UM
EXEMPLO DE CREOLIZAÇÃO ENTRE AS
CRIANÇAS SURDAS?
(NT - CREOLIZAÇÃO: TRANSFORMAÇÃO
DE UMA LÍNGUA EM DIALETO)
Chistophe
Pallier 1999
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
Segundo
uma opinião bem disseminada, as crianças
aprendem sua língua materna essencialmente
por imitação. Uma criança
criada por pais que falem igbo aprenderá
o igbo, e não o japonês. Todavia,
a aquisição de uma língua
não pode se limitar à imitação;
de fato, as crianças frequentemente pronunciam
palavras ou frases que jamais entenderam. Por
exemplo, uma criança francesa poderá
produzir a palavra "umidificar" (significando
"tornado úmido") ou a frase "me
prejudiquei" sem que jamais as tenha entendido.
Estes
exemplos sugerem que a criança que aprende
uma língua faz hipóteses sobre a
gramática e deixa-se corrigir se elas estiverem
erradas. Entretanto, não importa que tipo
de hipótese não possa ser considerada:
estudos formais sobre a aprendizagem mostram que
na ausência de fortes dificuldades sobre
as hipóteses potenciais os algoritmos da
aprendizagem não podem convergir na direção
de uma linguagem estável [1]. Certos linguistas
e psicólogos estimam que as hipóteses
feitas pela criança sobre as regras possíveis
de uma língua humana são dificuldades
de caráter inato: as estruturas cerebrais
que sustentam a linguagem delimitariam o espaço
das línguas possíveis. Se isto for
verdade, podemos predizer então que uma
criança que receba pouca exposição
precoce a uma língua natural pode ainda
assim desenvolver uma linguagem a partir do pouco
que entendeu.
Os
dados recentemente publicados na Nature por Susan
Goldin-Meadow e Carolyn Mylander sustentam esta
hipótese[2]. Crianças de 3 a 5 anos
profundamente surdas, filhas de pais que escutam,
foram examinadas em quatro famílias americanas
e quatro famílias de Taiwan. Em cada família,
a mãe e a criança tinham desenvolvido
um sistema de comunicação por sinais,
"espontâneo", quer dizer, independente
das linguagens de sinais oficiais, às quais
nenhuma das crianças havia sido exposta
ainda. A produção gestual das mães
e das crianças foram comparadas. Confirmou-se
que as crianças introduziam em sua gesticulação
uma estrutura aparentada a uma linguagem, produzindo
uma proporção de frases complexas
mais importantes que suas mães (frases
complexas são aquelas que têm muitas
proposições). Por outro lado, a
proporção de frases complexas aumentava
à medida que a criança crescia.
Um outro fato digno de nota é que as produções
das crianças americanas e de Taiwan apresentavam
uma característica gramatical comum, inexistente
nas línguas faladas pelos pais: os sujeitos
dos verbos intransitivos (ex. João parte)
se comportavam como os objetos dos verbos transitivos
(ex. ele bate no menino). Mais precisamente, nas
frases com dois elementos, sete crianças
em oito colocavam os sujeitos ou objetos antes
do verbo; em troca, com mais frequência,
os sujeitos dos verbos transitivos (ex. João
come o queijo) eram suprimidos; em uma criança
americana que os conservava, estes sujeitos eram
colocados depois do verbo (ex. come João).
Este tratamento simétrico dos objetos dos
verbos transitivos e dos sujeitos dos verbos intransitivos
é uma característica das linguagens
chamadas de "ergativas", às quais
não pertencem nem o inglês nem o
mandarim. As produções das mães
também não respeitavam tão
sistematicamente como as de seus filhos esta característica.
Finalmente, as produções das crianças
americanas estavam mais próximas das produções
das crianças chinesas do que das produções
de suas próprias mães. Isto sugere
que as crianças não imitavam simplesmente
suas mães, mas que criavam, a partir de
dificuldades inatas (NT - é dificuldade
mesmo: contraintes sendo que podem ser imposições),
novas linguagens de sinais.
Este
resultado deve ser posto em paralelo com o fenômeno
da creolização (NT - adaptação
regional de línguas coloniais como inglês,
francês, alemão, etc.)estudado por
Bickerton[3,4]. Os creoles são línguas
vindas de "pidgins" (NT- mistura da
língua local com a colonial) , "sabirs"
(NT - "sabir" é uma linguagem
misturada de árabe, francês, italiano
e espanhol falada no norte da África) empregados
para comunicação por adultos de
diversas origens linguísticas (tipicamente
escravas). Ainda que os pidgins sejam línguas
"simplificadas" com poder de expressão
limitado, os "creoles" , inventados
pelas crianças cujos pais falam pidgin
são línguas homogêneas, nas
quais encontramos fenômenos sintáticos
semelhantes aos de outras linguagens naturais.
Bickerton sustenta que todos os "creoles"
do mundo, de origens históricas variadas,
apresentam características comuns, como
a existência de três partículas
invariáveis fazendo o papel de auxiliar,
ou a distinção entre o fato acontecido
e o não acontecido. Como esses "creoles"
evoluíram independentemente, é razoável
supor-se que estas semelhanças provêm
de obliquidades inatas das crianças para
certas hipóteses gramaticais que estão
para além do processo de aprendizagem.
As
crianças surdas estudadas no artigo da
Nature desenvolveram com suas famílias
sistemas de comunicação através
de sinais espontâneos. Como no caso dos
"creoles" , as produções
das crianças são mais sistemáticas
e mais complexas do que as dos pais. Claramente
seria interessante fazer uma comparação
detalhada entre os "creoles" falados
e os sistemas de sinais espontâneos. As
semelhanças que não pudessem ser
explicadas pela aleatoriedade seriam um forte
argumento a favor da teoria de que as crianças
nascem com uma disposição natural
para inventar linguagens diante de dificuldades
inatas.
1.
OSHERSON, D.N. , STOB, M. , WEINSTEIN, S. Systems
that learn. Cambridge, 1986.
2. GOLDIN-MEADOW, S. , MYLANDER, C. Spontaneous
Signs Systems created by Deaf Children in Two
Cultures. Nature 1998; 391: 279-281.
3. BICKERTON, D. Les Langues Créoles. Pour
la Science out/97
4. BICKERTON, D. Roots of Language. Ann Erbor:
Karoma Publishers, 1981.
5. DIXON, R. Ergativity. Cambridge University
Press, 1994.