Contra
a Aridez
Iris
Murdoch
Encounter, Jan 1961
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
As reclamações que desejo fazer tratam
em primeiro lugar de prosa, não de poesia, e
de romance (novel), não de dramaturgia; são
breves, simplificadas, abstratas, e possivelmente insulares.
Não devem ser vistas de modo a implicarem qualquer
figura precisa da 'função do escritor'.
É função do escritor escrever o
melhor livro que ele saiba escrever. Estas afirmativas
têm a ver com as origens da literatura atual,
em democracias liberais em geral e em Estados Beneficentes
(Welfare States) em particular, no sentido
de que isto deve ser a preocupação de
qualquer crítico sério.
Vivemos
em uma época científica e antimetafísica
na qual os dogmas, imagens e preceitos da religião
perderam muito de seu poder. Não nos recobramos
de duas guerras e da experiência com Hitler. Também
somos os herdeiros do Iluminismo, do Romantismo e da
tradição liberal. Estes são os
elementos de nosso dilema: cuja principal característica,
a meu ver, é que nos deixaram uma idéia
muito superficial e inconsistente da personalidade humana.
Vou explicar isto.
A
filosofia, como os jornais, é tanto guia como
espelho de sua época. Vamos olhar rapidamente
a filosofia anglo-saxônica e a filosofia francesa,
e observar qual é a figura da personalidade humana
que podemos obter desses dois repositórios de
sabedoria. As duas influências mais profundas
sobre a filosofia anglo-saxônica foram Hume e
Kant: e não é difícil ver na atual
concepção filosófica da pessoa
a obra destes dois grandes pensadores. Esta concepção
consiste na união de um behaviorismo materialista
a uma visão dramática do indivíduo
como uma vontade solitária. Eles se dão
apoio mútuo. De Hume até Bertrand Russell,
com uma ajuda amigável da lógica matemática
e da ciência, concebemos a idéia de que
a realidade, afinal, é uma quantidade de átomos
materiais, e de que o discurso significativo deve estar
relacionado direta ou indiretamente à realidade
assim concebida. Esta posição foi muito
pitorescamente resumida no Tractatus de Wittgenstein.
A filosofia recente, especialmente os últimos
trabalhos de Wittgenstein e a obra de Gilbert Ryle que
dela deriva, altera isto um pouco. A figura atômica
humiana (Humian) é abandonada em favor de um
tipo de análise conceitual (de diversas maneiras
admirável) que enfatiza a dependência estrutural
dos conceitos da linguagem pública na qual são
moldados. Esta análise tem importantes resultados
na filosofia da mente, onde surge enquanto behaviorismo
modificado. De modo geral: minha vida interior, tanto
para mim como para os outros, só é identificável
como existente através da aplicação
a ela de conceitos públicos que só podem
ser elaborados com base em um comportamento visível.
Este
é um lado da figura, o lado humiano e pós-humiano.
Por outro lado, concebemos a partir de Kant, e também
de Hobbes e de Bentham através de John Stuart
Mill, uma figura do indivíduo como uma vontade
racional livre. Com a remoção dos antecedentes
metafísicos de Kant, este indíduo é
visto como solitário. (Em certo sentido ele também
é visto como solitário na visão
de Kant, isto é: não confrontado com outros
dissimilares reais). Com a adição de algum
otimismo utilitarista, ele é visto como eminentemente
educável. Com a adição de alguma
psicologia moderna, ele é visto como capaz de
auto-conhecimento através de métodos compatíveis
com a ciência e com o senso comum. Então
temos o homem moderno, como aparece nas obras mais recentes
sobre ética e, também acredito, de forma
mais ampla na consciência popular.
Encontramos,
por exemplo, uma refinada figura deste homem no livro
de Stuart Hampshire, Thought and Action (Pensamento
e Ação). Ele é racional e totalmente
livre, exceto na medida em que no mais ordinário
tribunal ou bom senso seu grau de auto-consciência
pode variar. Ele é, moralmente falando, monarca
de tudo o que observa e totalmente responsável
por suas ações. Nada o transcende. Sua
linguagem moral é um indicador prático,
o instrumento de suas escolhas, a indicação
de suas preferências. Sua vida interior é
resolvida em seus atos e escolhas, e em suas crenças,
que também são atos, já que uma
crença só pode ser identificada através
de sua expressão. Seus argumentos morais são
referências a fatos empíricos apoiados
por decisões. A única palavra moral de
que necessita é "bom" (ou "certo"),
a palavra que expressa decisão. Sua racionalidade
se expressa na percepção dos fatos, sejam
relativos ao mundo ou a si mesmo. Para ele a virtude
fundamental é a sinceridade.
Se
nos voltarmos para a filosofia francesa poderemos ver,
pelo menos naquela seção que mais atraiu
a imaginação popular, quero dizer, na
obra de Jean-Paul Sartre, essencialmente a mesma figura.
É interessante como esta figura é extremamente
kantiana, se considerarmos todo o débito de Sartre
para com as fontes hegelianas. Mais uma vez o indivíduo
é retratado como solitário e totalmente
livre. Não há realidade transcendente,
não há graus de liberdade. Por um lado
existe a massa de desejos psicológicos e de hábitos
e predisposições sociais, por outro lado
existe a vontade. Certos dramas, de caráter mais
hegeliano, são certamente encenados no interior
da alma; mas permanece o isolamento da vontade. Daí
a angoisse (angústia). Daí, também,
o especial sabor anti-burguês da filosofia de
Sartre que atrai tantos intelectuais: a figura comum
e tradicional da personalidade e da virtude permanece
sob suspeita de mauvaise foi (má fé).
De novo, a única virtude real é a sinceridade.
Acho que não é acidental que, por muitas
críticas filosóficas e outras que Sartre
possa receber, esta poderosa figura atraiu nossa imaginação.
Os críticos marxistas podem afirmar plausivelmente
que ela representa a essência da teoria liberal
da personalidade.
Será
mostrado que outras teorias fenomenológicas (deixando
de lado o marxismo) tentaram fazer o que Sartre não
conseguiu fazer, e que há notáveis filósofos
que ofereceram uma figura diferente da alma. Sim; mas
segundo meu próprio conhecimento do cenário
eu duvidaria que qualquer descrição (não-marxista)
da personalidade humana tenha emergido da fenomenologia
sendo fundamentalmente diferente daquela que descrevi
e que possa rivalizar com ela em poder imaginativo.
Pode-se dizer que de fato a filosofia não pode
produzir tal descrição. Não estou
certa quanto a isto, e esta ampla questão não
me interessa aqui. Apenas expresso minha crença
de que, para o mundo liberal, de fato hoje a filosofia
não é capaz de nos oferecer qualquer outro
retrato completo e poderoso da alma. Agora volto para
a Inglaterra e para a tradição anglo-saxônica.
O
Estado Beneficente surgiu como resultado, principalmente,
do pensamento socialista e do esforço socialista.
Ele parece ter encerrado certo conflito; e com este
final surgiu uma lassidão relativa às
coisas fundamentais. Se compararmos a linguagem da constituição
original do Partido Trabalhista (Labour Party)
com a de seu recente sucessor veremos um empobrecimento
de pensamento e linguagem que é típico.
O Estado Beneficente é o prêmio do 'empirismo
em política'. Ele representou para nós
um conjunto de metas totalmente desejáveis mas
limitadas, que pode ser concebido em termos não
teóricos; e ao aspirarmos por ele, ao permitirmos
que a idéia dele dominasse o setor mais naturalmente
teórico de nosso cenário político,
em grande parte nós perdemos nossas teorias.
Nossa concepção principal ainda é
uma forma debilitada da equação de Mill:
felicidade é igual a liberdade é igual
a personalidade.Deveria ter havido uma revolta contra
o utilitarismo; mas por diversas razões ela não
aconteceu. Em 1905, John Maynard Keynes e seus amigos
acolheram bem a filosofia de G. E. Moore porque Moore
reafirmou o conceito de experiência, Moore desviou
a atenção da mecânica da ação,
privilegiando a vida interior. Mas a 'experiência'
de Moore era um conceito muito superficial; e uma época
científica com metas simples, realizáveis
e empíricas preferiu uma filosofia mais behaviorista.
O
que perdemos aqui? E o que, talvez, nunca tenhamos tido?
Sofremos uma perda generalizada de conceitos, uma perda
de um vocabulário moral e político. Já
não nos servimos de uma figura ampla e substancial
das multiformes virtudes do homem e da sociedade. Não
vemos mais o homem contra o pano de fundo de valores,
de realidades, que o transcendem. Imaginamos o homem
como uma vontade nua e corajosa cercada por um mundo
empírico facilmente compreendido. Substituimos
a fria idéia da verdade por uma idéia
simples de sinceridade. O que nunca tivemos, é
claro, é uma teoria liberal satisfatória
da personalidade, uma teoria do homem enquanto livre,
distinto de e relacionado a um mundo rico e complicado
do qual, enquanto ser moral, ele tem muito o que aprender.
Nós aceitamos a teoria liberal como nos foi dada
porque desejávamos encorajar as pessoas a pensar
que eram livres, ao custo de abandonarmos a história
(background).
Nunca
resolvemos os problemas referentes à personalidade
humana levantados pelo Iluminismo. Entre os diversos
conceitos hoje, de maneira curiosa, nossa situação
atual é análoga à do século
18. Mantemos um otimismo racionalista sobre os resultados
beneficentes da educação, ou melhor, da
tecnologia. Combinamos isto com uma concepção
romântica da 'condição humana',
uma figura do indivíduo nu e solitário:
uma concepção que, desde Hitler, ganhou
peculiar intensidade.
O
século 18 foi uma época de alegorias racionalistas
e de histórias morais. O século 19 (um
pouco) foi a grande época do romance (novel):
e o romance desenvolveu-se com base em um amálgama
dinâmico da idéia de pessoa com a idéia
de classe. Como a sociedade do século 19 era
dinâmica e interessante, e como (para usar uma
noção marxista) o tipo e o indivíduo
podiam ser visto como amalgamados, a solução
do problema do século 18 foi posta de lado. Foi
posta de lado até hoje. Agora que a estrutura
da sociedade é menos interessante e menos vibrante
do que era no século 19, e que a economia beneficente
removeu certos incentivos ao pensamento, e agora que
os valores da ciência são bem reconhecidos,
estamos frente a uma forma obscura e confusa de dilema
que esteve conosco implicitamente desde o Iluminismo,
ou desde o início, seja lá onde se queira
posicioná-lo, o dilema do mundo liberal moderno.
Se
compararmos as literaturas dos séculos 19 e 20,
notamos certos contrastes importantes. Eu disse que,
de certa maneira, estávamos de volta ao século
18, a época das alegorias racionalistas e das
histórias morais, e época na qual na qual
a idéia de natureza humana era unitária
e distinta. O romance do século 19 (utilizo os
termos ousadamente, generalizando: é claro que
havia exceções) não se interessava
pela 'condição humana'. ele tratava de
indivíduos reais e diversificados confrontando-se
na sociedade. O romance do século 20 é
quase sempre ou cristalino ou jornalístico; quer
dizer, ou ele é um pequeno objeto quase alegórico
retratando a condição humana e sem conter
'personagens', no sentido do século 19, ou então
ele é um grande objeto informe quase documentário,
descendente degenerado do romance do século 19,
contando, com pálidos personagens convencionais,
alguma história realista (straightforward)
animada por fatos empíricos. Nenhum desses tipos
de literatura confronta o problema que mencionei acima.
Pode-se
notar prontamente que se nossa ficção
em prosa for cristalina ou jornalística, as obras
cristalinas quase sempre são as melhores. Elas
são o que os escritores mais sérios querem
criar. Podemos nos lembrar di ideal de 'aridez' que
associamos ao movimento simbolista, a escritores como
T. E. Hulme e T. S. Eliot, a Paul Valéry, a Wittgenstein.
Esta 'aridez' (pequeno tamanho, clareza, auto-contenção)
é uma nêmesis do Romantismo. De fato, é
o Romantismo em uma fase posterior. O 'símbolo'
puro, claro, auto-contido, o exemplar incidentalmente
daquilo que Kant, ancestral tanto do liberalismo como
do Romantismo, exigia que a arte fosse, é o análogo
do indivíduo solitário e auto-contido.
É o que sobra da fantasmagoria do Romantismo
quando os elementos humanitários e revolucionários
'desordeiros' esgotaram suas forças. A tentação
da arte, a tentação a que se rende toda
obra de arte exceto as maiores, é consolar. O
escritor moderno, amedrontado pela tecnologia e (na
Inglaterra) abandonado pela filosofia e (na França)
em face de teorias dramáticas simplificadas,
tenta nos consolar através de mitos ou de histórias.
Considerando
tudo: sua verdade é sinceridade, e sua imaginação
é fantasia. A fantasia opera ou com devaneios
informes (a história jornalística) ou
com pequenos mitos, brinquedos, cristais. À sua
maneira, cada um produz um tipo de 'necessidade onírica'.
Nenhum deles discute com a realidade: daí 'fantasia',
e não 'imaginação'.
O
lar apropriado do símbolo, no sentido 'simbolista',
é a poesia. Mesmo ali ele pode desempenhar um
papel ambíguo, já que existe algo no simbolismo
que é avesso a palavras e de onde, somos relembrados,
são elaborados os poemas. Certamente a invasão
de outras áreas pelo que posso chamar resumidamente
de 'ideais simbolistas' ajudou a deflagrar um declínio
da prosa. A eloqüência está fora de
moda; até o 'estilo', exceto no sentido bem austero
do termo, está fora de moda.
T.
S. Eliot e Jean-Paul Sartre, pensadores bastante diferentes,
tendem ambos a desvalorizar a prosa e a negar-lhe qualquer
função imaginativa. A poesia é
a criação de quase-coisas lingüísticas;
a prosa é para explanação e exposição,
é essencialmente didática, documental,
informativa. A prosa é idealmente transparente;
é escrita com palavras apenas por falta de coisa
melhor. O influente estilista moderno é Hemingway.
Hoje seria quase inconcebível escrever como Landor.
A maior parte dos romances ingleses, de fato, não
são escritos. Sente-se que eles podem passar
para outro medium (meio de comunicação)
sem muita perda. É preciso um estrangeiro como
Nabokov ou um irlandês como Beckett para estimular
a linguagem da prosa a ser algo imaginativo por conta
própria.
Tolstoy,
que disse que a arte era uma expressão da percepção
religiosa da época estava mais perto da verdade
do que Kant, que a via como a imaginação
se divertindo com a compreensão. A conexão
entre arte e vida moral se enfraqueceu porque estamos
perdendo nosso senso de forma e de estrutura no próprio
mundo moral. O behaviorismo lingüístico
e existencialista, nossa filosofia Romântica,
reduziu nosso vocabulário e simplificou e empobreceu
nossa visão da vida interior. É natural
que uma sociedade liberal democrata não se interesse
pelas técnicas de melhoria, negue que a virtude
seja conhecimento, enfatize a escolha às expensas
da visão; e um Estado Beneficente enfraquecerá
os incentivos para se investigarem as bases de uma sociedade
liberal democrática. Para fins políticos
nós somos encorajados a pensar em nós
mesmo como totalmente livres e responsáveis,
sabendo tudo o que precisamos saber com relação
aos importantes propósitos da vida. Mas esta
é uma das coisas que Hume disse que podem ser
verdade em política mas falsas de fato; serão
verdade em política? Precisamos de um liberalismo
pós-kantiano não romântico com uma
imagem diferente de liberdade.
A
técnica de se tornar livre é mais difícil
do que imaginou John Stuart Mill. Precisamos de mais
conceitos do que nossas filosofias nos deram. Precisamos
ser capazes de pensar em termos de graus de liberdade
e de imaginar, num sentido não totalitário,
não metafísico e não religioso,
a transcendência da realidade. Uma fé ingênua
na ciência, juntamente com a suposição
de que somos todos racionais e totalmente livres, engendra
uma perigosa ausência de curiosidade sobre o mundo
real, uma falha em reconhecermos as dificuldades de
conhecê-lo. Precisamos retornar do conceito de
sinceridade auto-centrado para o conceito de verdade
centrado no outro. Não somos aqueles que escolhem
livres e isolados, monarcas de tudo o que vemos, e sim
criaturas cercadas de trevas e mergulhadas em uma realidade
cuja natureza somos constante e devastadoramente tentados
a deformar através da fantasia. Nosso retrato
atual de liberdade encoraja uma facilidade de devaneios;
mas necessitamos é de um senso renovado da dificuldade
e da complexidade da vida moral e da opacidade das pessoas.
Precisamos de mais conceitos em termos dos quais retratemos
a substância de nosso ser; é através
do enriquecimento e do aprofundamento de conceitos que
ocorre o progresso moral. Simone Weil disse que a moralidade
era uma questão de atenção, não
de vontade. Precisamos de um novo vocabulário
da atenção.
Aqui
é que a literatura é tão importante,
especialmente já que assumiu algumas das tarefas
anteriormente desempenhadas pela filosofia. Através
da literatura podemos redescobrir uma compreensão
da densidade de nossas vidas. A literatura pode nos
armar contra a consolação e a fantasia,
e pode ajudar para que nos recuperemos das patologias
do Romantismo. Se é permitido dizer que ela tem
uma tarefa, esta é sua tarefa. Mas para executar
esta tarefa a prosa deve recuperar sua antiga glória,
a eloqüência e o discurso devem retornar.
Eu articularia a eloqüência com a tentativa
de falar a verdade. Penso aqui na obra de Albert Camus.
Todos os seus romances foram escritos; mas o último,
apesar de menos contundente e bem sucedido do que os
dois primeiros, parece-me ter sido uma tentativa mais
séria dirigida para a verdade: e ilustra aquilo
que chamo de eloqüência.
É
curioso que a literatura moderna, tão ligada
à violência, contenha tão poucos
retratos convincentes do mal.
Nossa
incapacidade de imaginar o mal é uma conseqüência
do retrato ingênuo, dramático e, a despeito
de Hitler, otimista de nós mesmos com o qual
operamos. Nossa dificuldade quanto a forma, a imagens
- nossa tendência para produzir obras que sejam
ou cristalinas ou jornalísticas - é um
sintoma de nossa situação. A forma em
si mesma pode ser uma tentação, tornando
a obra de arte um pequeno mito que é um indivíduo
auto-contido e realmente satisfeito consigo mesmo. Precisamos
voltar nossa atenção para longe da necessidade
do sonho consolador do Romantismo, para longe do árido
símbolo, do falso indivíduo, da falsa
totalidade, e na direção da real e impenetrável
pessoa humana. Afinal, o fato de que esta pessoa é
substancial, impenetrável, individual, indefinível
e valiosa é uma das suposições
fundamentais do Liberalismo.
É
aqui, seja o quanto se possa criticar o vazio da idéia
liberal de liberdade, seja o quanto se possa falar em
termos de restauração de uma unidade perdida,
que estamos em conflito permanente com o marxismo. A
realidade não é uma totalidade dada. A
compreensão disto e um respeito pelo contingente
são essenciais para a imaginação,
enquanto oposta à fantasia. Nossa concepção
de forma, que é um aspecto do nosso desejo de
consolação, pode ser um perigo para o
nosso senso da realidade como uma rica história
que vai ficando para trás. Contra as consolações
da forma, da obra pura e cristalina, do mito-fantasia
simplificado, devemos impelir o poder destrutivo da
idéia naturalista de caráter, hoje nem
tanto na moda.
As
pessoas reais são destruidoras do mito, a contingência
é destruidora da fantasia e abre caminho para
a imaginação. Pense nos russos, aqueles
grandes mestres do contingente. Contingência demais,
é claro, pode transformar arte em jornalismo.
Mas como a realidade é incompleta, a arte não
deve temer tanto a incompletude. A literatura deve sempre
representar uma batalha entre pessoas reais e imagens;
e agora ela exige uma concepção mais vigorosa
e mais complexa das pessoas reais.
Em
moral e em política nós nos despimos de
conceitos. A literatura, ao curar seus próprios
males, pode nos dar um novo vocabulário da experiência
e um retrato mais verdadeiro da liberdade. Com isto,
renovando nosso senso de distância, podemos relembrar
que também a arte vive em uma região onde
todo esforço humano é um fracasso. Talvez
apenas Shakespeare consiga criar em nível superior
tanto imagens como pessoas; e até Hamlet
parece de segunda classe, comparado a Lear.
Só a arte muito superior revigora sem consolar,
e derrota nossas tentativas, nas palavras de W. H. Auden,
de usá-la como mágica.
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