Vozes
Antonio
Porchia
Tradução
das fontes e das citações selecionadas
: Pedro Lourenço Gomes
“Antonio Porchia nasceu na cidade de Conflenti,
que pertence à província da Calábria,
na Itália, no dia 13 de novembro de 1885. Seu
pai, Francesco Porchia, era casado com Rosa Cescio,
com quem teve sete filhos, três mulheres e dois
homens; Antonio era o mais velho. Quando seu pai morreu
em 1900, Porchia tinha apenas 15 anos. Sendo o mais
velho dos irmãos, assumiu a responsabilidade
de cuidar de todos. Sua mãe decidiu emigrar para
a Argentina, e Porchia sentiu-se no dever de encontrar
trabalho para ajudar a sustentar a família.
Ele
chegou à Argentina em 1902, aos 17 anos de idade,
e começou a trabalhar no porto de Buenos Aires,
onde remendava e tecia cestas. Depois de muitos anos,
mais precisamente em 1918, comprou com seu irmão
uma pequena impressora nas vizinhanças de San
Telo, onde fazia um pouco de tudo: era aprendiz de tipógrafo,
trabalhava na guilhotina cortando e finalizando cartões.
O negócio tipográfico melhorou por volta
de 1925, quando foi levado para outro local. Porchia
trabalhou nele até aproximadamente 1935. Em 1936
mudou-se para uma nova casa, nas cercanias de Saavedra,
e lá recebeu seus sobrinhos e sobrinhas órfãos.
Eles o tratavam como um pai. Porchia era de uma bondade
ilimitada e nunca se o ouviu falando mal de ninguém,
e hospedava muitos amigos em sua casa, alguns dos quais
eram pintores e outros escritores.
As
primeiras “Vozes” (Voces) foram publicadas
num pequeno jornal de esquerda chamado “La Fragua”
(A Forja). A primeira coleção de “Vozes”
apareceu em Buenos Aires, em 1943, numa edição
paga pelo próprio Porchia e que levava o selo
da Impulse Association. Teve uma edição
de 1000 cópias, quase nenhuma das quais foi vendida.
Seu primeiro e único livro publicado crescia
a cada edição com novas “Vozes”.
O trabalho de Porchia é totalmente composto por
pequenos aforismos, máximas morais ou filosóficas,
muitas das quais de alta hierarquia poética.
Em 1947, o escritor francês Roger Callois publicou
algumas Vozes na revista francesa “La Licorne”.
Em 1949 ele traduziu e publicou o livro “Voix”
na G L M Éditions-Paris em versão completa.
Callois ficou surpreso com a profundidade de “Vozes”.
Sua edição teve uma boa acolhida e foi
sucesso imediato; pessoas famosas como André
Breton e Henry Miller consideraram Porchia como um dos
grandes poetas da atualidade”.
(Em www.poeticas.com.ar/Directorio/
Poetas_miembros/Antonio_Porchia.html)
Diz
Roberto Juarroz (México, agosto de 1982):
“Ainda que de certo modo fosse um apaixonado pela
vida, Porchia viveu quase como se não vivesse.
E analogamente, ainda que fosse um amante do pensamento
e da palavra, escreveu quase como se não escrevesse.
Se unirmos isso a dois de seus traços mais notáveis,
a profundidade e a intensidade, talvez caiba suspeitar
nele essa peculiar distância interior onde, em
alguns raros homens, se hospedam com insólita
força o ser e o não-ser das coisas. É
provável que o reconhecimento dessa cortante
dialética essencial, como ponto de vista para
se interpretar o mundo e também como excepcional
experiência de sabedoria, constitua uma das chaves
fundamentais para se compreender ou receber essa obra”.
(Em www.poeticas.com.ar/Directorio/Poetas_miembros/Antonio_Porchia.html)
‘Vozes’
de Porchia, pirateadas do site
http://www.poeticas.com.ar/Biblioteca/Voces/vocesindice.html
(texto completo)
e de outros, para comparação editorial:
http://antologiapoetica.com.ar/poesia/index.php3?pag=3&nreg=129
www.elpelao.com/letras/3140.html
http://p101.ezboard.com/flibroadictosfrm9.showMessage?topicID=226.topic
etc.
VOCES / VOZES
Situado
en alguna nebulosa lejana hago lo que hago, para que
el universal equilibrio de que soy parte no pierda el
equilibrio.
Situado em alguma nebulosa longínqua, faço
o que faço para que o equilíbrio universal
de que sou parte não perca o equilíbrio.
Trátame
como debes tratarme, no como merezco ser tratado.
Trata-me como deves tratar-me, não como mereço
ser tratado.
Quien
me tiene de un hilo no es fuerte; lo fuerte es el hilo.
Quem me sustém por um fio não é
forte; forte é o fio.
Un
poco de ingenuidad nunca se aparta de mí. Y es
ella la que me protege.
Um pouco de ingenuidade nunca me deixa. É ela
que me protege.
Si
no levantas los ojos, creerás que eres el punto
mas alto.
Se não levantas os olhos, acreditarás
que és o ponto mais alto.
Han
dejado de engañarte, no de quererte. Y te parece
que han dejado de quererte.
Deixaram de enganar-te, não de querer-te. E te
parece que deixaram de querer-te.
Porque
eres lo mejor, en este mundo, crees que eres lo mejor
para este mundo. Nuestras creencias, ¡cómo
nos engañan!
Porque és o melhor, nesse mundo, crês que
és o melhor para esse mundo. Nossas crenças,
como nos enganam!
Sí,
esto está mal. Pero estuvo bien. Y ahora no comprendo
cómo pudo estar bien. Y ahora no comprendo cómo
puede estar mal.
Sim, isso está mal. Mas esteve bem. E agora não
entendo como pôde estar bem. E agora não
entendo como pode estar mal.
Éramos
yo y el mar. Y el mar estaba solo y solo yo. Uno de
los dos faltaba.
Éramos eu e o mar. E o mar estava só,
e eu eu estava só. Um dos dois faltava.
Dirán
que andas por un camino equivocado, si andas por tu
camino.
Dirão que andas por um caminho equivocado se
andas por teu caminho.
Porque
te quiero bien, quisiera poder hacerte creer cuanto
yo he dejado de creer.
Porque te quero bem, quisera poder fazer-te acreditar
o quanto deixei de acreditar.
Has
venido a este mundo que no entiende nada sin palabras,
casi sin palabras.
Vieste a este mundo que não entende nada sem
palavras, quase sem palavras.
En
plena luz no somos ni una sombra.
Em plena luz não somos nem uma sombra.
Si
no has de cambiar de ruta, ¿por qué has
de cambiar de guía ?
Se não vais mudar de caminho, por que tens que
mudar de guia?
Como
me hice, no volvería a hacerme. Tal vez volvería
a hacerme como me deshago.
Como me fiz, não voltaria a me fazer. Talvez
voltaria a fazer-me como me desfaço.
Quien
busca herirte busca tu herida, para herirte en tu herida.
Quem procura ferir-te procura tua ferida, para ferir-te
em tua ferida.
De
lo que yo esperaba, llegó mi costumbre de esperar.
Daquilo que eu esperava veio meu costume de esperar.
Qué
te he dado, lo sé. Qué has recibido, no
lo sé.
Que te dei, eu sei. Que tenhas recebido, não
sei.
Estás
triste, porque te abandonan y no estás caído.
Estás triste porque te abandonam e não
estás caído.
Ver
me cuesta abrir los ojos a cuanto no quisiera ver.
Ver me custa abrir os olhos para tudo que não
queria ver.
Si
no nos dieran nada quienes no nos deben nada, ¡pobres
de nosotros!
Se nada nos dessem aqueles que nada nos devem, pobres
de nós!
Se
va igualando todo. Y es así como se acaba todo:
igualándose todo.
Vai se igualando tudo. É assim como se acaba
tudo: tudo se igualando.
En
una alma llena cabe todo y en una alma vacía
no cabe nada. ¡Quién comprende!
Em uma alma cheia cabe tudo, e em uma alma vazia não
cabe nada. Vai entender!
Como
sólo me preparo para lo que debiera sucederme,
no me hallo preparado para lo que me sucede. Nunca.
Como só me preparo para o que deveria me acontecer,
não me encontro preparado para o que me acontece.
Nunca.
Un
hombre solo es mucho para un hombre solo.
Um homem só é muito para um homem só.
La
condenación de un error es otro error.
A condenação de um erro é outro
erro.
Mientras
creemos tener algún valor, nos hacemos daño.
Enquanto acreditamos ter algum valor, não causamos
dano.
Si
amas al sol que te alumbra, tal vez amas, y si amas
al insecto que te muerde, amas.
Se amas o sol que te ilumina, talvez ames. Mas se amas
o inseto que te morde, amas.
Creías
que destruir lo que separa era unir. Y has destruido
lo que separa. Y has destruido todo. Porque no hay nada
sin lo que separa.
Acreditavas que destruir o que separa era unir. E destruiste
o que separa. E destruiste tudo. Porque não há
nada sem aquilo que separa.
Sabes
tanto de mí y no me comprendes. Saber no es comprender.
Podríamos saberlo todo y no comprender nada.
Sabes tanto de mim e não me compreendes. Saber
não é compreender. Poderíamos saber
tudo e não compreender nada.
Porque
saben el nombre de lo que busco ¡creen que saben
lo que busco!
Como sabem o nome do que procuro, acreditam que sabem
o que procuro!
Creen
que moverse es vivir. Y se mueven, no para vivir. Se
mueven para creer que viven.
Acreditam que mover-se é viver. E movem-se, não
para viver. Movem-se para crer que vivem.
Y
si es tan veloz el cambiar de las cosas, cuando vemos
las cosas no vemos las cosas. Vemos el cambiar de las
cosas.
E se é tão veloz a mudança das
coisas, quando vemos as coisas não vemos as coisas.
Vemos a mudança das coisas.
A
veces, de noche, enciendo una luz, para no ver.
Às vezes, de noite, acendo uma luz, para não
ver.
Veía
yo un hombre muerto. Y yo era pequeño, pequeño,
pequeño… ¡Dios mío, qué
grande es un hombre muerto!
Via um homem morto. E eu era pequeno, pequeno, pequeno...
Meus Deus, como é grande um homem morto!
Te
deben la vida y una caja de fósforos y quieren
pagarte la caja de fósforos, porque no quieren
deberte una caja de fósforos.
Te devem a vida e uma caixa de fósforos e querem
te pagar a caixa de fósforos, porque não
querem te dever uma caixa de fósforos.
Mi
pobreza no es total: falto yo.
Minha pobreza não é total: falta eu.
El
hombre, cuando sabe que es una cosa cómica, no
ríe.
O homem, quando sabe que é uma coisa cômica,
não ri.
En
mi silencio sólo falta mi voz.
Em meu silêncio só falta minha voz.
En
todas partes mi lado es el izquierdo. Nací de
ese lado.
Em toda parte meu lado é o esquerdo. Nasci desse
lado.
No
me hables. Quiero estar contigo.
Não fale comigo. Quero estar contigo.
Cuando
me llaman «mío», no soy nadie.
Quando me chamam de “meu”, não sou
nada.
Hasta
el más pequeño de los seres lleva un sol
en los ojos.
Até o menor dos seres leva um sol nos olhos.
Para
librarme de lo que vivo, vivo.
Para livrar-me do que vivo, vivo.
He
perdido doble, porque también he ganado.
Perdi em dobro, porque também ganhei.
Por
salvar lo que hemos sido, nunca llegamos a ser lo que
somos.
Por guardar o que fomos, nunca chegamos a ser o que
somos.
Lo
bello se halla removiendo escombros.
Acha-se o belo removendo escombros.
Todos
pueden matarme, pero no todos pueden herirme.
Todos podem matar-me, mas nem todos podem ferir-me.
Y
sin ese repetirse eternamente de todo, de sí
mismo a sí mismo, a cada instante, todo duraría
un instante. Hasta la misma eternidad duraría
un instante.
E nesse eterno repetir de tudo, de si mesmo a si mesmo,
a cada instante, tudo duraria um instante. Até
a própria eternidade duraria um instante.
Cuando
lo superficial me cansa, me cansa tanto, que para descansar
necesito un abismo.
Quando o superficial me cansa, me cansa tanto que para
descansar preciso de um abismo.
Te
ayudaré a venir si vienes y a no venir si no
vienes.
Te ajudarei a vir se vens, e a não vir se não
vens.
Las
quimeras vienen solas y se van acompañadas.
As quimeras vêm sozinhas e se vão acompanhadas.
Nada
termina sin romperse, por que todo es sin fin.
Nada termina sem romper-se, porque tudo é sem
fim.
Todo
lo creado, sólo es lo que tú puedes crear
con todo lo creado.
Tudo o que foi criado é apenas aquilo que podes
criar com tudo que foi criado.
El
árbol está solo, la nube está sola.
Todo está solo cuando yo estoy solo.
A árvore está só, a nuvem está
só. Tudo está só quando eu estou
só.
Con
algunas personas mi silencio es total: interior y exterior.
Com algumas pessoas meu silêncio é total:
interior e exterior.
Sólo
algunos llegan a nada, porque el trayecto es largo.
Só alguns chegam a nada, porque o trajeto é
extenso.
Tu
dolor es tan grande que no debiera dolerte.
Tua dor é tão grande que não devia
doer-te.
Sí,
me apartaré. Prefiero lamentarme de tu ausencia
que de ti.
Sim, me separarei. Prefiro lamentar-me de tua ausência
do que de ti.
Y
si no hubiese luces que se apagan, las luces que se
encienden no alumbrarían.
E se não houvessem luzes que se apagam, as luzes
que se acendem não iluminariam.
Cuando
digo lo que digo es porque me ha vencido lo que digo.
Quando digo o que digo é porque fui vencido pelo
que digo.
¿Y
para qué debo arrepentirme de lo que he hecho,
si no puedo dejar de hacer lo que hago, que es lo que
he hecho?
E para que devo arrepender-me do que fiz, se não
posso deixar de fazer o que faço, que é
o que fiz?
Que
tuve todo lo sé, no por lo que tuve. Lo sé
porque después no tuve más.
Sei que tive tudo, mas não porque o tive. Sei
porque depois não tive mais.
Sí,
ya he oído todo. Ahora sólo me falta callarme.
Sim, já ouvi tudo. Agora só me falta ficar
calado.
Todos
mis pensamientos son uno solo. Porque no he dejado nunca
de pensar.
Todos os meus pensamentos são um só. Porque
nunca deixei de pensar.
Comprendo
que la mentira es engaño y la verdad no. Pero
a mí me han engañado las dos.
Compreendo que a mentira é engano e a verdade,
não. Mas a mim as duas enganaram.
Esos
muy diminutos seres que viven un corto momento, sabemos
que viven un corto momento, pero no sabemos si viven
cien largos años en el corto momento que viven.
Esses seres muito diminutos que vivem um breve momento,
sabemos que vivem um breve momento, mas não sabemos
se vivem cem longos anos nesse breve momento em que
vivem.
Un
infinito de cosas es infinitamente más que todas
las cosas y no es todas las cosas.
Um infinito de coisas é infinitamente mais do
que todas as coisas e não é todas as coisas.
Lo
que no se convierte en recuerdo no fue. Y tal vez no
es. Porque no fue.
O que não se transforma em lembrança não
foi. E talvez não seja. Porque não foi.
Lo
que hice o no hice, creo que pasó. Y lo que haré
o no haré creo que también pasó.
O que fiz ou não fiz, creio que passou. E o que
farei ou não farei, acho que também passou.
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