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Artigos Traduzidos >> "LORDS AND OWNERS": NABOKOV'S SEQUESTERED IMAGINATION


"LORDS AND OWNERS": NABOKOV'S SEQUESTERED IMAGINATION
William Monroe
The Critic's Unseemly Rush

"Senhores e Proprietários": A Imaginação Sequestrada de Nabokov
A Arremetida Indecorosa dos Críticos

Tradução: Pedro Lourenço Gomes

Nabokov concordaria com Carlyle que o artista heróico participa de algo transcendente e não-aculturado, de que a compreensão da cultura - seu sistema de dominação e controle - não pode conter obras de uma imaginação sequestrada. E certamente os engenhosos desempenhos literários de Nabokov são dirigidos para "partes" da mente, como diriam os Românticos Alemães, inflexivelmente indiferentes com relação às tarefas mundanas de predizer, calcular, acomodar e negociar. Em consequência, a ficção de Nabokov, de acordo com Dale Peterson, tem a capacidade de "liberar vítimas atuais e futuras das deprimentes casas de correção da linguagem autoritária" (Nota 12). Ellen Pifer argumenta que "o projeto autoconsciente de Pale Fire terá um efeito liberador sobre o leitor, já que os padrões dos artifícios fornecem uma perspectiva da realidade que tanto revela quanto transcende a estreita percepção de um Kinbote" (Nota 13). Se Peterson e Pifer estiverem certos, e acho que estão, então aquela perspectiva é presumivelmente possibilitada pelo funcionamento de uma imaginação estética independente. Pale Fire resiste a ser incorporado na economia política ao desencorajar que apreendamos o texto com nosso modos culturalmente determinados de interpretação; ele retarda a "arremetida indecorosa da palavra para o mundo", de Culler. Por certo, o livro nos lembra que nosso métodos comuns de ler, nossas tentativas assimilativas de naturalização, são usualmente instâncias predatórias de "overstanding" (NT - mais ou menos: compreender o que está por cima do texto, em oposição a understanding, que é compreender o que compõe o texto); mas a estranha obra de Nabokov implica, por indireção, que pode haver outra maneira. Pale Fire não só apela para nossa capacidade de cálculo e desapropriação, mas para uma faculdade mais artística e "final", menos mediada e instrumental.

O exemplo mais mortal da maneira errada de "apreender" a arte é dado por Gradus, o assassino do poeta de Nabokov (Nota 14). Gradus representa o mundo material: sem alegria, cotidiano, grave. Como um daqueles "desajeitados e tristes" membros dos ubíquos pelotões de fuzilamento do mundo político, ele é teimoso, incansável e não-fermentado. Como diz Tonny Tanner, "Gradus representa tudo o que é absolutamente inimigo e hostil à arte e à imaginação" (Nota 15). Ele é culpado, como nos diz o índice de Kinbote ao poema, de "lincharem as pessoas erradas" (Nota 16). Mas se Nabokov cria Gradus para ser a nêmese do "brilho" provocativo da arte, ele também pode ser considerado como representante dos oponentes profissionais de Nabokov: críticos marxistas e outros críticos histórico-materialistas que são motivados por agendas partidárias. Gradus tem diversos cognomes e manifestações - "Jack Degree, de Grey, d'Argus, Vinogradus, Leningradus" - e ele foi enviado pelas Sombras, uma "organização regicida" de sangrentos revolucionários zemblianos (pp. 217, 223). No índice, sob "Sudarg of Bokay", o fabricante zembliano de espelhos, nos é dada a ameaçadora notícia de que esta palindrômica reflexão de Jacob Gradus tem "uma extensão de vida desconhecida" (p. 223). Gradus, então, é violento, ciumento do poder, politrófico (NT - o autor escreve "polytropic", mas provavelmente é "polytrophic", uma indicação de que o organismo subsiste às custas de diversos materiais orgânicos, como fazem as bactérias), persistente e onipresente: as opressões da cultura estão em toda parte (Nota 17). Ele representa o mundo comum, o "olho comunitário", e também, quase certamente, os realistas sociais da literatura - contemporâneos de Nabokov que o incomodavam com seu modo particular de crítica materialista.
Parece claro, então, que a maior ameaça à imaginação sequestrada é Gradus. Ainda assim Nabokov cria o crítico parasita, Kinbote - Sybil Shade chama-o de "King Bot" (Nota 18) - cujo incansável aparato acadêmico e incontingentes motivos consomem e assimilam o poema de John Shade mesmo à medida que Gradus destrói o homem. Kinbote, como o poder econômico institucionalizado, funciona para tirar, para consumir, para colonizar, para possuir. Kinbote tenta fazer de Shade um implemento de sua própria consciência predatória e usar o poema como um meio de fabricar prestígio para seus interesses e fantasias. O "uso" de Shade por Kinbote e seu poema serve assim como um modelo negativo da supressão intelectualmente legitimizada da cultura, e da dominação do outro.
Kinbote protesta sua devoção pessoal ao seu vizinho e "amigo" repetidamente, mas sua afeição por Shade, ao ser examinada, nada mais é do que possessividade ciumenta. Quando Shade é morto por uma bala dirigida a Kinbote (pelo menos em um nível da narrativa), sua descrição do incidente em uma "nota" à linha 1000 do poema de Shade trai o egocentrismo de Kinbote: "A presença [de Shade] atrás de mim faltando-me abruptamente me fez perder meu equilíbrio... Meu cóccix e punho direito doíam muito, mas o poema estava salvo. John, no entanto, estava estirado no chão, com uma mancha vermelha em sua camisa branca" (p. 208). Para o leitor-crítico invejoso e explorador, o fato de que o poeta tinha morrido tem pouca consequência; o poema, a propriedade, está salva. Kinbote ainda tem que tomar posse completa dele, mas o fará depois através de um ato vociferante de apropriação e comodificação. Gradus mata o poeta e Kinbote toma o poema. Ambos representam as maquinações da cultura.
A história de Zembla é uma história que Kinbote quer ver inscrita e perpetuada, e ele tentou durante o período de composição influenciar Shade a escrever uma elaborada história em versos da revolução zembliana e da fuga e do expatriamento de seu monarca, Charles, o Bem-Amado. Certa ou erradamente, Kinbote acredita que de fato ele é o Rei Charles exilado. (Não podemos saber a partir das evidências textuais se Kinbote está certo ou errado - Nabokov não nos dá indícios suficientes para decifrarmos a direção da influência, frustrando desta maneira nossa inclinação de fazer um belo pacote, de uma vez por todas, de seu desempenho). De qualquer modo, Kinbote fica furioso ao descobrir que Shade não tinha escrito a saga de Zembla, mas uma história própria:
"Eu comecei a ler o poema, lia cada vez mais depressa, voava através dele como um jovem herdeiro através do testamento de um velho enganador. Onde estava a Bela Zembla? Onde seu espinhaço de montanhas? Onde suas emoções por entre a névoa? E meus adoráveis meninos das flores, e o espectro das janelas manchadas, e o Black Rose Paladubs, e toda a história maravilhosa? Nada estava ali! A complexa contribuição que eu vinha forçando sobre ele com a paciência de um hipnotizador e a urgência de um amante simplesmente não estava ali. Oh, mas nem posso expressar a agonia!" (p. 209).
Nabokov alista assim o leitor aculturado, como se fosse um herdeiro ansioso para tomar o tesouro do poeta para si. Como o Lynch, de Joyce, que quer fervorosamente "tomar" a mulher e "a hipotenusa das Vênus de Praxíteles", Kinbote quer que "Pale Fire" sirva seus próprios desejos. Kinbote é literalmente o "executor" de Shade, e já está em processo de se apossar das propriedades literárias do poeta.
Em nenhum local Kinbote, como o crítico que quer tomar o texto para si, está mais reflexivo no processo da continência cultural do que quando ele assemelha o poema de Shade a uma "criaturinha instável que foi roubada e brutalmente aproveitada por um gigante negro, mas que agora está de novo a salvo em nosso salão e nosso parque, assobiando para os garotos do estábulo, nadando com a foca amestrada". O poema tornou-se para Kinbote um jovem e inerme sodomista passivo que se livrou de sua exploração por algum tempo mas agora está de volta sob sua influência dominadora: "O local ainda dói, tem que doer, mas com estranha gratidão nós beijamos aqueles úmidos e pesados cílios e acariciamos aquela carne poluída" (p. 210). Assim Nabokov assemelha o "uso" do poema por Kinbote ao abuso sexual adulto de um prisioneiro inerme - concebido por Kinbote, reveladoramente, como uma "criatura".
Apesar da apetente exploração do poema e do poeta por Kinbote, Frank Kermode está certo em recuperar a simpatia de Nabokov por ele. Afinal, o próprio Nabokov tinha representado Kinbote para Pushkin ao traduzir, com o mesmo aparato parasitário de notas e comentários acadêmicos, o Eugene Onegin do grande poeta russo (Nota 19). E Nabokov compreende - talvez ele tenha aprendido a lição bem demais após fazer seu exercício com Pushkin - que o academicismo lançado contra textos desafortunados é inevitavelmente um processo de dominação e controle. Como Derrida em seu célebre debate com Foucault, Nabokov reconhece sua própria participação naqueles processos da cultura que oprimem e escravizam (Nota 20). Em última análise, entretanto, a similaridade de Kinbote com Nabokov repousa não apenas em seu academicismo literário mas também em sua inventividade, não nos crimes que ele comete contra "Pale Fire", de Shade, mas em sua capacidade de "escapar para outros estados do ser ... onde a arte é a norma" - A famosa definição de Nabokov para contentamento estético: "Para mim", diz ele num posfácio a Lolita, "uma obra de ficção existe apenas na medida em que me fornece o que eu chamarei diretamente de contentamento estético, isto é, um sentido de estar de algum modo, em algum lugar, conectado com outros estados do ser onde a arte (curiosidade, ternura, bondade, êxtase) é a norma" (Nota 21). Como muitos outros, Kermode vê esta passagem como uma crucial auto-definição de Nabokov, e argumenta que a obsessão de Kinbote é na verdade um estado do ser onde a arte é de fato a norma (Nota 22). "Não se deve deixar de lado... uma pessoa que descasca um passado triste e sombrio e o substitui por uma brilhante invenção", diz Shade, defendendo um personagem menor que pensa que virou Deus (p. 169). O endosso de Shade da criatividade bem que poderia se constituir em uma defesa nabokoviana de Kinbote. "O autor tem que nos mostrar", diz Kermode, "que a atividade de Kinbote é o modelo da nossa própria" (Nota 23).
Mas quais são os custos de tais brilhantes trapizongas estéticas, de sair do mundo do poder político e das repressões do mercado? Nabokov pode ter sucesso em demonizar Kinbote e então "ressimpatizá-lo", mas para fazer isto ele deve defender denodadamente uma distinção entre a invenção imaginativa e o mundo cotidiano. Houve vários debates críticos sobre se Shade cria Kinbote ou se Kinbote cria Shade, mas como tais enigmas revelam a resistência de Nabokov à apropriação e aos custos daquela estratégia alienadora? A questão é: até que ponto Nabokov está disposto a ir para assegurar que a imaginação literária não será contaminada pelo mundano?

Notas

12. Dale E. Peterson, "Nabokov's Invitation: Literature as Execution", PMLA, 96 (1981), p. 834.

13. Ellen Pifer, Nabokov and the Novel (Cambridge, Mass., e Londres: Harvard University Press, 1980), p. 118.

14. Neste ponto poderia valer a pena lembrar-nos de que a crítica da virtude, como se descreve na parte 1, estabelece personagens literárias não como seres humanos de carne e osso, mas como estratégias que se manifestam através do desempenho de características e virtudes particulares. Assim, dizer que Gradus "é" incansável ou cotidiano é designar aquelas virtudes particulares à personagem de Gradus, seja ele considerado um produto da imaginação endemoniada de Kinbote ou da engenhosa imaginação de Nabokov. Para a crítica da virtude não importa se um ethos é em carne e osso. Similarmente, "o valor ético das histórias que contamos uns para os outros", como diz Booth, não depende de "se afirmam ou não, de fato, descreverem eventos reais". The Company We Keep: An Ethics of Fiction (Berkeley: University of California Press), p. 15. Veja também pp. 3-22.

15. Tony Tamer, City of Words: American Fiction 1950-1970 (New York: Harper & Row, 1971), p. 37.

16. Nabokov, Pale Fire, p. 217. Referências subsequentes serão dadas no texto.

17. "A fé freudiana tem perigosas consequências éticas", disse Nabokov uma vez, "como quando um assassino imundo com o cérebro de uma tênia recebe uma sentença menor porque sua mãe o espancava demais ou de menos..." Strong opinions (New York: McGraw-Hill, 1973), p. 116.

18. Um "bot" é a forma larval da botfly (NT - mosca de berne) parasita. Na seguinte passagem Richard Selzer narra o encontro de um cirurgião com o xará de Kinbote: "Nenhum explorador jamais olhou com uma conjectura mais louca do que eu para dentro daquela cratera a partir da qual emerge agora uma pequena cabeça cinzenta cuja única característica distintiva é um par de pinças pretas. A cabeça se apóia em um longo pescoço flexível que se dobra para cá e para lá, testando o ar. Alternadamente, ele dobra-se sobre si mesmo e depois avança numa nova ousadia. Este tempo todo, com um ritmo terrível, as pinças indescritíveis se abrem e se fecham... Um diabo maia, eu acho, que logo estará livre para voar pelo aposento, com horríveis asas aveludadas e escamas iridescentes, ciscando, beliscando, injetando sabe Deus que suco ácido". Mortal Lessons: Notes on the Art of Surgery (New York: Simon and Schuster/Touchstone, 1987), p. 20. Nabokov escolheu uma criatura particularmente terrificante para significar o "crítico enquanto parasita".

19. Frank Kermode, "Zemblances", New Statesman, 9 novembro 1962, p. 671.

20. Para o debate, veja Edward Said, "Criticism between Culture and System", The World, the Text, and the Critic (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1983), pp. 178-225.

21. Vladimir Nabokov, Lolita (New York: G. P. Putnam's Sons, 1955), pp. 316-317.

22. Kermode, "Zemblances", p. 672.

23. Ibid., p. 671.