A
ILUSÃO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
GERALD
EDELMAN 2000
Chairman, Department of Neurobiology, Scripps Research
Institute
Medicine and Physiology Nobel Prize 1972
Entrevista ao jornal italiano La Repubblica (08 Maio
2000)
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
Como
funciona o cérebro? Em que direção
se movem as pesquisas neste campo?
Um
dos métodos adotados pelas pesquisas é
subdividir esta grande questão em uma série
de problemas menores, porque é evidente que em
todo os casos não haverá uma resposta
única e simples. Deste modo o objetivo da neurologia
é procurar reconstruir o funcionamento do cérebro
com relação a percepção,
sensação, visão, emoção,
tato, olfato, memória, enfim, e também
quanto à compreensão da linguagem. Todos
estes aspectos, ainda que ligados uns aos outros, são
distintos e singulares, e seguem uma certa ordem, porque
não se pode entender a natureza da linguagem
sem saber-se o que são a percepção
e a memória. Hoje está aberto o campo
para profundas transformações técnicas.
Pela primeira vez somos capazes de resolver problemas
em todos os níveis organizacionais do sistema
nervoso. Do ponto de vista metodológico podemos
analisar qualquer coisa das moléculas aos modelos
de comportamento, e isto permitirá, em última
análise, que se una a psicologia à biologia.
Qual
é atualmente o problema mais evidente das pesquisas?
Devemos
considerar o cérebro no quadro de um constante
processo de desenvolvimento, da infância à
idade adulta, até a velhice. As modificações
são contínuas. Em consequência,
um dos objetivos que pré-estabelecemos é
chegar a compreender a geometria de cada feixe de nervos.
É uma tarefa extremamente árdua. Basta
pensar que os nervos estão ligados entre si por
10.000 sinapses: é como pegar todas as árvores
de uma floresta e juntá-las numa enorme pilha.
Nós não saberíamos exatamente qual
seria o significado disto e também não
teríamos métodos eficazes para investigar
a estrutura, mas creio que seja de extrema importância
conseguir isto. Devemos nos recordar sempre de que a
pilha não é estática mas antes
se assemelha a seus mecanismos internos e está
sempre em movimento. Ainda não dispomos de instrumentos
que nos digam como isto se dará, como não
somos capazes de observar o comportamento de um animal
em todos os níveis de organização
ao mesmo tempo. A neurologia do futuro poderá
ser capaz de analisar o fluxo de eletricidade no interior
de meu cérebro, de controlar as reações
químicas, de aproximar-se de uma célula
particular e observá-la, de reunir tudo isto
a um movimento de minha mão, e de tomar nota
de todos estes diversos níveis de controle, para
chegar até os genes individuais.
Dê-nos
um exemplo...
Alguns
pesquisadores do meu instituto estão estudando
o que ocorre com os genes de um animal quando este adormece
e desperta. Pelo que parece, quando o animal está
alerta os genes se ativam, e quando dorme os genes se
desativam. Alguns estudaram o todo específico
como a aprendizagem em estado de alerta. No sono estes
genes param de funcionar e é evidente que não
se aprende grande coisa quando se dorme, na verdade
demonstrou-se que não se aprende nada. Ao final,
pode ser um retorno de suas próprias lembranças,
mas não se aprende nada de novo. Por isso de
nada serve colocar o gravador debaixo do travesseiro.
O
que é o neodarwinismo?
O
neodarwinismo é apenas uma metáfora para
se indicar a idéia central da biologia, ou seja,
o conceito de população, que foi introduzido
por Charles Darwin e representa com toda probabilidade
a mais importante noção de toda a história
da biologia. Segundo esta concepção, o
mundo externo não dá ao corpo informações
sobre porque foi feito de um determinado modo, sob uma
certa forma, ou porque uma espécie se desenvolve
em uma certa direção, como se fosse baseada
numa fórmula escrita. Ao contrário, diversos
indivíduos, de modo totalmente independente,
desenvolvem profundas diferenças em suas estruturas
para com isto formar uma população, ou
seja, um conjunto de indivíduos não-idênticos,
mas diferenciados. Por causa da estrutura desta população,
quando se verificam determinados eventos no ambiente
alguns indivíduos são em média
mais capazes de se adaptar, e por isto têm uma
prole mais numerosa. Em consequência, seus genes,
através da prole, tendem a sobreviver por mais
tempo do que os genes dos indivíduos incapazes
de se adaptar. Este conceito pode vir aplicado ao sistema
imune, no qual existem células que produzem anticorpos
sem receberem instruções do mundo externo;
depois surgem moléculas estranhas, e selecionam
aquelas mais adaptadas à sua conformação.
O
que o senhor quer dizer quando fala de "melhor
adaptação ao estímulo"?
No
caso de uma população de nervos, quando
surge um certo estímulo alguns nervos se excitam
e outros ficam sufocados. Depois que isto acontece,
eu digo que aqueles nervos se adaptam. Isto vale ainda
para o processo evolutivo: não se pode predizer
de que modo a raça humana se desenvolverá
no decurso do próximo milênio, mas sabemos
que em dadas situações alguns indivíduos
estarão em vantagem.
Um
exemplo concreto?
No
sistema imune existe um grupo de células chamadas
linfócitos, que percorrem o corpo, navegam pelo
sangue e penetram em vários tecidos. Sob cada
linfócito, chamado linfócito-B, reside
uma molécula anticorpo. Cada linfócito
tem um só tipo de anticorpo, e ainda que tenham
todos um aspecto similar são em realidade diversos.
Quando aparece uma molécula estranha que nunca
existiu antes, ela sofre uma investida de linfócitos,
e entre tantos anticorpos aquele que ali se adapta vem
produzido em grande quantidade. É um sistema
seletivo, baseado em uma população de
vários anticorpos produzidos originalmente sem
qualquer informação sobre as moléculas
que se apresentam em consequência. Mas quando
estas chegam e um anticorpo ali se adapta, seu número
não aumenta.
Parece
simplíssimo compreender este mecanismo do sistema
imune.
Muito
mais difícil é aplicá-lo ao sistema
nervoso. E o motivo é que no sistema nervoso
não só não são células
que se reproduzem como são sinapses que se reforçam
ou se enfraquecem; além disso as sinapses se
determinam no interior de um cipoal no espaço
tridimensional. A extrema complexidade é dada
ainda pela presença de numerosos fatores, não
só por uma molécula estranha como um antígeno.
São rios e rios de sinais chegando, e isto torna
tudo mais complicado. Estudar o sistema nervoso é
muito mais difícil porque deve-se imaginar uma
rede extremamente articulada.
E
quando é que as sinapses se reforçam?
Continuamente.
Neste momento estamos reforçando sinapses por
todas as partes do corpo. Algumas sinapses vêm
reforçadas, outras enfraquecidas. Entre aquelas
que estão em meio a um fenômeno e outro,
algumas disparam: estão tratando do estímulo.
Quais
são os limites do modelo computacional?
Pessoalmente,
pertenço à escola de pensamento segundo
a qual tais limites são tão estreitos
que a metáfora do computador se revela inútil.
Não creio que exista algum elemento que demonstre
a semelhança entre o cérebro e um computador
eletrônico, e a razão não é
investigada só de baixo para cima, mas também
de cima para baixo. De baixo para cima significa que
em um cérebro qualquer detalhe é variável:
se uma empresa tentasse reproduzir esta condição
em um computador, acabaria por falir. Em um computador
é indispensável a precisão, coisa
que às vezes falta no cérebro, cuja força
está representada em suas variações,
segundo o neodarwinismo. Só se um computador
pudesse exprimir sentimentos e emoções
poderia ser aceita a metáfora do computador.
Por isto, vendo as coisas de baixo para cima, as variações
são tantas e tais que seria impossível
projetar-se um aparelho eletrônico de tal tipo.
É um princípio diferente.
O
que o senhor quer dizer?
Os
computadores funcionam não com base na seleção,
mas nas instruções, e não contêm
em si próprios qualquer significado. Diz-se que
eles devem conservar os dados, e depois interpretam-se
os dados no princípio e no fim, na entrada e
na saída. O computador não pensa e não
está sujeito a nenhum tipo de seleção,
enquanto que no cérebro a seleção
se desenvolve continuamente. De cima para baixo, os
limites desta metáfora se correlacionam com extrema
clareza. Suponhamos que eu esteja sentado em um compartimento
de um trem e que sinta um grande calor e sue copiosamente.
Você se senta defronte a mim, eu não a
conheço, e exalo um suspiro "Uff",
ao que você me responde "Uff". Aprendemos
alguma coisa um do outro? Nós dois sabíamos
que fazia calor e que o outro sentia calor, ou ao menos
supúnhamos. Ora, na expressão de nosso
senso de sufocamento nós não quisemos
dizer que fazia calor, mas antes exprimir uma relação
entre nós, conotada emocionalmente. Por isso,
enquanto não for demonstrado que um computador
eletrônico possa provar sentimentos e emoções
e saiba exprimir um estado comum a um outro sujeito
creio que a metáfora computacional é apenas
perda de tempo.
O
que acha dos estudos de inteligência artificial?
A
inteligência artificial já foi criada há
muito tempo, e no início parecia extremamente
promissora. Existem diversos tipos: por exemplo, a inteligência
artificial "hard" e "soft". Como
ocorre com muitas outras coisas que pretendem o impossível,
ao final qualquer coisa de bom sempre surge; por exemplo,
foram criados numerosos programas válidos para
computador. Mas a pretensão de reproduzir com
sistemas digitais o comportamento de um animal revelou-se
um completo desastre. Em outras palavras, a inteligência
artificial não tem nada que corresponda ao bom
senso, ou a um gato que pule em cima da geladeira. Nem
existe também um sistema de guia inteligente
à maneira dos organismos inferiores, quando atravessam
um ambiente que lhes é desconhecido. Portanto,
a idéia de que seja possível programar
qualquer coisa, a idéia que sustenta a inteligência
artificial, é para mim uma promessa vazia.
|