Texto
pirateado de:
VLADIMIR NABOKOV, Editor's Introduction
by Page Stegner, April 22, 1968
in: The Portable Nabokov (Penguin Books)
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
(...)
4. Quando Nabokov era um menino, ele descobriu que
a série triádica de Hegel era simplesmente
uma expressão da "espiralidade essencial
de todas as coisas em sua relação
com o tempo". Ele não acredita no tempo,
pelo menos não em qualquer concepção
comum do termo. Quando a espiral se desenrola, as
coisas mudam de curso para novas dimensões
- o espaço para o tempo, o tempo para o pensamento,
o pensamento para uma nova dimensão espacial.
Sua descrença no tempo vem, sem dúvida,
daquela infinidade de sensações que
existem na imaginação criativa, e
quando ele discute o assunto ele geralmente o associa
à imaginação e à memória.
"Quando falamos de uma vívida lembrança
individual", diz ele, "estamos fazendo
um cumprimento ... à pré-visão
misteriosa de Mnemosyne por termos armazenado este
ou aquele elemento que a imaginação
criativa pode usar quando combiná-lo com
lembranças e invenções posteriores.
Neste sentido, tanto a memória como a imaginação
são uma negação do tempo".
O
muro artificial entre o que Fyodor, em The Gift,
chama de "o abismo aquático do passado
e o abismo aéreo do futuro" é
uma preocupação constante de Nabokov.
O tempo é central nos contos "Lance"
e "Time and Ebb", e no poema Pale Fire;
ele figura amplamente em muitos dos romances, mais
particularmente Invitation to a Beheading e Bend
Sinister; Humbert Humbert, Fyodor e John Shade são
todos descrentes do tempo e comentam sobre a irrealidade
do conceito; Speak, Memory contém muitas
passagens que expressam a concordância de
Nabokov com eles; e o romance no qual ele está
trabalhando agora, Ada, é estruturado, disse
ele, por um ensaio sobre "a textura do tempo".
Sua
crença na espiralidade infinita das coisas
em sua relação com o tempo tem diversos
efeitos sobre sua ficção. Para começar,
ela parece sugerir um tipo de imageria metafísica,
uma que constantemente liga os mais disparatados
objetos a fim de descrever a experiência em
termos de seus bizarros ecos ou de suas reflexões
em um espelho curvo. Em Bend Sinister, por exemplo,
há uma passagem que descreve dois antiquários
que desistiram sem luta diante de seu opressor político,
Paduk.
...enquanto
o carro pára afinal e o corpulento Beuret
se esgueirava para fora no velório de sua
barba, o ruminador anônimo que tinha estado
sentado atrás dele foi observado dividindo-se
em dois, produzindo através de súbita
geminação Gleeman, o frágil
Professor de Poesia Medieval, e o igualmente diminuto
Yanovsky, que ensinava métrica poética
eslava - dois homúnculos recém-nascidos
agora se secando no pavimento paleolítico.
A
separação destes dois cavalheiros
à medida que emergem do carro implica em
sua grotesqueria essencial por associá-los
a um inseto. Eles são como uma mariposa emergindo
de seu casulo. "Homúnculos" reforça
a já estranha imagem, tornando-os anões,
e o "pavimento paleolítico" no
qual se secam sugere tanto a direção
arcaica de suas preocupações intelectuais
como a evolução invertida da humanidade
no "novo estado" estabelecido por Paduk.
O passado e o presente se fundem.
Ou
Pnin, quando ele volta para casa após ter
feito arrancarem todos os seus dentes, se dá
conta de como ele passou a gostar deles.
Sua
língua, uma foca gorda e lustrosa, costumava
rolar e escorregar com tanta felicidade por entre
as rochas familiares, verificando os contornos de
um reino estropiado mas ainda seguro, mergulhando
de cavernas para recessos, escalando as proeminências,
aconchegando aquele entalhe, encontrando um farrapo
de alga na mesma fenda...
Nada
é deixado para trás senão uma
"terra incognita de gengivas", e quando
ele consegue a placa nova para a dentadura ele se
vê como um "crânio fóssil"
que acabou de ser arrumado com as "mandíbulas
ridentes de um perfeito estranho". Podem-se
preencher páginas com exemplos semelhantes,
mas o que é tão notável sobre
estas passagens é a imaginação
solta que as criou; uma imaginação
que procura o mais possível transcender as
limitações do mundo conscientemente
percebido, para recombinar e recriar os fenômenos
sensoriais em uma visão fresca e original
da existência.
O
"desenrolar das coisas em espiral" também
parece sugerir a Nabokov o projeto básico
da maior parte de sua ficção. Muitos
de seus romances e contos fazem uma volta de 360
graus, terminando onde começaram ou, com
efeito, nem mesmo terminando. Nós deixamos
Humbert Humbert sentado na prisão onde o
encontramos. Ao final de The Real Life of Sebastian
Knight nós corremos com V para o leito de
morte de seu irmão, mas é tarde demais.
De fato, ele morreu antes do livro começar,
e estamos de volta ao ponto a partir do qual começamos.
Nós encontramos o narrador de Pnin no último
capítulo, quando ele vai para Waindell tomar
o emprego de Pnin. Na última página
ele observa nosso herói deixando a cidade:
"Então o pequeno sedan... engasgou subindo
pela estrada iluminada, que alguém poderia
ter fabricado estreitando um fio de ouro na suave
névoa na qual colina após colina fazem
beleza à distância, e onde simplesmente
não há como adivinhar que milagre
poderá acontecer". Ele volta para a
casa de seu anfitrião, o mímico pniniano
Jack Cockerell, e nós o deixamos no ponto
em que ele está para ouvir uma história.
"E agora", diz Cockerell, "vou lhe
contar a história de Pnin chegando no endereço
do Cremona Women's Club e descobrindo que tinha
levado a palestra errada". Estamos de volta
ao evento que iniciou o romance - a jornada de Pnin
em um trem errado para fazer uma palestra sobre
política russa no Cremona Women's Club. Ao
final de Bend Sinister e Invitation to a Beheading,
os personagens de bonecos se dissolvem de volta
na consciência que os inventou e somos lançados
em uma percepção de que estivemos
simplesmente testemunhando outra volta da imaginação
infinitamente espiralante. De fato, em toda a obra
de Nabokov somos constantemente lembrados de que
estamos observando um desempenho literário
e que a única "realidade" sobre
a qual podemos estar certos é a realidade
da mente criadora expressando-se de uma maneira
altamente articulada e jocosa.
Nós
encontramos a mesma "espiralidade" controlando
passagens específicas assim como a estruturas
de romances inteiros. No conto "First Love"
há uma típica relembrança lírica
do último encontro com uma garotinha, uma
relembrança tão estreitamente entrelaçada
e auto-suficiente que se torna um poema em prosa
no meio da narrativa.
Ela
levava um arco e um bastão curto para guiá-lo,
e tudo dela era extremamente apropriado e cheio
de estilo à moda outonal, parisiense, tenue-de-ville
pour filletes. Ela pegou da mão de sua governanta
e colocou nas mãos de meu irmão um
presente de despedida, uma caixa de amêndoas
cobertas com chocolate, que eram, eu acho, dirigidas
somente para mim; e repentinamente ela se foi, batendo
seu cintilante arco através da luz e da sombra,
sempre à volta de uma fonte engasgada com
folhas mortas, para perto de onde eu estava. As
folhas se misturam em minha memória com o
couro de seus sapatos e luvas, e havia, lembro-me,
algum detalhe de sua roupa (talvez um laço
em sua capa xadrez, ou um padrão em suas
meias) que se assemelhava então a uma espiral
de arco-íris em uma bola de gude. Parece
que ainda estou segurando aquele feixe de iridescência,
sem saber exatamente onde se encaixava, enquanto
ela corre com seu arco cada vez mais rápido
à minha volta e finalmente se dissolve entre
as sombras sutís lançadas sobre o
cascalho do caminho por entre os arcos entrelaçados
de sua cerca baixa e arqueada.
Nota-se
imediatamente o modo associativo de progressão
nesta passagem, um dispositivo impressionista para
expressar e intensificar um estado de espírito.
A menina batendo seu arco à volta da fonte
cheia de folhas mortas sugere a cor dos sapatos
e luvas de couro que estão rebrilhando em
volta da imagem central. Estes artigos de vestuário
(articles of clothing) relembram outra parte do
que ela usava, um laço ou o padrão
das meias, que por sua vez sugerem as cores espiraladas
aprisionadas em uma bola de gude. "Uma espiral
colorida em uma pequena bola de vidro, é
assim que vejo minha vida", escreve Nabokov
em Speak, Memory, e ao mesmo tempo que uma afirmação
deste tipo não ocorre na passagem de "First
Love", toda a noção da "espiralidade
essencial de todas as coisas em relação
ao tempo" está implícita no movimento
associativo da mente do narrador, na garota rodopiante
que corre cada vez mais depressa à volta
da fonte até que ela se dissolve em sombra.
Está igualmente implícita no ar de
devaneio com o qual o narrador cerca sua lembrança
do passado. O arco, a fonte, a menina circulante,
os "arcos entrelaçados" da "cerca
baixa e arqueada" combinam-se num tipo de imagem
central em torno da qual revoluteam as associações
do narrador, e a passagem em sua integralidade se
torna um efetivo símbolo para aquele momento
de beleza intemporal que Nabokov tanto ama.
Para
Nabokov toda poesia e prosa são uma tentativa
de "tentar expressar a própria posição
com relação ao universo cingido pela
consciência". O momento fugidio, o mundo
fragmentado e impenitente do impressionista, tornam-se
para Nabokov um mundo no qual os fenômenos
estão tematicamente ligados em uma relação
espiral com o tempo, e que ele tenta representar
estendendo os "braços da consciência"
tanto quanto possível para incluir um singular
ponto do tempo.
...
um carro (placa de New York) passa pela rua, uma
criança bate a porta de tela em um alpendre
vizinho, um velho boceja em um pomar enevoado da
Turquia, um grânulo de areia cinzenta é
rolado pelo vento em Vênus, um Doutor Jacques
Hirsch em Grenoble põe seus óculos
de leitura, e trilhões de outras trivialidades
ocorrem - todas formando um organismo instantâneo
e transparente de eventos, do qual o poeta (sentado
em uma cadeira de jardim em Ithaca, NY) é
o núcleo.
O
fundamento desta "sincronização
cósmica" é a capacidade do poeta
de observar e registrar instantaneamente e quase
inconscientemente a diversidade de suas cercanias,
e é uma capacidade (o senso singular do artista)
que permite que Nabokov não apenas recrie
imagens como as transforme em uma visão completamente
original do mundo fenomênico.