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OBSERVANDO O CRESCIMENTO DAS LÍNGUAS

Susan Goldin-Meadow (2005)
www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.0500166102

Tradução: Pedro Lourenço Gomes

Como as linguagens de sinais são processadas mais pelo olho e pela mão do que pelo ouvido e pela boca, pode-se esperar que sejam estruturadas de maneira diferente das línguas faladas. Entretanto, elas não são. As linguagens de sinais são caracterizadas pela mesma hierarquia de estruturas linguísticas [sintaxe (1), morfologia (2) e fonologia (3)], recorrendo assim às mesmas habilidades humanas que as línguas faladas. Além disso, crianças expostas a uma linguagem de sinais desde o nascimento adquirem essa linguagem tão naturalmente como as crianças que ouvem adquirem as línguas faladas às quais estão expostas, conquistando os pontos críticos aproximadamente nas mesmas idades (4, 5).

Entretanto, a modalidade manual torna singulares as linguagens de sinais quanto a pelo menos um aspecto. É relativamente fácil usar a modalidade manual para inventar formas representacionais que possam ser imediatamente entendidas por observadores não treinados (por exemplo, gestos de indicador apontado ou gestos de mímica icônica). Como resultado disso, podem-se inventar instantaneamente sistemas de comunicação da modalidade manual, o que significa que os sistemas de sinais têm o potencial de fornecer um meio de se observar o processo de criação de linguagem. De fato, frequentemente indivíduos surdos se encontram em situação nas quais necessitaram criar uma linguagem de novo.

Uma situação assim é descrita por Sandler e colegas nesse número de PNAS (6). Uma comunidade, agora na sétima geração e possuindo 3.500 membros, foi fundada há 200 anos em Israel por beduínos Al-Sayyid. Nas últimas três gerações, 150 indivíduos surdos nasceram nessa comunidade, todos descendentes de dois dos cinco filhos dos fundadores. A Linguagem de Sinais Beduína Al-Sayyid (ABSL) nasceu desse modo. Agora a linguagem tem três gerações de sinalizadores e oferece portanto a oportunidade não só de se ver uma linguagem em seus primeiros estágios como também de vê-la crescer.

A ABSL ainda não é uma linguagem madura, e portanto ainda passa por modificações. Como resultado, os sinalizadores de cada uma das três gerações provavelmente diferem, e diferem sistematicamente (7), quanto ao sistema de sinais que utilizam. Observando sinalizadores de cada geração podemos então fazer boas estimativas sobre quando uma propriedade linguística entrou pela primeira vez na linguagem. Além disso, como as famílias individuais da comunidade são muito fechadas, com fortes laços no interior das famílias mas não entre elas, podemos mapear modificações na linguagem com relação à rede social da comunidade. Podemos determinar quando as propriedades permaneceram no interior de uma só família e quando não permaneceram, e assim seguir a trajetória tomada por propriedades linguísticas distintas quando se disseminaram (ou não conseguiram se disseminar) através do toda a comunidade. Essa pequena e fechada comunidade, consequentemente, oferece uma perspectiva singular sobre algumas questões clássicas da linguística histórica (8, 9).

A ABSL difere das jovens línguas faladas [por exemplo, Pidgin ou Creole, línguas que brotam quando línguas existentes entram em contato umas com as outras (10)] porque ela surgiu de novo sem nenhuma influência de qualquer língua estabelecida, seja de sinais ou falada. Além disso, a ABSL difere de outras linguagens de sinais novas [por exemplo, a linguagem de sinais que está surgindo atualmente em meio a um grande número de crianças surdas da Nicarágua que se reuniram pela primeira vez nas escolas (11)] porque está se desenvolvendo em uma comunidade socialmente estável, com as crianças aprendendo o sistema de seus pais.

A ABSL tem uma posição singular entre dois tipos de sistemas de sinais: (i) sinais caseiros, um sistema de sinais desenvolvido por uma criança surda cujas perdas auditivas não permitem que adquira a linguagem falada, e cujos pais não expuseram a criança a uma linguagem convencional de sinais, isto é, um sistema individual de sinais que não é compartilhado nem mesmo com os familiares da casa que escutam (12); e (ii) linguagens de sinais plenamente formadas, sistemas utilizados por uma comunidade de sinalizadores e transmitidos de uma geração para a próxima. A linguagem de sinais caseiros nos diz onde a ABSL pode ter começado; as linguagens de sinais plenamente formadas nos dizem para onde ela está indo.

Sandler e colegas (6) demonstram que uma ordem altamente regular de palavras se desenvolveu para marcar relações gramaticais da ABSL durante uma só geração; a ordem particular que a linguagem apresenta é Sujeito Objeto Verbo (SOV). Os sinalizadores caseiros também acabam usando uma ordem estável de palavras para marcar relações gramaticais, e fazem isso mesmo que ninguém indique essa ordem de palavras para eles. A despeito do fato de que cada sinalizador caseiro está desenvolvendo sozinho seu sistema, todos esses sistemas [mesmo aqueles desenvolvidos em culturas diferentes (13)] tendem a apresentar a mesma ordem de sinais Objeto Verbo (OV) - paralela à ordem SOV encontrada na ABSL (os sinalizadores caseiros tendem a omitir sinais para S, o Sujeito). De fato, mesmo quando falantes que possuem audição e não conhecem linguagem de sinais são solicitados a usar as mãos e não a boca para se comunicarem, a mesma ordem OV surge, apesar do fato de sua linguagem natural falada usar a ordem SVO (14). Assim, os sistemas de comunicação que são desenvolvidos sem input vindo da linguagem convencional parecem inclinados a exibir a ordem OV, pelo menos nos primeiros estágios.

Como Sandler e colegas (6) notaram, a ordem SOV encontrada na ABSL é comum em línguas convencionais estabelecidas. Entretanto, muitas línguas por todo o globo não usam essa ordem, o inglês entre elas (a ordem canônica de palavras no inglês é SVO). Quais são as pressões que podem afastar uma língua da ordem SOV que aparentemente os criadores de linguagem inicialmente inventam? A ABSL pode nos ajudar a descobrir. O mais jovem sinalizador da ABSL observado por Sandler e colegas (figura 2 na ref. 6) foi o único a produzir sentenças com V tanto na posição não-final (por exemplo, VO) como na posição final (por exemplo, OV). Frequentemente, as modificações são introduzidas em uma língua por seus usuários mais jovens (7). Então é possível que a ordem de palabras da ABSL esteja à beira de se modificar. Se assim for, podemos indagar se outras partes da língua se modificarão juntamente com a ordem de palavras. Além disso, podemos explorar as pressões sociais particulares que os sinalizadores que adotam novas ordens estão experimentando e, desse modo, gerar hipóteses sobre como a ordem de palavras de um sistema linguístico pode passar por mudanças.

Como foi mencionado anteriormente, a linguagem caseira de sinais fornece indicações sobre como se parecia a ABSL quando começou. Os dados sugerem que uma ordem de palavras consistente foi uma das primeiras propriedades a ser incorporada na ABSL. Entretanto, os sistemas de sinalização caseira não apresentam todas as propriedades encontradas em linguagens de sinais plenamente formadas - elas apresentam propriedades de linguagem elásticas (veja Tabela 1), mas não propriedades frágeis (12), por exemplo, técnicas de marcação de tempo de verbo. Tais propriedades frágeis não parecem estar nos domínios de qualquer criança que esteja desenvolvendo um sistema de comunicação sem o apoio de parceiros que compartilhem o sistema. Entretanto, observando se e quando cada uma das propriedades frágeis da linguagem entram ou não na ABSL nós podemos começar a identificar as condições que apóiam a introdução de uma propriedade particular em um sistema linguístico.

As propriedades flexíveis da linguagem listadas na Tabela 1 fornecem hipóteses sobre quais propriedades linguísticas serão provavelmente encontradas na ABSL. Entretanto, são as propriedades frágeis da linguagem que mais nos informam sobre como e porque a língua muda. O estudo continuado da ABSL à medida em que ela adota as propriedades não encontradas na linguagem caseira de sinais nos permitirá compreender o papel que dois fatores - compartilhar um sistema de sinais por entre uma comunidade de usuários e passar um sistema de sinais de uma geração para outra - desempenham na formação de estruturas gramaticais. A descoberta da ordem estável de palavras na ABSL é apenas o primeiro passo de um emocionante programa de pesquisa que pode nos dizer muito sobre os nutrientes necessários para que uma língua tenha crescimento.

Tabela 1. As propriedades flexíveis da linguagem

Palavras

Estabilidade Formas de sinais são estáveis e não mudam caprichosamente quando mudam as situações.
Paradigmas Os sinais consistem de partes menores que podem ser recombinados para produzir novos sinais com diferentes significados.
Categorias As partes dos sinais são compostas por um conjunto limitado de formas, cada uma associada a um significado particular.
Arbitrariedade As combinações entre formas e significados de sinais podem ter aspectos arbitrários, ainda que dentro de uma estrutura icônica.
Funções gramaticais Sinais que são diferenciados pelas funções gramaticais de substantivo, verbo e adjetivo a que servem.

Sentenças

Estruturas básicas Estruturas de predicado fundamentam sentenças de sinais
Remoção Consistentes produção e remoção de sinais dentro de uma sentença marcam papéis temáticos particulares.
Ordem de palavras Ordenamentos consistentes de sinais dentro de uma sentença marcam papéis temáticos particulares.
Inflexões Inflexões consistentes sobre os sinais marcam papéis temáticos particulares.
Recursão Sentenças complexas de sinais são criadas por recursão.
Redução de redundância A redundância é sistematicamente reduzida na superfície de sentenças complexas de sinais.

Uso da linguagem

A fala do aqui-agora A sinalização é usada para fazer pedidos, comentários e indagações sobre o presente.
Conversa deslocada A sinalização é usada para comunicar sobre o passado, o futuro e o hipotético.
Narrativa A sinalização é usada para contar histórias sobre si mesmo e outros.
Auto-conversação A sinalização é usada para comunicação consigo mesmo.
Metalinguagem A sinalização é usada para se referir aos próprios sinais e aos sinais de outros.

Referências

1. Liddell, S. (1980) American Sign Language Syntax (Mouton, The Hague, The Netherlands).
2. Klima, E. & Bellugi, U. (1979) The Sign of Language (Harvard Univ. Press, Cambridge, MA).
3. Brentari, D. (1998) A Prosodic Model of Sign Language Phonology (MIT Press, Cambridge, MA).
4. Newport, E.L. & Meier, R.P. (1985) in The Cross-Linguistic Study of Language Acquisition: The Data, ed. Slobin, D.I. (Erlbaum, Mahwah, NJ), Vol. 1, pp. 881–938.
5. Lillo-Martin, D. (1999) in The Handbook of Child Language Acquisition, eds. Ritchie, W. C. & Bhatia, T. K. (Academic, New York), pp. 531–567.
6. Sandler, W., Meir, I., Padden, C. & Aronoff, M. (2005) Proc. Natl. Acad. Sci. USA 102, 2661–2665.
7. Senghas, A. (2003) Cognit. Dev. 18, 511–531. 8. Labov, W. (1994) Principles of Linguistic Change: Internal Factors (Blackwell, Oxford), Vol. 1.
9. Labov, W. (2001) Principles of Linguistic Change: Social Factors (Blackwell, Oxford), Vol. 2.
10. Mufwene, S. (2001) The Ecology of Language Evolution (Cambridge Univ. Press, New York).
11. Senghas, A.&Coppolo, M. (2001) Psychol. Sci. 12, 323–328.
12. Goldin-Meadow, S. (2003) The Resilience of Language (Psychology Press, New York).
13. Goldin-Meadow, S. & Mylander, C. (1998) Nature 391, 279–281.
14. Goldin-Meadow, S., Yalabik, E. & Gershkoff-Stowe, L. (2000) in Proceedings of the 24th Annual Boston University Conference on Language Development (Cascadilla Press, Somerville, MA), Vol. 1, pp. 343–353.