| W.
H. AUDEN - O HOMEM DUPLO
(Por que Auden é um poeta indispensável
em nossa época)
Adam
Gopnik
The
New Yorker 23.09.2002
(Em www.newyorker.com/printable/?critics/020923crat_atlarge)
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
Quando
W. H. Auden morreu, em 1973, ninguém teria imaginado
que trinta anos depois ele voltaria como o poeta de
outra época, a nossa. Ele parecia estar infeliz
e desanimado naqueles dias, tendo fracassado em sua
volta a Oxford depois de duas décadas em Saint
Marks Place no East Village (NY - USA), e se tornou
o modelo do poeta moderno que tinha perdido o rumo e
estava encalhado numa ilha formada por suas próprias
frases de estimação. Os obituários,
apesar de extensos, em sua maior parte citavam seus
versos da década de trinta: "As I Walked
Out One Evening" (Quando Saí Uma Tarde)
ou "Lullaby" (Canção de Ninar)
["Lay your sleeping head, my love,/ Human on my
faithless arm..." - Debruce sua cabeça sonolenta,
meu amor, o que tens de humano em meu braço descrente...)
ou, mais descaradamente, a linha de "September
1, 1939" - "We must love one another or die"
(Temos que amar um ao outro ou morrer) - que ele claramente
retirou de seus princípios estabelecidos. O material
poético que ele produziu após sua migração
para a América em 1939 pouco foi levado em consideração
- Philip Larkin, anteriormente um discípulo,
escreveu uma rejeição brusca e ordinária
do mesmo como sendo "um guisado intelectual incoerente",
enquanto que o maior dos resenhadores americanos, Randall
Jarrell, outro apóstata, referiu-se ao estilo
tardio de Auden como o de um homem "que tinha se
tornado um moinho retórico moendo-se à
extinção nas profundezas do Limbo".
Entretanto,
no início de um novo século, ele é
um poeta indispensável. Mesmo as pessoas que
não lêem poemas frequentemente voltam-se
para a poesia em momentos em que ela é importante,
e hoje Auden é importante. Na década de
oitenta, seu lírico "Stop All the Clocks"
(Parem Todos os Relógios) tornou-se a elegia
da era da AIDS, vendido à beira das caixas registradoras
dos balcões das livrarias. Na década de
noventa, Robert Hughes abriu sua memorável polêmica
contra o pósmodernismo, "The Culture of
Complaint" (A Cultura da Reclamação),
com uma longa e admirativa citação do
oratório de Natal de Auden, "For the Time
Being" (Por Enquanto), onde o liberal rei Herodes
chora a perda do consenso racional em face do sectarismo
irresponsável. No ano passado Auden esteve por
toda parte, apenas pela força da vontade popular.
Dois de seus poemas sobre sofrimento e perplexidade
- "Musée des Beaux Arts" e "September
1, 1939" - tomaram vida nova após 11 de
setembro como corporificações de nosso
estado de espírito, postados na Web e nas paredes
do metrô. Até mesmo modelos da moda, e
não só modelos da moda, hoje chamam seus
filhos de Auden, assim como há dez anos os chamavam
de Dylan e posavam com eles na capa da Vogue.
O
mais esquisito é que os poemas de Auden quase
sempre estão dizendo o contrário do que
decidimos ouvir hoje em dia. "Stop All the Clocks"
foi escrito como um pastiche irônico e lampeiro,
à maneira de Noel Coward, de uma canção
de luto - a não ser mais levado a sério
como uma elegia ("Prevent the dog from barking
with a juicy bone"? - Evite que o cachorro lata
dando-lhe um osso suculento) do que "You're the
Top" (Você é o Máximo, música
de Cole Porter) é para ser levada a sério
como um poema de amor. A citação de "For
the Time Being" que Hughes usou eficazmente para
nos chamar a atenção para a bagunça
que o mundo se tornou na ausência da racionalidade,
a princípio queria demonstrar o oposto - a voz
racional, afinal de contas, é a de Herodes quando
ele ordena o massacre dos inocentes. E "September
1, 1939", longe de ser uma convocação
para uma consciência renovada após um período
de movimento à deriva, na verdade é uma
convocação para a ironia e para o retiro
apolítico, uma convocação para
que não se atente para nenhuma convocação.
Mas, depois de um certo ponto, os poetas não
podem ser mal lidos, não mais do que uma família
inteira pode interpretar mal um pai: os ruídos
de quem está chegando em casa são o homem,
a impressão acumulada é o poeta. O que
importa é o som que ele faz. O tom emocional
de Auden é o nosso tom, mesmo que seus significados
nem sempre sejam os nossos significados.
Aquele
tom de Auden, aquele que mais importa hoje, foi elaborado
em New York entre 1939 e 1948, quando Auden veio para
esta cidade e fez dela seu lar. Nesses nove anos ele
passou por uma extraordinária transformação
que implicava cada linha de seu rosto. Ele chegou como
o misterioso druida de rosto sem rugas da paisagem industrial
inglesa, o versejador marxista que enfeitiçou
uma geração, e emergiu como o beberrão,
enrugado e falastrão Auden que ficou. Ele ensinou,
amou e escreveu mais jornalismo do que parece possível,
e produziu quatro poemas longos que continuam sendo
o espantoso âmago de seu trabalho: "For the
Time Being", um oratório da Natividade em
roupagem moderna; "New Year Letter" (Carta
de Ano Novo), um poema abstrato filosófico em
dísticos swiftianos; "The Age of Anxiety"
(A Era da Ansiedade), uma écloga pastoral encenada
em um bar de New York e escrita em versos aliterativos;
e "The Sea and the Mirror" (O Mar e o Espelho),
um comentário sobre "The Tempest",
de Shakespeare. Até que enfim temos um grande
livro no qual podemos entrar na rica e produtiva fonte
de idéias, boas e más, de onde ele escavou
esses quatro poemas, e ele é o segundo volume
da edição completa de Princeton da prosa
de Auden, editada por Edward Mendelson e chamada simplesmente
de "Prose: Volume II, 1939-1948" ($45).
Os
ensaios são esmagadores quanto ao número
e variedade dos assuntos abordados, idéias arejadas,
letras maiúsculas empregadas, e sistemas inventados
para que seja comprovada uma pequena questão.
Quando nos lembramos de que eles são apenas o
muro de jardim no qual a hera dos poemas da década
cresceu, e que nem mesmo o muro todo está ali
- por exemplo, as palestras sobre Shakespeare recentemente
coletadas e a longa série de palestras de 1948
sobre as metáforas do mar na poesia Romântica,
"The Enchafèd Flood" (A Torrente Enraivecida
- NT - "enchafed" é um verbo normalmente
não dicionarizado que aparece, por exemplo, em
Shakespeare: "And yet as rough,/ Their royal blood
enchaf'd, as the rud'st wind,/ that by the top doth
take the mountain pine/ And make him stoop to the vale".
Cymbeline, iv, 2), não estão incluídas
- eles parecem um dos mais duradouros monumentos à
energia poética aliada ao propósito intelectual
de que podemos dispor. Os ensaios são também
uma lembrança de uma maior quantidade de locais
onde um poeta podia elaborar suas preocupações
em público há cinquenta anos. Estão
lá os hoje impensáveis ensaios curtos
para Mademoiselle, Harper's Bazaar e Vogue; há
os ensaios medianamente culturais um pouco mais longos
da Times Book Review; há peças longas
e suculentas para pequenas publicações.
Há montes de curtas resenhas para The Nation,
e há belos ensaios originais sobre Tennyson e
Kipling, em particular, mas em sua maior parte são
ensaios-resenhas. O resenhador recebe um livro do editor
sobre um assunto - Baudelaire, Tennyson - e lhe devolve
um ensaio, como sempre se fez, não sobre o que
o autor deveria pensar sobre o assunto, tivesse ele
sido sábio como o resenhador, mas sobre o que
o assunto deveria ter pensado sobre sua própria
experiência, se a tivesse entendido tão
bem como o faz o poeta. Não apenas é dito
ao biógrafo o que ele deveria ter pensado sobre
Tennyson e a era vitoriana; é dito a Tennyson
o que ele deveria ter pensado sobre a Rainha (Vitória).
Os
maneirismos de Auden podem ser extenuantes. Tudo tem
que ser explicado em tipologias, e quase sempre naquelas
letras maiúsculas. Existem duas classes eternas
de homens, seis tipos de amor erótico, quatro
tipos de heróis épicos. "Europeu,
Baudelaire herdou três conceitos principais sobre
o indivíduo humano, dois deles gregos e um judaico",
lemos, e temos pena de Baudelaire: e se ele quisesse
outros, armênios, ou simplesmente franceses? Um
pouco disso é uma idéia equivocada e pedante
de galhofa - as extravagâncias de Auden eram uma
segunda natureza dele, enquanto que o mau gosto que
ele aprendeu em New York (chamar o Todo Poderoso de
"Miss God") era por vontade própria
- mas a maior parte disso é sinal de uma necessidade
constante de por em ordem o que está bagunçado.
E, mesmo entre os absurdos, brilham as frases e as idéias.
"Para uma vida completa um homem requer seis tipos
de amor", diz ao leitor, e ele suspira e começa
a contar com os dedos no queixo. "Por sua mulher,
seus filhos, seus amigos, seus vizinhos, seu trabalho
e seu Deus". Mas então isso nos leva a:
"Em nossa época a secularização
da crença ... a atomização da sociedade...
tendem a privá-lo de todos menos o primeiro.
Se o homem mediano está hoje obsecado com sexo,
isso ocorre parcialmente porque lhe parece ser esta
a única esfera na qual ele é um agente
livre, na qual suas falhas e seus triunfos não
realmente dele; portanto, se ele falhar aqui, nada realizou
em sua vida". Os primeiros heróis de Philip
Roth não poderiam ter dito melhor.
Há
tantos assuntos, e tantas tipologias, que é surpreendente
ver a confiança com que Auden, ao final, volta
a um tema único: a reconciliação
da idéia cristã de que a salvação
depende do amor universal indiscriminado, detonando
categorias e comunidades, com a idéia clássica
de que apenas pequenos círculos de amigos e amantes
nos podem consolar pelos males do mundo. Todos os ensaios
(e também os poemas) poderiam ser reunidos sob
um só título: Como Amar Toda a Humanidade,
Enquanto Educadamente a Mantemos Fora de Nosso Jardim.
Auden
e Christopher Isherwood vieram para New York em 1939
- antes da guerra começar, mas quando ficou patente
que ela estava a caminho. Isso foi visto na Inglaterra
em geral como uma traição. Evelyn Waugh
inventou um par de poetas hipócritas de esquerda
em sua trilogia de guerra (The Sword of Honour Trilogy:
Men at Arms de 1952, Officers and Gentlemen de 1955,
e Unconditional Surrender de 1964) só para chatear
Auden e Isherwood. (Isso foi injusto. Quando a guerra
começou, Auden tentou ser útil). Em 1939,
Auden tinha uma posição que só
pode ser sugerida pela de Bob Dylan em 1967: inquestionavelmente
a voz de sua geração, ele também
escrevia num estilo tão misterioso e alusivo
que essa geração tinha dúvidas
sobre o que exatamanente eles deveriam estar falando.
Alguma coisa sobre guerra, dúvidas, sexo, e máquinas
de mineração...
Chegando
em New York Auden se modificou, e rapidamente. Ele descobriu
que era possível ganhar a vida de verdade, senão
escrevendo poesia, então sendo um poeta. Mais
importante, ele se apaixonou por dois jovens judeus,
Jesus de Nazaré e Chester Kallman, do Brooklyn,
e quis unificar os dois amores. Seu retorno ao cristianismo
começou com as lembranças da piedade católica
de sua mãe, e foi turbinado por suas experiências
na Espanha - onde, como ele explicou, apesar de ser
um republicano passional, ficou mais chocado do que
imaginaria ao ver todas as igrejas de Barcelona fechadas.
Muitos
poetas tinham virado cristãos nas décadas
precedentes, é claro; o exemplo de Eliot estava
ali diante dele. Mas o cristianismo de Auden era quase
o contrário exato do cristianismo de Eliot. Onde
Eliot havia procurado religião por ordem, autoridade
e tradição, Auden via nela um princípio
nivelador radical que eliminava as hierarquias e as
distinções entre as pessoas - espertas
e estúpidas, mesmo boas e más - e tornava
todas pecadores que estavam no mesmo barco. Ele escreveu:
A
fé católica [isto é, a fé
cristã ideal], ao mesmo tempo em que não
condena qualquer disposição de espírito
como incapaz de salvação, não exalta
qualquer delas como estando em menor perigo do que qualquer
outra. Do mesmo modo [um cristão] tem que fazer
sua confissão pública de crença
e m uma igreja que não esteja confinada a pessoas
de seu tipo, pessoas com as quais por natureza ele se
sinta em casa, pois nela não há judeu
nem alemão, ocidente ou oriente, menino ou menina,
esperto ou burro, patrão ou empregado, boêmio
ou burguês, nenhuma elite de qualquer tipo; de
fato não existem lá nem cristãos,
pois o cristianismo é uma maneira, não
um estado, e um cristão nunca é algo que
se pode ser, apenas algo que se reza para que se possa
tornar.
Auden
entendeu, com uma clareza reforçada pela distância
- ele viu as formas que o sangue estava criando, quando
bem de perto via-se apenas o sangue derramado - que
o caráter homicida da Europa tinha adotado uma
forma lógica. O que tinha acontecido não
era um surto de barbarismo, mas a consequência
de idéias modernas, particularmente a idéia
de que o mundo poderia se tornar perfeito com a eliminação
de imperfeições (os judeus, a burguesia).
Em
contraste, seu cristianismo não oferecia qualquer
era perdida da autoridade, mas uma série de momentos
visionários - aqueles momentos blakeanos em que
exigimos uma ordem e espiritualidade no universo que
implica uma ordem divina. (Edmund Wilson fez pouco da
fé de Auden, não totalmente sem razão,
como sendo "a mitologia e o animismo da infância").
Cada vez mais sua "visão" é
uma visão da graça relembrada. "Nós
estamos sempre entrando no Paraíso, mas só
por um momento", escreveu ele. E quando invoca
Jesus ele o faz com a linguagem das canções
de ninar e dos contos de fada. Em "New Year Letter",
concluindo seu próprio hino cristão, ele
escreve:
O
Unicorn among the cedars,
To whom no magic charm can lead us,
White childhood moving like a sigh
Through the green woods unharmed in thy
Sophisticated innocence.
(Oh
Unicórnio entre os cedros,
Para quem nenhum encantamento mágico pode nos
levar,
Branca infância movendo-se como um suspiro
Por entre os verdes bosques intocado em tua
Sofisticada inocência.)
Mas
este anseio pelo espiritual foi compensado ou pelo menos
complicado pelo sexo que conseguiu e pelos amigos que
fez naqueles anos. No início de 1939 ele se apaixonou
por Kallman, um poeta jovem e aparentemente muito bonito,
filho de um dentista do Brooklyn, e as primeiras circunstâncias
idílicas de seu caso inspiraram os mais belos
poemas modernos de amor: "Warm are the still and
lucky miles,/ White shores of longing stretch away"
(Tépidas são as calmas e venturosas milhas,/
brancas praias de anseio se estendem). Kallman era inteligente
e caloroso e venturoso, apesar de nada calmo, o que
acabou se tornando um problema. Ele era "out"
(revelava-se como homossexual) de um modo que Auden
nunca tinha visto antes em alguém que via como
um igual - sem dúvidas sobre si mesmo ou uma
auto-investigação irônica sobre
suas preferências sexuais. (Isherwood e Auden
também eram "out", mas sua externação
consistia em permanecer conspiratoriamente "in"
[num grupinho], com base no princípio inglês
de que nada é mais sexy do que uma sociedade
secreta). Em dois anos, Auden passou da furtiva sodomia
inglesa para a ópera do bel-canto e para o mau
gosto de Greenwich Village e de Fire Island. Ele e Kallman
acabaram "drag out" (NT - fantasiados, como
as drag queens) em Fire Island, com Auden vestido de
cardeal - um cardeal de Firbank (NT -[Arthur Annesley]
Ronald Firbank - 1886/1926 - escritor inglês conhecido
por seus romances satíricos, incluindo Vainglory,
de 1925, e Valmouth, de 1919), mas um cardeal.
Cercado
por outros émigrés, Auden, que até
então tinha sido muito inglês, em New York
tornou-se um europeu. Esta ilha o desilhou (NT - "Esta
ilha" é a ilha de Manhattan, bairro de NY
que é considerado a essência da cidade;
"desilhou" porque tirou de sua personalidade
a ilha que é a Inglaterra). Seus poemas para
Voltaire, Henry James e Freud datam todos dos dois primeiros
anos em New York. (Ao mesmo tempo ele se tornou muito
menos "moderno" , deixando para trás
seu gosto anterior pelo cinema, pela música pop,
"novos estilos de arquitetura", Pylons [torres
de alta tensão] e vidros da Bauhaus). Fire Island,
a New School, muito dinheiro da Vogue, e o amor do filho
de um dentista: para um inglês no estrangeiro,
deve ter sido o Paraíso.
Na
década de quarenta ele tinha consciência
de que o mundo era tão mau como sempre fora,
mas também tinha consciência de que ele
estava feliz como nunca estivera. Certa vez ele teve
que arrancar vários dentes, e disse que tinha
tido um sonho causado pela anestesia. "É
a segunda vez que sonho isso", disse ele depois.
"É sobre o Chester e a salvação.
Agora eu sei que a maldição não
vai me atingir. A margem de salvação é
sempre pequena ... mas está lá".
Chester e a salvação eram seu tema, e
eles iluminam por debaixo os ensaios da década
de quarenta. Ele era inteligente demais para confundir
os dois, mas estava apaixonado demais para não
achar que houvesse uma ligação familiar.
Isso deu ao cristianismo um toque curiosamente mundano.
A maioria dos poetas cristãos, de Dante a George
Herbert, aceitaram a coisa do outro mundo pelo menos
como uma premissa poética, ou uma pose; nossa
comunidade de crentes fica aqui, o seu mundo mau fica
lá. Mas Auden não queria fazer isso, porque
ele não sentia dessa maneira. O cristão
tradicional dizia foda-se o mundo e ame seu vizinho.
Auden dizia ame o mundo e foda-se o seu vizinho, um
pensamento relacionado mas distinto.
Mas
existe um embaraço nessa posição,
e dos grandes. O catolicismo é inclusivo; Fire
Island é exclusiva. Todos os círculos
religiosos são abertos, todos os círculos
de amigos são fechados. Auden tentou, conscientemente,
conciliar esse círculo muitas vezes, e as idéias
mais enérgicas dos ensaios envolvem em grande
parte esse esforço. A primeira e mais fácil
maneira de fazê-lo era a maneira como se faz habitualmente:
insistindo que o amor erótico e o amor egoísta
fornecem um lampejo do amor ideal - "eros"
se tornou "agape". Seu amor por Kallman fez
com que atualizasse sua visão até a confortante
noção burguesa de que o amor erótico
produz o amor do casamento, que produz a comunidade.
Mas logo esse ponto de vista passou a parecer complacente
- e o objeto amado comprovou-se infiel - então
ele foi substituído por um ponto de vista mais
romântico. O amor erótico só poderia
existir em seus próprios termos, e não
como uma etapa em direção à domesticidade
ideal, mas ainda era possível, acreditava ele,
apenas em um contexto cristão, mesmo que fosse
uma heresia cristã. O que era melhor do que nada,
mas continuava a ser uma heresia por mais que você
se atormentasse com ela.
Talvez,
então, não fosse o amante ideal, que de
qualquer modo dava suas voltinhas, mas a comunidade
ideal na qual ele dava suas voltinhas - e se o mundo,
independentemente de ser absurdo, fosse a comunidade
real de santos, por assim dizer, em trajes drag? Ele
trabalhou com essa idéia por uns momentos, mas
desistiu dela por ser muito exclusiva e muito presunçosa.
E se, ao invés, a conexão estivesse no
próprio corpo, no sexo; e se o corpo humano fosse
a metáfora de Deus e suas experiências
o mapa da vontade de Deus? O poeta inglês Charles
Williams explorou essa idéia, e Auden se agarrou
a ela antes mesmo da tinta secar nos poemas de Williams.
Mas isso levou direto de volta à primeira idéia,
a de que o sexo era a maneira divina de nos tornar religiosos,
o que parecia bastante duvidoso... Cada vez mais o poeta
procura uma metáfora suficientemente ampla para
conter sua verdade, suficientemente sábia para
convencer todo mundo de que ela é una e indivisível.
(Mendelson, em seu "Later Auden" - O Último
Auden - desmonta a vida e morte dessas tentativas com
grande simpatia).
A
verdade é que é que os dois termos jamais
poderiam se reconciliar numa discussão. Apenas
poderiam ser dramatizados em poesia. E o que finalmente
ocorre aos leitores dos ensaios de Auden é a
frequência com que aquilo que é exasperação
em sua prosa se torna eloquente em sua poesia: uma tensão
entre a comunidade - expressada no linguajar do charme
cosmopolita, urbano - e o amor ideal, expressado na
linguagem abstrata da teologia. A dramatização
é uma situação essencial que volta
em cada um de seus poemas: um pequeno grupo de amigos
ou agregados agarrando-se uns aos outros na necessidade
de conforto, birita, sexo e compreensão, conversando
sobre teologia no olho de uma tempestade, e enxergando
na infância uma vida melhor, o que eles reconhecem
ser uma esperança paradoxal - não há
volta, eles dizem. Eles podem ser os homens de rua de
"The Age of Anxiety" ou ser o grupo invocado
em "New Year Letter". Em "For the Time
Being", o mais bem sucedido desses poemas, eles
são ao mesmo tempo participantes da história
da Natividade e novaiorquinos bêbados.
Acima
de tudo, a tensão é embelezada nos poemas
pela relação entre a alegria virtuose
da versificação cômica e as sérias
idéias políticas e religiosas. Em "New
Year Letter", por exemplo, os dísticos swiftianos,
com seu ritmo razoável e bem-humorado palpitam
constantemente em oposição ao claramente
manifesto catálogo goyesco dos horrores da guerra:
Who, thinking of the last ten years,
Does not hear howling in his ears
The Asiatic cry of pain,
The shots of executing Spain,
See stumbling through his outraged mind
The Abyssinian, blistered, blind,
The dazed uncomprehending stare
of the Danubian despair,
The Jew wrecked in the German cell,
Flat Poland frozen into hell.
Quem,
pensando sobre os últimos dez anos,
Não escuta uivando em seus ouvidos
O asiático grito de dor,
Os tiros das execuções na Espanha,
(Quem não) Vê vagueando aos tropeços
através de sua mente indignada
Os abissínios, fustigados, cegos,
O olhar esgazeado inconcebível
Do desespero danúbio,
O judeu destroçado na cela alemã,
A ressecada Polônia transformada num inferno gelado.
O
efeito dessa fuga (NT - a fuga musical) de triste discurso
e métrica formal não é a ironia
brechtiana, mas a lucidez da era de Augusto: as dificuldades
de uma época tornadas momentaneamente mais leves
por serem vistas claramente.
Na
década de quarenta Auden tornou-se um novo tipo
de liberal. Ninguém viu melhor os limites do
liberalismo, mas o que o atraiu para o liberalismo foi
exatamente o fato de conseguir enxergar seus limites.
Seu liberalismo estava ligado aos seu cristianismo através
de seu pessimismo - sobre a perfectibilidade do homem
e as possibilidades de felicidade. "O homem não
é, como imaginavam os românticos, bom por
natureza", escreveu. "Os homens são
iguais não em suas habilidades e virtudes, mas
em sua tendência natural para o mal. Nenhum indivíduo
ou classe, portanto, por mais superior ... pode se arrogar
o direito absoluto de impor sua visão do bem
a eles. O governo deve ser democrático, o povo
deve ter o direito de cometer seus próprios erros,
e sofrer por eles". Em um surpreendente momento
de paralelismo, ele escreveu em 1940 o ensaio "Criticism
in a Mass Society" (A Crítica em uma Sociedade
de Massas) que antecipa o ensaio de Karl Popper que
logo seria publicado, "The Open Society and its
Enemies" (A Sociedade Aberta e Seus Inimigos),
e utiliza o mesmo vocabulário descritivo. "Há
dois tipos de sociedade: as sociedades fechadas e as
abertas", escreve Auden. "Quando usamos a
palavra democracia não deveríamos nos
referir a qualquer tipo particular de estrutura política;
tais assuntos são secundários. Nos referimos,
ou deveríamos nos referir, à sociedade
completamente aberta". (O vocabulário parece
se derivar em ambos os casos do filósofo Henri
Bergson que, entretanto, o utiliza de maneira muito
mais metafísica). Auden concordava com o sentido
popperiano de que as sociedades abertas são erigidas
mais sobre uma fé cética do que sobre
uma confiança insensata. "Podemos não
saber muita coisa, mas sabemos alguma coisa", ele
assegurava, "e ao mesmo tempo em que sempre devemos
estar preparados para mudar de idéia, devemos
agir da melhor maneira que pudermos à luz daquilo
que sabemos".
Auden,
em um fecundo fragmento, teve mesmo um lampejo do que
pode ser a única teoria racional da arte em uma
sociedade aberta: a arte, escreve ele, "é
um dos meios mais poderosos de se transformarem comunidades
fechadas em comunidades abertas, em deslocar as pessoas
da paixão para o desejo". Ao invés
de inflamar uma paixão, um desejo incoerente
e irracional, o artista o disciplina para que seja um
desejo, algo exato. Ele toma um sentimento e o transforma
em um pensamento - ou pelo menos um sentimento atravessado
pelo pensamento. Isso parece um exagero, mas é
a pura verdade. Por que tantos, após 9/11, voltaram-se
para os poemas de Auden senão porque sua leitura
os ajudou a transformar as paixões esmagadoras
da época - medo, raiva - em desejos específicos:
ter uma voz, afirmar uma verdade, falar com um amigo,
amar com mais sabedoria. "For art had set in order
sense / And feeling and intelligence, / And from its
ideal order grew / our local uderstanding too"
(Porque a a arte colocou em ordem o juízo, o
sentimento e a inteligência, e a partir de sua
ordem ideal fez crescer nosssa compreensão também).
Sua
crença nessa finalidade mais ampla da poesia,
supuseram muitas pessoas, levou-o a acenos episcopais.
Foi essa acusação que Jarrell e Larkin
levantaram contra ele - que na América ele tinha
se tornado um simples poeta retórico, apaixonado
pelo som de seus próprios cavalinhos de carrossel
e de suas abstrações. "Um convescote
de Letras Maiúsculas", foi como Jarrell
descartou as idéias de Auden, que acabavam sendo
um "vago misticismo humanitário", disse
ele. Ele tem alguma razão - Auden é abstrato,
e pode ser vago. Mas as abstrações criam
agregados. Auden não é um retórico,
é apenas intelectual. A imaginação
retórica tenta substituir as coisas reais por
categorias abstratas. O poeta intelectual tenta ligar
casos individuais para formar uma classe comum. O retórico
adere grande emoção ao que acaba sendo,
afinal de contas, apenas um nome. O intelecto dá
nomes a emoções reais. Quando Auden fala,
digamos, sobre a "Era da Ansiedade", ele está
dando um nome próprio a um sentimento comum.
A
acusação paralela, ainda que algo contraditória,
produzida pelas afirmações de Auden de
que a poesia "não faz nada acontecer",
referia-se ao fato de que, insistindo na visão
da poesia como um jogo, ele a reduziu a uma brincadeira.
Mas Auden não acreditava que a arte não
tinha valor. Ele acreditava que ela era inútil,
uma coisa muito diferente. Ela não salva vidas
ou modifica eleições. O que ela fazia
era ser poesia - oferecia uma alternativa às
insistências e às paixões mecanizadas
da sociedade de massas. Pode ser por isso que poetas
como Joseph Brodsky o veneravam, enquanto poetas como
Jarrell e Larkin, tão próximos em outros
assuntos, tornaram-se apóstatas. Auden, viam
os europeus orientais, escrevia sobre importantes assuntos
públicos, mas com uma voz que minava as ideologias.
Larkin e Jarrell, afinal, nunca tinham que se preocupar
com retórica; Auden era a figura mais retórica
que eles conheciam. Os europeus orientais sabiam como
soava a retórica vazia; eles a tinham ouvido
a cada dia de suas vidas. Reconheciam Auden como algo
melhor do que um poeta retórico. Reconheciam-no
como um poeta público.
Auden
equilibrava seus grupos da única maneira que
os novaiorquinos podem, que é vivendo em quarteirões
e falando em círculos. Poucos escritores conseguiram
algum dia fazer moradia em tantos níveis da vida.
Estar em toda parte ao mesmo tempo enquanto não
está indo a nenhum lugar em especial é
o que todo poeta faz, e Auden fazia isso. Enquanto os
jornalistas escrevem sobre o que as pessoas estão
discutindo em público e os romancistas sobre
o que estão conversando em particular, só
os poetas parecem ser capazes de mostrar que aquilo
que as pessoas discutem em público é idêntico
ao que elas conversam em particular, que aquilo que
elas discutem é a soma de nossas culpas, nossos
medos, ansiedades e esperanças. E apenas um punhado
de poetas mostram que aquilo que as pessoas estão
conversando em público e aquilo que elas estão
conversando em particular é sempre uma variante
do que dizem para si mesmas quando sozinhas, e isso,
Auden sabia, é "Eu queria não existir".
Se algumas vezes parece que ele está falando
conosco do alto de uma caixa enorme de sabão
numa praça muito grande, bem.... escutem. Ainda
podemos ouví-lo.
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