QUATRO
ENSAIOS SOBRE A ESCRITA E AS FRASES
Peter
Kalkavage (St. John's College)
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
2.
O problema da gramática
Nada,
ao que parece, é mais desalentador do que um
gramático. "Gloomy grammarians in golden
gowns" ("Tristes gramáticos em vestes
douradas"), começa um poema de Wallace Stevens.
E ainda assim, para algumas pessoas a gramática
é uma questão de paixão. "Eu
vivo para a sintaxe", teria dito Raymond Chandler.
Será que Dona Gramática não é
uma severa professora escolar, afinal?
Durante
os últimos vinte anos no St. John's College,
em Annapolis, eu atribuí, corrigi, aconselhei
e examinei muitas produções da escrita
estudantil. Ao mesmo tempo em que o St. John's é
acertadamente chamado de uma "faculdade falante"
(todas as aulas tomam a forma de discussão, mais
do que de palestra), os alunos são instados a
escrever uma variedade bastante grande de trabalhos
no decurso de um só ano. O modelo de toda a escrita
no St. John's é mais o ensaio do que o trabalho
de pesquisa. Os alunos são afastados de materiais
de segunda mão e levados às próprias
grandes obras. Espera-se que escrevam ensaios em bom
inglês, nos quais explorem uma idéia ou
questão prestando cuidadosa atenção
nos detalhes de um grande livro. O propósito
do ensaio é alcançar uma compreensão
mais profunda de algo importante: investigar. Não
para "comprovar uma tese", apesar de naturalmente
ser esperado que os alunos no decurso de seus trabalhos
forneçam razões para suas opiniões
e interpretações. No que se segue oferecerei
algumas reflexões sobre os problemas que presenciei.
Talvez
a dificuldade mais prevalecente que encontrei trabalhando
com os alunos acerca do que escreveram tenha a ver com
o abismo que sentem entre escrever e falar. Em regra
geral os alunos (e não apenas os alunos) escrevem
sem ouvir o que estão dizendo e como o estão
dizendo. Não escutam suas próprias palavras.
São como o sujeito na comédia de Molière
que fica surpreso ao descobrir que por toda sua vida
ele de fato tinha falado em prosa! Para os alunos pode
ser uma revelação ouvir alguém
ler suas frases para eles em voz alta, para que eles
escutem os diversos erros e obscuridades. Aqui nós
estamos falando de nossa mais necessária tarefa
como professores de uma boa escrita: fazer com que os
alunos prestem atenção ao que estão
dizendo e como o estão dizendo quando escrevem.
Precisamos conscientizá-los de que escrever é
de fato uma forma de dizer alguma coisa, e que aquilo
que você diz depende imensamente de como você
o diz. Um dos conselhos mais úteis que podemos
dar-lhes neste ponto é: leiam seus trabalhos
em voz alta, se possível para um amigo crítico.
De qualquer modo, o problema daquilo que está
na página é muito frequentemente perceptível
pelo que está, ou antes pelo que não está,
no ouvido.
Este
problema "do que está no ouvido" está
profundamente relacionado a outro: os alunos frequentemente
escrevem como se não estivessem se dirigindo
para ninguém, como se não houvesse nenhum
leitor daquilo que escreveram. As frases são
ejetadas, pode-se dizer assim, num vácuo. O mais
claro sintoma disso é a falta de transição
de uma frase para outra, de um parágrafo para
outro. Aqui, o aluno não tem consciência
de que escrever é conduzir através de
palavras. É introduzir alguma outra pessoa no
campo até então inexplorado dos seus (do
aluno) próprios pensamentos. A cadeia de pensamento
do aluno muitas vezes não consegue chegar até
a página. Ele escreve as frases mas não
consegue registrar a cadeia de pensamento que conecta
as frases num todo coerente e que possa ser seguido.
A notória "frase tagarela" é
parte do que estamos falando. Nenhum outro erro na escrita
é mais instrutivo quanto ao elo inquebrável
que existe entre a escrita e o pensamento. Na frase
tagarela, a simples justaposição de orações
substitui o desenvolvimento de uma conexão lógica.
Está implicada uma transição, que
não se expressa. A sentença tagarela é
então o próprio retrato da lacuna intelectual.
Vale
a pena enfatizar esta ligação entre o
pensamento e a escrita. Muito frequentemente esquecemos
esta ligação e ensinamos gramática
como se ela fosse simplesmente uma questão de
obediência a um conjunto de regras. Mas a maneira
como um aluno escreve, a maneira como todos escrevemos,
está profundamente ligada à maneira como
pensamos. Uma das coisas mais exasperantes que se pode
ouvir dos lábios de um aluno é: "Está
bem, pode não ser o que eu disse, mas é
o que eu quis dizer". Aqui, o aluno não
consegue entender qual é precisamente a tarefa
da escrita - conseguir dizer aquilo que se queria dizer,
escrever o próprio pensamento de modo completo.
Outra estratégia defensiva é igualmente
exasperante: "Mas eu quis que ficasse ambíguo".
Aqui, o erro consiste na recusa do aluno em reconhecer
uma distinção entre profundidade verdadeira
e pura incompetência. Um escritor inteligente,
é claro, reconhece ambiguidades genuínas.
Mas estas, acima de tudo estas, ele fará todo
esforço para apresentar e discutir claramente,
de modo que a ambiguidade possa ser entendida.
O
problema do ouvido e da consciência da escrita
para um leitor me leva ao que considero a meta suprema
da escrita - pelo menos a escrita que toma a forma de
um ensaio. Esta meta superior não é a
comunicação bem-sucedida, mas uma compreensão
aprofundada dos próprios pensamentos e opiniões
através de um encontro crítico com uma
mente de primeira linha, uma mente revelada em um grande
livro. A meta não é a auto-expressão,
mas o auto-conhecimento.
Através
dos anos vi diversas formas de escrita boa e má.
A má escrita (à parte o sentido de má
como tecnicamente incompetente) tende a cair em um de
dois extremos: a "subjetiva" e a "objetiva".
O extremo da subjetiva é fácil de identificar.
Aqui o aluno se deixa levar pela afirmação
de uma opinião infundada ou, o que é pior,
pela mera expressão de sentimentos. A meta desta
escrita irresponsável parece ser "dizer
aquilo que se pensa ou sente", sem nenhum senso
de explicação ou argumentação.
Usualmente esta forma de má escrita também
se apresenta de forma pobre. O extremo da objetiva também
é de fácil identificação.
Sua progenia é o "relatório do livro".
Aqui está o aluno que desaparece. Temos uma paráfrase
do texto sem nenhum conteúdo de pensamento para
comentarmos - não há questões,
problemas ou exploração. À diferença
do Cuspidor de Opiniões, o aluno que escreve
o ensaio-como-relatório-do-livro quase sempre
escreve bem, mesmo com elegância. Este é
o tipo de ensaio mais difícil de se discutir
em um exame oral, já que em primeiro lugar o
aluno realmente não tentou dizer nada. O que
há para se perguntar a ele? Tudo, e nada.
O
extremo da objetiva me faz recordar que frequentemente
damos aos nosso alunos maus conselhos, em nossos esforços
para salvá-los de suas "maneiras malignas".
Já encontrei incontáveis alunos cujos
professores de segundo grau lhes diziam para evitar
a primeira pessoa do singular a qualquer custo: "Nunca
diga eu!" É claro que a armadilha na qual
os alunos imediatamente caem é uma dependência
excessiva de construções na voz passiva,
por exemplo, a anti-séptica e odiosa "Mais
tarde será demonstrado que..." Aqui, a cura
acaba sendo tão ruim quanto a doença.
A boa escrita (repito que falo aqui sobre escrever ensaios)
não é a purificação de todo
egoísmo, mas o envolvimento inteligente de uma
pessoa com aquilo sobre o que ela estiver escrevendo.
Não é auto-indulgente nem distanciada.
Naturalmente, tal envolvimento do Eu inclui, além
do intelecto, diversos sentimentos e crenças.
Como nos dizem sabiamente Strunk & White: "Se
a escrita for sólida e boa, o estado de espírito
e o temperamento do escritor logo se revelarão,
e não às expensas da obra". Eles
não nos dizem: "Nunca diga eu!"
Nenhuma
série de reflexões sobre a escrita dos
alunos estaria completa sem pelo menos uma menção
aos modificadores mal colocados e ao particípio
pingente, estes ímpios sabotadores da seriedade.
Como a frase tagarela, tais erros são em última
análise uma ruptura do pensamento. Não
é tanto que o aluno deixe de aplicar uma regra.
É que ele não consegue entender a razão
da regra. Ele não consegue ver como, numa língua
não-inflectida como o inglês, as conexões
lógicas e sintáticas se expressam em grande
parte através da ordem das palavras. Modifique
a ordem das palavras e você modifica o pensamento
de toda a frase. O problema dos modificadores é
especialmente prevalecente em uma época que procura
a brevidade linguística como mais uma forma de
velocidade. Certa vez vi o seguinte cartaz no consultório
de um médico: "Roupas abrindo na frente,
a menos que haja outras instruções".(NT
- no original, "Gowns open in front unless told
otherwise", uma frase que à primeira vista
parece estar dizendo que as roupas se abrem pela frente,
a menos que alguém mande que se abram de outra
maneira). Este contra-senso hilariante é claramente
o resultado de querer dizer alguma coisa rapidamente,
de pensar em abreviações. A questão
aqui não é apenas fazer com que os alunos
apliquem corretamente a regra e não cometam erros,
mas fazer com que pensem sobre o que estão falando
e sobre como estão falando isto, especialmente
quando se trata da ordem das palavras (e da escolha
das palavras). Só dessa maneira eles irão
desenvolver seus poderes de avaliação
e irão se tornar seus próprios melhores
leitores.
Uma
palavra sobre pontuação. Para os alunos
é muito fácil esquecer que aqui, mais
do que em qualquer outra parte de sua escrita, aquilo
que uma frase diz está intimamente ligado à
maneira como ela é realmente escrita; que a vírgula,
o travessão e o ponto-e-vírgula não
são apenas símbolos com uma função,
mas sim veículos da expressão, servos
do significado. Como sabem todos os bons escritores
de ficção, o efeito da pontuação
precisa não se limita ao intelecto. Nas palavras
de Isaak Babel, "Nenhum aço pode lacerar
o coração humano de modo tão opressivo
como um ponto-parágrafo no momento certo".
Com
isto, volto às minhas afirmações
iniciais sobre a notória tristeza dos gramáticos.
"Tristes gramáticos em vestes douradas"
- que, para qualquer gramático decente, "só
abrem pela frente, a menos que recebam outras instruções".
Quando Raymond Chandler diz "Eu vivo para a sintaxe",
considero que ele está dizendo que as estruturas
gramaticais básicas da língua falada e
escrita - "as regras" - não são
apenas padrões de correção formal.
São também o veículo da expressão
eficaz, e mesmo inspirada. Considere a música
de Mozart. É música de acordo com a regra.
Uma forma abrangente ( a chamada forma sonata) domina
o todo de uma maneira similar à maneira como
a sintaxe domina a frase e unifica suas diversas partes.
Bem, regras são limites: elas dizem o que você
pode ou não pode fazer. Mas são precisamente
esses limites que também tornam possíveis
a música de Mozart e as histórias de Chandler.
Limites e regras são as condições
da possibilidade. Quando dominados não restringem,
mas liberam.
O
problema da gramática, algumas vezes, são
os gramáticos. Ensinamos as letras mas não
o espírito, as regras mas não sua razão
de ser. Dizemos aos alunos o que não fazer, mas
não os ajudamos com frequência suficiente
a identificar e examinar as glórias da sintaxe
em grandes ensaios, discursos, romances e poemas. Esquecemos
que as regras também são condições
de possibilidade. Esquecemos, também, que a gramática
é uma arte tão liberal quanto profissional,
que ela visa a liberação dos seres humanos.
A gramática é como a mágica de
Prospero (NT - personagem da "Tempestade",
de Shakespeare): é a arte de saber como, por
um lado, domesticar o Caliban da auto-indulgência
e, por outro lado, libertar Ariel, libertar o espírito
do Pensamento, da ânsia fragmentada da ausência
de articulação (NT - Caliban e Ariel também
são personagens da "Tempestade").
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