PROFESSORES
: A CHAVE PARA AJUDAR A AMÉRICA A LER
Audiência
perante o Comitê de Educação e
sua Força de Trabalho
Congresso dos Estados Unidos, Washington, DC
em 03 de setembro de 1997 às 10:30 hs.
Depoimento
de Louisa C. Moats, Ed. D.
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
Presidente
Goodling e membros do Comitê de Educação
e sua força de trabalho, obrigado pelo oportunidade
de lhes falar hoje sobre o treinamento de professores
de alfabetização. Sou diretora do Projeto
de Intervenções Precoces das Escolas
Públicas do Distrito de Colúmbia e do
Distrito da Escola Independente de Houston, um estudo
de cinco anos sobre o ensino inicial da leitura conduzido
pelo Centro de Ciências da Saúde da Universidade
Texas-Houston, financiado pelo NICHD, Instituto Nacional
da Saúde Infantil e do Desenvolvimento Humano,
dos NIH, Institutos Nacionais de Saúde (o equivalente
ao nosso Ministério da Saúde). Além
disso, sou diretora do curso de Treinamento de Professores
da Escola Greenwood, em Putney, Vermont, e sou membro
da Diretoria da Associação Internacional
de Dislexia. Fui professora credenciada em três
Estados antes de me doutorar em disfunções
da linguagem , da leitura e da aprendizagem. Por trinta
anos me especializei na identificação,
no entendimento e no tratamento do desenvolvimento
da leitura e das dificuldades de leitura. Trabalhei
com professores por todo o País, o mais recentemente
por um ano na Califórnia, antes de vir para
Washington. Infelizmente, senhor presidente, posso
dizer sem reservas que as coisas estão ruins
por toda parte, quando se fala do preparo de professores
de alfabetização.
A
preparação de professores de alfabetização
vai requerer uma revisão sistêmica para
que todas as partes do problema sejam alcançadas
: treinamento antes e durante o exercício da
profissão, livros para os professores e padrões
de credenciamento; materiais pedagógicos; projeto
e operação de departamentos de educação;
maneiras pelas quais as informações
se disseminam no campo. Parece que só a reconstrução
sistêmica pode estabelecer uma profissão
informada pela ciência, uma profissão
que preencherá as necessidades de cada criança
quanto ao sucesso na leitura.
O
Que Informa Hoje a Educação da Leitura?
Frequentemente
jornalistas, estudantes e pais me perguntam por que
há esse abismo entre a prática (do ensino)
da leitura e o conhecimento que emana das pesquisas
sobre leitura. Uma resposta é que a prática
(do ensino) da leitura hoje se vale de compêndios
que carecem de conteúdo, profundidade e embasamento
em linguística, psicologia da leitura, ou pedagogia
da leitura; vindos de editores que vendem slogans
ao invés de substância; de intrutores
universitários e profissionais que não
apresentam qualquer tipo de padrão.
Antes
desta audiência fiz uma revisão dos quatro
textos mais utilizados nos cursos de educação
da leitura. Em uma audiência anterior vocês
ouviram o Dr Reid Lyon, do NICHD, sobre as descobertas
científicas sobre a natureza do desenvolvimento
da leitura, das dificuldades de leitura e da pedagogia
da alfabetização. Estas importantes
descobertas têm sido registradas por diversos
anos, de modo que se poderia esperar que as informações
contidas no testemunho do Dr Lyon estariam refletidas
nos textos que se usam hoje. Infelizmente, nenhum
dos textos mais utilizados continha informações
precisas sobre fonologia e seu papel no desenvolvimento
da leitura, e nenhum deles explicava com profundidade
e clareza porque muitas crianças tem dificuldade
em aprender a ler ou o que fazer quanto a isso. Evidentemente,
as informações científicas que
lhes foram apresentadas pelo Dr Lyon ainda não
chegaram aos compêndios mais usados, nem aos
periódicos mais lidos.
No
ano passado a Comissão da Califórnia
sobre Credenciamento de Professores tentou obter os
roteiros dos cursos de leitura do sistema da Universidade
Estado da Califórnia, para determinar o que
estava sendo ensinado nos cursos de educação
e que textos estavam sendo usados. Uns 20 % dos instrutores
responderam à solicitação de
seus roteiros. Soube na primeira semana em que estive
na Califórnia, num encontro dos reitores e
professores da Universidade Estado da Califórnia,
que muitos professores não entregaram seus
roteiros porque viam o pedido da Comissão como
intromissão na liberdade acadêmica).
Com base nos roteiros que foram obtidos, a Comissão
determinou que os componentes de desenvolvimento e
ensino de leitura constantes nas leis da Iniciativa
em Leitura da Califórnia não estavam
sendo respeitados no conteúdo dos cursos e
das conferências. Subsequentemente, esta descoberta
levou a Comissão a desenvolver padrões
explícitos quanto ao conteúdo dos cursos
de preparação da leitura que são
reconhecidos, e um Teste de Competência no Ensino
da Leitura (RICA) para professores, padrões
que sofreram muita resistência dos professores
das faculdades de educação.
Os
materiais pedagógicos utilizados pelos professores
não compensam por aquilo que não lhes
foi ensinado na faculdade. Os mais populares materiais
pedagógicos em nossas salas de aula são
fortes em literatura, gravuras e estratégias
motivacionais para crianças, mas muito fracos
ou simplesmente desinformados sobre a estrutura de
nossa língua e sobre como em verdade as crianças
aprendem a ler as palavras escritas numa página.
Como o Dr Lyon testemunhou perante este Comitê,
aprender a ler as palavras escritas numa página
é necessário para que se obtenha o significado
do texto, e aprender a ler as palavras escritas numa
página não é tarefa fácil
para um número significativo de crianças.
Muitos dos nossos materiais mais utilizados encorajam
a adivinhação das palavras a partir
de figuras e do contexto, mais do que o conhecimento
do que é realmente a palavra. Esta prática
tão popular levou à omissão de
informações básicas sobre a estrutura
da língua nos materiais pedagógicos.
Professores mal preparados nos cursos de graduação
provavelmente não vão aprender o que
necessitam saber sobre leitura, com base nos materiais
pedagógicos utilizados hoje na maioria das
salas de aula.
Como
sabe este Comitê, as faculdades de educação
têm estado em posição inferior
na lista de preferências de nossas universidades.
Nas próprias faculdades de educação
os professores não são recompensados
se fazem um bom trabalho ou mesmo se passam períodos
nas escolas. Na Califórnia não havia
parceria entre as secretarias de educação
e as universidades antes da Iniciativa da Leitura,
de modo que os estudantes faziam cursos sem a menor
relevância para as salas de aula onde teriam
que trabalhar. A Escola de Graduação
em Educação de Harvard, que é
considerada por muitos como a melhor faculdade de
educação do País, durante muito
tempo não teve programa de credenciamento,
e não se vê como uma instituição
que treina professores. Recentemente a administração
da Faculdade Dartmouth tentou abolir de vez seu departamento
de educação, afirmando que um departamento
de educação não tinha lugar em
uma faculdade de rigor acadêmico. Felizmente
as reclamações dos alunos salvaram o
departamento. Temos pouca consideração
pelo ensino, mas todos os dados das pesquisas indicam
que a leitura é uma das aptidões mentais
mais complexas aprendidas pelos humanos. Para ensinar
isto direito, deve-se ter grandes conhecimento e competência,
que exigem um roteiro de curso ligado à prática
supervisionada e a um acompanhamento continuado por
especialistas.
Estarão
hoje os professores das faculdades de educação
preparados para fornecer o conhecimento e a competência
de que necessitam os professores de crianças?
Apesar de alguns professores isolados poderem estar
fazendo um bom trabalho dentro das limitações
de seus currículos, minha experiência
diz que a maioria dos professores de faculdades que
ensinam tópicos de leitura precisam de muito
mais embasamento em ciência e pedagogia para
serem eficazes.Muitos departamentos de leitura estão
ocupados por professores adjuntos que não prestam
contas a ninguém e que frequentemente não
têm conhecimento das pesquisas atuais ou de
sua aplicação. No ano passado fiz uma
pesquisa com 55 participantes da Academia de Leitura
da Califórnia, que eram líderes escolhidos
a dedo das artes linguísticas de 11 regiões
distritais da Califórnia, sobre o que acreditavam
que deveria mudar na formação de professores.
Fiz a pesquisa após ensiná-los sobre
a estrutura da língua e sua relevância
para o aprendizado da leitura e da escrita. Muitos
destes líderes comentaram que as informações
sobre linguagem, leitura e soletragem oferecidas no
curso eram totalmente novas para eles, mas críticas
para o exercício da profissão. Lamentaram
os anos que passaram ensinando sem conhecer estes
fundamentos essenciais. Apesar de genericamente leais
às instituições onde se formaram,
estes líderes apoiavam incondicionalmente padrões
profissionais mais rigorosos, um currículo
para os professores baseado em pesquisas, e a exigência
de que os professores das faculdades fossem luminares
acadêmicos capazes de modelar e supervisionar
a instrução.
Aqui
no Distrito de Colúmbia eu acabei de finalizar
minha primeira semana de trabalho com os professores
de jardim de infância e primeira série
de nosso projeto. Passamos três dias falando
sobre os componentes da leitura equilibrada, a identificação
e produção de sons da fala, o ensino
da consciência fonêmica, e como as crianças
aprendem a ler e a soletrar. Ao final, um jovem professor
declarou-se ultrajado por nunca lhe terem ensinado
aquelas coisas; ele disse que poderia ter ensinado
muito mais aos seus alunos. Uma professora registrou
desanimada que estava terminando um mestrado em leitura
em uma universidade local e nenhuma das informações
essenciais veiculadas em nosso projeto lhe tinham
sido ensinadas. Nosso problema não são
os professores; nós estamos perdendo bons professores
porque seu treinamento é inadequado para obterem
sucesso em sala de aula com alunos heterogêneos.
Estabelecendo
uma Profissão
Profissões
como hidráulica (bombeiro), barbearia (cabelereiros),
auto-mecânica, fonoaudiologia, medicina e psicologia
regulamentam-se através de colegiados, padrões
de credenciamento em programas de treinamento, exames
nacionais e contínuas exigências acadêmicas.
Também recompensam o crescimento e a excelência
profissionais. O ensino da leitura na América,
na verdade todo o ensino, pode aprender alguma coisa
com as outras profissões e com nossos colegas
da Europa e da Ásia. Na Polônia, por
exemplo, os professores devem fazer cinco anos de
linguística, desenvolvimento infantil, psicologia
educacional e pedagogia antes de se sentarem para
a primeira rodada de exames de licenciamento profissional.
O trabalho acadêmico é combinado com
prática pedagógica supervisionada. Nos
Estados Unidos é raro o professor que sabe
a diferença entre o som da fala e o das letras,
ou que pode moldar escolhas pedagógicas de
acordo com uma teoria digna de crédito relativa
ao desenvolvimento da leitura e às dificuldades
de leitura.
A
superficialidade da formação dos professores
leva -os a um "método" ou "programa"
Aqueles leais a métodos tendem a ser ideológicos
e rígidos. Das centenas de professores que
entrevistei sobre sua orientação teórica
relativa à leitura, de cinco a dez por cento,
no máximo, foram capazes de nomear qualquer
um dos teóricos ou pesquisadores que efetuaram
efetivamente contribuições importantes
ao que sabemos sobre o desenvolvimento da leitura,
as diferenças individuais na capacidade de
ler, ou sobre os componentes de uma pedagogia eficaz.
Quando os professores se ligam a filosofias, programas
ou metodologias como a Linguagem Total ou a Recuperação
da Leitura, tendem a ser menos abertos às descobertas
de estudos objetivos, que poderiam melhorar seu exercício
da profissão, menos interessados no questionamento
das suposições do método que
escolheram, e menos eficazes na resolução
de problemas quando a abordagem que utilizam não
tem sucesso com um dado aluno, o que, acrescento,
é inevitável - nenhum programa ou abordagem
é igualmente eficaz com todos os alunos. A
questão que devemos ter em mente é que
crianças precisam deste tipo de ensino, em
que ponto de seu desenvolvimento, em que tipo de ambiente,
com que tipo de professor, e por quanto tempo, para
que se tornem adultos alfabetizados que gostem de
ler e escrever.
Para
tornarmos o ensino da leitura uma profissão,
devemos delinear o que todos os professores de leitura
devem saber e ser capazes de fazer, exigir e apoiar
credenciamento de programas de formação,
avaliar professores com base tanto no desempenho como
no conteúdo de seu conhecimento, encorajar
parcerias entre faculdades e secretarias (de ensino),
e elaborar incentivos para que os professores demonstrem
competência à medida que ganham experiência.
A
Ciência da Leitura
Dados
o grau de controvérsia e as discussões
que caracterizaram o campo da leitura no último
século, o Comitê pode indagar se o campo
está maduro o suficiente para que se chegue
a um acordo quanto aos padrões dos professores
de faculdade e os professores das crianças.
Minha resposta é que sim, apesar de a história
deste campo certamente atestar que esta empresa é
dasafiadora. A prevenção eficaz do fracasso
na leitura certamente não é algo óbvio,
ou estaríamos realizando-a. Se ensinar crianças
a ler fosse simples como apenas fornecer a atenção
de um tutor entusiástico mas destreinado, teríamos
descoberto isto e estaríamos fazendo desta
forma. Aprender a ler é difícil para
muitas pessoas, e a ciência - especialmente
ciência cognitiva, a neurociência e a
linguística aplicada - nos está ajudando
a entender porque e o que pode ser feito. Conhecemos
os principais componentes da pedagogia eficaz; o curso
do desenvolvimento da leitura; as diferenças
entre bons e maus leitores; a natureza linguística
da leitura e da escrita; o papel especial da fonologia
no aprendizado da leitura; a maneira como as palavras
impressas são processadas; porque algumas pessoas
compreendem melhor do que outras; e como a escrita
e a leitura estão ligadas. Há muitas
questões a serem respondidas por contínuas
pesquisas, mas agora já estamos prontos para
agir com aquilo que sabemos. A formação
de professores pode, e deve, se basear em fundamentos
científicos.
Agradeço
seu empenho para a melhoria do ensino da leitura em
nosso País. Ficarei satisfeita em responder
a qualquer dúvida que os senhores tiverem.
********
Sobre
a autora: Dra Louisa C. Moats é atualmente
diretora de um estudo quinquenal sobre o ensino inicial
da leitura sendo feito em Houston, Texas, e em Washington,
DC, em escolas públicas, sob a direção
da Dra Barbara Foorman, do Centro de Ciências
da Saúde da Universidade do Texas-Houston,
financiado pelo NICHD dos NIH. Obteve seu doutorado
em Leitura e Desenvolvimento Humano da Escola de Graduação
em Educação da Universidade Harvard.
Trabalhou como professora, técnica em neuropsicologia,
e especialista em dificuldades de aprendizagem antes
de seu treinamento doutoral em leitura. Foi psicóloga
reconhecida por 15 anos, em consultório particular,
em Vermont, assim como professora da graduação
em Harvard e na faculdade St. Michael. Especializada
em desenvolvimento da leitura, em dificuldades de
leitura, de soletragem e outros assuntos linguísticos,
escreveu e fez conferências amplamente, por
todos os Estados Unidos e em outros países.
Passou o ano letivo de 1996/97 como Distinguished
Visiting Scholar na Secretaria de Educação
de Sacramento, onde criou materiais de treinamento
de liderança referentes ao início da
leitura para a Secretaria de Educação
da Califórnia, e conduziu diversos simpósios
e oficinas para profissionais de educação.
A Dra Moats também projetou e dá aulas
em cursos inovadores para professores sobre a estrutura
da língua e seu papel no aprendizado da leitura
e da escrita, através do Instituto Greenwood,
em Putney, Vermont.