UM
CÉREBRO VISUAL DICOTÔMICO?
Marc
Jeannerod Set 1999
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
Comentário
sobre o livro The Visual Brain in Action, de A. D. Milner
e M. A. Goodale (1995)
Abstract
- Resumo: Recentes experimentos em sujeitos normais
com o uso de neuroimagem demonstram que a via córtico-cortical
dorsal está envolvida durante atividades puramente
perceptuais. Casos patológicos com lesões
parietais posteriores direitas apresentam déficits
na percepção visuoespacial. Argumenta-se
que a dicotomia radical entre as vias da percepção
e da ação, proclamada no livro de Milner
e Goodale, deveria ser reexaminada. Apresenta-se a idéia
de redes distribuídas que utilizam recursos de
ambas as vias visuais e são arregimentadas enquanto
uma função das demandas da tarefa.
O
modelo de Milner e Goodale das funções
visuais do córtex cerebral se baseia no raciocínio
binário. Em consequência, o modelo defende
a posição de que o output do córtex
visual é canalizado em duas vias anatômicas
que são responsáveis por duas modalidades
de funcionamento, e por isso termina com dois resultados
distintos: a ativação da via cortical
dorsal gera a ação automática,
inconsciente; ao passo que a ativação
da via ventral gera a percepção consciente.
Meu argumento é que tais dicotomias podem representar
supersimplificações e podem mesmo revelar-se
falaciosas.
Primeiro,
percepção e ação são
termos imprecisos que requerem qualificação.
Minha interpretação da "percepção"
de Milner e Goodale: ela é a criação
de uma representação interna modalidade-específica
de um estímulo visto pelo sujeito. Em contraste,
eles consideram "ação" como
uma transformação direta do estímulo
visual em comandos motores. A via ventral, responsável
pela percepção, seria uma via "cognitiva",
permitindo ao sujeito dar respostas conscientes a questões
concernentes a eventos sensoriais e construir uma experiência
consciente a partir desses eventos. A via dorsal, responsável
pela transformação visuomotora, seria
uma via "gibsoniana" (NT - "O campo da
aprendizagem perceptual modificou-se significativamente
desde que apareceu o artigo 'Aprendizagem Perceptual'
de Eleanor Gibson, em 1963. A abordagem ecológica
da percepção de Eleanor e James Gibson,
com sua ênfase na percepção direta
das informações do mundo, teve profunda
influência em toda a área de pesquisa.
Nessa abordagem, a aprendizagem perceptual consiste
em se extraírem informações previamente
não utilizadas." Ver Referências)
usada para se mapear diretamente eventos sensoriais
em movimentos. A ação e a percepção
seriam portanto maneiras fundamentalmente diferentes
de se lidar com o mundo externo. O problema com essa
concepção é duplo: Primeiro, o
fato é que raramente um sujeito está agindo
ou percebendo, e que ele quase sempre está utilizando
as duas modalidades ao mesmo tempo. Segundo: a percepção
envolve grande quantidade de funcionamento inconsciente,
e nem sempre leva a uma experiência consciente,
enquanto que as ações estão longe
de serem sempre automáticas (elas envolvem representações
na mesma medida em que a percepção envolve).
O
principal argumento de Milner e Goodale para se emparelharem
as dicotomias percepção/ação
e ventral/dorsal se baseia em evidências tiradas
de lesões. De acordo com o clássico paradigma
da dupla dissociação, eles argumentam
que lesões ventrais alteram a percepção,
não a ação, e que lesões
dorsais alteram a ação, não a percepção.
A confiarmos nas definições acima, é
verdade que pacientes com lesões ventrais podem
reter acuradas transformações visuomotoras.
Em contraste, não é verdade que a percepção
permanece inalterada após lesões dorsais
(ver Warrington e Taylor, 1973). Pessoas com lesões
dorsais podem ser incapazes de copiar objetos desenhando-os
(a tão chamada apraxia construtiva). Elas têm
grandes dificuldades em reconhecer numa fotografia objetos
apresentados em uma orientação não
canônica (Warrington e James, 1986). Não
conseguem resolver, motoramente ou perceptualmente,
a orientação em três dimensões
de objetos, ou suas relações espaciais
com respeito a outros objetos.
Argumentos
inferidos a partir de cérebros lesionados podem
nem sempre ser válidos para uma compreensão
da função cerebral normal. Resultados
obtidos em sujeitos normais fornecem um quadro diferente
das interações entre percepção
e ação. Em um estudo recente que utilizou
PET, Faillenot e colegas (1997) compararam padrões
de ativação cortical durante duas tarefas
diferentes, uma tarefa de ação (pegar
com a mão objetos de diferentes tamanhos e formas),
e uma tarefa perceptual (combinar esses objetos uns
com os outros). Na primeira tarefa, o foco principal
de ativação foi no lobo parietal inferior
contralateral à mão e na parte posterior
direita do sulco intraparietal. Na segunda tarefa encontraram-se
dois focos, um no córtex inferotemporal esquerdo
e um no córtex parietal posterior direito: esse
último foco, parcial mas claramente, coincidia
com o foco parietal de ativação para pegar
(objetos). Esse resultado significa que a análise
perceptual, mesmo quando não está para
ocorrer nenhuma ação, utiliza recursos
que pertencem à via dorsal. A partir desse resultado,
Faillenot e colegas (1999) compararam a ativação
cortical durante a discriminação perceptual
de orientação de forma quando as formas
eram apresentadas com graus diferentes de inclinação
em um plano frontal (uma tarefa de orientação
em duas dimensões) ou em um plano sagital (uma
tarefa de orientação em três dimensões).
Essas tarefas, nas quais não se exigia nenhuma
ação, produziram ativação
em áreas localizadas na parte posterior do sulco
intraparietal, assim como na junção occipito-temporal
e no giro temporal inferior (área 37).
Diferente
da ação orientada para o objeto, onde
o estímulo visual se codifica em coordenadas
egocêntricas (isto é, centradas no sujeito
que age), a atividade perceptual como foi testada nesse
tipo de experimento implica usar um quadro de referência
alocêntrico (isto é, centrado nos objetos
externos). De fato, essa era a particularidade do modelo
original das vias visuais córtico-corticais,
onde Ungerleider e Mishkin (1982) distinguiram entre
dois canais perceptuais, um para objetos e o outro para
espaço. Os efeitos de lesões occipito-parietais
em macacos foram testadas com a utilização
de uma típica tarefa alocêntrica onde o
animal tinha que determinar as relações
espaciais mútuas entre objetos. Posso estar falando
aqui de um tipo "diferente"de percepção,
orientada não para a análise de objetos
para identificação, mas para a análise
de sua disposição espacial. Se a última
análise é usada com mais frequência
no contexto da geração de ação
do que no contexto da elaboração de uma
experiência perceptual é um assunto a ser
discutido. Utilizando esse tipo de argumento, simplesmente
acentuar o fato de que uma atividade perceptual consciente
pode ser mediada por zonas corticais que supostamente
pertencem à "via de ação"
(Jeannerod, 1997).
Outro
ponto relevante nessa discussão é a imagem
visual. As relações da imagem visual com
a percepção visual têm sido objeto
de um vigoroso debate, sendo uma das teses mais bem
defendidas a de que a imagem visual corresponde a "ver
com o olho da mente", assim como a percepção
corresponde a ver com o olho real. Consequentemente,
estudos de PET em sujeitos normais revelaram que a imagem
visual ativa áreas corticais estreitamente relacionadas
à percepção visual. De acordo com
Kosslyn e colegas (1993), tarefas com imagens (por exemplo,
representar letras mentalmente) ativam não só
o córtex visual primário e os giros temporais
médio e inferior como também o giro angular
e áreas dos lobos parietais superior e inferior
de ambos os lados.
Os
recentes estudos do funcionamento cerebral normal vistos
acima, portanto, não sustentam a noção
de uma fronteira clara entre regiões e mecanismos
devotados a ação e percepção,
respectivamente. Isso ocorre precisamente, talvez, porque
as duas funções não ocorrem isoladamente.
Em consequência, é difícil ligar
processos conscientes, como a percepção,
e processos automáticos, como ações
orientadas para o objeto, a vias separadas. Não
é mais possível sustentar que a consciência
é um atributo top-down (NT - O sistema cognitivo
é organizado hierarquicamente. Os sistemas perceptuais
mais básicos estão localizados na base
da hierarquia, e os sistemas cognitivos mais complexos
(por exemplo, memória, solução
de problemas) se localizam no topo da hierarquia. As
informações podem fluir tanto da base
do sistema para seu topo como do topo do sistema para
sua base. Quando as informações fluem
do topo do sistema para sua base isso é chamado
de processamento top-down, e quando fluem da base para
o topo isso é chamado de processamento bottom-up)
de atividades processadas na via ventral e, inversamente,
que o funcionamento da via dorsal tem que ser bottom-up
e não consciente. As vias córtico-corticais
ventral e dorsal não parecem apresentar organizações
estruturais suficientemente diferentes para garantir
uma tal dicotomia funcional radical. Dados recentes
demonstram que o processamento semântico (uma
provável função ventral) pode aprestar
o córtex motor com esperas extremamente curtas
e sem percepção consciente (Dehaene e
colegas, 1999), duas características que Milner
e Goodale considerariam pertinentes à via dorsal.
Minha
própria visão do problema é que
o processamento das informações visuais
é tarefa-dependente. Subsistemas neurais para
análise de indicações visuoespaciais,
identificação de objetos, estimativa de
contexto, transformação visuomotora, geração
de movimento apropriado, etc., são agregados
uns aos outros de acordo com as necessidades da tarefa,
utilizando recursos das vias ventral e dorsal em ambos
os hemisférios. As representações
neurais distributivas resultantes reveladas por estudos
de neuroimagem são dotadas de funções
predominantemente "pragmáticas" ou
"semânticas", com a "pura"
ação e a "pura" percepção
nas duas extremidades do espectro.
Referências
(apresentação simplificada)
Dehaene,
S. et al (1999) Imaging unconscious priming. Nature,
395, 598-600
Faillenot, I. et al (1997) Visual pathways for object-oriented
action and object identification. Functional anatomy
with PET. Cerebral Cortex, 7, 77-85.
Faillenot
et al (1999) Human brain activity related to perception
of spatial features of objects. Neuroimage, 10, 114-124.
Jeannerod,
M. (1997) The cognitive neuroscience of action. Oxford,
Blackwell.
Kosslyn,
S.M. et al (1993) Visual mental imagery activates topographically
organised visual cortex. PET onvestigations. J. of Cognitive
Neuroscience, 5, 263-287.
Milner,
A.D. & Goodale, M.A. (1995) The visual brain in
action. Oxford: O. Univ. Press.
Ungerleider,
L. & Mishkin, M. (1982) Two cortical visual systems.
Warrington,
E.K. & James, M. (1986) Visual object recognition
in patients with right hemisphere lesions. Axes features.
Perception, 15, 355-366.
Warrington,
E.K. & Taylor, A.M. (1973) Contribution of the right
parietal lobe to object recognition. Cortex, 9, 152-164.
NT
"Gibson" - do artigo "Perceptual Learning",
de Robert L. Goldstone, na Annual Review of Psychology.
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