DISCOVER
Vol. 23 no. 6, de junho de 2002
O UNIVERSO EXISTE SE NÃO ESTIVERMOS OLHANDO?
Por Tim Folger
Tradução
de Pedro Lourenço Gomes
O
eminente físico John Wheeler diz que só
tem tempo suficiente para trabalhar em uma idéia:
de que a consciência humana dá forma
não só ao presente como também
ao passado.
O
mundo parece estar se agrupando pedaço por
pedaço nesta úmida e cinzenta manhã
ao longo da costa do Maine. Primeiro os abetos e os
brancos pinheiros que cobrem a High Island se materializam
a partir da bruma, então a paisagem rochosa,
e finalmente o mar, como se o mero ato de olhar os
tivesse trazido para a existência. E bem que
pode ser este o caso. Enquanto a brumosa criação
se desenvolve, o mais eminente morador da ilha discute
noções que ainda o deixam perplexo depois
após sete décadas de física,
incluindo seu sentimento visceral de que o próprio
universo pode estar constantemente emergindo de uma
névoa de possibilidade, de que habitamos um
cosmos que em parte nossas próprias observações
tornam real.
John
Wheeler, cientista e sonhador, colega de Albert Einstein
e Niels Bohr, mentor de muitos dos principais físicos
de hoje, e o homem que escolheu o nome de "buraco
negro" para descrever os objetos inimaginavelmente
densos e aprisionadores de luz que hoje são
considerados comuns por todo o universo, fez 90 anos
no último mês de julho. Ele é
uma das últimas figuras proeminentes da física
do século 20, um membro de uma geração
que investigou os mistérios da mecânica
quântica e descreveu as mais distantes regiões
do espaço e do tempo. Após toda uma
vida de contribuições fundamentais em
campos que vão da física atômica
à cosmologia, Wheeler passou a preocupar-se
em seus últimos anos com o que ele chama de
"idéias para idéias".
"Tive
um ataque cardíaco em 9 de janeiro de 2001",
diz ele. "É um sinal. Só me resta
uma limitada quantidade de tempo, de modo que vou
me concentrar numa questão: como pode haver
existência?"
Por
que o universo existe? Wheeler acredita que a procura
por uma resposta a esta pergunta implica inevitavelmente
em lutar-se com as implicações de um
dos mais estranhos aspectos da física moderna:
de acordo com as regras da mecânica quântica,
nossas observações influenciam o universo
em seus níveis mais fundamentais. O limite
entre um mundo objetivo "lá fora"
e nossa própria consciência subjetiva,
que parecia tão claramente definido na física
antes das sombrias descobertas do século 20,
torna-se indistinto na mecânica quântica.
Quando os físicos observam os constituintes
básicos da realidade - os átomos e suas
entranhas, ou as partículas de luz chamadas
fótons - o que vêem depende de como estabelecem
seu experimento. As observações de um
físico determinam se um átomo, digamos,
se comporta como onda fluida ou partícula sólida,
ou que caminho ele toma em viagem de um ponto para
outro. A partir da perspectiva quântica o universo
é um lugar extremamente interativo. Wheeler
admite a visão quântica e a segue.
À
medida que Wheeler descreve seus pensamentos ele entrelaça
os dedos por trás de sua grande cabeça,
recosta-se no sofá e olha para o teto ou talvez
para muito além deste. Está sentado
de costas para uma ampla janela. Lá fora a
bruma começa a se levantar, prometendo um quente
dia de verão. Em uma mesa perto do sofá
está uma rocha oval com uma das metades polida
em preto, de modo que sua superfície se assemelha
ao símbolo chinês do yin-yang. "Aquela
rocha tem uns 200 milhões de anos", diz
Wheeler. "Uma revolução de nossa
galáxia" (NT - revolution: movimento orbital
em torno de um ponto, especialmente enquanto se distingue
da rotação axial; um único ciclo
completo de tal movimento orbital).
Apesar
do rosto de Wheeler demonstrar preocupação
e sobriedade, torna-se quase infantil quando ele sorri,
como quando o faz enquanto estendo a mão para
ajudá-lo a sair do sofá, e ele diz:
"Ah, antigravidade". Wheeler é baixo
e corpulento, com ralos cabelos brancos. Continua
tendo uma demoníaca fascinação
por dispositivos que utilizem fogo - um entusiasmo
que lhe custou parte de um dedo quando era jovem -
e certa ocasião acendeu "chuveirinhos"
(NT - "Roman candles", cilindros "juninos"
que emitem bolas de fogo e chuvas de faíscas)
nos corredores de Princeton, onde se tornou professor
em 1938 e onde ainda mantém um escritório.
Em certo momento uma explosão ruidosa interrompe
nossa entrevista. Seu filho, que mora num penhasco
a poucas centenas de metros, disparou um pequeno canhão,
um presente de Wheeler.
Wheeler
é cortês até demais; um colega
o define como "um cavalheiro dentro de um cavalheiro".
Mas aquela aparência cortês também
oculta outra coisa: uma das mentes mais aventureiras
da física. Ao invés de recuar diante
de questões sobre o significado de tudo, Wheeler
adora o que é profundo e paradoxal. Foi um
dos primeiros defensores do princípio antrópico,
a idéia de que o universo e as leis da física
estão em sintonia para permitir a existência
da vida. Nas duas últimas décadas, entretanto,
ele vem seguindo uma idéia muito mais provocativa,
algo que ele chama de gênese por observação.
Nossas observações, sugere ele, podem
na verdade contribuir para a formação
da realidade física. Para Wheeler nós
não somos simples transeuntes de um estágio
cósmico; somos formadores e criadores vivendo
num universo participativo.
A
suposição de Wheeler é que o
universo é construído como um enorme
arco de retroalimentação (feedback loop),
um arco no qual nós contribuimos para a criação
corrente não só do presente e do futuro,
como também do passado. Para ilustrar esta
idéia ele concebeu o que chama de seu "experimento
da experiência retardada", que adiciona
uma surpreendente variante cósmica a um dos
fundamentos da física quântica: o clássico
experimento dos dois orifícios.
Este
experimento já é por si só muito
estranho, mesmo sem a torção extra de
Wheeler acrescentada a ele. A luz tem uma natureza
dupla. Algumas vezes a luz se comporta como uma partícula
compacta, um fóton; algumas vezes ela parece
se comportar como uma onda espalhada pelo espaço,
como se fossem ondulações em um lago.
No experimento, a luz - um jato de fótons -
brilha através de dois orifícios paralelos
e atinge uma faixa de filme fotográfico por
trás dos orifícios. O experimento pode
ser executado de duas maneiras: com detetores de fótons
ao lado de cada orifício, que permitem que
os os físicos observem os fótons à
medida que atravessam, ou sem os detetores, o que
permite que os fótons viajem sem ser observados.
Quando os físicos utilizam os detetores de
fótons, o resultado não é surpreendente:
observa-se cada fóton passar através
de cada orifício. Os fótons, em outras
palavras, agem como partículas.
Mas
quando os detetores de fótons são removidos,
algo estranho ocorre. Esperam-se ver dois grupos distintos
de pontos no filme, correspondendo aos locais atingidos
pelos fótons individuais em sua passagem aleatória
através de um orifício ou de outro.
Ao invés, aparecem faixas de luz e escuridão
alternadas. Tal padrão só poderia ser
produzido se os fótons estivessem se comportando
como ondas, com cada fóton individual se espalhando
e aparecendo através dos dois orifícios
ao mesmo tempo, como uma onda atingindo um ancoradouro.
As faixas brilhantes alternadas no padrão do
filme mostram onde as cristas daquelas ondas se sobrepõem;
as faixas escuras indicam que uma crista e uma cava
se cancelaram mutuamente.
O
resultado deste experimento depende do que os físicos
querem medir: se colocam detetores por trás
dos orifícios, os fótons agem como partículas
comuns, sempre pegando um caminho ou o outro, não
ambos ao mesmo tempo. Neste caso o padrão de
faixa não aparece no filme. Mas se os físicos
retiram os detetores, cada fóton parece pegar
os dois caminhos simultaneamente, como uma pequena
onda, produzindo o padrão de faixa.
Wheeler
introduziu uma versão em escala cósmica
deste experimento que tem implicações
ainda mais estranhas. Onde o experimento clássico
demonstra que as observações dos físicos
determinam o comportamento do fóton no presente,
a versão de Wheeler mostra que nossas observações
no presente podem afetar como um fóton se comportou
no passado.
Para
demonstrar, ele desenha o diagrama em um pedaço
de papel: imagine, diz ele, um quasar - uma jovem
galáxia muito remota e muito luminosa. Agora
imagine que há duas outras grandes galáxias
entre a Terra e o quasar. A gravidade de objetos pesados
como galáxias pode curvar a luz, como fazem
as lentes convencionais. No experimento de Wheeler
as duas grandes galáxias substituem o par de
orifícios; o quasar é a fonte de luz.
Assim como no experimento dos dois orifícios,
a luz - os fótons - do quasar podem seguir
diferentes caminhos, passando por uma galáxia
ou pela outra. Suponha que na Terra alguns astrônomos
decidem observar os quasars. Neste caso um telescópio
faz o papel do detetor de fótons no experimento
dos dois orifícios. Se os astrônomos
apontam um telescópio na direção
de uma das duas galáxias intervenientes, eles
verão fótons do quasar que foram defletidos
por aquela galáxia; obterão o mesmo
resultado observando a outra galáxia. Mas os
astrônomos também podem mimetizar a segunda
parte do experimento dos dois orifícios. Arrumando
cuidadosamente os espelhos, eles podem fazer os fótons
que chegam dos caminhos em torno das duas galáxias
atingirem um pedaço de filme fotográfico
simultaneamente. Luz e escuridão alternadas
aparecerão no filme, idênticas ao padrão
encontrado quando os fótons passaram pelos
dois orifícios.
Aqui
está a parte esquisita. O quasar pode estar
muito distante da Terra, com uma luz tão fraca
que seus fótons atingem o pedaço de
filme apenas um de cada vez. Mas os resultados do
experimento não se modificam. O padrão
de faixas ainda aparecerá, significando que
um fóton solitário não observado
pelo telescópio viajou pelos dois caminhos
em direção à Terra, mesmo se
estes caminhos estiverem separados por muitos anos-luz.
E isto não é tudo.
Na
hora em que os astrônomos decidem o que fazer
- se colocam o fóton em um caminho definitivo
ou se o fazem seguir os dois caminhos simultaneamente
- o fóton já pode ter viajado por bilhões
de anos, muito antes da vida aparecer na Terra. As
medidas feitas agora, diz Wheeler, determinam o passado
do fóton. Em um caso os astrônomos criam
um passado no qual um fóton toma os dois caminhos
possíveis do quasar para a Terra. Alternativamente,
eles retroativamente forçam o fóton
em um caminho reto na direção de seu
detetor, ainda que o fóton tenha começado
sua excursão muito antes de existirem detetores.
Seria
tentador descartar o experimento teórico de
Wheeler apenas como uma idéia curiosa, exceto
por uma coisa: ele foi demonstrado em laboratório.
Em 1984, físicos da University of Maryland
arrumaram uma versão de mesa do cenário
da escolha retardada. Usando uma fonte de luz e um
arranjo de espelhos para fornecer uma diversidade
de possíveis caminhos do fóton, os físicos
conseguiram mostrar que os caminhos que os fótons
tomaram não eram fixos até que os físicos
fizessem suas medições, apesar destas
medições terem sido feitas depois dos
fótons já terem deixado a fonte de luz
e começado seu circuito através da linha
de espelhos.
Wheeler
conjectura que fazemos parte de um universo que é
uma obra em andamento; somos pequenas parcelas do
universo olhando para si mesmas - e construindo a
si mesmas. não é só o futuro
que é indeterminado: o passado também.
E olhando para trás no tempo, mesmo até
a época do Big Bang, nossas observações
atuais selecionam uma de muitas possíveis histórias
quânticas para o universo.
Isso
significa que os humanos são necessários
para a existência do universo? Enquanto que
observadores conscientes certamente compartilham a
criação do universo participativo imaginado
por Wheeler, eles não são a única
nem a principal maneira pela qual os potenciais quânticos
se tornam reais. A matéria e a radiação
comuns têm os papéis dominantes. Wheeler
gosta de usar o exemplo de uma partícula de
alta energia liberada por um elemento radioativo como
o rádio na crosta terrestre. Quando isto acontece,
um daqueles muitos resultados prováveis se
torna real. Neste caso a mica, não um ser consciente,
é o objeto que transforma o que poderia ter
acontecido em o que acontece. A trilha de átomos
decompostos deixada na mica pela partícula
de alta energia se torna parte do mundo real.
A
cada momento, segundo Wheeler, o universo todo está
cheio de tais eventos, onde os possíveis resultados
de incontáveis interações se
torna real, onde a variedade infinita inerente na
mecânica quântica se manifesta como um
cosmos (NT - no sentido de um todo harmonioso e ordenado)
físico. E nós vemos apenas uma pequena
porção deste cosmos. Wheeler suspeita
que a maior parte do universo consiste de gigantescas
nuvens de incerteza que ainda não interagiram
ou com um observador consciente ou mesmo com um pedaço
de matéria inanimada. Ele vê o universo
como uma vasta arena que contém reinos onde
o passado ainda não foi fixado.
Wheeler
é o primeiro a admitir que esta é uma
idéia que expande a mente. Nem mesmo é
uma teoria de verdade, apenas uma intuição
sobre o que uma teoria final de tudo poderia ser.
É uma pista tênue, um indício
de que o mistério da criação
pode não estar no passado distante, mas no
presente vivido. "Este ponto de vista é
que me dá esperanças de que a pergunta
- Como pode haver existência? - pode ser respondida",
diz ele.
William
Wootters, um dos muitos alunos de Wheeler e agora
professor de física no Williams College, em
Williamstown, Massachusetts, vê Wheeler quase
como uma figura oracular. "Acho que fazer esta
pergunta - Como pode haver existência? - é
uma boa coisa", diz Wootters. 'Por que não
aguardar até ver para onde ela se expande?
Ver onde ela te leva. Ela pelo menos tem que gerar
algumas boas idéias, mesmo se a pergunta não
for respondida. John está interessado na importância
da medição quântica, como ela
cria uma realidade do que era uma simples potencialidade.
Ele passou a pensar nisso como o fundamento essencial
da realidade".
Em
sua preocupação com a natureza das medições
quânticas, Wheeler está abordando um
dos aspectos mais confusos da física moderna:
a relação entre as observações
e os resultados de experimentos em sistemas quânticos.
O problema se reporta aos primeiros dias da mecânica
quântica e foi formulado da maneira mais famosa
pelo físico austríaco Erwin Schrödinger,
que imaginou um experimento quântico do tipo
Rube Goldberg com um gato. (NT - Rube Goldberg [1873-1970]
era um desenhista americano de humor que criava dispositivos
complicados para executarem coisas simples. Seu desenho
mais famoso, talvez, é o do sujeito que ao
se sentar para tomar o café da manhã
pega o jornal, que puxa uma cordinha que abre a porta
da gaiola de um passarinho que segue uma trilha de
alpiste por uma plataforma. O desequilíbrio
da plataforma com o peso da ave faz com que ela caia
num recipiente com água, e as gotas espalhadas
fazem crescer uma flor que estica uma cordinha que
dispara uma arma de fogo. Um macaco que se assusta
com o tiro dá um pulo e bate com a cabeça
numa tábua fixada a uma lâmina que se
solta e corta a parte de cima do ovo, que cai na beira
do pires. O American Heritage Dictionary, que descreve
a história acima, relata que a edição
de 9 de novembro de 1978 da revista Nature traz a
frase "As orquídeas são máquinas
de Rube Goldberg; um bom engenheiro certamente se
sairia com algo melhor").
Ponha
um gato em uma caixa fechada, juntamente com um tubo
de vidro de gás venenoso, um pedaço
de urânio e um contador Geiger enganchado num
martelo suspenso sobre o tubo de gás venenoso.
Durante o decurso deste experimento, o urânio
radioativo pode ou não emitir uma partícula.
Se a partícula for liberada, o contador Geiger
irá detectá-la e enviar um sinal para
um mecanismo que controla o martelo, que atingirá
o tubo de gás e matará o gato. Schrödinger
perguntou: "O que se pode saber sobre o gato
antes de se abrir a caixa?"
Se
não houvesse algo como a mecânica quântica,
a resposta seria simples: o gato estaria vivo ou morto,
dependendo da partícula atingir o contador
Geiger. Mas no mundo quântico as coisas não
são tão diretas. A partícula
e o gato formam agora um sistema quântico que
consiste de todos os possíveis resultados do
experimento. Um resultado indica um gato morto; outro,
um gato vivo. Nenhum deles se torna real até
que se abra a caixa e se olhe lá dentro. Com
esta observação, uma sequência
consistente inteira de eventos - a partícula
lançada pelo urânio, a liberação
do gás venenoso, a morte do gato - se torna
real a um só tempo, dando a aparência
de algo que levou semanas para ocorrer. O físico
Andrei Linde, da Stanford University, acredita que
este paradoxo vai até o âmago da idéia
de Wheeler sobre a natureza do universo: os princípios
da mecânica quântica ditam severos limites
para a certeza de nosso conhecimento.
"Você
pode perguntar se o universo realmente existia antes
de você começar a olhar para ele",
diz Linde. "É a mesma pergunta do gato
de Schrödinger. E minha resposta seria que o
universo parece como se existisse antes que eu começasse
a olhar para ele. Quando você abre a caixa do
gato após uma semana, você vai encontrar
um gato vivo ou um pedaço fedorento de carne.
Você pode dizer que o gato parece que esteve
morto ou esteve vivo durante a semana toda. Da mesma
maneira, quando olhamos para o universo, o melhor
que podemos dizer é que parece que ele estava
ali há dez bilhões de anos". Linde
acredita que a intuição de Wheeler sobre
a natureza participativa da realidade está
provavelmente certa. Mas ele difere de Wheeler em
um ponto crucial. Linde acredita que os observadores
conscientes são um componente essencial do
universo e não podem ser substituídos
por objetos inanimados.
"O
universo e o observador existem como um par",
diz Linde. "Você pode dizer que o universo
está ali apenas quando existe um observador
que possa dizer, Sim, eu vejo o universo ali. Estas
pequenas palavras - parece que ele estava ali - podem
não ter muita importância na prática,
mas para mim, como ser humano, não sei em que
sentido eu poderia afirmar que o universo esteja aqui
na ausência de observadores. Estamos juntos,
nós e o universo. No momento em que você
diz que o universo existe sem quaisquer observadores,
eu não consigo tirar sentido disso. Não
posso imaginar uma teoria consistente de tudo que
ignore a consciência. Um dispositivo de gravação
não pode desempenhar o papel de um observador
porque: quem lerá o que está escrito
no dispositivo de gravação? Para que
possamos ver que algo acontece, e dizermos uns aos
outros que algo acontece, temos que ter um universo,
um dispositivo de gravação, e pecisamos
de nós. Não é o suficiente que
a informação seja armazenada em algum
lugar, completamente inacessível a qualquer
pessoa. É necessário que alguém
olhe para ela. Você precisa de um observador
que olhe para o universo. Na ausência de observadores,
nosso universo está morto".
Será
que a pergunta de Wheeler - Como pode haver existência?
- será respondida algum dia? Wootters está
cético. "Não sei se a inteligência
humana é capaz de responder a esta pergunta",
diz ele. "Nós não esperamos que
cachorros e formigas sejam capazes de imaginar tudo
sobre o universo. E na virada da evolução,
duvido que sejamos a última palavra em inteligência.
Podem haver níveis superiores mais tarde. Então
por que deveríamos pensar que estamos no ponto
em que podemos entender tudo? Ao mesmo tempo eu acho
muito bom que se faça a pergunta e se veja
até onde se pode ir antes de bater com a cara
na parede". Linde é mais otimista: "Você
sabe, se você disser que somos espertos o suficiente
para imaginar tudo, este é um pensamento muito
arrogante. Se você disse que não somos
espertos o suficiente, este é um pensamento
muito humilhante. Eu venho da Rússia, onde
há uma história de dois sapos em uma
lata de creme. Os sapos estavam se afogando no creme.
Não havia nada de sólido ali; eles não
podiam pular para fora da lata. Um dos sapos entendeu
que não havia esperança, e parou de
agitar o creme com as patas. Apenas morreu. Afogou-se
no creme. O outro não queria desistir. Não
havia absolutamente nenhuma maneira de mudar qualquer
coisa, mas ele continuou esperneando e esperneando.
E então, de repente, o creme virou manteiga.
Aí o sapo se pôs de pé na manteiga
e pulou para fora da lata. Então você
olha para o creme e pensa: 'Não há nada
que eu possa fazer com isso'. Mas algumas vezes, coisas
inesperadas acontecem".
"Estou
satisfeito porque o fato de que algumas pessoas antes
pensassem que esta pergunta - Como pode haver existência?
- era sem sentido não fez com que parássemos
de fazê-la. Todos nós aprendemos com
pessoas como John Wheeler, que faz perguntas estranhas
e dá respostas estranhas. Você pode concordar
com suas respostas ou discordar delas. Mas o próprio
fato de que ele faz estas perguntas e sugere algumas
respostas plausíveis - e implausíveis
- sacudiu as fronteiras do que é possível
e do que é impossível perguntar-se.
E
o que acha o próprio oráculo da High
Island? Algum dia chegaremos a entender por que o
universo chegou a existir? "Ou pelo menos como",
diz ele. "Por que é uma pergunta mais
complicada". Wheeler aponta para o exemplo de
Charles Darwin no século 19 e como ele forneceu
uma explicação simples - evolução
através da seleção natural -
para o que parecia um problema completamente intratável:
como explicar a origem e a diversidade da vida na
Terra. Será que Wheeler acha que os físicos
um dia poderão ter um entendimento similarmente
claro sobre a origem do universo? "Claro",
diz ele. "Claro".