PORQUE
JOÃOZINHO NÃO PODE DECODIFICAR
por
G. Reid Lyon, no Washington Post de 27.10.96
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
Elizabeth
McPike, da American Federation of Teachers (Federação
Americana de Professores), escreveu que se você
não aprende a aprender a ler, você simplesmente
não se dá bem na vida. A pesquisa que
conduzimos e financiamos no NICHD - National Institute
of Child Health and Human Development (Instituto Nacional
da Saúde Infantil e do Desenvolvimento Humano),
dos NIHs (National Institutes of Health (Institutos
Nacionais de Saúde, o equivalente ao Ministério
da Saúde no Brasil), deixa isto bem claro.
Diversos estudos longitudinais de longo prazo feitos
por cientistas financiados pelo NICHD demonstraram
que aproximadamente 17-20 % de nossas crianças
têm substanciais dificuldades em aprender a
ler.
Em
contraste com o que antes era convencional, descobrimos
que tanto meninas quanto meninos manifestam dificuldades
de leitura. Os meninos parecem ser identificados mais
prontamente pelo sistema de escolas públicas
com relação a dificuldades de leitura
porque tendem a ser um pouco mais ativos e barulhentos
do que suas colegas de mesma idade. Já que
tipicamente é o comportamento da criança,
mais do que suas dificuldades escolares, que leva
os professores a encaminhar os jovens aos serviços
de educação especial, as dificuldades
que as meninas têm na leitura são frequentemente
menosprezadas porque em geral elas são mais
bem comportadas e socialmente adaptadas.
Ainda
assim, à medida em que vemos estes garotos
e garotas crescerem, os efeitos negativos de suas
dificuldades de leitura aparecem com abundância
e clareza. Durante os primeiros anos de escola, quando
devem estar aprendendo a ler, suas dificuldades são
bastante embaraçosas para eles. Esta humilhação
precoce leva a uma predizível diminuição
em sua auto-estima e em sua motivação
para a vida escolar. Através dos anos tenho
me entristecido crescentemente com o fato de que estas
crianças não são tão flexíveis
como eu pensava que fossem. São ternos indivívuos,
que se frustram e se envergonham facilmente por causa
de suas deficiências em habilidades de leitura
assim que notam que muitos de seus colegas lêem
tão fluentemente. Durante os anos posteriores,
quando os jovens param de aprender a ler e começam
a ler para aprender, seu conhecimento e interesse
em áreas como literatura, ciência, matemática
e história são inibidos simplesmente
porque não podem adquirir os conceitos através
do texto impresso.
Mas
as consequências do fracasso na leitura vão
bem além destes resultados escolares. Entre
10-15 % das crianças com dificuldades de leitura
largam a escola antes do segundo grau. Dos que chegam
lá, menos de 2 % fazem quatro anos de faculdade,
apesar de muitos terem inteligência acima da
média. Uma pesquisa rápida com adolescentes
e jovens adultos com história de conduta delinquente
ou criminosa indica que metade deles têm dificuldades
de leitura, e taxas similares de fracasso na leitura
são vistas entre jovens com problemas de drogas.
Sem dúvida, a independência e o sucesso
ocupacional e vocacional estão comprometidos.
Assim, as dificuldades de leitura não são
apenas um problema educacional, mas também
um grande problema de saúde pública
e um desafio econômico. Foi por estas razões
que o NICHD tentou agressivamente procurar entender
melhor as dificuldades de leitura - descobrir o que
as causa, quanto tempo duram, e o que podemos fazer
para prevení-las e remediá-las. Nos
últimos 20 anos aprendemos muito, mas claramente
precisamos aprender mais.
O
Problema
Em
essência, podem-se ver quase todas as dificuldades
de leitura quando uma pessoa tenta ler as palavras
de um texto impresso. Os sinais são: uma elaborada
abordagem na decodificação ou "sonorização"
de palavras desconhecidas, e repetidas identificações
erradas de palavras conhecidas. A leitura é
hesitante e caracterizada por frequentes pausas e
recomeços, e múltiplos erros de pronúncia.
Se indagado a respeito daquilo que acabou de ser lido,
o indivíduo quase sempre tem pouco a dizer.
Não porque ele ou ela não seja inteligente
o bastante; de fato, muitas pessoas com dificuldades
de leitura são muito inteligentes. Em geral,
sua pouca compreensão existe porque levam muito
tempo para ler as palavras, o que deixa pouca energia
para a lembrança e compreensão do que
leram. Posto de maneira simples, sua leitura das palavras
é arrastada e imprecisa, e não automática
e fluente.
Mesmo
indivíduos com dificuldades relativamente "leves"
de leitura dirão que não lêem
por prazer. Por que ? Porque dá muito trabalho
até se transformar num prazer, e a leitura
simplesmente demora muito tempo, impedindo que o leitor
se interesse pelo material.
Infelizmente
não há nenhuma maneira de se contornar
o estágio de decodificar e reconhecer a palavra
na leitura. Uma deficiência nestas aptidões
não pode ser compensada apreciavelmente com
o uso do contexto para se adivinhar o significado
das palavras mal lidas, particularmente se a velocidade
de leitura for pequena e os erros abundantes. Em essência,
à medida que o propósito de aprender
a ler é tirar significado do texto impresso,
a chave para a compreensão do que é
lido se inicia com a leitura imediata e precisa das
palavras.
As
dificuldades na decodificação e identificação
das palavras, ainda que sejam o âmago da maioria
das dificuldades, não são o único
tipo de inaptidão de leitura que se pode observar.
Certamente algumas crianças podem computar
as palavras de modo muito rápido, mas ainda
assim têm dificuldades em compreender o que
leram. Este tipo de disfunção da compreensão
da leitura está sendo estudado hoje por diversos
cientistas financiados pelo NICHD, e estamos começando
a entender como melhor identificar e abordar o problema.
As
Causas
Se
a capacidade de tirar significado do texto impresso
depende de uma decodificação e identificação
precisa e automática das palavras, que tipo
de coisas estorvam a aquisição destas
habilidades básicas de leitura? Sem dúvida,
crianças pequenas que tenham exposição
limitada tanto à linguagem falada como ao texto
impresso antes de entrar para a escola estão
em risco de fracassar na leitura. Mas muitas crianças
cuja inexperiência linguística inicial
torna o aprendizado da leitura difícil podem
ser levadas a níveis apropriados de leitura
com uma instrução intensiva e científica
no jardim de infância e na primeira e segunda
séries.
O
mais intrigante são as dificuldades de leitura
observadas em crianças que têm inteligência
entre média e acima da média, uma robusta
experiência oral em linguagem e frequente interação
com livros - crianças frequentemente chamadas
de incapazes de aprender ou disléxicas. Muitas
crianças examinadas nos estudos financiados
pelo NICHD ouviam histórias que lhes eram lidas
regularmente desde a tenra infância. Seu vocabulário
de fala é bem desenvolvido, e quando se lê
para elas, rapidamente entendem e discutem o conteúdo
com ricos detalhes. Entretanto, quando se lhes pede
que leiam algo apropriado para sua idade, atrapalham-se.
Nesta
última década começamos a entender
porque. O inglês é uma língua
alfabética, o que significa que para ser lido
devem-se desvendar as relações entre
sons e letras. Assim, um bom leitor conhece as conexões
entre os mais ou menos 40 sons da língua e
as 26 letras de nosso alfabeto. Nossa pesquisa no
NICHD nos ensinou que para que um leitor iniciante
aprenda a mapear ou traduzir símbolos impressos
(letras e padrões de letras) em sons, ele deve
intuitivamente entender que a fala pode ser segmentada
e que as unidades segmentadas da fala podem ser representadas
de forma impressa. Esta compreensão é
chamada de "consciência fonológica",
e é um pré-requisito na decodificação
e no reconhecimento das palavras, o que, por sua vez,
são passos essenciais da compreensão
da leitura.
Por
que a consciência fonológica é
tão importante? Porque se as crianças
não puderem perceber os sons das palavras faladas
- por exemplo, se não puderem "ouvir"
o som at em fat e cat e perceber que a diferença
entre estes segmentos sonoros está no primeiro
som - terão significativas dificuldades em
decodificar as palavras com precisão e fluência.
Esta consciência da estrutura sonora de nossa
língua parece tão simples e comum que
presumimos que todos os jovens devem desenvolvê-la.
Mas muitos não fazem isso, e por algumas interessantes
razões. Diferentemente da escrita, nossa fala
não consiste de sons separados em palavras.
Por exemplo, enquanto uma palavra escrita como cat
tem três unidades letra-som, o ouvido percebe
apenas um som, não três, quando a palavra
é dita. Esta mistura e superposição
de sons num feixe de fala torna a comunicação
oral muito mais eficiente. Pense como demoraria para
se conversar se cada palavra que disséssemos
fosse retalhada em seus segmentos sonoros. Temos hoje
fortes evidências comprovadas de que não
é o ouvido que ajuda a criança a entender
que uma palavra falada como cat se divide em três
sons e que estes sons podem ser traduzidos como as
letras c-a-t, é o cérebro. E em muitos
indivíduos o cérebro não está
processando este tipo de informação
fonológica linguística de maneira eficiente.
Em
essência, as pesquisas em curso nos ensinam
que as dificuldades de leitura ocorrem com mais frequência
do que se supôs inicialmente, e que a maioria
destas dificuldades reflete uma disfunção
específica de linguagem que torna difícil
para algumas crianças entender que as palavras
faladas são compostas de unidades sonoras que
podem ser traduzidas em letras e padrões de
letras de modo que elas possam "desvendar"
palavras que nunca tenham lido antes. Sem a consciência
fonológica e a capacidade de rapidamente rotular
padrões de texto impresso com os sons apropriados,
as crianças não podem desenvolver um
conhecimento letra-som útil e continuarão
a adivinhar, mais do que decodificar e reconhecer
as palavras da página.
O
Elo Genético
Quando
crianças apresentam dificuldades de leitura
baseadas na linguagem, começa-se a pensar na
origem de tais dificuldades. Se os déficits
de leitura não puderem ser explicados por uma
falta de exposição a padrões
de linguagem e a materiais voltados para alfabetização
durante os anos pré-escolares, uma questão
que surge com frequência é se a genética
está envolvida. Isto é, as dificuldades
são herdadas? Além disso, as dificuldades
estão associadas ao modo de funcionamento do
cérebro? A resposta é um comprovado
sim para as duas perguntas, mas não em relação
a todos os leitores com dificuldades. Nos últimos
20 anos os dados obtidos em estudos com famílias,
gêmeos e padrões cromossômicos,
financiados pelo NICHD, fornecem fortes evidências
de que a dificuldade de leitura se multiplica nas
famílias, pode ser herdada, e bastante provavelmente
é causada porque um ou mais genes têm
um importante efeito sobre o desenvolvimento neural.
Os dados sugerem que estes efeitos genéticos
influenciam a transmissão de déficits
fonológicos que produzem as dificuldades de
decodificação, de reconhecimento de
palavras e de leitura descritas anteriormente.
Os mecanismos específicos através dos
quais os fatores genéticos predispõe
alguém a dificuldades de leitura não
estão bem esclarecidos. Uma possibilidade é
que as alterações genéticas influenciam
a natureza e a qualidade do desenvolvimento do cérebro
nos sistemas neurais que são responsáveis
pela identificação dos sons das palavras.
Diversos estudos recentes financiados pelo NICHD descobriram
que os déficits de consciência fonológica
estão associados a um funcionamento atípico
de regiões cerebrais específicas. É
claro que estas informações das pesquisas,
por enquanto, só podem ser vistas como sugestões.
Ainda assim, a recente explosão tecnológica
no desenvolvimento de métodos de neuroimagem
que podem ser utilizados com segurança em crianças
indica favoravelmente a compreensão científica
dos fundamentos neurobiológicos do desenvolvimento
e das dificuldades da leitura.
Estas
Crianças Podem Ser Ajudadas?
Na
verdade podem. Diversos estudos sobre intervenções
na leitura financiados pelo NICHD descobriram que
muitos jovens podem aprender a ler bastante bem se
uma instrução apropriada for ministrada
bem cedo. Nestes estudos longitudinais descobrimos
que a intervenção tanto precoce como
bem informada é crítica. Por que precoce?
Porque parece que a menos que as crianças sejam
identificadas e a intervenção apropriada
seja feita, lá pela segunda ou terceira séries,
suas chances de não ficar para trás
com relação à leitura são
reduzidas dramaticamente. Isto não quer dizer
que não dará certo com estudantes mais
velhos. Dará, mas o custo em tempo e dinheiro,
essencialmente, triplica.
Diversos
estudos do NICHD que estão sendo efetuados
em muitos locais de pesquisa registraram que um programa
de instrução equilibrado, composto de
instrução direta em consciência
fonológica, elementos fonéticos e leitura
contextual, é necessário para que haja
ganhos em habilidades de leitura. Para além
de qualquer dúvida, descobrimos que os métodos
de ensino que se baseiam em uma só filosofia,
como a "abordagem da linguagem total" ou
o "método fônico", são
contraproducentes para crianças que tenham
dificuldades de leitura. Mesmo que a criança
seja inteligente e o material de leitura seja interessante,
a criança não aprenderá a ler
a menos que entenda como o texto impresso se traduz
em sons. Do mesmo modo, idependentemente da consciência
fonológica e do conhecimento dos elementos
fonéticos que a criança tenha, ela não
desejará dedicar-se à leitura e à
escrita a menos que estas sejam significativas e interessantes,
e ensinadas de maneira excitante e vibrante.