VIAGEM
AO CENTRO DO CÉREBRO:
uma enquete de Eric Fottorino
LE
MONDE - MAR/98
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
1.
UM MUNDO IMAGINADO
O
homem ereto é um velho mundo em marcha. Tudo
o que ele é, tudo o que ele foi, tudo o que
ele sabe dele e do resto está na casca enrugada
- o córtex - de uma grande noz que tem 1.300
g e muitos neurônios, de matéria cinza
pouco afável - de "terra e de água"
, dizia Aristóteles - por onde passa, ligeiro
ou fatal, o pensamento.
Se
sobreviveu à noite de suas origens, erigido
sobre suas duas pernas, as mãos enfim livres
e as mandíbulas levadas a dimensões
mais modestas do que as mandíbulas do seu irmão
símio, o Homo sapiens deve isto ao impulso
espetacular do seu lobo frontal, luz de seu cerebelo.
Uma luz fechada na penumbra de sua caixa craniana,
como Diógenes e sua lanterna à procura
do homem, da alma.
Deste
clarão escondido nasce o mistério. Uma
palavra pouco valorizada nos escritos científicos,
que a ela sempre preferiram a idéia de um desconhecido
acessível por força das experiências,
das teorias, e das hipóteses validadas sobre
as mesas de dissecação, escalpelo na
mão e nada de religião na cabeça.
O homem não tinha um deus alojado no encéfalo,
nem também um pequeno ser em miniatura, o homúnculo
dos alquimistas, representado nas figuras antigas
como um anão que vigia a partir do celeiro
cortical os sinais que vêm do corpo e articulam
movimentos e reações. A questão
em suspenso era vasta como o mundo: a massa do cérebro,
com suas estranhas circunvoluções, suas
dobras complexas - dobraduras -, seus sulcos e cissuras,
seus dois hemisférios unidos por um corpo caloso
à maneira dos continentes que não ficaram
à deriva, suas múltiplas glândulas,
negros humores e cinzentos apêndices semelhantes
aos escaleres de um balão, esta matéria,
então, poderia "razoavelmente" abrigar
o espírito?
Aqui
começa a viagem. Viagem íntima e viagem
de descoberta, daqueles que, uma vez soltas as amarras,
não estão perto de terminá-la.
Como nas grandes expedições ao Novo
Mundo, havia navios, aqueles que Galeno acreditava
descobrir entre o coração do homem e
seu crânio, a "rete mirabile", ou
rede admirável, que o célebre médico
de Alexandria, após tê-la extirpado de
mamíferos com seu bisturi, atribuía
injustificadamente à espécie humana.
A seus olhos a torrente (sic) sanguínea transportava
a energia vital queimada pela caldeira cardíaca
até a base inferior do cérebro, onde
ela se transformava em princípios espirituais.
Durante treze séculos, até mais, o homem
escolheu não escolher. "Diga-me onde mora
o amor, no coração ou na cabeça?",
pergunta suplicante um herói do Mercador de
Veneza, de Shakespeare.
Depois
da Renascença, portanto, as dissecações
de animais e de cadáveres, e o entusiasmo pela
anatomia, revelaram muitos segredos do órgão
superior do homem. "Leonardo da Vinci, entre
1504 e 1507, no Hospital de Santa Maria Nova, de Florença,
apresenta pela primeira vez um modelo em cera dos
ventrículos cerebrais e mostra um projeto preciso
das circunvoluções", escreve Jean-Pierre
Changeux no livro O Homem Neuronal. Mas ainda não
se trata da estrada real para a verdade "cefalocêntrica",
que coloca o cérebro na origem da expressão
humana. Precisamos voltar a Aristóteles para
descobrir o erro de direcionamento. O filósofo
entrou pelo caminho errado ao privilegiar a tese "cardiocentrista",
aquela que dá ao coração que
bate o monopólio da inteligência e das
paixões, sendo o cérebro na melhor das
hipóteses apenas um refrigerador precoce. Também
Homero se perdeu nessa corrente, ao sabor aleatório
das viagens e das miragens: a América não
foi dada a Colombo ao primeiro golpe...
Dezoito
séculos antes de nossa era, os egípios
perceberam a direção certa ao examinarem
feridas do crânio, descobrindo "as rugas
semelhantes àquelas que se formam sobre o cobre
em fusão". Um papiro recuperado desta
época longínqua testemunha o espanto
do cirurgião, fielmente transcrito pelo escriba,
diante de um ferimento na cabeça que provocou
dificuldades motoras. Partes do corpo tão distantes
"comunicam-se"? O homem da arte notou a
perda da fala causada por um esmagamento da têmpora,
sem tirar daí qualquer conclusão. Os
antigos egípcios, por prudência ou por
crença (religiosa), evitavam renunciar à
primazia do coração.
Foram
necessários alguns gregos de gênio, Demócrito,
Hipócrates, Herófilo e Galeno, para
abalar a visão aristotélica. Demócrito
qualifica o cérebro de "cidadela do corpo",
de "guardião do pensamento e da inteligência".
Hipócrates afirmou que "se o encéfalo
estiver irritado, a inteligência se desarruma".
Três séculos antes da nossa era, Herófilo
deu um passo decisivo ao reconhecer os nervos do movimento,
que ele distingue dos nervos do "sentimento"(hoje
batizados de sensóriomotores). A chamada dissecação
"abjeta" do cérebro fresco de criminosos
permite que ele relacione medula espinhal e cerebelo.
Quanto
a Galeno, que a ilusão da "rede admirável"
não desacreditou ( são os erros fecundos),
colocou a nu uma realidade animal aplicável,
desta vez, ao homem: a lesão profunda de um
ventrículo cerebral afeta o corpo e a atividade
mental. O cérebro, in fine, supremo comandante
do destino de cada um, rei sagrado do pensamento,
senhor dos gestos e das emoções por
mais de vinte séculos, ainda tem que lutar
com a transmissão de idéias tingidas
de sentimentalismo para que o coração
tenha suas próprias razões. A partir
de então a causa é entendida: é
a chapa do eletroencefalograma que marca e assinala
o fim de um homem.
Mas
a matéria, esta matéria vil e delimitada
pelo espaço e pelo tempo, pode engendrar o
espírito livre, imaterial e, acrescentam os
pais da Igreja, eterno? Eis René Descartes
e seu dualismo. Na parte 4 do Discurso sobre o Método,
o filósofo cria uma oposição
prometida à posteridade entre a res extensa
- a substância com extensão (ainda que
limitada ao invólucro carnal) - e a res cogitans
- a substância pensante -, entre o corpo e o
espírito. "Com uma ausência de clareza
que não lhe era costumeira", escreve o
prêmio Nobel de medicina Gerald Edelman, "Descartes
declarou que as interações entre a res
cogitans e a res extensa ocorriam na glândula
pineal", uma glândula singular, envolta
no encéfalo, e é justamente em sua característica
única que Descartes se apoia para eleger o
local da inteligência: "As outras partes
de nosso cérebro são duplas, e nós
temos um só pensamento de uma mesma coisa ao
mesmo tempo".
Ao
privar o espírito de seu suporte físico,
o filósofo separa a ciência de uma perspectiva
esclarecedora: a pesquisa biológica, neurológica
e fisiológica dos estado mentais, como se as
engrenagens de um mecanismo estivessem limitadas ao
corpo. "Aqui se situa o erro de Descartes",
explica Antonio Damasio, professor de neurologia na
universidade de Iowa. "Ele instaurou uma separação
categórica entre o corpo, feito de matéria,
dotado de dimensões, movido por mecanismos,
e o espírito, não-material, sem dimensão,
e isento de qualquer mecanismo. Ele afirmou que as
mais delicadas operações do espírito
não tinham nada a ver com o funcionamento de
um organismo".
Ao
tirar o pensamento do corpo ( e La Mettrie por sua
vez escreve sobre isso: "A alma é apenas
um termo vão; temos que concluir temerariamente
que o homem é apenas uma máquina"),
Descartes preparou o terreno para um pensamento mecanicista
que se obstinou, até época recente,
em dividir o cérebro em peças, a imagem
do computador substituindo a do refrigerador. Como
se o espírito fosse um conteúdo lógico
informático com o qual o córtex se contenta
em "funcionar". Diretor do laboratório
do desenvolvimento e da evolução do
sistema nervoso na Escola Normal Superior, Alain Prochiantz
vê no erro de Descartes um avatar de sua época:
"Ele entrou no cérebro pelo olho, no momento
em que foram inventadas as lupas ópticas. A
visão era a rainha das sensações,
e ele percebeu que havia uma máquina dentro
do homem. Creio que sua percepção teria
sido diferente se ele tivesse abordado o cérebro
pelo odor ou pelo tato".
O
tom está dado. Se o homem é um espírito
puro ("Cogito, ergo sum", ao qual reage
em vão o "Sou, logo penso" do escritor
espanhol Miguel de Unamuno), seu corpo é uma
máquina autônoma. Vindo ao apoio desse
dualismo o mecanismo centralizador (em tecelagem)
de Vaucanson e os robôs da fábrica Renault,
a idéia de que o irracional e o indeterminismo
saem do campo científico e só podem
ser apreendidos pela psicanálise, o inconsciente,
o superego... A doutrina da Igreja sobre a imaterialidade
da alma está salva. Os teólogos não
quiseram considerar a evocação da glândula
pineal, por Descartes, como uma tentativa, ainda que
pouco convincente, de localizar o espírito.
A
viagem sobre o manto cortical prosseguiu, mas a tocha
mudou de mãos. Chegara a hora de um médico
anatomista vienense que teve durante a vida um renome
(sulfuroso) comparável ao de Sigmund Freud.
Ele se chama Franz-Joseph Gall, e passa a maior parte
de seu tempo apalpando cérebros para revelar
com isso "as faculdades inatas felizes e infelizes"
do homem. Durante o dualismo triunfante deste final
do século 18, Gall escandaliza ao colocar o
espírito nos limites da caixa craniana. O cérebro
passava por um continente compacto e anônimo,
uma espécie de terra incognita paradoxal que,
para dar ao homem uma representação
do mundo exterior, evitava esclarecimentos sobre sua
própria arquitetura mental.
Gall
divide a superfície do crânio em 27 partes,
que são igualmente funções psíquicas
e motoras batizadas como principalidades. Já
não se navega mais a olho nu: Gall inscreve
os nomes sobre o cinza e o branco do mapa cerebral.
A nomenclatura peca por uma certa inocência:
lêem-se entre as regiões identificadas
a combatividade e o instinto de destruição,
o espanto e a imitação, a aptidão
para ser consciencioso, a prudência e o amor
próprio, o senso do maravilhoso, que Broussais,
cirurgião do exército de Napoleão,
disse que era particularmente desenvolvido em Moisés!
Para
conduzir bem sua exploração sem abrir
o crânio, Gall procura bossas e intumescências
na superfície do couro cabeludo. Sua hipótese
inicial é simples: as qualidades do homem deformaram
seu cérebro e deixaram sua marca na abóbada
de seu crânio. Imagem inversa das crateras lunares,
onde aflora a bossa dos meteoros... Em Viena, Weimar
e Paris, Gall é um prodígio e um demônio.
(Pois) ele não ataca o dualismo ao ousar determinar
uma residência para o espírito, recusando
que um ser superior, uma boa alma, governe os sentidos
e a consciência?
A
flecha do tempo dissipará o segredo: Gall se
enganou ao imputar funções fantasistas
às depressões do encéfalo. (Ele
apenas acertou na nomeação das áreas
da fala e da memória das palavras na região
frontal do cérebro). Mas sua intuição
continua pioneira: se é impossível localizar
sobre o córtex a avareza ou o gosto pela rapina,
Gall abriu o frutífero caminho das localizações
cerebrais. Ao representar o cérebro como uma
federação de órgãos especializados,
ele não somente recolocou o espírito
em seu (devido) lugar, ele sobretudo alimentou no
homem, agrimensor de suas próprias incertezas,
a vontade pascaliana de conhecer a si mesmo, de colocar
palavras nas zonas de sombra, de nomear, logo, de
compreender. Sua tentativa tinha seus limites: ao
subdividir o cérebro Gall não tinha
idéia de que os seus centros funcionais não
eram verdadeiramente centros, mas sistemas complexos
e interdependentes, placas ou cartões neuronais
ligados entre si pelo jogo combinado da genética,
da memória da espécie, da experiência,
do tesouro individual.
O
doutor Harlow havia ouvido falar em frenologia, até
que em 1848 lhe foi apresentado um jovem contramestre
da Nova Inglaterra que uma barra de ferro de 6 quilos,
1,10 m de comprimento (com um ponta afiada de 18 cm),
e com 3 cm de diâmetro, havia literalmente perfurado
o todo de seu crânio, atravessando a parte frontal
de seu cérebro para depois cair a alguns metros
de distância. Phineas Gage, este era seu nome,
ignorava que tinha se tornado um caso bastante discutido
da neurologia e das lesões cerebrais. Uma hora
após o acidente, devido ao embuchamento malfeito
de uma mina explosiva, Gage, que tinha perdido um
olho, falava normalmente e contava sua desventura
sem dificuldade aparente. Nada lhe faltava de suas
faculdades intelectuais, nem de seu vocabulário,
suas lembranças, nem mesmo de suas capacidades
motoras.
Levou
algum tempo para que as pessoas próximas a
ele constatassem que, por outro lado, sua personalidade
havia mudado brutalmente. "Gage não era
mais Gage", nota Antonio Damasio em O Erro de
Descartes. O equilíbrio entre as faculdades
intelectuais e suas pulsões animais encontrava-se
abolido. O doutor Harlow, assim, observou que Phineas
Gage apresentava "humor instável, irreverente,
proferindo às vezes grosseiras blasfêmias,
o que nunca fazia antes, e manifestando pouco respeito
por seus amigos". Este novo retrato conflitava
com suas qualidades de "antes": "Fino
e hábil nos negócios, capaz de energia
e perseverança na execução de
todos os seus planos de ação".
Despedido de seu trabalho, Gage termina sua triste
carreira como atração do circo Barnum
de NY, onde ele contava seu acidente sem jamais largar
a barra de ferro que o havia perfurado, explorando
sua cabeça como Phileas Fogg (havia explorado)
a Terra, cercado de jovens com pele de elefante e
de mulheres monstruosas.
As
descrições do doutor Harlow foram estudadas
por um discípulo de Gall. Segundo ele a barra
de ferro tinha passado "pela vizinhança
da Benevolência e na parte anterior da Veneração",
duas "localidades" caras à frenologia.
"Seu órgão de Veneração
foi lesado", precisou o observador. " É
por isto, sem dúvida, que não parava
de blasfemar". Mais seriamente, a patologia de
Phineas Gage sugeriu um novo olhar sobre as funções
cerebrais e suas afecções geográficas.
O intelecto de um homem, sua linguagem, podem permanecer
intactos ao mesmo tempo em que ele é privado
do senso moral, do bem e do mal. "Ele tinha perdido
uma característica própria do homem",
conclui Antonio Damasio: "Fazer projetos para
seu futuro enquanto ser social".
Nesta
época ignorava-se um aspecto importante do
cérebro, sua capacidade de funcionar como um
todo, o neocórtex, local do pensamento mais
evoluido, recebendo sem cessar sinais emocionais provenientes
do "cérebro fluido", descrito pelo
professor dee neurofisiologia Jean-Didier Vincent.
Um anacronismo impõe-se aqui, antes de chegarmos
a Broca, contemporâneo de Gall, e à localização
da fala. No começo dos anos 70, Mac Lean apresentou
sua teoria dos três cérebros superpostos
dentro da caixa craniana: um cérebro reptílico,
profundo, vindo do balbucio da espécie, acantonado
nas tarefas primárias, beber, comer, reproduzir-se.
Um cérebro sentimental, ou límbico,
(descrito em sua época por Paul Broca), vazado
por emoções e por uma memória
genérica dos movimentos, do que faz sofrer,
do que dá prazer. Um neocórtex que pensa,
antecipa, calcula e age. "Como o limbo da mitologia
cristã", escreve Jean-Didier Vincent,
"o sistema límbico é o intermediário
entre o céu neocortical e o inferno reptiliano.
As representações do mundo exterior
e interior se superpõe ali".
O
avanço das neurociências mostrou as falhas
desta trindade cerebral. O homem não estratificou
seu intelecto no decurso da evolução,
e a imagem de um São Jorge abatendo o dragão
que se esconde em nós, ou do motor colocado
sobre o arado, presta conta imperfeitamente da arquitetura
cortical. "Não existe lei da recapitulação",
explica ainda Jean-Didier Vincent, "através
da qual seríamos sucessivamente girino, réptil,
camundongo, macaco e homem. Mas o cérebro reptiliano
repercute no córtex (com a passagem de neurotransmissores
químicos, serotonina, adrenalina) e nosso córtex
frontal toma as decisões emocionais. A tessitura
é tal que não podemos separar o afetivo
da memória e do intelecto".
Tal
verdade estava contida inteiramente no acidente de
Phineas Gage, ocorrido há um século
e meio. Foi necessário um tempo para que o
homem, "entrincheirado em seu pensamento",
admitisse que o animal que havia nele não estava
relegado aos baixos estágios de seu encéfalo,
mas afluia na quintessência do seu "eu".
Pois, se não se trata de uma recapitulação,
o cérebro humano é uma síntese
dos mundos passados. "Nós somos um produto
da evolução das espécies",
admite Alain Prochiantz em seu ensaio Em que Pensam
os Calamares, e compartilhamos um ancestral comum
com o polvo. Mesmo se a estrutura do nosso córtex
e a invenção da linguagem permitem que
escrevamos sobre os polvos, e não o inverso,
resulta desse parentesco que as outras espécies
animais, aqui compreendidos os invertebrados, têm
alguma coisa a nos ensinar sobre o pensamento, ainda
que consciente". Percebemos o eco de Darwin:
"A estrutura corporal do homem carrega a marca
indelével de uma origem inferior". O vestígio
deste passado evolutivo subsiste também nas
rugas do invólucro mental.
Fim
do anacronismo. Na metade do século 18 ninguém
saberia dizer com precisão onde se encontra
o pensamento. Será que ele foi colocado no
cérebro como doces são colocados em
um pote? , interroga-se o mesmo Prochiantz, zombando
da teoria antiga de Cabanis, segundo a qual o córtex
secreta o espírito como o fígado secreta
a bílis, de maneira endócrina, sem construção
particular, sem... pensar nele. Quando o anatomista
e cirurgião Paul Broca apresenta o fruto de
suas descobertas em 1861, o cérebro finalmente
vai falar. Diante da Sociedade de Antropologia, Broca
presta contas sobre a autópsia que fez em um
certo Eugène Leborgne, mais conhecido nos anais
médicos pela alcunha de "Tan-Tan",
a única sílaba que ele sabia pronunciar,
além da blasfêmia "Pelo amor de
deus!", que escapava bizarramente de sua boca
se ele percebia, desesperado, que ninguém o
estava entendendo.
A
comunicação de Broca é conhecida
sob o título de "Perda da fala, apatetamento
crônico e destruição parcial do
lobo anterior esquerdo do cérebro". A
partir de uma lesão do tamanho de um ovo de
galinha na terceira circunvolução frontal
do hemisfério esquerdo, "Tan-Tan"
era incapaz de "coordenar os movimentos próprios
da linguagem articulada". Esta afasia motora
parecia confirmar que o espírito não
era um todo, mas um conjunto fragmentado. Broca marcou
um ponto para as teses "localizacionistas".
A área da linguagem, batizada de área
de Broca, consagrava uma zona precisa do cérebro
como sede da fala, distinta da memória semântica
e visual das palavras, que continuou intacta. Mas
o ensinamento obtido deste cérebro atingido
deixava uma perplexidade: Broca tinha localizado uma
função ou um déficit? Uma lesão
neste preciso local arruinaria a totalidade de um
processo ou somente um eixo isolado, crucial mas não
único?
Foi
preciso esperar pelas representações
modernas das imagens médicas por ressonância
magnética para que se detectassem outras áreas
"associativas" implicadas na linguagem,
ainda que a área de Broca, com o passar do
tempo e o crivo da experiência, tenha conquistado
o direito de existir. Ela é o primeiro ponto
fixo sobre o mapa incerto de um "estado central
flutuante". Ela dá o ponto de partida
para um cérebro assimétrico onde o hemisfério
esquerdo fala, calcula, analisa e raciocina, enquanto
o hemisfério direito reconhece rostos e formas,
situa o corpo no espaço, elabora um pensamento
"para além das palavras" e vibra
com as obras musicais.
Sem
simplismo. Em 1874 o neurologista alemão Karl
Wernicke descobre um novo sítio, mais interno,
no lobo temporal esquerdo, implicado na expressão
oral. "Ele demonstrou que as imagens auditivas
verbais pareciam estar localizadas em um outro banco
de memória, diferente daquele que continha
as imagens dos movimentos articulatórios",
escreveu Israel Rosenfield, professor de história
das idéias na City University, NY. "A
descoberta de dois sítios anatômicos
distintos favoreceu o desenvolvimento da teoria imaginada
por Broca, segundo a qual havia dois tipos de memória.
(...) A área de Wernicke era o sítio
das 'representações auditivas das palavras',
quer dizer, dos registros de cada palavra individual.
Daí ele deduziu que as duas zonas estavam ligadas
por um feixe de fibras". Assim foram identificadas
as duas grandes disfunções da linguagem,
a afasia motora de Broca, encarnada por "Tan-Tan"
e sua blasfêmia desesperada, e a afasia sensorial
de Wernicke, na qual os doentes derramavam um turbilhão
de palavras incoerentes das quais não sabiam
mais o sentido.
Mas
ninguém tinha ainda idéia da complexidade
das conexões neuronais do frágil homem,
rede pensante. Diante da opacidade de sua "caixa
preta", o olhar esbarrava nas circunvoluções
mudas da matéria. Se o escalpelo mostrava a
espessura inegável das superposições,
a ausência de homogeneidade dos tecidos e seu
caráter aparentemente indolor, ao final do
século o cérebro continuava sendo uma
fortaleza bem protegida. A geografia cerebral deixava
a desejar. É certo que as cissuras de Sylvius
e de Rolando vinham delimitar claramente o lobo frontal
e o lobo parietal. Na década de 1850 os anatomistas
Leuret e Gratiolet representaram magnificamente os
lobos occipital e insular, o corpo caloso e os ventrículos,
o tronco cerebral e seus prolongamentos, bulbo e medula
espinhal. Os que viajavam por este limbo não
tinham um mapa que mostrasse "em relevo"
a imperfeita rotundidade do encéfalo e a aferição
exata dos dois hemisférios sob a casca (craniana).
O desconhecido significava o incognoscível?
Uma máquina só poderia revelar seu segredo
a uma máquina de ordem superior?
O
homem confrontado com seus limites não cessou
de querer explicar sua própria aventura navegando
de "ismos em ismos": o sensualismo de Locke
e de Condillac, na linha platônica ("Não
há nada no intelecto que não tenha passado
antes pelos sentidos"); o behaviorismo watsoniano,
reduzindo as atividades do comportamento ao binômio
"estímulo-resposta" e excluindo toda
representação cerebral interna; o cognitivismo
encarnado pelo linguista americano Noam Chomsky, supondo,
por sua vez, que o indivíduo é dotado
desde o nascimento de uma armadura mental que lhe
permite adquirir e manipular saberes; o ineísmo
(NT - interiorismo), variante do anterior, que se
recusa a considerar o córtex como uma (estrutura
de) cera mole e virgem obliterada pelo (que lhe vem
do) exterior durante sua vida. (Um conteúdo
pré-existiria à experiência, como
parece testemunhar a detecção de sinais
de orientação no cerebelo de gatinhos
de menos de oito dias, que jamais haviam abrido os
olhos).
Continente
dividido, o cérebro do homem lhe fornece uma
representação do mundo ("imago
mundi"), ao mesmo tempo que lhe permite agir
sobre o mundo ("anima mundi"). Desdobrado,
com as pregas desfeitas, um córtex humano ocupa
uma área de 2 metros quadrados, uma verdadeira
imensidade se comparado ao cerebelo desdobrado de
um macaco "superior" comedor de frutas.
(O do comedor de folhas é ainda menor: suas
faculdades são em menor número, portanto
seu córtex está menos interligado...)
Foi
em 1919 que o doutor Korbinian Brodmann, sintetizando
as conquistas da anatomia e da microscopia, propôs
o primeiro mapa detalhado do cérebro humano,
enumerando 52 áreas distintas relacionadas
referencialmente pela diferença de arquitetura
das células nervosas. Abandonando as ingênuas
nomenclaturas de Gall, ele objetivou mais sobriamente
as zonas da linguagem, da visão, da motricidade
ou da audição, e também os espaços
associativos cujos modos de funcionamento permaneciam
obscuros.
Útil,
o exercício foi insuficiente. As representações
de Brodmann não poderiam pretender a universalidade,
porque dois encéfalos jamais são iguais,
sulcos e circunvoluções variando de
um indivíduo para outro, e (são) também
únicos e pessoais (aqui compreendidos os gêmeos
univitelinos) como as impressões digitais.
Por isso os cirurgiões da época tomavam
como referência o Atlas de Taleyrach, um médico
de Sainte-Anne que tentou montar um cérebro
padrão por meio de um sistema proporcional,
uma espécie de "imagens médias".
Mas como escreveram os professores Bernard Mazoyer
e John Belliveau, "a referência (era) a
de um único cérebro utilizado para a
elaboração deste atlas: o hemisfério
direito de uma velhinha, dissecado após sua
morte e mergulhado em formol".
A
exploração deveria continuar. Ela prosseguiu
mais para o centro, mais para o coração
do cérebro. Em princípio em escala microscópica
para se descobrir uma camada de neurônios diferentes,
formando não "uma rede contínua
como os canais da Camargue vistos de avião",
observa Jean-Pierre Changeux, mas um conjunto de unidades
independentes "em relação de contiguidade,
como as árvores de uma floresta ou os ladrilhos
(peças) de um mosaico", cada célula
dialogando com as outras em um espaço evidenciado
pelo fisiologista inglês Sherrington em 1897:
a sinapse. Para ir até o fim, era necessário
energia elétrica. Precisamente, depois de testes
com eletrodos em cérebros de cães e
coelhos, os médicos berlinenses Fritsch e Hitzig,
e depois o assistente de fisiologia da Royal Infirmary
de Liverpool, de nome Caton, revelaram a atividade
elétrica do cérebro. Melhor: apareceu
uma ligação entre as funções
corticais precisas e os fenômenos elétricos.
A visão cerebral tornara-se confusa. Da eletroencefalografia
rudimentar às imagens modernas de ressonância
magnética, a técnica estava pronta para
apresentar um novo mundo aos olhos do homem.
2. UM NOVO MUNDO
Onde
o cérebro trabalha, o débito sanguíneo
aumenta. Seria necessário então apenas
seguir este fio vermelho para chegar às regiões
da linguagem e da visão, do cálculo
ou da música. Graças aos rastreadores
radioativos e à ressonância magnética
as imagens modernas mostram o córtex que fala,
conta, lembra, erra ou se perturba. Uma introspecção
que permite apreender melhor a complexidade do universo
cerebral sem violar a intimidade do pensamento.
Em
seu romance Da Terra à Lua, Jules Verne imaginou
um personagem intrépido chegando ao astro da
noite a bordo de um foguete de alumínio. A
exploração moderna do cérebro
se vale dessa visão hermética e afunilada.
Para comprovar o infinito de sua galáxia mental,
uma constelação de cem bilhões
de neurônios unidos por milhares de bilhões
de micro-espaços, para que o homem se perceba
como maior do que é, contendo um universo na
desmedida de suas faculdades de pensamento, de movimento,
de sofrimento, ele teve que se fazer pequeno, muito
pequeno. E imóvel. Estender-se em um tubo estreito
onde reina o campo magnético. Sem mover a cabeça,
controlado por periscópios, guiado por ecos
de navegação, sob a visão de
lentes prismáticas, à espera do caos
visual e sonoro que comanda a IRM (imagem funcional
de ressonância magnética), palavra mágica
que revela o espírito e suas regiões
corticais.
Será
que um dia leremos pensamentos? Pai desta tecnologia,
juntamente com o pesquisador Seigi Ogawa, o doutor
Denis Le Bihan, neuroradiologista do hospital de Orsay,
parece confuso com sua própria análise:
"Nos últimos anos, eu respondia: não.
Hoje, acredito que sim". Infinito debate que
divide gerações de usuários de
jaleco branco. Marc Jannerod, diretor do novo Instituto
de Ciências Cognitivas de Lyon, descarta definitivamente
esta hipótese: "Poderemos saber se uma
pessoa realiza ou não uma atividade mental.
Em qualquer dos casos, não teremos acesso ao
conteúdo de seu pensamento". Jean-Pierre
Changeux, o patrono das neurociências no Instituto
Pasteur, mostra-se perplexo e menos decidido: "Jannerod
é contra por princípio ou por método?"
A seus olhos, Denis Le Bihan está no caminho
certo: "Se você ativar em uma pessoa os
objetos de memória que representam um rosto,
um animal, um instrumento, as diferentes áreas
do lobo temporal vão se iluminar, você
saberá em que pensa a pessoa".
Palavras
francas que testemunham as paixões e proibições
que cercam os estados mentais puros. Por sobre a artilharia
das imagens, o espírito, que acreditávamos
irredutível aos meios mecânicos, já
tem condições de se dar conta, de ser
explicado. O que disse Salret, o alienista da Salpêtrière?
"Quando a própria cabeça for transparente
como cristal", disse ele em 1920, "não
perceberemos nenhuma diferença entre quem pensa,
delira ou sonha". E o que disse Ivan Pavlov,
o homem que fazia babarem os cães ao toque
de uma campainha, tomado em 1927 por uma iluminação
profética: "Se pudéssemos observar
através da caixa craniana", escreveu ele,
"e se a zona de excitabilidade ótima estivesse
iluminada, descobriríamos em um ser pensante
o deslocamento incessante de pontos luminosos, cercado
por uma região de sombra mais ou menos espessa,
ocupando todo o resto dos hemisférios".
Aqui
estamos nós.
A centelha vem do sangue. E' uma longa história
que começa em 1890, depois que dois fisiologistas
ingleses, Roy e Sherrington, estabeleceram uma ligação
entre a atividade cerebral e o fluxo sanguíneo.
Quanto mais for solicitada uma área do córtex,
mais ela recebe hemoglobina carregada de oxigênio
e glicose, os combustíveis da matéria
cinzenta. Era suficiente seguir o fio vermelho até
o cérebro. O homem levou um século para
chegar a este objetivo. Vêmo-lo (putz!) mais
curioso do que nunca, surpreso com sua audácia
e bem deliberado em levar a termo sua investigação
sobre esse "fósforo meio úmido
que serve de previsão para a hipótese
de não estar vivo".
O
eletroencefalograma, com seus eletrodos colocados
sobre o escalpo do paciente, fornece em tempo real
o estado ativo elétrico dos neurônios,
sem permitir que se localizem com exatidão
as zonas de trabalho. Nos anos 70 a escanografia,
ou scanner de raios X, permitiu que fossem feitos
os primeiros mapas funcionais do cérebro. Mas
às imagens faltavam os contrastes para que
se pudesse entrar na intimidade das células.
A década de 90 presenciou a ida pelos ares
dos últimos empecilhos, com a tomografia por
emissão de pósitrons (TEP), depois o
ímã da IRM funcional, no campo magnético
trinta mil vezes superior ao da Terra.
Nos
dois casos quem fala é o sangue. A primeira
técnica é ligeiramente invasiva. Injeta-se
no braço de um voluntário um isótopo
ou rastreador radioativo cuja meia-vida - período
de radiação - é breve: 123 segundos
para o oxigênio 15. Durante este curto intervalo
a pessoa examinada deve se entregar a uma tarefa cognitiva
ou motora precisa, ler palavras, escutá-las,
fazer oposição entre o polegar e os
outros dedos. Ao se desintegrar durante sua viagem
em direção ao cérebro o isótopo
emite um pósitron que logo se choca com uma
partícula irmã, um elétron. Deste
encontro no "pico" nascem dois fótons,
dois grãos de luz que são filmados por
uma câmera de pósitrons disposta como
os anéis de Saturno à volta do crânio
do indivíduo. Os detectores, muito sensíveis
aos raios, funcionam como circuitos coincidentes:
religados aos pares, eles só assinalam uma
ocorrência se dois fótons se propagarem
em sentido inverso. Um cálculo complexo permite
então a reconstituição das imagens
do corte do cérebro que reflete sua atividade.
As emissões de fótons culminam ali onde
o débito sanguíneo for mais forte. Daí
a zona solicitada é deduzida, quando o indivíduo
fala, calcula, escuta uma mensagem ou movimenta um
dedo.
Esta
técnica tem limites: ela transmite o que vê
com um segundo de atraso, sem obter a velocidade com
que o cérebro estabelece ou modifica suas conexões,
dezenas ou centenas de milisegundos. Assim, a TEP
padece de uma ligeira imprecisão: as áreas
identificadas estão a muitos milímetros
das áreas realmente em ação.
A IRM corrige estes defeitos sem eliminá-los
completamente. Mais próxima da cronometria
cerebral, mais fiel na localização das
zonas de trabalho, ela por sua parte não exige
nenhuma picada no braço, e assegura longas
sequências de cenários. O afluxo de sangue
oxigenado nas partes ativas do córtex perturba
o campo magnético local. Os sinais magnéticos
emitidos depois do bombardeamento de ondas de rádio
permitem que se façam as mais fiéis
representações, até hoje, do
cérebro pensante.
O
uso clínico dessas imagens parece ser primordial.
Uma exploração pré-operatória
informa o cirurgião sobre o lugar preciso onde
a extração de um tumor não fará
o paciente sofrer qualquer tipo de paralisia. Também
vale para as pessoas acometidas de epilepsia. A secção
parcial do lobo temporal pode provocar perda de linguagem,
a afasia. Até hoje os médicos não
tinham outro recurso além do teste traumatizante
de Wada: com um catéter enfiado em uma carótida,
o paciente recebia um barbitúrico durante um
minuto em seu suposto hemisfério da linguagem
e passava por uma prova de produção
ou reconhecimento de palavras. Mas o método
carecia de viabilidade. O barbitúrico se difundia
para além das áreas visadas. Assim que
o doutor Le Bihan coloca uma menina epilética
de 10 anos sob seu magneto e lhe pede que cite nomes
de brincadeiras, de alimentos ou de hábitos,
ele sabe que as respostas serão indiscutíveis
e o teste de Wada inútil. Verdadeira erupção
cerebral, a epilepsia se traduz por um débito
sanguíneo aumentado e quase simultâneo
em diversas regiões do cérebro. "Mas
existe mesmo uma zona que se estimula antes das outras,
um foco epilético. A IRM deverá localizá-la",
especifica o facultativo de Orsay.
Tudo
certo, as doenças degenerativas do sistema
nervoso, como as doenças de Alzheimer ou de
Parkinson, indicam antes de mais nada a necessidade
de um conhecimento melhor do genoma humano. Portanto
as imagens obtidas dos sinais precursores das afecções
do cérebro têm interferência pequena,
como a da esclerose em placas. O simples movimento
de um dedo da mão direita ativa uma região
do hemisfério esquerdo do cérebro. Ele
também estimula os núcleos cinzentos
envolvidos no refinamento do movimento. Veredito da
IRM: estes núcleos são inoperantes nos
parkinsonianos.
Na última primavera, uma equipe de pesquisadores
de Saint Louis (Missouri) identificou um nódulo
profundo, seis centímetros atrás da
fossa nasal, o córtex préfrontal articulado,
como o local presumido da melancolia, também
chamada de depressão. As imagens da câmera
em algumas posições mostraram que esta
zona era pouco ativa em uma amostra de pacientes depressivos,
em comparação com a (zona) das pessoas
"normais". Graças à maior
precisão da IRM, os cientistas de Saint Louis
constataram que os tecidos cerebrais do córtex
préfrontal articulado dos doentes era 50 %
menos espesso! Das numerosas experiências realizadas
com esquizofrênicos fez-se surgir uma hipofrontalidade
- portanto uma atividade enfraquecida do córtex
frontal onde se sediam as funções superiores:
reflexão, antecipação, coerência
do discurso ou do cálculo. Sobretudo, as alucinações
visuais ou auditivas ativam as áreas primárias
da visão e da audição, como se
se tratassem de fatos realmente percebidos. Incapaz
de discriminar entre mundo exterior, o produto de
sua memória ou o fruto de sua imaginação,
o cérebro dos esquizofrênicos cria para
si seu próprio mundo.
Mas
devemos acreditar naquilo que vemos? Onde se situam
as fronteiras da normalidade? A TEP e a IRM funcional
produzem seus preciosos dados segundo o princípio
da subtração: o córtex da pessoa
é "escaneado" ou "magnetizado"
em repouso, e depois em atividade. A diferença
entre os dois registros dá informações
sobre as áreas implicadas. Resta a sombra de
uma dúvida. O que significa "em repouso"
para um órgão dotado de uma vida sui
generis?
Um
paciente deve olhar para diversos pontos luminosos
vermelhos. Sua área visual primária,
chamada V1, se ativa. Depois de alguns exercícios
semelhantes, o médico lhe pede para não
mais fixar os pontos vermelhos, e para fechar os olhos
e se lembrar deles. Surpresa: a mesma área
V1 se ilumina em seu córtex, sem que a retina
tenha recebido qualquer mensagem. A questão
vale a pena ser recolocada: devemos acreditar no que
vemos se a imaginação provoca uma reação
semelhante no cérebro? "V1 serve de tela",
diz Denis Le Bihan. "Projetamos nela um vídeocassete
ou um programa exterior". As pessoas "em
repouso" às vezes são instadas
a sonhar com um céu azul ou com uma noite estrelada.
"Como as imagens podem ativar o córtex
visual primário, mesmo esta condição
não é anódina".
Um
cenário semelhante ocorre no córtex
motor: a pessoa testada deve movimentar os dedos de
uma das mãos, um de cada vez, e depois ela
efetua gestos similares "na cabeça",
sem fazer qualquer movimento. Também aqui regiões
idênticas do córtex são estimuladas.
O mental training dos desportistas recebe sua consagração
neurológica. Entre agir e imaginar a ação
não existe nenhuma diferença cortical.
O golfista, o corredor, o tenista, que se concentram
sobre a tarefa a cumprir, decompondo cada gesto, animam
em si mesmos uma espécie de simulador de bordo.
O pesquisador do Inserm Jean Decety relata as incríveis
conclusões de dois pesquisadores americanos
que compararam a aprendizagem psíquica e física
com relação à força do
punho. "O treinamento mental produz os mesmos
efeitos sobre o aumento da força muscular que
o treinamento físico. Estes resultados só
podem ser interpretados através da ativação
dos circuitos motores centrais. Pois nenhuma contração
dos músculos foi observada durante o treinamento
mental".
Uma
descoberta dessas também abre caminhos insuspeitados
para a reeducação (reabilitação).
Aqui se impõe uma surpreendente propriedade
cerebral: a arte da economia; imaginar antes de ou
ao invés de fazer. Ultrapassar o agir pensando
nele, um pensamento eficaz. "Nós somos
os animais que tiveram a boa idéia de ter uma
idéia em lugar das coisas", observa o
psicobiólogo Roland Jouvent. O intelecto é
"um meio de se adaptar, de substituir a realidade".
Portanto
a linguagem não está só quando
se trata de dar sentido. As imagens refletem um pensamento
"para além das palavras", que poderíamos
batizar de "imagin-ação".
Se tivesse que realizar todos os atos que lhe passam
pelo espírito, se tivesse que experimentar
cada combinação do tabuleiro de xadrez
antes de escolher uma delas, o homem são sem
dúvida perderia a razão. O cérebro
é um mundo que protege do mundo, reduzindo-o
ao essencial.
Desta
complexidade o pesquisador italiano Mizzolati extraiu
uma família de neurônios com propriedades
particulares, que também foram estudados em
Lyon por Marc Jannerod e Jean Decety. Um homem segura
em sua mão um amendoim, observado por um macaco.
No córtex do animal se ativa um neurônio
chamado "espelho". Se o macaco realizar
por sua vez o mesmo ato, este neurônio intervem
no que é idêntico. Fazer e ver fazer
são equivalentes corticais. O que vale para
o quadrúmano vale para o homem. "Se nós
só tivéssemos este tipo de neurônio",
explicita Marc Jannerod, "estaríamos mergulhados
em um estado de esquizofrenia, incapazes de decidir
quem, dentre nós e o outro, tinha realizado
o movimento". Mas estes neurônios "espelhos"
têm uma utilidade cognitiva e social considerável.
E' na codificação das representações
dos outros em ação no interior de nosso
cérebro, (NT - engrama: figura de memória
latente na consciência) ao "engramarmos"
estas imagens, que nos compreendemos mutuamente. Possuir
o reflexo de um outro realizando uma tarefa precisa
é, a um só tempo, aprendizagem e partilha
de uma experiência oculta em cada um e ainda
assim reconhecida assim que surge no cotidiano. Jean
Cocteau teria amado este espelho que reflete.
Não
está longe o tempo em que os pesquisadores
só dispunham, para resolver o enigma cerebral,
de materiais post mortem ou de pacientes lesados.
Com as imagens modernas, são as pessoas em
plena posse de suas faculdades que são expostas
ao ímã ou ao foco da câmera de
pósitrons. As faculdades superiores do córtex
humano, a partir de agora, são o alvo, e sua
descoberta é uma fonte inesgotável de
espanto.
Em
1973, Semir Zeki chocou seus pares ao afirmar que
o cérebro tratava a informação
visual por vias especializadas e geograficamente separadas,
à maneira de uma agência de correios
subdividida em guichês. "Fui recebido friamente",
lembra o professor de neurobiologia do British College,
de Londres. "Nossa imagem do mundo é unificada.
Pensar que ela provém de processos distintos
vai ao encontro da experiência de cada instante".
Laureados com o prêmio Nobel de medicina em
1981 por seus trabalhos sobre os mecanismos corticais
da visão, os pesquisadores de Harvard David
H. Hubel e Torsten-Niels Wiesel não constataram
qualquer segregação celular no seio
da V1, a área primária que recebe as
imagens da retina. Semir Zeki se apoiou em trabalhos
realizados com macacos, os símios sob certo
"ponto de vista" mais próximos do
homem.
Foi
em 1989 que a câmera de pósitrons lhe
deu razão. Colocada diante de figuras geométricas
coloridas como quadros de Mondrian, uma pessoa ativava
uma pequena região do córtex occipital
exterior à área V1, que Zeki denominou
área da cor, ou V4. Um quadro de pontos luminosos
em preto e branco piscando aleatoriamente deixava
a V4 apagada, mas estimulava uma outra pequena região
V5, com preferência pelo movimento e indiferente
ao colorido. Zeki também distinguia a V3, a
área da forma, e a V2 situada situada ao redor
da V1, desempenhando o papel seletivo de "peneira"
entre a área primária da visão
e as áreas especializadas. Esta arquitetura,
admitida por Hubel e Wiesel, é rica em ensinamentos:
uma minúscula lesão occipital pode subtrair
a visão das cores (acromatopsia) sem tirar
a visão, ou privar uma pessoa da percepção
dos movimentos (akinetopsia) ou da faculdade de reconhecer
rostos familiares (prosopagnosia), à maneira
do "homem que tomava sua esposa por um chapéu",
examinado pelo neurologista Oliver Sacks.
Semir
Zeki decompôs as sequências visuais do
cérebro. Em 80 milésimos de segundo
o homem percebe primeiro a cor, depois a forma, depois
a profundidade, e enfim o movimento. Na totalidade,
umas trinta áreas de extensão variável
estão implicadas na visão, especializadas
na memória das palavras escritas, dos rostos.
Um quadro abstrato de Mondrian faz funcionar V1 e
V4. Uma natureza morta, onde as cores reproduzem a
percepção do real, ativa além
disso zonas do lobo temporal e do hipocampo, um "órgão"
muito antigo do cérebro que dá conta
das semelhanças. Aqui o olho compara o que
ele sabe do mundo com o vestígio do que ele
já viu. As cores que enganam - à maneira
dos amarelos que representam morangos azuis - abrem
outra via, dorsal, do córtex visual. "Constata-se
uma diferença neurológica entre a arte
abstrata e a figurativa", explica Semir Zeki.
Certas zonas parecem dominar: assim, a estimulação
de V4 implica na desconexão de V5. O neurologista
tira daí uma regra: a cor torna o movimento
vago.
Esta
"concorrência" lembra uma desventura
mnêmica que aconteceu com Freud. Em um trem
que o leva à Itália o psicanalista evoca
com seu vizinho de assento um mestre italiano que
ele é incapaz de nomear, do qual apenas se
representa um afresco em que, num canto, o artista
pintou a si mesmo. Pela descrição do
quadro, seu vizinho reconheceu Signorelli. Mas assim
que Freud percebeu o nome do mestre o afresco e seu
rosto apagaram-se irremediavelmente de seu espírito.
A
referência à arte não é
gratuita. Diante do retrato de Ticiano na National
Gallery, de Londres, a arrogância do homem salta
aos olhos. "O seu cérebro e o de Ticiano
se comunicaram sem palavras porque a personalidade
retratada corresponde a uma expressão conhecida
do rosto", explica Semir Zeki. "O cérebro
é o local de nascimento da obra". Segundo
ele, alguns artistas descobriram inadvertidamente
as leis da neurologia, particularmente Mondrian, com
suas linhas orientadas horizontais e verticais, que
refletem, com singular premonição, a
organização das células superpostas
na área V3, que se dedica à forma. Alexander
Calder "tocou" a área V5 com seus
famosos móbiles, tendo até o cuidado
de suprimir as cores das figuras para "evitar
confusão". Apenas os cubistas, aos olhos
de Zeki, fracassaram neurologicamente "ao abandonarem
o ponto de vista e ao iluminarem-no para que fosse
reconstituído o que eles achavam que era o
real como ele é, e não como o cérebro
o inventa. O Homem do Violão de Picasso, sob
seus múltiplos aspectos, é irreconhecível",
conclui o professor britânico, admitindo ainda
que é necessário "sacrificar mil
verdades aparentes para perceber o essencial de um
objeto".
Nossa
organização neuronal também nos
permite conservar a constância das cores, saber
que uma laranja é laranja ao sol do meio dia
e ao crepúsculo. Aqui o córtex utiliza
uma lógica que inibe a percepção
primária. Este papel corretor se manifesta
para desconectar as reações automáticas.
Na obra O Cérebro em Ação, o
pesquisador do Inserm Stanislas Dehaene evoca a tarefa
de Stroop, cujo protocolo data de 1935: uma pessoa
lê uma lista de palavras e deve dizer a cor
da tinta que foi usada para escrever cada palavra.
"Observa-se um efeito inibitório considerável",
constata Dehaene, "já que a própria
palavra é um nome de cor que entra em conflito
com a cor a ser denominada. Por exemplo, a palavra
'vermelho' escrita com tinta verde". As regiões
cerebrais implicadas nas representações
semânticas - área de Wernicke - se ativam
assim espontaneamente. O cérebro procura de
maneira "irreprimível" o sentido
da palavra. Depois aparece uma grande atividade no
córtex cingular (NT - giro cíngulo do
córtex límbico) anterior, uma zona que,
segundo o pesquisador de Lyon Olivier Koenig, "parece
crítica na atividade de inibição
da resposta automática do sentido veiculado
pela palavra".
Foi
nesta mesma região préfrontal que a
câmera de pósitrons descobriu os neurônios
da memória de trabalho, de curto prazo, úteis
para reter um número de telefone ou de um quarto
de hotel. Quanto às lembranças mais
profundas, elas estão codificadas nas proximidades
das áreas primárias da cor (para o amarelo
da banana) ou do movimento (para o galope do cavalo).
Os
meios modernos de investigação cerebral
não colocaram em questão as localizações
seculares da linguagem nas zonas de Broca (produção
de fonemas) e de Wernicke (compreensão). Se
a fala - compreendida aqui a fala interior - vem do
hemisfério esquerdo, também é
o caso das chamadas tarefas metalinguísticas:
achar os verbos, rimas, juntar letras e sílabas,
compará-las. Uma pessoa não treinada
a quem peçamos que associe verbos a objetos
mobiliza três regiões "esquerdas".
Mas, uma vez familiarizada com este exercício,
ela só mobiliza uma região insular comum
aos dois hemisférios e especializada na simples
leitura. Ao aprender, o cérebro remodela seus
circuitos segundo a lei da economia. Isto acontece
de outro modo na aprendizagem do movimento: a mão
esquerda do violinista se vale de uma representação
cortical superior à do não-violinista.
O
teste dos kana e dos kanji é um clássico
da subutilização das áreas neuronais.
Os japoneses utilizam dois sistemas de escrita. Os
kanji, ou ideogramas chineses, e os kana, que surgiram
no século 19, uma linguagem silábica
que recorre menos à imagem. Ainda que o hemisfério
esquerdo seja dominante nos dois casos, a leitura
dos kanji exige o recurso às regiões
parietal e temporal direitas, sinal de um esforço
visual. Outra curiosidade: a audição
de palavras abstratas não estimula as mesmas
zonas do hemisfério esquerdo que a audição
de palavras concretas.
Em
um estudo publicado na revista Nature em abril de
1996, Antonio Damasio e sua esposa Hanna também
identificaram áreas que participam de um processo
da linguagem, exteriores às regiões
clássicas de Broca e Wernicke. "Creio
que existem três sistemas", explica Damasio.
"O primeiro é conceitual: são nossas
idéias sobre as coisas ou as pessoas. O segundo
trata das palavras ligadas a estes conceitos: uma
mesa, um leão, uma pessoa... Entre os dois
intervém um mecanismo de mediação
que vai do conceito à palavra e da palavra
ao conceito. Tratam-se de regiões "diplomáticas'
diferentes conforme se trate de uma pessoa, um animal,
ou uma ferramenta, como uma chave de parafuso ou um
martelo".
Damasio
circunscreveu estas regiões por meio da tomografia
por emissão de pósitrons. Situadas no
córtex sensório-motor, grandemente distribuídas
pelo hemisfério esquerdo do cérebro
(frontal e temporal, mas também parietal e
occipital), seu papel é decisivo. Elas permitem
reconstruir "no ato" o nome de um amigo
com quem se cruza na rua, ao fornecerem os fonemas,
os sons que compõe seu patronímico.
Em troca, a voz deste amigo ao telefone ativa as mesmas
regiões intermediárias, que, por sobre
os fragmentos adormecidos, reconstróem imediatamente
uma imagem, um rosto. Para Damasio, cada pessoa abriga
em si uma cidade de Brigadoon, que a lenda (escocesa)
diz despertar uma vez a cada 100 anos, e permanece
adormecida no intervalo. "Esta visão do
cérebro contradiz o estruturalismo, que confunde
as palavras e as coisas", prossegue Damasio.
"A realidade é diferente: as coisas são
as coisas, independentemente das palavras que as possam
qualificar". (NT - uma referência direta
ao livro As Palavras e as Coisas, do estruturalista
Michel Foucault). Como prova, seus exames de pacientes
lesados nas regiões cerebrais "diplomáticas"
da linguagem. Diante da foto de Kennedy, um responde:
"Não sei quem é". Ele perdeu
o conceito. Outro diz: "E' o presidente que foi
assassinado", sem poder recordar o nome.
Por
seu lado, o psicolinguista Jacques Mehler observou
que entre os bilíngues perfeitos a segunda
linguagem se acavala exatamente na área da
primeira língua. Ao contrário, um bilíngue
esforçado, que tropeça nas palavras
e conserva forte sotaque, "aloja" sua segunda
língua à distância da língua
materna. Citemos ainda a particularidade dos adultos
japoneses incapazes de apreender os sons "ra"
e "la" ( à diferença dos bebês
nipônicos, que conservam esta faculdade até
os seis meses, antes de serem dela privados pela influência
do meio exterior). Durante a segunda guerra mundial
os americanos, sabedores desta lacuna, exploraram-na
desavergonhadamente ao codificarem suas mensagens
secretas à base de "la" e "ra".
Outras
linguagens não deixam de supreender. Ao observar
o cérebro em pleno cálculo, Stanislas
Dehaene descobriu que a comparação entre
números inteiros, a multiplicação
e a subtração solicitam regiões
distintas do córtex. "Quando se comparam
quantidades, uma pequena região parietal direita
entra em atividade", escreveu ele. "A multiplicação
só ativa a região parietal esquerda.
A subtração ativa simultaneamente as
duas regiões, com uma extensão e uma
intensidade muito pronunciadas". Se o reconhecimento
de palavras - e de números escritos por extenso
- se situa exclusivamente no hemisfério esquerdo,
os algarismos arábicos são apreendidos
pelos dois hemisférios. Mas só o cérebro
esquerdo possui as tabuadas de adição
e de multiplicação, e sabe calcular
e anunciar os resultados em voz alta enquanto o cérebro
direito fica mudo.
A
eletroencefalografia, que capta a atividade cerebral
no nível dos milésimos de segundo, testemunha
as trocas ultrarápidas entre os dois hemisférios:
"Se a multiplicação for simples",
explica Dehaene, "como 2x3, a ativação
parietal é fortemente lateralizada à
esquerda e de curta duração. Se, ao
contrário, a multiplicação for
menos familiar, como 8x7, então ela parece
desatracar do hemisfério esquerdo antes de
se estender até a região parietal direita
durante muitas centenas de milésimos de segundo".
As bases neuronais manifestas da curiosa mathematica
podem-se reunir aquelas, não menos dispersas,
da música. Os trabalhos de Justine Sergent,
no Instituto Neurológico de Montréal,
revelaram esta configuração particular
do cérebro: a perda da linguagem verbal - afasia
- não implica necessariamente em uma perda
da linguagem musical - amusia. O organista francês
Jean Langlais, deste modo, continuou a compor ao mesmo
tempo em que se tornou incapaz de redigir ou de ler
frases depois de um acidente vascular cerebral. A
amusia é, por sua parte, seletiva: ela pode
se traduzir por uma incapacidade de escrever notas
sobre uma partitura ou de tocar peças ao mesmo
tempo em que as faculdades auditivas estão
intactas.
Em
1933, Maurice Ravel confidenciou à sua amiga
Valentine Hugo: "Nunca mais realizarei minha
Jeanne D'Arc. Esta ópera está lá,
na minha cabeça, eu a conheço, mas nunca
a escreverei. Acabou, não posso mais escrever
minha música". Sobre a partitura de Don
Quichotte à la Dulcinée, sua escrita
estava tão irreconhecível que uma pessoa
de suas relações acreditou ter sido
redigida "por uma mão amiga". Agráfico,
apráxico (por imperícia, jogou uma pedra
no rosto de alguém ao tentar fazer ricochetes
sobre a água), Ravel sofria de uma amusia parcial:
as notas que compreendia, que sentia vibrarem nele,
não as podia traduzir em atividade motora,
tangivelmente criadora. "A competência
musical que lhe restou pode ser comparada à
de um melômano ou de um crítico musical
bastante ciente de que nunca teve à sua disposição
o conhecimento técnico que constitui a ferramenta
básica de um compositor", escreveu Justine
Sergent. Num teste sob a câmera de pósitrons
( e IRM) dez pianistas profissionais destros que deviam
ler em silêncio, escutar e depois tocar um coral
de Bach, ela relacionou as zonas estimuladas: uma
grande rede neuronal que ocupava os quatro lobos cerebrais,
nas regiões adjacentes à da linguagem.
A exemplo das áreas visuais, cada território
possui uma especialidade musical própria.
Antonio
Damasio pensa em lançar no ano que vem (1999)
um programa neurológico para explorar, com
dois intérpretes europeus, a relação
íntima entre a música e o cérebro.
Será que ele quer ler os pensamentos carregados
de emoção? "Não, isto não
me interessa. Estamos perto de compreender a biologia
do espírito, seus mecanismos. Mas a experiência
pessoal é absolutamente particular, e espero
que continue assim. Ela constitui o último
refúgio".
Vamos
desligar a câmera de pósitrons, serenar
o campo magnético. O cérebro está
visto. Resta todo o desconhecido ligado ao órgão
do conhecimento, este aparelho sem igual.
3. UMA MÁQUINA CELIBATÁRIA
O
desenvolvimento do neocórtex diferencia o "Homo
sapiens" das espécies animais. Este sistema
central muito complexo, que abriga as informações
mais antigas recebidas pelo homem, é a sede
de sua consciência e de seu imaginário.
Longe de restituir o idêntico à memória,
como se fosse um computador, o córtex reconstrói
a lembrança em termos de um jogo de pistas
e traços. Desta efervecência nasce também
a inteligência.
Homem
ou macaco? O crânio que Jean-Pierre Changeux
tem nas mãos é uma moldagem de tamanho
modesto com a testa bem baixa e fugidia, furada por
duas órbitas (oculares) salientes. Um primeiro
olhar (nos) faria pender para o chimpanzé,
mas o olho mordaz do pesquisador do (Instituto) Pasteur
logo desmente: aqui está o Homo habilis, com
dois milhões de anos, um parente longínquo
já dotado daquilo que é próprio
do homem - exceto das generosas gargalhadas de Changeux
-, um neocórtex, intumescência ainda
superficial em nosso ancestral de traços simiescos,
verdadeiro big bang da matéria do pensamento
graças à qual o homem afastou-se do
animal. Alojando em sua cabeça um mundo de
representações, de estratégias
mais elaboradas do que a (simples) fuga diante do
perigo ou do que a caçada para se nutrir, o
Homo tornado sapiens superou os obstáculos
da corrida pela evolução, tendo como
prêmio por sua vitória a angústia
de seu destino. Em seu (livro) O Homem Neuronal, Jean-Pierre
Changeux cita uma passagem do famoso livro O Acaso
e a Necessidade, de Jacques Monod: "O universo
não estava prenhe de vida, nem a biosfera (prenhe)
do homem", escreveu o (prêmio) Nobel francês
de biologia. "Nosso número saiu na roleta.
Por que não nos surpreenderíamos, como
aquele que acabou de ganhar um milhão, com
a estranheza de nossa condição?"
Esta consciência de ser consciente vem da formidável
explosão cortical da espécie, uma estirpe
desordenada na qual o homem que se sabe mortal encontra
sua ascendência sobre os espíritos animais
que nada sabiam disso. E Jean-Pierre Changeux se pergunta
se "a evolução genética
que levou ao cérebro é a consequência
- que dá um frio na espinha - da morte de seu
próximo". Os numerosos crânios do
Homo erectus encontrados quase sempre fraturados fazem
crer na luta fratricida pela vida. Filhos de Caim,
mais do que de Abel? Esta questão preocupa
menos os pesquisadores do que a da construção
cerebral. Será ela o fruto singular da corbelha
genética, ou será que é o encontro
da espécie com o intinerário de um indivíduo,
que sabe que nesse encontro ele está "fora
de mão'? Depois da menção, cheia
de seriedade, às origens, um dito espirituoso
desperta o riso de Changeux: "Entre o inato e
o adquirido, nós tendemos a subestimar os dois!"
Primeiro a natureza. Na grande planície africana
os primeiros homens dispunham apenas do arco reflexo,
a panóplia "sensório-motora"
dos movimentos, dos odores, da audição
e do tato ligados às áreas primárias
do encéfalo. "Uma organização
própria da espécie humana então
se instala", explica Changeux. "Seu córtex
frontal se desenvolve, e depois as zonas temporo-parietais
envolvidas na linguagem. Elas já existiam,
mas as proporções mudaram". Aos
locais primários que recebiam a informação
bruta se reuniram áreas superiores que processavam
as mensagens transmitidas pelos sentidos e, ainda
mais complexas, por superposições suplementares
de neurônios, áreas associativas que
estabeleciam ligações entre os sentidos,
captando os sinais do conjunto do córtex para
elaborar. Por trás da fronte do pensador, as
sínteses mentais. "Não existe um
soberano ali", explicita Changeux. "O córtex
frontal participa de maneira dominante na tomada de
decisões, mas a distribuição
das áreas forma um mosaico de conjuntos interligados,
de uma área para outra, de um hemisfério
para outro". Deste modo ele define a "conectividade
recíproca" do cérebro humano, que
surge como uma imensa rede interconectada composta
de células por sua vez muito especiais - e
especializadas - que dialogam com o todo em movimento,
estabelecendo no espaço neuronal ligações
telefônicas (uma para cada uma) e radiofônicas
(uma para milhares). Tudo aquilo que, no cérebro,
não salienta os sentidos e os movimentos, teve
um progresso prodigioso, a ponto de remodelar inteiramente
o maquinário cerebral. Temos que abandonar
a imagem de sucessivas camadas de neurônios
estanques e autônomos, que se acumularam no
curso da evolução. O córtex é,
ao contrário, um estado jacobino, visceralmente
centralizador, que só modifica uma estrutura
sob a condição de modificar todas, em
um movimento de integração sem precedentes
na escala humana. O professor François Lhermitte,
do Instituto, impressiona-se com esta força
que, por outro lado, fragilizou o físico do
Homo sapiens: "Nossa medula espinhal não
tem mais a capacidade sensório-motora de uma
rã. O neocórtex absorveu as estruturas
primitivas. Se você cortar a cabeça de
uma galinha ou de um pato, eles continuam a correr.
Jamais vimos um homem decapitado andar! A secção
da medula espinhal de um ser humano provoca sua paralisia
completa". Especialista da linguagem na universidade
de Rennes, o professor Olivier Sabouraud pôde
observar a extrema concentração das
áreas corticais nos pacientes com lesões
frontais. "Se as camadas superiores do córtex
forem atingidas, os estágios primitivos reaparecem
e funcionam em seu lugar: o doente apresenta espasmos
bucais ou manuais se um inseto passa por seu campo
de visão". Onde a massa cinzenta encontrou
o terreno de suas anexações (conquistas)
dentro da "embalagem óssea" do crânio,
limitada em volume pela viagem inicial, e provavelmente
iniciática, do recém-nascido através
da pélve materna? Alain Prochiantz, especilista
em sistema nervoso da Escola Normal Superior, emprega
uma metáfora convincente: o cérebro
não é uma bola que foi inflada, é
uma superfície plana enrugada. "A organização
do córtex em dobras permitiu o aumento de (sua)
superfície", escreve ele em seu livro
As Anatomias do Pensamento, "quando a dobra cerebral
que se aloja na caixa craniana enrugou-se em circunvoluções".
E'
no interior desses novos espaços nascidos das
dobras que aparecem as placas neuronais mais elaboradas,
o aperfeiçoamento do arco reflexo que permite,
"segundo as recomendações do próprio
bom senso", como escreve Prochiantz, "pensar
antes de agir"... Desse modo o homem vive seus
dias munido de um equipamento genético compreendido
entre 100.000 e 200.000 genes, dos quais a metade
se exprime no interior de seu córtex. Diferentemente
do conjunto do corpo humano, as células cerebrais
não se renovam nunca, ou muito pouco (nas zonas
olfativas). O cérebro, marco do tempo biológico,
abriga as mais antigas informações recebidas
pelo homem. Uma necessidade vital: poderíamos
imaginar cada indivíduo chegando à idade
adulta dotado de um novo cérebro virgem de
toda marca, ignorando sua própria identidade,
desprovido de suas experiências? E' fácil
destruir uma usina e remontá-la com as máquinas
mais modernas. Os neurônios que contêm
nossas funções superiores, naturais
ou adquiridas, não se prestam a nenhuma transação
parecida. "Nós transportamos por toda
a vida nossos modos de pensar que se formam durante
nossos períodos de aprendizagem", observa
François Lhermitte, encontrando aqui a fonte
do choque de gerações. "Os circuitos
que nos permitem hoje reconhecer sem espanto nosso
rosto no espelho se modificaram de modo sutil",
acrescenta Antonio Damasio, "para se adaptarem
às modificações que a passagem
do tempo lhe causaram". Este patrimônio
genético próprio do homem é um
tipo de figura imposta à espécie, que
lhe garante ser aquilo que ela é. "Cérebros
algo equivalentes, esta é a prova de que existe
uma natureza humana", sublinha Changeux. O pesquisador
francês toma por princípio a universalidade
de desenvolvimento de um sistema central sob o controle
de pequenos arquitetos, os genes. Se tal não
fosse o caso, cada um seria uma "massa a ser
modelada", com uma organização
cortical diferente se tivesse nascido "num casebre
ou na corte do rei de Espanha". Mas o espírito
não saberia se satisfazer com uma codificação
inicial que descartasse uma "escultura de si"
(feita) pela experiência. "Certos circuitos
corticais desenvolvidos hoje para a escrita devem
ter sido ocupados por outra coisa no Homo sapiens
das planícies da África, porque a escrita
é uma aquisição cultural",
admite Changeux. "Como os cegos lêem em
braille, isto significa que as áreas visuais
foram re-aferenciadas para outras funções".
Ao cerceamento genético se junta então
uma flexibilidade, uma variabilidade ( o neurofisiologista
Jean-Didier Vincent fala de "corredores de fuga"
e de "praia de liberdade") que deixam para
cada um o sonho de se construir como um indivíduo
membro de sua espécie, mas único em
seu gênero. "Nosso invólucro genético
nos permite deixar entrar a história na construção
da máquina", afirma Prochiantz. "No
interior do processo conduzido pelos genes existe
uma infinidade de possíveis. O que chamamos
a posteriori de destino seria imprevisível".
Em apoio ao seu argumento, o professor da Escola Normal
Superior cita a linguagem simbólica como sendo
"a maior força da individuação,
tão grande que o Homo sapiens destacou-se da
natureza para tornar-se um ser de cultura". A
escolha das palavras não admite, se assim podemos
dizer, nenhuma discussão: o cérebro
do homem está predisposto a falar. Noam Chomsky
forjou o conceito de "gramática universal",
cujo portador é o balbucio da criança
e que lhe permite, no "magma sonoro", relacionar
as palavras, um léxico. "A panóplia
de conhecimentos do pequeno homem (a criança)
é incontestável", observa o psicolinguista
Jacques Mehler. "Isto significa que toda pessoa
não lesada é capaz de aprender uma língua
materna, trate-se de Einstein ou de um autista, com
base em um equipamento inato". Mas este pesquisador
da Casa das Ciências do Homem acrescenta uma
condição essencial ao desenvolvimento
da linguagem: "O patrimônio genético
se exprime em um meio (ambiente). Ele necessita de
um suporte para liberar suas faculdades". A exemplo
de Chomsky, Jean-Didier Vincent e Alain Prochiantz
relatam a experiência edificante de Frederico
II, que, curioso por determinar qual era a língua
natural, o grego, o hebraico ou o latim, concebeu
afastar crianças de qualquer palavra. "Daí
que elas ficaram mudas", nota Prochiantz, à
vontade em sua concepção de que "a
história tem algo a dizer quanto ao desenvolvimento".
O contato com o exterior, o choque de cerebelos, caro
a Romain Rolland, deve ocorrer o mais rápido
possível na vida da criança. Existe
um período crítico da construção
cerebral. Se alguns circuitos neuronais de aprendizagem
não forem ativados e validados neste intervalo
pós-natal, a epigênese, a auto-elaboração
do cérebro, permanecerá como letra morta.
O indivíduo vegetará sua vida inteira
num mundo virtual, com sua alegoria de talentos dobrada
(fechada) como um velho leque. O caso dos meninos
selvagens ilustra essa lacuna humana explorada de
maneira tão pungente e penosa pelo cineasta
François Truffaut em sua evocação
de Gaspard de l'Aveyron: o doutor Itard, a despeito
de sua paciência, não lhe arrancou uma
única palavra. Os cegos de nascença
vivem o mesmo drama. Uma criança, a quem uma
catarata deixou em sua noite primeva, jamais perceberá
o mundo com seu olhar, mesmo se o restabelecimento
da claridade em suas áreas visuais a liberasse
do negro manto. Por não terem sido estimuladas
a tempo, suas células cerebrais, seus olhos
do interior, permanecerão inertes. "O
cego que era admirado por tudo que era capaz de fazer
sem a visão, torna-se uma pessoa dotada de
visão cujo olho é estúpido. Ele
afunda na depressão", escreve Jacques
Ninio, biólogo do CNRS, em seu livro A Marca
dos Sentidos. Alguns cegos de nascença se suicidaram
um dia depois de uma operação bem sucedida,
incapazes de decifrar o que distinguiam. Sua imagem
mental se compunha "de fragmentos visuais montados
de maneira imperfeita", prossegue Ninio. Sua
experiência tátil dotou-os de uma certa
representação do mundo e dos objetos.
Eles tinham que tocar para ver. Com suas palavras
de enciclopedista, Diderot tocou no ponto certo: "As
crianças", escreveu ele, "perguntam-se
se aquilo que não vêem mais deixou de
existir. É à experiência que devemos
a noção de existência contínua
dos objetos". A regra do jogo está delineada:
dotado de um potencial singular, o homem só
o exprime através do contato com seu meio ambiente,
uma vantagem ao contrário que não perdoa
as elipses. Neste período sensível -
e precoce - da epigênese, nada se perde. A harmonização
das partes com o todo pressupõe uma grande
variabilidade de conexões neuronais de um indivíduo
para outro. "Existe um paradoxo entre a constância
das representações e o caráter
flutuante do material sobre o qual elas se elaboram",
afirma Changeux. Destros e canhotos não criam
redes (associações neuronais) idênticas
para falar; portanto falam... A montagem não
se parece nada com a dos circuitos impressos do computador.
O órgão do saber é maleável,
a impressão que se instala não é
padronizada. A plasticidade dos neurônios permite
à visão ou à linguagem migrar
para fora dos sítios lesados, antes que tarde
demais. "O desenvolvimento de um cérebro
coloca entre a pura representação genética
e a construção do organismo uma etapa
de adaptação, que requer um interação
sensorial", escreve Alain Prochiantz. "Haveria
duas memórias, uma puramente genética,
e outra que, sobre a base de um modelo genético,
seria construída pela experiência sensível".
Os destinos são temporariamente "lábeis".
`A diferença do polvo, ao qual a evolução
dá poucas chances de escapar à sua condição
previsível, o homem possui o que Changeux chama
de gerador de diversidade (GOD, ou generator of diversity,
segundo a tradução de Antonio Damasio...);
inspirada no modelo darwiniano, esta noção
sublinha sempre a variabilidade espontânea das
combinações neuronais, a aptidão
cortical para se autoprogramar, reconstruir-se a partir
de informações recombinadas à
luz de uma classificação permanente.
Intermezzo
sobre as aves. Jacques Ninio nos ensina que elas foram
o primeiro instrumento que o homem utilizou para estender
o alcance de seu olhar. Os vikings embarcavam em seus
drakkars centenas de corvos, que eram soltos em pleno
oceano, seguindo a direção de seus olhos
para deduzir ou não a presença de terra
firme. Segundo Alain Prochiantz, na primavera de cada
ano a gaivota perde uma parte de seu cérebro,
aquela que lhe permite lembrar onde escondeu sua provisão
de grãos. Os traços dessas economias
lhe voltam com o outono. Quanto ao canário
amarelo, o estudo de de seus centros cerebrais mostra
que todos os anos ele perde, sobre as folhas mortas
(no outono), suas árias de canções
de amor. Ele as recobra na época das cerejas.
Alain Prochiantz vê aí "as primeiras
indicações de uma possível renovação"
dos neurônios, inclusive nos adultos, a despeito
de um dogma contrário bem estabelecido. Voltando
ao homem, diretamente: se os vikings tiveram a idéia
de recrutar corvos vigias - no sentido de sentinelas
- e viajantes , se o ser humano, como a gaivota e
o canário amarelo, pode renovar "à
vontade" seus territórios mentais, então
existe o "jogo" no sistema, uma rutura de
escala entre o mapa do genoma e o mapa do mundo cerebral.
As ordens de grandeza, com efeito, são incomparáveis.
Face aos 200.000 genes da espécie humana, o
córtex libera 100 milhões de células,
cada uma estabelecendo umas dez mil conexões
com suas semelhantes, em um espaço astronômico
composto de sinapses, o local privilegiado da linguagem
neuronal. "O cérebro é uma máquina
formidável", escreve Jean-Pierre Changeux,
"um universo cujas conexões parecem mais
ricas e mais diversificadas do que nossa galáxia,
com suas miríades de estrelas". Máquina
sem equivalente, "máquina celibatária",
à maneira das criaturas dadaístas de
Marcel Duchamp, no começo do século,
que via neste gênero de objetos solitários
"que trabalhavam para a alegria daquele que a
construiu", nota Jean-Didier Vincent, "os
ateliers produtores do imaginário". Assim
é "A casada posta a nu por seus próprios
celibatários", exposta no Museu de Filadélfia.
Sob a lente do microscópio agitam-se os neurônios
e suas ligações nervosas, dendritos
e axônios, em múltiplas arborescências.
Que arquiteto poderia desenhar a planta desse infinito?
Jean-Pierre Changeux descreveu o quebra-cabeça
dos anatomistas: 1 cm cúbico de córtex
dissecado aleatoriamente contém 500 milhões
de sinapses. "Se as contássemos mil por
segundo, passar-se-iam entre 3.000 e 30.000 anos antes
de nomearmos todas". Lembremo-nos de que as conexões
são variáveis. Lembremo-nos de que a
constância - falar, contemplar, refletir - é
filha desta atordoante diversidade ( o neurologista
Christian Desrouéné fala de um funcionamento
do cérebro "abominavelmente liberal"...)
A elucidação dos estados conscientes
permanece como desafio científico. "Não
é impossível. Deve-se fazer um esforço
teórico", observa Changeux, pouco inclinado
a subscrever as teses "misteriosistas".
Os neuropsicólogos condenam seu reducionismo,
uma visão estreita que inscreveria a atividade
neuronal no coração de todos os estados
mentais. "Tudo passa pela sinapse", admite
o professor Christian Desrouéné, "mas
não se pode limitar tudo à sinapse".
O pesquisador do Pasteur rebate tranquilamente a crítica,
invocando a herança de Claude Bernard e sua
fé no método experimental: "A marcha
da ciência não se envergonha em se mostrar
reducionista", explica ele. "O universo
cerebral é tão complexo que temos que
abordá-lo por vias estreitas, difíceis,
onde só progredimos passo a passo. O modelo
não esgota a realidade. Mas tentamos reduzir
esta complexidade a alguns mecanismos simples".
Rede pré-interligada de neurônios, o
cérebro encontra-se balizado por sinais elétricos
e químicos, os segundos ativando os primeiros.
Isoladas pela primeira vez há pouco mais de
um século pelo italiano Golgi, depois pelo
espanhol Ramon y Cajal (autor de soberbas representações
do tecido neuronal em tinta nanquim), as células
nervosas são percorridas, ao longo de suas
fibras, por aquilo que os biólogos de antigamente
chamavam de espíritos animais. Descartes evocava
o ar circulando nos tubos do órgão.
Newton falava de "éter intangível""
. Tratavam-se de impulsos elétricos, um "fato
comum" revelável através de eletrodos.
Mas os neurônios não se agregam como
um tecido terminado, desprovido de dificuldades. As
membranas são separadas umas das outras por
minúsculos espaços intersticiais, as
famosas sinapses, onde Jean-Didier Vincent nota que
"seu arranjo preciso e confuso lembra uma tapeçaria
de flores"(Biologia das Paixões). Assim
como a eletricidade é um circuito multidirecional.
Chegando à extremidade dos terminais nervosos,
ela libera um agente químico secretado pelo
neurônio, um tipo de mensageiro batizado de
neurotransmissor, que atravessa o espaço sináptico
para alertar a (ou as) célula(s)-alvo e nela(s)
despertar uma nova reação elétrica,
e depois química. Uns 40 neurotransmissores
foram identificados até hoje, entre os quais
a acetilcolina e a adrenalina (que provocam a contração
dos músculos), ou a dopamina (ligada às
sensações de prazer). A nicotina do
tabaco, assim como o ópio da papoula, reproduzem
o efeito de certos agentes químicos cerebrais.
Jean-Pierre Changeux lembra a importância dos
trabalhos de Claude Bernard sobre o curare utilizado
antigamente (ainda hoje?) pelos índios da América
do Sul. "O curare ocasiona a morte por asfixia
ao bloquear a ação dos nervos motores
sobre os músculos respiratórios""
. Na superfície das membranas, o agente químico
é recebido por um receptor situado na junção
dos nervos e músculos estriados. Foi ao estudarem
enguias de descargas elétricas fulgurantes
(três são suficientes para matar um homem)
que Changeux e sua equipe isolaram o receptor da acetilcolina,
completando a cartografia química - e também
farmacológica - do córtex.
O que faz o cérebro com esta pletora de células
de ramificações abissais? Prêmio
Nobel de medicina, autor de Biologia da Consciência,
o americano Gerald Edelman descreveu o funcionamento
cerebral como um modo de "darwinismo neuronal".
Hoje já se admite que o cérebro funciona
segundo um modo seletivo e não instrutivo.
`A medida que se forma e se desenvolve, ele abandona
certos circuitos inúteis em proveito de conexões
repetidas com sucesso, curtidas e recurtidas por uma
aprendizagem bem sucedida e recompensada (o gesto
que permite pegar um copo, a palavra e as frases que
permitem fazer-se compreender). A frequência
e a gratificação deixam um traço
"mnésico" que se torna indelével.
No interesse do plano geral fornecido pelos genes,
cada um inventa seus próprios intinerários
que venham validar assembléias neuronais ad
hoc (NT - pertinentes). O professor Olivier Sabouraud
assim descreve a modelagem dos meios de expressão
na criança: "Primeiro ela entende (grande)
quantidade de sons, antes de ingressar na reciprocidade
ao reproduzí-los. Depois vem a restrição:
ela se recentraliza sobre diversas conexões
privilegiadas e abandona a maioria das outras, que
participam somente do ruído de fundo".
O infante do homem segue a evolução
do pequeno pardal, cujo canto, composto de "sons
selvagens" de umas quinze sílabas, se
cristaliza, uma vez adulto, em um trilar de acentos
monocórdios. Então se produz o que Changeux
chama de "estabilização sináptica",
a eficiência após diversas rodagens de
muitos circuitos neuronais mobilizáveis a cada
milisegundo para criar o sentido, chegar enfim a um
certo estado de consciência. Instalada sua linguagem,
o indivíduo entra em seu pensamento, direciona-o,
exprime-o, compartilha-o, ou confronta-o. Constrói
para si uma representação do mundo,
tanto é verdade que o espírito, Aristóteles
percebeu-o bem, não pode passar de imagens.
O verbo não diz tudo do espírito: ao
olho é necessário menos de um segundo
para reconhecer um rosto. Descrito com palavras, fica
irreconhecível. Orientar-se no espaço
é muito difícil verbalmente (vire à
direita, depois duas vezes à esquerda, e na
galeria, etc.). Um plano traçado sobre o papel
é um guia mais eficaz! Este teatro mental não
conhece descanso. A atividade do cérebro só
cessa ao final da vida. No fundo de sua história,
cada um tece novas conexões, inventa, simula,
pesa prós e contras, mede virtualmente as consequências
de seus atos, utilizando para isso milhares de experiências
do passado, solicitadas instantaneamente como se fossem
oráculos. `A noite, no mais profundo do sono,
o cérebro realiza uma tarefa bem precisa: consolidar
os conhecimentos, condensar os traços, marcar
os vestígios como um selo de bronze sobre um
tablete de cera. Certamente, a regra da aprendizagem
é o esquecimento. Porque para atravessar uma
vida inteira o "órgão da civilização"
(segundo o neurologista russo Luria) deve se poupar.
A memória procedural, aquela que serve para
dirigir um automóvel, torna-se rapidamente
um automatismo que permite uma atenção
divivida (trocar as marchas conversando ou escutando
uma peça musical). Nem palimpsesto nem ardósia
mágica, o córtex seria antes uma espiral.
Tudo o que já viu ou percebeu fica enterrado,
mesmo que só seja permitido o acesso às
lembranças verdadeiramente "engramadas"
que um acontecimento externo ou um afeto particular
fazem ressurgir. Aqui, ainda, a memória é
uma imagem. O professor Lhermitte evoca algumas passagens
de `A Procura do Tempo Perdido, de Proust, para sublinhar
o quanto o mundo (em) que mergulha Proust "volta
em termos visuais: Combray para sempre, as maneiras
dos pequeninos, e, enfim, a alusão aos minúsculos
origamis japoneses".
A gênese das lembranças é uma
mobilização bastante seletiva de módulos
neuronais. Com a intervenção de um simples
estímulo, eles estabelecem trajetos através
do conjunto do córtex para ali colherem vestígios,
fragmentos, como o paleontólogo que só
dispõe de fósseis para reconstituir
um animal de outra época. A lembrança
não é de modo algum o arquivo bem arrumado
de um computador que cospe seu conteúdo de
modo idêntico. Não existe o "avô
dos neurônios", que forneceria se solicitado
a imagem de um (neurônio) próximo. Ao
contrário, cada lembrança é reconstituída
em termos de um jogo de pistas e traços, de
uma instrução sem foco. (Ao curso intersináptico
Jean-Didier Vincent acrescenta de bom grado o aroma
dos odores, a representação olfativa
do mundo). Se Marc Jannerod, diretor do Instituto
de Ciências Cognitivas, compara a atividade
cerebral ao cinema, é para descrever-lhe o
princípio dinâmico. "Um filme é
uma sequência de imagens imóveis",
diz ele. "E' a projeção através
de uma lente que cria o movimento. Isto vale para
a linguagem e o pensamento: quando o cérebro
funciona, os dois põe-se a caminho". Os
contatos sinápticos que permitem ao homem construir
objetos mentais, interpretá-los à sua
maneira para formular hipóteses, agir com economia
e discernimento sobre seu ambiente, estes contatos
inapreensíveis são a um só tempo
todo e parte, comparáveis ao sistema imune.
Ninguém pode referí-lo com certeza,
mas face ao agressor ele se mobiliza. Apesar dos avanços
da imagens médicas, a idéia de cartografar
as atividades cerebrais faz surgir uma dificuldade
de princípio: como imaginar uma geografia móvel
onde, segundo a arquitetura própria de cada
indivíduo, os grandes sítios mentais
e suas conexões seriam incertos, flexíveis,
nômades? Desse modo as regiões implicadas
na linguagem ultrapassam em muito a área de
Broca. "Comparemos o cérebro com Paris",
propõe François Lhermitte. "Se
uma bomba destruir a ponte da Concorde, a função
circulatória da cidade seria gravemente afetada.
Mas isto quer dizer que a circulação
automobilística se baseia na ponte da Concorde?
Nosso córtex funciona como um todo. Certas
zonas são especializadas. Mas cada uma tomada
isoladamente não tem qualquer sentido".
Deste turbilhão nasce uma conduta inteligente,
para a qual não existe nenhuma reação
pré-estabelecida. `A abelha incapaz de aprender
uma rota de desvio, o Homo sapiens contrapõe
uma capacidade lógica de não-confronto.
Seu cérebro, ele se o constrói. Com
sua parte de liberdade conquistada dos genes impotentes
para gerir o universo sináptico, ele nunca
cessou de modificá-lo. Um forte impulso frontal
o empoleirou no topo da espécie, sem reduzí-lo
ao estado de máquina pensante. Que computador
reconheceria uma papoula ou uma borboleta , decidiria
mudar de opinião, decidiria se reprogramar,
ser Goethe e criar o Fausto? Que disco rígido
se conceberia como disco rígido? "Não
pense em um elefante!", desafia Gerald Edelman.
"Reconheça, você pensou nele. E
eu também. Mas onde está o elefante?
Certamente não neste aposento. Para não
pensar nele seria necessário de que você
soubesse do que se tratava, que você o rememorasse
e até, em certos casos, que evocasse uma imagem
dele. Sobretudo, seria necessário que você
compreendesse esta linguagem e este pequeno jogo de
palavras". O espírito está aí.
Se ele pode ser uma coisa ou outra, ele pode ser estimulado.
4.
O CARROSSEL DAS EMOÇÕES
Diante
do enigma colocado por seu paciente Elliott, o neurologista
americano Antonio Damasio mostrou que um déficit
emocional pode alterar as faculdades de raciocínio.
O professor francês Jean-Didier Vincent forjou
o conceito de "cérebro fluido", humoral
e hormonal, agindo continuamente sobre o cérebro
interconectado, dedicado às funções
cognitivas. O efeito do afeto sobre o intelecto.
O
hospital universitário de Iowa City, no estado
de Iowa, é o maior de gênero nos EUA.
Já com um século, ele é a imagem
daquele meio-oeste que fere o olhos com sua vertigem
horizontal: nenhum arranha-céu, mas vastos
imóveis de tijolo à vista, juxtapostos
um ao lado do outro à medida em que a medicina
anexava novas disciplinas. Formado em Harvard, o professor
Antonio Damasio chegou a este centro hospitalar há
mais de 20 anos. Hoje dirige o departamento de neurologia.
A seus amigos, que lhe perguntam por que este amante
dos espetáculos e da cultura, em uma palavra,
da "civilização"', não
deixou esta existência algo provinciana, ele
responde sem hesitar que a atenção que
se dá aqui aos pacientes é inigualável.
Os médicos cuidam dos pacientes sem conhecerem
sua posição social. O Estado se encarrega
das despesas dos menos favorecidos. "O pessoal
de Iowa é muito ético", observa
o senhor Damasio.
Em
sua primeira visita ao hospital, mandou fazer inscrições
em braille nos botões dos elevadores. Cada
unidade médica funciona como um espaço
autônomo. Deve consagrar 1 % de seu orçamento
à aquisição de obras de arte
realizadas por artistas vivos. O estrangeiro que penetra
nesses edifícios pode hesitar e se perguntar
se está mesmo em um ambiente hospitalar. Uma
tela anuncia as conferências do dia, os concertos,
as exposições. A atmosfera é
vibrante. Ouvem-se pessoas falando, rindo. A doença
não é tudo na vida.
Estes
detalhes, que não são verdadeiramente
detalhes, adquirem um brilho singular na história
a seguir. A solicitude, transformada aqui em regra
de ouro, preparou mal o professor Damasio para esta
patologia da qual ele ignorava até a existência,
e que podemos chamar de "amnésia das emoções".
Um paciente que lhe foi apresentado no final dos anos
70 tinha acabado de ter o cérebro operado.
O cirurgião o havia livrado de um meningioma,
um tumor, - do tamanho de uma tangerina - localizado
nas membranas que protegem o córtex, as meninges.
Ainda que tivesse retomado suas atividades, certas
perturbações de comportamento inquietavam
as pessoas próximas. Ele não era mais
capaz de gerir seu tempo de maneira racional, de cumprir
tarefas que exigissem muitas etapas, por exemplo,
perdendo-se na leitura de documentos que havia sido
encarregado de classificar. O cérebro de Elliott
(assim Damasio o batizou) tinha perdido uma função
importante: o sentido do essencial. Este paciente,
que se revelaria como sendo de um novo tipo, passava
aos olhos das pessoas próximas por simulador
ou preguiçoso. Sua mulher pediu o divórcio
depois que ele dilapidou as economias do casamento
em especulações incertas com um corretor
desonesto. "Suas derrapagens assinalavam uma
patologia", lembra-se Damasio. "A tragédia
desse homem vinha do fato de que ele não era
burro nem ignorante, mas frequentemente comportava-se
como se fosse. Ele enxergava bem os resultados desastrosos
de suas decisões, mas era incapaz de aprender
com seus erros". E nenhum sinal de alarme parecia
se desencadear nele. O scanner, depois a ressonância
magnética, mostrariam as importantes lesões
dos lobos frontais de Elliott, sobretudo no hemisfério
direito. A linguagem e as áreas motoras estavam
intactas, as zonas de aprendizagem e de memória
também. O córtex préfrontal,
em sua parte chamada de ventro-mediana, estava, ao
contrário, grandemente alterado.
Antonio
Damasio sentiu que tinha diante de si um Phineas Gage
reincarnado, aquele jovem chefe de depósito
da Nova Inglaterra que fora ferido por uma barra de
ferro na mesma região cerebral um século
antes, privando-o da faculdade de raciocinar. Mas
naquela época primitiva da neurologia a medicina
se contentou em uma análise frenológica
do mal de Gage. Damasio dispunha de outros recursos,
técnicos e psicológicos, para tentar
elucidar o enigma daquele cérebro que, tendo
conservado todas as suas habilidades de raciocínio,
tinha como que perdido a razão.
Há
outros detalhes: Elliott tinha alto quociente intelectual.
Os testes de conhecimento e de reflexão por
que passou revelaram-se normais. Assim foi com o dos
"Leões de Iowa", que consiste em
perguntar-se ao paciente o número de leões
(ou de girafas, ou de elefantes) existentes em um
dos estados da América do Norte. "Para
poder responder a isso", explica Damasio, "era
necessário invocar uma série de fatos
não interligados e raciocinar sobre eles de
maneira lógica, para enfim chegar a uma dedução
plausível". Saber então que estas
espécies não são "nativas"
dos EUA, avaliar o número de zoológicos
do estado, avaliar o número daqueles animais
em cada lugar, e depois deduzir uma cifra aproximada.
Elliott saiu-se perfeitamente bem na prova. Ele então
podia lembrar, falar, contar, refletir. Mas quando
seus interesses estavam em jogo, ele se mostrava então
incapaz de decidir conscientemente.
A
falha existia, uma falha terrível, escancarada.
Mas onde? Perplexo, o neurologista retomou as entrevistas
com seu paciente. Ao ouví-lo contar seus problemas
sem parecer se importar muito, ele acreditou a princípio
que Elliott, às expensas de um heróico
autocontrole, escondia seus sentimentos. Mas de repente
uma dúvida se insinuou. Damasio então
recorreu aos métodos da psicofisiologia e desfilou
aos olhos de Elliott fotografias chocantes representando
casas em fogo, bairros destruídos por um terremoto,
rostos de pessoas feridas em acidentes sangrentos.
O próprio Elliott admitiu que não sentia
nada, nada mesmo. Acabava de surgir no consultório
do neurologista esta perturbadora revelação:
a faculdade de raciocinar estava afetada, para não
dizer destruída, por um déficit de emoção.
Elliott
encarnava ao inverso os laços vitais entre
coração e razão. Sua vida vivida
em um mundo neutro, sem salvador nem laços,
seguia com a corrente, uma vez quebrada a bússola
das emoções. Como no caso dos mecanismos
lógicos, o afeto testemunhava ali sua dimensão
cognitiva. Ao perder sua capacidade de vibrar, Elliott
perdeu também sua razão de ser. "Ele
podia conhecer, mas não sentir", observa
Damasio. "De maneira estranha e não calculada,
ele não sofria com sua tragédia. Percebi
que eu tinha mais aflição escutando
os relatos de Elliott do que ele mesmo parecia ter
ao passar por aquilo..." Agindo com sangue frio,
incapaz de manifestar uma preferência, este
paciente "à parte" abria novas portas
para a neurologia ao transtornar completamente certas
idéias básicas sobre o funcionamento
cerebral. Uma lesão frontal, no "santo
dos santos" do pensamento (se admitirmos esta
forma pouco laica), poderia alterar a um só
tempo os processos de raciocínio e a percepção
das emoções. Não existia então
nenhum "estágio superior"no cérebro,
mas um anel reflexivo, de infinitas verificações
(checagens) entre o intelecto e o afeto, cuja localização
fluida põe em jogo tanto o neocórtex
como as zonas límbicas (o hipotálamo)
e o tronco cerebral, para além da medula espinhal.
A
conclusão de Damasio se impunha, por mais surpreendente
que fosse: o enfraquecimento da capacidade de reagir
no terreno das emoções poderia ser a
fonte de comportamentos irracionais. Este "contato
do terceiro grau" com Elliott sem dúvida
decidiu os trabalhos posteriores do pesquisador americano
sobre a exploração, senão a explicação,
dos fenômenos conscientes; o que ele chama,
no subtítulo de seu livro O Erro de Descartes,
de "razão das emoções".
O distanciamento dos anos (para melhor ver) permitiu
ao neurologista de Iowa City construir uma imagem
afetiva do cérebro.
Tanto
no animal como no homem, o comportamento se inscreve
em um plano de demanda pela vida. As emoções
logo remetem a um estado corporal que percebe o perigo
ou o prazer. A alusão ao invólucro carnal
é essencial. De Platão a Descartes,
a ciência abandonou esta referência aos
"mecânicos", querendo ignorar que
desprovido do corpo o cérebro é apenas
um órgão virtual. No século passado
o psicólogo americano William James notou justamente
que uma emoção muito forte não
deixava qualquer material mental para representá-la.
"Que sensação de medo restaria
se não pudéssemos sentir nem os batimentos
acelerados do coração, nem o fôlego
curto, nem os lábios trêmulos, nem o
desconforto no ventre? E' , para mim, impossível
imaginá-la".
No
pequeno animal da floresta que possui poucos conhecimentos
sobre o mundo, o grito do predador provoca uma reação
primária de fuga: o sistema de emoções
age como uma "proto-razão". Acontece
o mesmo com os seres humanos, de maneira muito amplificada.
O homem dotado de seu considerável saber quer
apresentar-se diversas saídas para cada situação.
Os ingredientes de sua decisão parecem tão
numerosos, o risco e a incerteza são tais que
ele recorre, se puder, à sua experiência
passada (sic) de coisas similares. Esta imagem do
passado retorna a ele com a emoção da
qual estava acompanhada.
O
cérebro funciona então segundo "sistemas
opostos" (punição-recompensa, dor-prazer),
sem perder de vista o cursor que desliza sobre a linha
que separa a vida da morte. Antonio Damasio fala de
"marcadores somáticos" que enviam
um sinal positivo ou negativo da emoção
anterior. Eles podem ser conscientes (o nó
no estômago) ou inconscientes. Aquele que roubou
com sucesso para enriquecer poderá consagrar
bastante atenção e lógica a uma
má ação, sem perceber nisso o
eco desfavorável, ou sem se deter. "Uma
pessoa que não conhece seu passado emocional
não pode discernir a importância de um
ato que a liga ao futuro", explica Damasio. "Pacientes
como Elliott são capazes de decidir uma coisa
que consideram boas para eles no momento, sem ver
que as consequências serão desastrosas
dali a quinze anos". Assim foi com as especulações
financeiras cujo rendimento imediato lhe pareceu prodigioso.
"Pode-se achar que as pessoas desprovidas de
emoção são os racionalistas.
E' exatamente o contrário!" exclama o
neurologista. Ainda que dê grande valor ao afetos
no processo de decisão, ele não os identifica
com a razão (salvo no caso do pequeno animal).
In fine, o homem pode agir contra suas emoções.
A renúncia à idéia de matar não
é uma pequena conquista da espécie,
ainda que frágil...
"Tenho
dentro de mim meus tempos nublados e meus tempos claros",
disse Pascal. Ele descreveu, sem saber, o mecanismo
interior do espírito articulado com o corpo.
Durante sua vida, uma pessoa conhece pelo menos cinco
sentimentos profundos: a alegria e a tristeza, o medo,
o desgosto, a cólera. Das variações
podem se produzir, assim como a euforia e o êxtase,
a melancolia e o desencontro, ou ainda o pânico
e a timidez. E passam-se horas e dias inteiros sem
que ela sinta qualquer um deles. Assim ela atravessa
o oceano dos humores, bons ou maus, ou nem bons nem
maus, que são o plano de fundo do corpo. O
cérebro das emoções está
lá: um carrossel incessante que reconduz à
consciência os estados do físico, fotografando
o interior como o olho olha o exterior.
As
emoções nos esclarecem sobre uma paisagem
íntima feita de entusiasmo ou de desencorajamento,
de energia ou de fadiga, de tensão ou repouso.
"O que eu sei do mundo", explica o professor
de neurofisiologia Jean-Didier Vincent, "eu o
soube no sofrimento ou na alegria. Este mundo é
reconstruído no interior do cérebro
sob a direção dos sentimentos, do vivido.
Nossas representações se constróem
em um banho afetivo saído de sistemas que não
transportam nenhuma informação, mas
são regidos do modo passional: amo ou não
amo". Autor do livro Biologia das Emoções,
Vincent caça em um terreno próximo daquele
explorado por Damasio. E eles não são
os dois únicos nestes limbos cerebrais cujos
vetores são menos elétricos que líquidos
e químicos, cheios de hormônios excitadores
ou inibidores, de bílis negra e de atrabílis
(melancolia), de humores que nadam de cima para baixo
e de baixo para cima na extraordinária capilaridade
do cérebro. Negar as emoções
e seus agentes leva a amputar do córtex uma
de suas principais dimensões, que, nota Vincent,
"reconstitui em torno das células o ambiente
marinho original". Ao lado do cérebro
interconectado, percorrido por influxos nervosos e
mensageiros químicos, ele identifica um "cérebro
fluido", hormonal e humoral, "que modifica
sem cessar, em todas as suas estruturas, o funcionamento
do primeiro". A sede presumida deste segundo
órgão se situa no grande lobo límbico
e nas fontes do hipotálamo, estas zonas sensíveis
onde o cérebro "cuida do corpo" (fora
de nossa consciência, ele regula os batimentos
do coração, ativa os músculos
respiratórios, vela pela procura de uma boa
temperatura, de uma luz conveniente), sempre nos alertando
o espírito sobre nossos "tempos nublados
e tempos claros".
Penetrar
no ambiente úmido do córtex é
uma empresa perigosa. Podemos nos perder, ou afogar,
mesmo que Vincent avalie o volume do líquido
céfalo-raquidiano em 100 ml, como ele diz:
"Dois cálices de bordeaux..." A troca
de fluidos, expressão das "paixões",
tem um papel regulador. Uma necessidade nascente alerta
o cérebro sobre sua realidade com o envio de
esteróides (que atravessam as membranas lipídicas
e ultrapassam sem problemas a barreira que protege
o cérebro) ou de peptídeos - ácidos
aminados - fixando-se sobre as membranas das células
nervosas. A lista desses hormônios com "ina"
é grande: insulina, bradiquinina, endomorfinas.
"O público deverá se familiarizar
no futuro com esta linguagem oculta de nossa vida
interior", prediz com humor Jean-Didier Vincent.
"Talvez não esteja longe o tempo em que
diremos: 'Minha colecistoquinina está subindo'
em lugar de 'não tenho mais fome', ou 'meu
hipotálamo se banha em luberina' ao invés
de um banal 'eu te amo' ". Garantias da estabilidade
do meio, os hormônios são as sentinelas
do corpo, `A menor modificação no organismo,
eles alertam o cérebro liberando sua substância
através da barreira hematocefálica para
encontrar seu receptor neuronal. Um potencial elétrico
é então ativado, e faz por sua vez nascer
um "neurohumor" do tipo hormonal para reestabelecer
o equilíbrio local. O carrossel das emoções
roda à toda: injetar no hipotálamo de
um rato uma pitada de luberina faz surgir nele vivas
pulsões sexuais, que ele satisfaz o mais depressa
possível. O coito libera nele uma onda de endorfinas
que inibem as células do mesmo hipotálamo
e trazem rapidamente a paz dos sentidos. O cérebro
à escuta do corpo ordena comportamentos precisos.
O ferido que sangra bebe para sustar a diminuição
do volume sanguíneo. O homem faminto come.
Se ele não tiver nada com que se nutrir, os
mecanismos hormonais vão assegurar a integridade
de seu metabolismo através de um diálogo
entre o visceral - o coração, os pulmões,
o intestino, a pele - e o cerebral. O hipotálamo,
"cérebro do espaço interior",
é o local de manutenção e conservação
do corpo, onde se enlaçam os anéis neural
e químico. Em suas Cartas de Beaujolais, Claude
Bernard teve a intuição dessa arquitetura
sutil: "Jamais reverteremos as manifestações
de nossa alma às propriedades brutas das construções
nervosas", escreveu ele, "e menos ainda
compreenderemos as suaves melodias apenas pelas propriedades
da madeira ou das cordas do violino necessárias
à sua expressão". Há muito
o cérebro é visto como uma cidadela
intranspugnável, separada do resto do corpo
por uma barreira de meninges e de sangue. Foi necessário
identificar e depois elucidar a ação
dos hormônios (do grego hormâo, eu acordo,
nos ensina Jean-Didier Vincent), para que compreendêssemos
as idas e vindas que animam o carrossel cerebral.
Com as representações que elas dão
ao homem de seu próprio estado interno, elas
o fazem perceber a fome ou a sede, a dor ou o prazer,
o tempo dilatado ou estreitado, como os relógios
moles de Dali. Assim, a tristeza se faz acompanhar
por imagens mentais desaceleradas, por uma menor capacidade
de atenção. A alegria, ao contrário,
acelera os processos interiores e deixa de cada instante
o pesar pela velocidade como as coisas se passaram.
Estes estados dão ao indivíduo a sensação
do seu "eu", este "estado central flutuante"
que a razão pura é incapaz de conhecer,
muito menos de estabilizar, como o testemunha o triste
caso de Elliott."E' a partir das regiões
do cérebro que são gerados nossos sentimentos
e ligações afetivas com o mundo",
nota o prof. Vincent, "assim como de outras elaboram-se
nossas percepções e movimentos. (...)
Podemos conceber máquinas sentimentais, (máquinas)
mecânicas nervosas produtoras de nossos desejos
e de nossas dores". Espinoza escreveu a propósito
do prazer, que ele era "o apetite acompanhado
da consciência de si mesmo". Michel Leiris,
em uma metáfora de afficione, o comparou ao
"encontro sempre possível e sempre adiado
do chifre do touro com o peito do toureiro".
Fruto atendido, por vezes proibido, do desejo, o prazer
pode ser mortal. O cérebro encerra assim as
células de auto-estimulação (ou
de recompensa), os neurônios de dopamina, cujo
receptor se liga com a nicotina e drogas que criam
dependência como a cocaína e os opiáceos.
Jean-Pierre Changeux e sua equipe do Instituto Pasteur
tentaram desativar geneticamente este sistema hedonista
em um rato mutante. Em tempo normal, um rato cujo
receptor tem alta afinidade com a nicotina libera
a cada injeção um neurotransmissor,
a dopamina, que o incita a autoadministrar-se novas
doses de nicotina. Este sistema "em espiral"
é uma verdadeira armadilha posta para o toxicômano
para que seus neurônios ditos "dopaminérgicos"
o levem sem saber ao abuso da droga. Os ratos "mutados"
perdem o gosto pela nicotina. Resta testar no homem
este inibidor das paixões... A exemplo do córtex
cognitivo, que deve rapidamente estar conectado ao
mundo para desenvolver seus programas genéticos
da linguagem ou da visão, o córtex afetivo
se constrói segundo as mesmas condições.
Se a percepção do outro como objeto
de desejo for "vandalizada" durante a infância
(estupros ou violências sexuais), as representações
mentais estarão comprometidas. O desgosto ou
o medo se instalam. A memória das emoções
torna quiméricas as tentativas de recomeçar-se
uma história. "Não se pode refazer
um cérebro", diz como que pesaroso o autor
da Biologia das Paixões. "Nós só
podemos quebrar um galho". Se nos remontarmos
aos balbucios da evolução, parece que
o homem experimentou as emoções (literalmente:
movimento em direção ao exterior) com
sua carne, antes de dar ao seu espírito livre
curso para explorar o mundo e tentar dominá-lo.
Alguns desses afetos pareciam inatos, como o medo
diante das ondulações da serpente, que
se manifesta por uma reação situada
na amígdala. Aquilo que Damasio chama de "presença
do corpo" foi percebido por Darwin em um livro
breve, A Expressão das Emoções
no Homem e no Animal. O naturalista inglês observou
assim mímicas faciais comparáveis, que
traduzem atitudes de submissão ou de afeto.
O homem bípede, com a liberação
de seus membros superiores, marcou então sua
diferença com uma riquíssima diversidade
de sinais exteriores que refletiam seus "estados
d'alma". Especialista em sistema nervoso na Escola
Normal Superior, Alan Prochiantz sustenta uma visão
que ele qualifica, divertido, de "sadiana":
"Não existe diferença", afirma
ele, "entre a alma e o corpo; o corpo, isso é
o pensamento". A organização cerebral
lhe dá razão: cada membro - braços,
pernas, mãos, pés, mas também
dedos, artelhos, lábios ou orelhas - possui
uma representação precisa no seio do
córtex, que se amplifica se for muito solicitado.
Esta correspondência mental do corpo com o espírito
se revela nos parkinsonianos que sofrem perda dos
movimentos. Quando são convidados a refazer
em pensamento os gestos motores que não mais
podem realizar, as zonas ativadas no imaginário
são também menos ativas do que aquelas
que recobram um movimento gestual que permaneceu intacto.
O fenômeno do membro fantasma é da mesma
ordem: as pessoas amputadas às vezes se queixam
de sentir sua perna ou mão ausentes, de sentir
frio ou calor, ou vivas dores. Ainda mais perturbador:
a percepção tátil de um braço
cortado pode ser provocada pelo simples coçar
o rosto. O córtex tem horror a áreas
inativas. Um território abandonado por falta
de membro ativo é então colonizado pelas
áreas vizinhas devolutas, seja com referência
ao rosto, ao ombro, às partes genitais. "Estas
percepções 'relatadas' apelam a um campo
sensível que parece obedecer a uma lógica
precisa", constata Yves Frégnac, diretor
de pesquisas do CNRS ( Centro Nacional de Pesquisa
Científica). "Os diversos casos clínicos
examinados fazem surgir uma associação
ponto a ponto entre o membro fantasma e a região
do corpo onde ele se manifesta; entre a mão
e o rosto, o ânus e o pé, ou ainda entre
uma parte genital e o pé". O corpo imaginado
tenta se reconstruir sobre o corpo "vivido".
No século passado um certo Guillaume-Benjamin
Duchenne estudou a expressão facial das emoções
com a ajuda de procedimentos eletrofisiológicos,
pesquisando "a ortografia da fisionomia em movimento".
Seus trabalhos instalaram a primeira pedra (fundamental)
da universalidade dos afetos. Contrariamente ao que
pretendiam as teses culturalistas (a cultura de um
homem pode ser lida em seu rosto), a dor ou a alegria
se manifestam através das mesmas contrações
musculares nos papuas, nos aborígenes, nos
americanos ou nos habitantes da velha Europa, e isso
a despeito do "sorriso cruel" imputado aos
asiáticos. É' bem um sorriso arcaico
que faz bater o coração do alemão
Jules e do francês Jim sob a pena (autoria)
de Henri-Pierre Roché... Duchenne demonstrou
sobretudo que um sorriso espontâneo, causado
por uma alegria verdadeira, solicitava de maneira
involuntária dois músculos precisos:
o grande zigomático e um outro chamado orbicular
palpebral inferior. Mas, como nota Antonio Damasio,
"este último músculo só
se ativa involuntariamente". Um responde às
conveniências que exige a polidez, o outro às
"emoções agradáveis da alma".
Um paciente com o córtex motor esquerdo lesado
apresenta uma paralisia do lado direito de seu rosto.
Instado a mostrar seus dentes, ele só desloca
metade da boca. Um tirada humorística, ao contrário,
desenha um sorriso completo em sua aparência.
Os comediantes profissionais exercitam movimentos
faciais sutís para dar ao jogo a aparência
do verdadeiro. Elia Kazan exigia que seus atores "sentissem"
e emoção e não a simulassem.
O cérebro, separando os dois, é de uma
implacável sinceridade. Fala a verdade também
uma pessoa que, ao ouvir uma triste notícia,
empalidece ou, ao contrário, enrubesce. Segundo
o ajuste que melhor convém ao organismo, o
tônus muscular arterial aumenta, diminuindo
o diâmetro das artérias (empalidecendo
a pele). Ou o tônus diminui, levando à
dilatação dos vasos sanguíneos
(enrubescimento da pele). As emoções
são os relógios do corpo, e o córtex
as interpreta como informações vitais.
Pois é disso mesmo que se trata: manter o organismo
vivo. "Temos no cérebro as mais velhas
células de nosso organismo", encerra Jean-Didier
Vincent. "Chega um momento em que os genes da
morte destróem muitos neurônios. Podemos
perguntar por que esses genes matam o corpo. Tal processo
não é uma necessidade inevitável.
Por que não imaginar os homens vivendo nove
ou dez mil anos! Tomemos o exemplo das células
do câncer: elas não estão longe
de se tornarem imortais". Com esta última
proposição o seríssimo professor
de neurofisiologia não deseja anunciar a gênese
de um novo homem. Quer apenas dizer que nosso córtex
não está bem adaptado ao corpo que o
abriga, herdeiro do cro-magnon, nem à soma
de tudo o que sabe. O cérebro é, mais
do que nunca, um órgão em transformação.
A não ser para os que têm a alma doente
e o pensamento naufragado.
5. NAUFRÁGIOS E BÚSSOLAS
Nós
superpusemos sobre os vasos maravilhosos imaginados
por Galeno, sua rede admirável, ou rete mirabile,
que ele acreditava se estender entre o cérebro
e o córtex. O final do périplo nos ensinou
que o encéfalo do homem palpita, se amotina
e sofre, que o espírito cartesiano não
está afastado nem do corpo nem dos afetos.
Graças às suas funções
cognitivas julgadas superiores, aquelas que lhe permitem
impor-se sobre o reino animal e dominá-lo,
o Homo sapiens realizou seu destino de caniço
(coisa frágil) pensante, com a linguagem articulada
como "agente principal de seus notáveis
progressos", segundo a análise de Darwin.
Mas provavelmente Galeno teve a boa intuição:
se o ser humano é uma memória, uma memória
muito antiga que age, ele traz um coração
em seu cérebro, que governa sua razão
com tanta firmeza quanto seus sistemas lógicos
de reflexão.
O
doutor Denis Le Bihan, do CHU de Orsay, confessa seu
sonho de um dia colocar o homem de cro-magnon sob
o ímã de seu scanner para saber o que
ele possuía a mais ou a menos do que o bípede
moderno. Jean-Pierre Changeux, em suas conversações
com o matemático Alain Connes, continua à
procura dos mecanismos que fazem surgir, no lobo frontal,
hipóteses complexas que certamente não
eram formuladas pelos primeiros humanos. Para isto,
diz Changeux, "teria sido necessário colocar
o cérebro de Arquimedes sob a câmera
de pósitrons alguns segundos antes que ele
gritasse Eureka!"
Em
lugar desses fantasmas anacrônicos, o vigia
colocado no topo do mastro dos conhecimentos só
tem uma débil palavra nos lábios: "Ignorabimus".
Quantas destas viagens de Narciso deverá ainda
o homem empreender para contemplar seu córtex
como num espelho e nele ler transparentemente as razões
que o impulsionam sempre a recomeçar sua procura!
O professor Jean-Didier Vincent evoca esta "impaciência
exploratória que mantém o cérebro
em tensão por antecipação quanto
à finalidade a ser alcançada".
Se ele sabe trabalhar, sem conhecimento do consciente,
para preencher as lacunas da memória, os buracos
negros do espírito onde se perdem os nomes
próprios, os rostos, e às vezes a própria
vida de cada um, apostamos que ele se superará
para partir em sua própria descoberta. Darwin
e os naturalistas ensinaram ao bípede que ele
não era uma finalidade da evolução.
Se os genes mutaram, aqueles que o tornaram homem
racional, é na escuta de seu órgão
"superior" que ele encontrará as
respostas, ou que as inventará.
No
futuro, Changeux gostaria de ver eclodirem máquinas
artificiais verdadeiramente inteligentes, quer dizer,
dotadas de propriedades comparáveis às
do cérebro humano, "autômatos humanóides
que formarão uma rede amigável que facilite
o trabalho intelectual" da espécie. Presidente
do Comitê de Ética, ele não subestima
as ameaças de "escravização
deliberada do homem pelo domínio de suas funções
cerebrais". Ciência sem consciência...
Daí, será que fizemos flutuar e investigamos
todas as Atlântidas do universo cerebral, todos
os rochedos, que afloram com dificuldade, do "eu
visível", considerados por Taine "incomparavelmente
menores do que o eu obscuro"?
Um
cérebro funcionando bem estabeleceu as representações
do mundo, um vasto plano sobre o cometa feito de antecipações,
de cálculos, de esperanças e de desejos.
O córtex de cima, aquele das belas idéias,
dos discursos na tribuna e dos afrescos da Capela
Sistina, comunica-se sem parar com os estágios
considerados levianamente como inferiores, aqueles
que organizam as preferências e as aversões,
aqueles que, mais baixo ainda, gritam de fome ou encorajam
amores fecundos. Nesta profusão neuronal duplicada
por mecanismos hormonais, o córtex faz o que
os genes, ultrapassados pela amplitude da tarefa,
deixaram a cargo de cada um: escolher. Imprimir a
linguagem em seu hemisfério esquerdo, mas por
que não o direito? Ser destro, mas por que
não canhoto? "O passado nos impulsiona",
parecia lamentar Bergson. Nada está inscrito
no córtex - a não ser uma natureza humana
- que a história à altura do homem não
venha a corrigir, prolongar, desmentir.
Órgão
central e distribuído, o cérebro capta
as luzes através da retina, os sons pela cóclea
do ouvido, os odores pelo bulbo olfativo. O vestíbulo,
também ele alojado no ouvido, assegura o equilíbrio
do conjunto. Os estados do corpo, aquilo que o professor
Damasio chama de "o espírito do corpo",
ele os vê como através de uma luneta
ou de um periscópio instalado no hipotálamo,
onde vão e vêm os humores do momento.
Ele não abriga nenhum sítio integrativo,
e portanto a visão do cosmos é una,
indivisível, e também imprevisível:
quanto mais o córtex se desenvolveu, mais seu
impulso frontal lhe permitiu ganhar em complexidade,
nuances, e mais a parte de indeterminismo, senão
do irracional, aumentou.
Computador
sem programador, configurando a si próprio
e, sem repetição, a seus circuitos,
liberado das crenças de "um deus na cabeça"
(mesmo que o prêmio Nobel de medicina, Sir John
Eccles, afirme que a alma é reunida ao feto,
pelo Senhor, três semanas após a concepção...),
o cérebro é uma quantidade de energia
disponível a todo instante, um potencial elétrico
que recruta batalhões de neurônios para
missões muito especiais, encaixados com base
na experiência, também apropriados à
frustração das surpresas da novidade.
"Os homens em estado de vigília têm
um só mundo", observou Heráclito.
"No sono, cada um retorna a seu próprio
mundo". Como os comportamentos desejantes - por
essência singulares - se opõe aos instintos
gregários da espécie, a atividade cerebral
participa da "individuação"
cara a Alain Prochiantz. O córtex passa seu
tempo criando categorias, classificando segundo modos
lógicos e/ou afetivos os seres e os objetos
que o cercam. O professor Damasio sugere que pela
diferença entre as ferramentas, cuja representação
mental está ligada ao gesto manual (bater com
um martelo, cortar com um serrote), e os animais selvagens,
será imprudência memorizar através
de uma imagem associada à mão.
Mas
acontece que os processos ultrarápidos que
governam este prodígio da palavra, do reconhecimento
dos outros, do pensamento livre e do gesto criativo,
súbito, sem aviso, se desarrumam e morrem.
Eis os continentes perdidos, os hemisférios
lesados, às vezes seccionados para represar
as epilepsias através do método do "split
brain" (cérebro dividido). Eis os naufrágios,
o olho idiotizado e a linguagem debilitada, o encerramento
em um mundo que nem é mais comum nem próprio,
mas um mundo sem retorno do qual o mal de Alzheimer,
pela infinidade de sistemas que demole, é a
ilustração extrema, de uma intensidade
assombrosa. Este mesmo córtex que secreta as
endorfinas para acalmar as dores do corpo (seu próprio
ópio, diz Jean-Didier Vincent), este mesmo
córtex, que ocupou a duração
de sua vida em construir um homem, acaba assim por
perdê-lo, privando-o da bússola na tempestade
de seu nada.
A
seu tempo um sucesso literário, depois teatral,
graças à eficaz e sensível encenação
de Peter Brook: O Homem que Tomava sua Mulher por
um Chapéu, o livro do neurologista americano
Oliver Sacks delinea com toda a gravidade necessária
o território destas existências amputadas
do real pelos enganos do cérebro. Fundamentando-se
sobre esta tradição universal e ancestral
em virtude da qual "os pacientes sempre contam
suas histórias aos médicos", Sacks
esboça o retrato de personagens desorientados,
que ele afirma serem "os viajantes de países
inimagináveis; países sobre os quais,
ainda, não temos a menor noção".
Assim
é o "marinheiro perdido", um homem
de uns sessenta anos cujo relógio interno parou
na época de sua juventude, quando servia na
marinha americana. Se o neurologista lhe mostra o
rosto em um espelho, ele não acredita, protesta,
grita contra a fraude. "Vejamos, eu tenho uns
19 anos, doutor. Estarei com 20 anos no meu próximo
aniversário". Sofrendo de amnésia
retrógrada, afetado por uma síndrome
de Korsakov (destruição da memória
pelo álcool), só lhe restou a consciência
de ter vivido uma vida, outrora. Todo o resto se dissipou.
"Se um homem perdeu uma perna ou um olho, ele
sabe que perdeu uma perna ou um olho", nota Sacks.
"Mas se ele perdeu o 'si', se ele perdeu a si
mesmo, ele não pode saber isso, pois não
há ninguém para sabê-lo".
Ele
também encontrou esta mulher, vítima
de uma grave deficiência do "sentimento
de sua individualidade", que não sentia
mais seu corpo e vivia com a terrível impressão
de ser desencarnada. "Não tenho nervos,
como uma rã", confessa ela a Sacks, impotente
para se construir uma representação
do mundo através de sua própria existência.
Um paciente hemiplégico se queixou um dia ao
médico de ter encontrado em sua cama, sem que
soubesse, uma perna cortada, a perna de outra pessoa.
Quando ele a empurrou, "ela o seguiu, e agora
estava grudada nele..." Após a perda da
consciência de seu membro paralisado, ele não
para de chamá-lo de "falsificação",
ou de "facsímile".
Um
dos casos mais inquietantes contados por Sacks é
a história do professor de música que
verdadeiramente tomava a cabeça de sua mulher
por um chapéu. Ao final de uma consulta, escreve
o neurologista, "ele segurou a cabeça
de sua mulher, tentando levantá-la para colocar
sobre a (sua) cabeça. (...) Sua mulher olhou-o
como se para ela aquilo fosse normal". Na realidade,
as áreas visuais desse professor estavam tão
deterioradas que ele era incapaz de reconhecer os
rostos das pessoas. Ele não tinha mais nenhuma
visão de conjunto, mas se perdia - ou se reencontrava
- nos detalhes: ele relacionava Churchill a seu charuto,
Einstein à sua cabeleira e a seu bigode, seu
próprio irmão por causa de seu típico
queixo quadrado. Senão, os rostos nada lhe
diziam. Seus alunos, ele os distinguia pela voz. `A
diferença de Ravel, ele não sofria de
nenhuma amusia, mesmo parcial. "Seus lobos temporais
estavam manifestamente intactos: ele tinha um maravilhoso
córtex musical", nota Oliver Sacks. Em
troca, o teste da luva foi edificante. Veja uma breve
passagem do diálogo que ocorreu entre o paciente
- que até agora consideramos apenas um pouco
distraído ou excêntrico - e seu médico.
"O que é isso? "
"Uma superfície contínua, dobrada
sobre si mesma. Parece ter cinco excrescências,
por assim dizer".
"Sim, você me fez uma descrição.
Agora me diga o que é".
"Algum tipo de recipiente? "
"Sim, e o que ele contém? "
"Ele contém seu conteúdo! Isso
poderia ser um porta-moedas, por exemplo, destinado
a moedas de cinco tamanhos diferentes..."
Conhecida
pelo nome de agnosia visual ( e pelo nome de prosopagnosia,
com referência à perda de rostos), esta
afecção grave, localizada sobretudo
no hemisfério direito, ilustra o quanto uma
perda seletiva da visão não altera somente
as sensações, mas também o juízo
(julgamento). No final do século passado, o
neurologista francês Dejerine já tinha
assinalado tais dificuldades. A retina está
normal, os olhos também. Os pacientes podem
distinguir perfeitamente um nariz, uma boca, as orelhas,
sem conseguir montar o quebra-cabeça. As técnicas
modernas revelaram que uma ínfima zona cerebral
vizinha da V4 (a área da cor) estava afetada.
Semir
Zeki, professor de neurologia do British College,
de Londres, também se aproximou desses "marinheiros
perdidos", cujo universo passou a se reduzir
a uma ilusão. Seus trabalhos sobre as áreas
visuais separadas permitiram-lhe compreender diversas
patologias, pelo menos curiosas. Certos pacientes
se queixavam também de só ver cores
na metade de seu campo visual, sendo que a outra metade
se oferece ao olhar em um degradé de cinza.
Esta "hemiacromatopsia" provém de
uma lesão que toca um dos dois hemisférios.
Se os dois olhos estiverem abertos, então o
paciente vê a vida em cinzento. Sem meios de
recuperar um pouco do verde ou do vermelho em uma
fuga onírica: também seus sonhos lhe
enviam um medonho cinzento. Zeki se lembra de ter
examinado em NY, com Sacks, um pintor que ficou acromatópsico.
"Esta doença", explica Zeki, "afetava
até sua apreciação da música,
pois ele tinha o hábito de traduzir os diferentes
sons em cores, um fenômeno sensorial chamado
sinopsia, conhecido a partir de certos compositores
como Olivier Messiaen". Deprimido por não
poder mais buscar prazer nos museus, ele acabou por
morar em um estúdio "decorado em preto
e branco", os únicos "tons"
que a partir de então usou em seus pincéis.
Uma
equipe de neurologistas alemães examinou, há
uns quinze anos, uma mulher que se queixava de não
ver mais em três dimensões. Na realidade,
sua percepção era estática. Ela
reconhecia perfeitamente os objetos imóveis.
Mas era incapaz de distinguir o menor movimento. Olhar
diversas pessoas andando em um aposento a incomodava
profundamente, pois ela as via tanto aqui como lá,
sem perceber os gestos que as levavam de um ponto
a outro. "Conversar ficava difícil",
explica Semir Zeki, "porque ela não via
os lábios dos interlocutores se moverem. Também
tinha dificuldade ao servir o chá porque não
via o nível subir na chícara. Do mesmo
modo, dificilmente podia atravessar a rua, pois não
via o movimento dos automóveis".
A
heminegligência também é um caso
extraordinário: os que dela sofrem se "esquecem"
de se maquiar ou se barbear em uma metade do rosto.
Se o médico pedir que descrevam um trajeto
conhecido da cidade, citarão apenas os monumentos
percebidos em um dos lados ( o relativo à parte
não lesada do cérebro). Convidados a
percorrer mentalmente o caminho às avessas,
descreverão desta vez os monumentos situados
na outra calçada...
A
linguagem é a essência do homem, naquilo
que ele tem de mais elevado: a expressão de
seu pensamento,
o compartilhamento com outros de sua própria
experiência, a afirmação de seu
"eu" , que não saberia ser um outro.
A localização, no século passado,
das áreas de Broca (articulação
das palavras) e de Wernicke (compreensão),
ocupou bastante os neurologistas, porque a afasia,
ou as diferentes formas de afasia, são um golpe
na integridade humana. A natureza é bem feita:
se o hemisfério esquerdo fala, mas não
(em princípio) o esquerdo, é para evitar
engavetamentos (como em um choque frontal entre dois
trens). Do mesmo modo, as duas mãos não
se precipitam para apanhar uma caneta. Mas a palavra
diz tudo? Evocando o sorriso do bebê para sua
mãe, o professor François Lhermitte
se questiona: "Acho que valorizei demais a linguagem
em detrimento das propriedades intelectuais que dependem
dela". Seria imprudente tomar as afasias como
um crepúsculo do pensamento.
Neurologista
e professor do centro hospitalar de Rennnes, Olivier
Sabouraud concorda com a tese desenvolvida pelo seu
colega da Salpêtrière, Dominique Laplane,
sobre "um pensamento para além das palavras".
Do mesmo modo que o intelecto pode se perturbar sem
nada perder da linguagem, a faculdade de raciocinar
pode sobreviver à afasia, que Sabouraud qualifica
como "pensamento com uma linguagem enferma".
Claro, algumas afecções mentais são
reveladas pelo enfraquecimento semântico das
palavras. Ao pedir a um paciente que sofre de esquizofrenia
que classifique os nomes de aves e de outros (animais)
não alados, o doutor Denis Le Bihan observa
uma total confusão: as respostas vão
do galo ao asno. A ressonância magnética
mostra que, em tal doença, as regiões
corticais afetadas se superpõe com relação
a conceitos muito diferentes. A mistura de gêneros
é inevitável.
Christian
Desrouéné, defensor da picologia e do
estudo dos comportamentos, sublinha a importância
da linguagem interior: "Se dizem coisas na cabeça",
explica ele, "e o pensamento se desenvolve a
partir dessa linguagem". E' quando um homem perde
o fio desse diálogo íntimo que ele perde
também a noção do que ele é.
Mas onde situar, como explicar os estados de consciência?
Um menino que volta da escola, bate na porta e diz
"Sou eu", fez o aprendizado de sua realidade,
do mundo que o cerca e que é um não-eu.
Gerald Edelman não hesita em aplicar sua teoria
do darwinismo neuronal: a consciência seria
o fruto de uma seleção de células
cerebrais que permite aos que delas são dotados
acionar simultaneamente memórias, categorias,
valores, sobre o modo cognitivo da abstração.
Tratar-se-ia de de uma ordem biológica reconhecida
por outro prêmio Nobel, o físico e químico
Francis Crick, em seu livro A Hipótese Estupidificante:
A Procura Científica da Alma.
Crick,
a quem devemos a descoberta da estrutura em dupla
hélice do DNA, é tão materialista
quanto Edelman: a vida mental obedeceria ao curso
extravagante das ligações intersinápticas.
Da matéria, um monte de neurônios, por
certo diferenciados, nasceria este estado impalpável
e inapreensível: a consciência. Crick
é ainda mais preciso: ele atribui à
ativação sincronizada dos neurônios,
por volta de quarenta vezes por segundo (40 Hz), entre
o tálamo e o córtex, a "colocação
no fogo" desta propriedade invisível.
Nem o scanner, nem a câmera de pósitrons,
nem o ímã da ressonância magnética,
podem prender na armadilha da imagem este puro estado
mental. Como duas moléculas não líquidas
de hidrogênio e uma de oxigênio fazem
a água, a superposição de milhões
de neurônios interconectados permitiria à
consciência emergir, a soma dos componentes
resultando em algo diferente de suas qualidades individuais.
Haveria
então um determinismo biológico, como
aquele que deixou na boca de Flaubert o gosto de arsênico
depois de ter descrito o envenenamento de Emma Bovary...
"O que se convencionou chamar de consciência",
escreve Jean-Pierre Changeux, "define-se como
um sistema de regulação global que se
relaciona aos objetos mentais e aos seus cálculos".
Os
pesquisadores reconhecem: não existe até
hoje uma teoria satisfatória sobre este estado
particular que dá ao homem o sentimento agudo
de sua singularidade. O dualismo cartesiano é
eclipsado pelo monismo triunfante: o espírito
reintegrou o corpo, bem particularmente o córtex.
"Não existe ocorrência mental sem
ocorrência cerebral", diz Claude Jouvent,
citando François Lhermitte. Prodigiosa economia
existente no mundo, exploradora dos possíveis
e dos porquês, máquina incomparável
para ... comparar, a substância cortical está
longe de ter revelado seus segredos, já que
ninguém quer ouvir falar de mistério.
Entre
o nascimento de uma criança e o fim de sua
epigênese (a autoconstrução do
cérebro), passa-se uma quinzena de anos, durante
os quais se acumulam aprendizagens e sistemas de valores.
Adulto, conhece o bem e o mal, mesmo se não
aprendeu a teoria da Queda, segundo a qual o ser humano,
expulso do reino das virtudes, guardou inscrito em
si os traços deste Eden. "Deve-se dizer
que se trata de um problema científico",
insiste Changeux. "Devemos formular as hipóteses
e colocá-las à prova segundo princípios
de arquitetura, para observar o que é mobilizado
no estado central". (E devemos) nos interrogar
sobre estes pontos comuns aos homens, que fazem com
que ninguém ria durante o espetáculo
de uma tragédia de Racine.
A
viagem mal começa. Quem está com a bússola?
O homem "empoleirado em seu cérebro",
determinado a deixar a "idade das febres"
que ainda reina sobre as atividades mentais, e também
(deixar) os sofrimentos e as alienações.
Determinado a compreender enfim porque ele pensa o
que pensa... Neurociências, bioquímica,
biologia molecular, linguística, genética,
psicologia e psiquiatria, também psicanálise:
as naves se preparam para descobrir as últimas
fronteiras do cérebro onde ocorrem as núpcias
da alma e do corpo, sob o crivo da razão. O
encéfalo continua sendo o "tio americano"
caro a Henri Laborit, o cirurgião da marinha
que, pela primeira vez, teve a idéia dos neurolépticos.
O homem, a seus olhos, só tinha uma idéia
na cabeça: dominar. Veja-o às vésperas
de se dominar.
Tradução
de Pedro Lourenço Gomes