|
Apostas
mentais
The
Economist, 13 de janeiro de 2005
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
Será
que o estudo do cérebro humano pode revolucionar a
economia?
Apesar
de Platão ter comparado a alma humana a uma biga puxada
por dois cavalos, razão e emoção, a economia
moderna tem se caracterizado por ser um espetáculo
de um só cavalo. Ela tem estado obsecada com a razão.
Em decisões de quanto produzir a quanto economizar
e investir, tem sido suposto que os seres humanos sejam calculistas
frios e racionais que visam seu próprio interesse.
Nos últimos anos, entretanto, evidências provenientes
da psicologia persuadiram muitos economistas de que a razão
nem sempre leva a melhor. Hoje, a julgar por uma série
de apresentações nas reuniões da Associação
Americana de Economia que ocorreram na Filadélfia neste
último fim de semana, um novo e promissor campo de
trabalho intitulado "neuroeconomia" parece estar
em boa posição para fornecer novas idéias
sobre como os dois cavalos produzem o comportamento econômico
trabalhando juntos..
A
atual irrupção de pesquisas é possibilitada
pelo surgimento de novas tecnologias como a imagem funcional
por ressonância magnética (fMRI), que permite
uma observação a cada segundo da atividade
cerebral. Em diversas universidades americanas, os economistas
e seus colaboradores das neurociências vêm colocando
sujeitos humanos nesses exames cerebrais e pedindo que executem
diversos jogos e tarefas econômicos.
Por
exemplo, a idéia de que os seres humanos calculam o
"valor esperado" de eventos futuros é básica
em muitos modelos econômicos. Se as pessoas vão
investir em ações ou fazer seguros depende de
como avaliam as chances de eventos futuros, considerando-se
os ganhos e as perdas em cada caso. Sua aposentadoria, por
exemplo, pode ter um valor esperado muito pequeno se houver
uma grande probabilidade de que ações e títulos
despencarão assim que você se aposentar.
Brian
Knutson, da Stanford University, fez recentemente um experimento
com tomografia cerebral para entender como os seres humanos
calculam coisas assim. Pedia-se aos sujeitos que desempenhassem
uma tarefa, que nesse caso era apertar um botão durante
um curto intervalo durante o qual uma certa forma aparecia
em uma tela. Em algumas experiências os sujeitos podiam
ganhar até $5 se tivessem sucesso, ao passo que em
outras teriam que se defender contra uma perda de $5. Antes
de apresentarem a meta, os pesquisadores indicavam aos sujeitos
o tipo de experiência que encontrariam.
A
atividade cerebral de certos sistemas neurais pareceu revelar
uma forte correlação com a quantidade de dinheiro
em questão. Além disso, as perspectivas de ganhos
e perdas ativavam partes diferentes do cérebro. Há
muito os economistas tradicionais pensavam - ou presumiam
- que a perspectiva de um ganho de $1000 poderia ser a compensação
para uma perda igualmente provável da mesma quantia.
Em experiências subseqüentes os sujeitos recebiam
outra indicação, que fornecia uma estimativa
sobre as chances de sucesso. Isto permitiu que os pesquisadores
identificassem regiões do cérebro utilizadas
para reconhecer uma quantia em dinheiro e para calcular a
probabilidade de ganhá-la (ou perdê-la). Tendo
sido identificadas essas regiões, há esperança
de que futuras investigações possam mensurar
como o cérebro age em situações como
selecionar ações e títulos, jogar ou
decidir participar de um plano de aposentadoria.
David
Laibson, um economista da Harvard University, acha que tais
experimentos enfatizam o importante papel que têm as
expectativas no bem-estar de uma pessoa. Os economistas quase
sempre supunham que o bem-estar da pessoa, ou "utilidade",
dependia de seu nível de consumo, mas é possível
que modificações no consumo, em especial aquelas
inesperadamente descendentes, como ocorria nesses experimentos,
podem ser especialmente desagradáveis.
O
trabalho de Laibson tenta resolver um enigma diferente: por
que as pessoas parecem aplicar taxas de desconto amplamente
diferentes a recompensas imediatas e de curto prazo em comparação
com recompensas que ocorreriam em futuro distante. As pessoas
tendem bastante a preferir, digamos, $100 agora a $115 na
semana que vem, mas ficam indiferentes entre $100 daqui a
um ano e $115 daqui a um ano e uma semana. Em um experimento
recente, registrado em nossa seção de ciências
em 30 de outubro, Laibson e colegas descobriram que a resposta
do cérebro a riquezas de curto prazo (neste casso,
cupons de $15 ou de $20) ocorre principalmente no sistema
límbico, uma região que comanda a emoção.
Em contraste, a perspectiva de recompensas em um futuro distante
ativa o córtex préfrontal, que é freqüentemente
associado à razão e ao cálculo. Desse
modo, escolher a gratificação econômica
imediata, gastando excessivamente com cartões de crédito
ou não poupando o suficiente apesar de saber que "as
coisas não são bem assim" pode ser um sinal
de que o sistema límbico está no comando. Políticas
governamentais como poupança forçada ou períodos
de "esfriamento" na compra de propriedades ou de
carros podem ser uma solução.
Existem
também confiança e fraude. Colin Camerer, do
California Institute of Technology, conduziu experimentos
nos quais os participantes eram tomografados em jogos de estratégia
com parceiros anônimos. Nesses jogos, o sujeito escolhe
suas próprias ações e também tenta
antecipar as escolhas do outro jogador. Quando os sujeitos
estão fazendo o melhor que podem para tentar "ganhar"
o jogo antecipando as jogadas do oponente, seus cérebros
tendem a apresentar um alto grau de coordenação
entre as regiões de "pensar" e "sentir".
O equilíbrio econômico, de acordo com isso, é
um "estado mental" identificável.
Não
deixe que lhe suba à cabeça
Alguns
neuroeconomistas asseguram que tais experimentos com tomografia
cerebral são o início de uma revolução
na economia. Os economistas não irão mais confiar
em modelos estatísticos rudimentares de como as pessoas
se comportam face a mudanças políticas como
um aumento da taxa de juros ou dos impostos. Ao invés
disso, serão capazes de examinar o cérebro diretamente
para prognosticarem comportamentos.
Um
dia desses, talvez, mas ainda há muito trabalho pela
frente. Identificar as partes do cérebro que controlam
as ações econômicas é uma coisa.
Tarefas mais difíceis incluem determinar como os sistemas
neurais trabalham em conjunto para criarem comportamento,
e conhecer a amplitude de variação dos padrões
cerebrais de pessoa para pessoa. Existem ainda antigas questões
como a do livre-arbítrio: sua falha em economizar para
a velhice é simplesmente uma escolha de seu estilo
de vida ou é causada por circuitos cerebrais danificados?
A neuroeconomia já está fornecendo conclusões
fascinantes. Mas a biga de Platão ainda será
uma atraente explicação por algum tempo.
|