigo inclui o brokskat, limitado a 3.000 falantes na região Ladakh da Índia do norte; e o onge, a língua de uma comunidade tradicional de pescadores com 96 pessoas, nas ilhas Andaman. Nas Filipinas, a arta já está em suas três últimas famílias de falantes.

Nem a Europa está imune ao declínio, a despeito da dominância de suas línguas principais. O manx, falado um dia na ilha de Man, extinguiu-se em 1974 com a morte de seu último falante, Ned Maddrell. Quando o fazendeiro turco Tefvic Esenc morreu em 1992, também morreu o ubykh, uma língua da região do Cáucaso que tinha o mais alto número de consoantes jamais registrado.

É verdade que os dois últimos séculos testemunharam a emergência de diversas línguas novas, mas no geral estes desenvolvimentos pouco fizeram para mitigar a perda linguística geral. Algumas das novas línguas são completamente artificiais. O esperanto, por exemplo, foi introduzido em 1887. Seus inventores esperavam que ele pudesse se tornar uma língua universal, apesar de o terem derivado inteiramente de línguas indo-européias. Há também umas 114 línguas de sinais usadas por todo o mundo. Muitas delas adquiriram o poder inovador e expressivo das línguas naturais faladas, mas elas são usadas quase exclusivamente por mudos. Entre as novas línguas naturais estão 81 creoles, 17 pidgins e diversas línguas comerciais. Todas elas são produto de duas ou mais línguas, sendo uma delas quase sempre uma língua européia colonial. Os pidgins e as línguas comerciais, que têm gramáticas altamente simplificadas e vocabulários limitados, são sempre segundas línguas. Os creoles às vezes são suficientemente complexos para servir como línguas nativas.

Línguas Endêmicas Vulneráveis

Uns 80% das línguas do mundo são faladas apenas em seus países de origem, e virtualmente todas as línguas ameaçadas são endêmicas para um única área (isto é, não são faladas em nenhum outro lugar). Assim como com os seres vivos, a endemia aumenta a vulnerabilidade. Na Tailândia, por exemplo, represas construídas no rio Kwai no final da década de 1970 inundaram as aldeias do povo falante do ugong, forçando-o a migrar para áreas onde se fala o thai. Hoje em dia talvez permaneçam apenas uns 100 falantes desta língua isolada. Se o kutchi tivesse menos falantes, o terremoto de 2001 poderia facilmente tê-lo extinguido.

As línguas endêmicas são vulneráveis a muito mais do que apenas perturbações na paisagem. Uma língua pode desaparecer por diversas razões, mas como nota o acadêmico, biólogo, historiador e linguista Jared Diamond, "a maneira mais direta ... é matar quase todos os seus falantes". Foi assim que as línguas nativas da Tasmânia, por exemplo, foram eliminadas, à medida que os colonizadores britânicos estendiam seu controle sobre a ilha durante o período de 1803-35. A extinção do ubykh foi o resultado protelado de outro ato de genocídio, já que quase todos os seus 50.000 falantes foram mortos ou forçados a fugir depois da conquista russa do Cáucaso do norte na década de 1860.

Conformidade Linguística

Em outros lugares, os governos baniram as línguas das minorias em favor da conformidade linguística. Muitos países exigem que as crianças sejam educadas na língua dominante - uma política que tem o efeito (às vezes intencional) de desencorajar a aquisição da língua nativa. Até recentemente, por exemplo, os Estados Unidos exigiam que toda instrução em sala de aula das reservas americanas nativas fosse em inglês. Era ilegal ensinar havaiano nas escolas públicas da ilha até 1986 - apesar de ter sido ensinado em 150 escolas até 1880, antes da anexação americana. Na antiga União Soviética, o russo foi imposto como língua da educação e do governo durante toda a era soviética. Este esforço foi extremamente bem-sucedido. Como resultado, hoje em dia na Rússia 90% da população falam russo, enquanto que 70 das quase 100 outras línguas nativas do país estão perto da extinção. Muitas delas são línguas siberianas. O gilyak, por exemplo, é uma isolada siberiana com apenas 400 falantes. O udihe só tem 100 falantes - todos eles adultos que foram relocados para regiões onde se fala russo. Hoje o yugh é falado por apenas duas ou três pessoas.

Promover uma única língua é frequentemente visto como uma maneira de reforçar a identidade nacional, especialmente em países etnicamente diversificados que não foram unificados até a época colonial. Os governos da África Oriental favoreceram o swahili, por exemplo, que se impôs sobre línguas locais como o alagwa, do Quênia, e o zalamo, da Tanzânia. Entretanto, como notam os linguistas Daniel Nettle e Suzanne Romaine em Vanishing Voices (NT - Vozes em Desaparecimento), uma língua comum pouco garante uma unidade política. As dificuldades na Irlanda do Norte não são aliviadas pelo fato de que os dois lados falam inglês. Similarmente, o alto grau de uniformidade linguística da Somália parece não ter restringido a guerra civil crônica do país.

A perda linguística é obviamente uma forma de empobrecimento cultural, mas o dano se estende para muito além das comunidades imediatamente afetadas. Há muitas razões para que um amplo declínio linguístico seja assunto de preocupação de toda a humanidade. Em primeiro lugar, há a perda da própria linguística e de outras ciências que se valem dela, como a psicologia e a antropologia. Os linguistas já lamentam a minguante oportunidade de analisar as extraordinárias gramáticas e falas que estão encontrando nas línguas do mundo. Como ocorre com extinções de espécies, nós nem conhecemos o que estamos perdendo. As incertezas sobre como analisar as línguas nativas da Índia, por exemplo, levou a enormes disparidades na avaliação do número de línguas nativas deste país; a contagem vai de 400 a 1.600. A Índia pode ser um caso extremo com relação a isto, mas é difícil avaliar o quanto extremo, porque a maioria dos outros centros de diversidade linguística receberam ainda menos atenção. Na Papua Nova Guiné, por exemplo, só uma dúzia das mais ou menos 830 línguas foram estudadas em qualquer detalhe, e a despeito de sua proximidade, muitas delas são isoladas. Diamond escreve sobre suas viagens através da ilha: "A cada 10 ou 20 milhas eu passo por tribos com línguas tão diferentes como o inglês é diferente do chinês".

Uma segunda consequência geral dos declínios envolve nossa capacidade de entender nosso passado. As línguas mantêm importantes indícios da história de nossa espécie. Por exemplo, analisando palavras referentes a diversas plantações e implementos agrícolas, Nichols traçou o povo moderno do Cáucaso até os antigos fazendeiros do Crescente Fértil. Similarmente, a distribuição das línguas austronesianas está sendo usada para se mapear a migração pré-histórica de Taiwan para as ilhas do Pacífico aberto.

Finalmente, abrindo mão de nossa diversidade linguística nós estamos diminuindo nossa compreensão da diversidade biológica. Os habitantes de regiões com grande biodiversidade desenvolveram elaborados vocabulários para descreverem o mundo natural à sua volta - "guias de campo" coletivos que refletem o conhecimento ecológico de, em alguns casos, centenas de gerações. Os havaianos nativos, por exemplo, nomeavam as espécies de peixes por suas estações de acasalamento, usos medicinais e métodos de captura. Quando o biólogo marinho R. E. Johannes entrevistou um pescador palauuano nascido em 1894, ele descobriu que o ilhéu do Pacífico tinha nomes para umas 300 espécies diferentes de peixes, e conhecia os ciclos lunares de ovulação de diversas vezes o número de espécies que tinham sido descritas na literatura. Muitos destes tesouros de conhecimento local estão sendo substituídos por formas mais simplificadas de fala. Por exemplo, o pidgin inglês da Nova Guiné, muito popular entre os jovens, tem apenas dois nomes para descrever as aves - pisin bilong de (aves vistas de dia) e pisin bilong nait (aves vistas de noite) - ao passo que as línguas nativas da Papua Nova Guiné têm um extenso vocabulário para as diversas espécies de aves da ilha.

Algumas línguas estão lentamente retornando, ajudadas por grupos comunitários, governos e linguistas. Em 1999, quatro estudantes do Havaí graduaram-se no segundo grau exclusivamente em havaiano - os primeiros a fazer isto no século, desde a anexação americana. Sua realização foi possibilitada em grande parte pela Punana Leo, uma organização sem fins lucrativos dedicada a reviver a língua, que agora tem 1.000 falantes. O cornish, a língua de Cornwall (sudoeste da Inglaterra), tem sido revivido desde que seu último falante "natural" morreu em 1777, e hoje tem 2.000 falantes. O nacionalismo tem sido uma poderosa força para tais ressurreições, como no caso do gaélico e do hebreu. Durante o último século, o hebreu evoluiu de uma língua puramente escrita para ser a língua nacional de Israel, com 5.000.000 de falantes. No México, os zapatistas estão urgindo uma ressurreição das línguas maias como parte de sua campanha por autonomia local. Esforços também estão sendo feitos para reviver o gaélico, o navajo nos Estados Unidos, o maori na Nova Zelândia e diversas línguas nativas de Botswana.

É claro que a maioria das línguas não obterá este tipo de atenção. (Menos de quatro por cento das línguas do mundo têm qualquer status oficial em seu país de origem). Muitos peritos acreditam que a melhor maneira de conservar a riqueza linguística é incentivar a multilinguagem. Certamente, diferentes povos necessitam se entender, e é por esta razão que algumas línguas sempre serviram como línguas francas. Entre os falantes de línguas minoritárias, entretanto, a multilinguagem tem sempre sido a norma - meus avós em Bombaim são um bom exemplo. Além do mais, por causa das grandes variações linguísticas encontradas na Papua Nova Guiné, acredita-se que a maior parte da população do país fale cinco ou mais línguas.

Ainda hoje, estima-se que dois terços de todas as crianças ainda estejam crescendo em ambientes multilíngues. Remover as cadeias que foram colocadas em línguas minoritárias pode ajudar a herança linguística de muitos países. A Lei da Língua Saami da Noruega, de 1992, por exemplo, é um esforço para preservar a cultura das pessoas mais comumente conhecidas como "lapões" (um termo que eles próprios acham pejorativo). Ou ainda, por que o bretão, o calo e o corsicano não deveriam se tornar línguas oficialmente reconhecidas na França, a nação onde seus falantes tradicionalmente residem? A ressurreição destas línguas não seria grande ameaça ao status do francês como língua nacional, mas poderia ser uma ajuda substancial na preservação da vibração cultural do país.

Milênios de experiência humana estão empacotados nas diversas línguas do planeta, e esta diversidade linguística pode ser essencial para nossa saúde cultural como a diversidade biológica o é para nossa saúde física. Nenhuma língua é um mapa exato de outra, e cada uma é, em certo sentido, seu próprio mundo. Ao permitir que tantos destes mundos se alienem, podemos estar perdendo bem mais do que apenas palavras.

Payal Sampat é pesquisador associado do Worldwatch Institute, Washington, D.C.