POR
QUE A HISTÓRIA HUMANA SE DESENVOLVEU DE MANEIRA
DIFERENTE EM DIFERENTES CONTINENTES NOS ÚLTIMOS
13.000 ANOS?
Jared
Diamond - Uma Palestra 1997
University of California, Los Angeles
Tradução: Pedro Lourenço Gomes
Atribuí
a mim mesmo a modesta tarefa de tentar explicar o amplo
padrão da história humana, em todos os
continentes, durante os últimos 13.000 anos.
Por que a história tomou cursos evolutivos tão
diferentes para os povos de diferentes continentes?
Este problema me fascina há muito tempo, mas
agora está maduro para uma nova síntese
por causa dos recentes avanços em muitos campos
aparentemente distantes da história, que incluem
a biologia molecular, a genética vegetal e animal
e a biogeografia, a arqueologia, e a linguística.
Como
todos sabemos, os eurasianos, especialmente os povos
da Europa e da Ásia Oriental, espalharam-se por
todo o globo, dominando o mundo moderno quanto a riqueza
e poder. Outros povos, incluindo a maioria dos africanos,
sobreviveram e se desligaram da dominação
européia, mas continuam na retaguarda quanto
a riqueza e poder. Outros povos ainda, incluindo os
habitantes originais da Austrália, das Américas,
do sul da África, não são mais
senhores de sua própria terra e foram dizimados,
subjugados ou exterminados pelos colonizadores europeus.
Por que a história se desenvolveu desse modo,
ao invés de modo reverso? Por que não
foram os americanos nativos, os africanos e os aborígenes
australianos aqueles que conquistaram ou exterminaram
os europeus e asiáticos?
Esta
grande questão pode ser um pouco adiantada. Por
volta de 1500 A.D., o ano aproximado em que a expansão
marítima européia estava apenas começando,
os povos dos diferentes continentes já diferiam
grandemente em tecnologia e organização
política. Grande parte da Eurásia e do
norte da África estava ocupada na época
por estados e impérios da Idade do Ferro, alguns
dos quais à beira da industrialização.
Dois povos nativos americanos, os incas e os astecas,
governavam impérios com ferramentas de ferro
e estavam começando a experimentar o bronze.
Partes da África subsahariana estavam divididas
em pequenos estados ou tribos (chiefdoms) indígenas
da Idade do Ferro. Mas todos os povos da Austrália,
da Nova Guiné e das ilhas do Pacífico,
e muitos povos das Américas e da África
subsahariana ainda viviam como fazendeiros ou mesmo
ainda como caçadores/coletores com ferramentas
de pedra.
Obviamente,
estas diferenças referentes ao ano de 1500 A.D.
foram a causa imediata das desigualdades do mundo moderno.
Impérios com ferramentas de ferro conquistaram
ou exterminaram tribos com ferramentas de pedra. Mas
como o mundo se desenvolveu para chegar ao que era em
1500 A.D.?
Esta
questão também pode ser empurrada um pouco
para trás com facilidade, com a ajuda de histórias
escritas e descobertas arqueológicas. Até
o final da última Idade do Gelo, mais ou menos
em 11.000 A.C., todos os humanos de todos os continentes
ainda viviam como caçadores/coletores da Idade
da Pedra. Taxas diferentes de desenvolvimento em diferentes
continentes, de 11.000 A.C. até 1500 A.D., foram
aquilo que produziu as desigualdades do ano de 1500
A.D. Enquanto os aborígenes australianos e muitos
povos nativos americanos permaneciam como caçadores/coletores
da Idade da Pedra, a maioria dos povos eurasianos e
muitos povos das Américas e da África
subsahariana gradualmente desenvolveram a agricultura,
a pecuária, a metalurgia e uma organização
política complexa. Partes da Eurásia,
e uma pequena área das Américas também
desenvolveram a escrita indígena. Mas cada um
destes novos desenvolvimentos apareceu antes na Eurásia
do que em qualquer outro lugar.
Assim,
podemos finalmente refazer nossa pergunta sobre a evolução
das desigualdades do mundo moderno como se segue. Por
que o desenvolvimento humano prosseguiu a taxas tão
diferentes em diferentes continentes nos últimos
13.000 anos? Estas taxas diferentes constituem o mais
amplo padrão histórico, o maior problema
não resolvido da história, e são
meu assunto agora.
Os
historiadores tendem a evitar esse assunto como se fosse
uma praga por causa de suas implicações
aparentemente racistas. Muitas pessoas, mesmo a maior
parte das pessoas, supõem que a resposta envolva
diferenças biológicas em QI médio
entre as populações do mundo, a despeito
do fato de que não há evidências
da existência de tais diferenças de QI.
Até mesmo perguntar por que povos diferentes
têm histórias diferentes parece malévolo
para alguns de nós, porque parece estar justificando
o que ocorreu na história. De fato, nós
estudamos as injustiças da história pela
mesma razão por que estudamos genocídios,
e pela mesma razão por que psicólogos
estudam as mentes de assassinos e estupradores: não
para justificar a história, o genocídio,
o assassinato e o estupro, mas ao invés disso
para entender como estes males vêm a ocorrer e
então usar esta compreensão para evitar
que ocorram novamente. No caso do cheiro de racismo
ainda deixá-lo pouco à vontade para explorar
este assunto, apenas reflita sobre a razão básica
de porque tantas pessoas aceitam explicações
racistas do amplo padrão da história:
nós não temos ums explicação
alternativa convincente. Até que tenhamos, as
pessoas continuarão a gravitar logo de início
à volta de teorias racistas. Isto nos deixa com
uma grande lacuna moral, que constitui a mais forte
razão para se tratar deste assunto.
Vamos
prosseguir continente por continente. Como nossa primeira
comparação continental, vamos pensar sobre
a colisão do Velho Mundo e do Novo Mundo que
começou com a viagem de Colombo em 1492 A.D.,
porque os fatores adjacentes envolvidos no resultado
são bem conhecidos. Agora vou lhe dar um resumo
e uma interpretação das histórias
da América do Norte, da América do Sul,
da Europa e Ásia a partir de minha perspectiva
como biogeógrafo e biólogo evolutivo -
tudo isto em dez minutos; dois minutos por continente.
Lá vamos:
Muitos
de nós conhecem bem as histórias de como
algumas centenas de espanhóis sob Cortés
e Pizarro derrubaram os impérios inca e asteca.
As populações de cada um desses impérios
chegavam a dezenas de milhões. Também
estamos familiarizados com os horríveis detalhes
de como outros europeus conquistaram outras partes do
Novo Mundo. O resultado é que os europeus vieram
a colonizar e dominar a maior parte do Novo Mundo, enquanto
a população de nativos americanos declinava
drasticamente a partir de seu nível no ano de
1492 A.D. Por que isto ocorreu dessa maneira? Por que
não ocorreu que os imperadores Montezuma ou Atahuallpa
levassem os astecas ou os incas a conquistar a Europa?
As
razões adjacentes são óbvias. Os
europeus invasores tinham espadas de aço, canhões
e cavalos, enquanto os nativos americanos tinham tinham
apenas armas de pedra e de madeira, e nenhum animal
que pudesse ser cavalgado. Aquelas vantagens militares
permitiram repetidamente que tropas de algumas dúzias
de espanhóis montados derrotassem exércitos
dos nativos que chegavam aos milhares.
Entretanto,
espadas de aço, canhões e cavalos não
eram os únicos fatores adjacentes por trás
da conquista européia do Novo Mundo. As doenças
infecciosas introduzidas com os europeus, como varíola
e sarampo, espalharam-se de uma tribo indígena
para outra, chegando bem na frente dos próprios
europeus, e mataram estimados 95% da população
nativa do Novo Mundo. Estas doenças eram endêmicas
na Europa, e os europeus tinham tido tempo de desenvolver
resistência tanto genética quanto imune
a elas, mas inicialmente os nativos não tinham
tal resistência. O papel desempenhado pelas doenças
infecciosas na conquista européia do Novo Mundo
foi repetido em muitas outras partes do mundo, incluindo
a Austrália Aborígene, o sul da África
e muitas ilhas do Pacífico.
Finalmente,
há ainda outro conjunto de fatores adjacentes
a serem considerados. Como é que Pizarro e Cortés
chegaram ao Novo Mundo, afinal, antes que os conquistadores
astecas e incas pudessem alcançar a Europa? Este
resultado dependeu em parte da tecnologia, sob a forma
de barcos oceânicos. Os europeus tinham tais barcos,
enquanto astecas e incas não tinham. Além
disso, aqueles navios europeus eram sustentados pela
organização política centralizada
que permitiu que a Espanha e outros países europeus
construíssem e equipassem estes barcos. Igualmente
crucial foi o papel da escrita européia, ao permitir
a rápida disseminação de informações
detalhadas precisas, incluindo mapas, orientações
de navegação e relatos de exploradores
anteriores, para a Europa, motivando exploradores posteriores.
Até
agora identificamos uma série de fatores adjacentes
por trás da colonização européia
do Novo Mundo: a saber, barcos, organização
política e a imprensa, que trouxeram os europeus
ao Novo Mundo; os germes europeus que mataram a maioria
dos nativos antes que conseguissem chegar ao campo de
batalha, e canhões, espadas de aço e cavalos,
que deram aos europeus uma grande vantagem neste campo
de batalha. Agora, vamos tentar esticar um pouco mais
a cadeia de causalidade. Por que estas vantagens adjacentes
estavam com o Velho Mundo, e não com o Novo Mundo?
Teoricamente os nativos americanos poderiam ter sido
aqueles a desenvolver espadas de aço e canhões
primeiro, a desenvolver barcos oceânicos e impérios
e a imprensa primeiro, a estar montados em animais domésticos
mais aterrorizantes do que cavalos, ou transportar germes
piores do que o da varíola.
A
parte mais fácil de ser respondida desta pergunta
trata das razões pelas quais a Eurásia
desenvolveu os piores germes. É notável
como os nativos americanos não desenvolveram
doenças epidêmicas devastadoras para darem
aos europeus em troca das muitas doenças epidêmicas
devastadoras que receberam do Velho Mundo. Existem duas
razões diretas para este grosseiro desequilíbrio.
Primeiro, a maior parte das doenças epidêmicas
conhecidas só podem se sustentar em grandes e
densas populações humanas concentradas
em aldeias e cidades, que surgiram muito antes no Velho
Mundo do que no Novo Mundo. Segundo, estudos recentes
sobre micróbios feitos por biólogos moleculares
demonstraram que a maioria das doenças epidêmicas
humanas se desenvolveram de doenças epidêmicas
similares das densas populações de animais
domésticos do Velho Mundo, com as quais estávamos
em estreito contato. Por exemplo, o sarampo e a tuberculose
se desenvolveram de doenças do nosso gado, a
gripe de uma doença dos porcos, e a varíola
possivelmente de uma doença dos camelos. As Américas
tinham poucas espécies nativas de animais domesticados
das quais os humanos pudessem adquirir tais doenças.
Agora
vamos puxar de volta a cadeia de raciocínio mais
um pouco. Por que havia muito mais espécies de
animais domesticados na Eurásia do que nas Américas?
As Américas abrigam quase mil espécies
de mamíferos nativos selvagens, de modo que inicialmente
você pode supor que as Américas oferecessem
bastante material inicial para a domesticação.
De
fato, apenas uma pequena fração de espécies
de mamíferos selvagens foram domesticadas com
sucesso, porque a domesticação exige que
um animal selvagem preencha diversos pré-requisitos:
o animal tem que ter uma dieta que os humanos possam
fornecer; uma rápida taxa de crescimento; boa
vontade de se reproduzir em cativeiro; uma disposição
maleável, uma estrutura social que envolva comportamento
submisso para com animais dominantes e humanos; e a
ausência de uma tendência a entrar em pânico
quando posto dentro de cercados. Há milhares
de anos os seres humanos domesticaram todas as possíveis
espécies grandes de mamíferos selvagens
que preenchiam todos estes critérios e valiam
a pena ser domesticadas, com o resultado de que não
houve adições de valor de animais domésticos
em épocas recentes, a despeito dos esforços
da ciência moderna.
A
Eurásia acabou tendo a maioria das espécies
animais domesticadas em parte porque é a maior
massa terrestre do mundo e a que mais oferecia espécies
selvagens para um começo. Esta diferença
pré-existente foi aumentada há 13.000
anos, ao final da última Idade do Gelo, quando
a maior parte das grandes espécies de mamíferos
das Américas do Sul e do Norte se tornaram extintas,
talvez exterminadas pelos primeiros habitantes que ali
chegaram. Como resultado, os nativos americanos herdaram
muito menos espécies de grandes mamíferos
selvagens do que os eurasianos, ficando apenas com o
lhama e a alpaca para domesticação. As
diferenças entre os Velho e Novo Mundos em plantas
domesticadas, especialmente quanto a cereais de sementes
grandes, são qualitativamente similares a estas
diferenças de mamíferos domesticados,
apesar da diferença não ser tão
extrema.
Outra
razão para uma diversidade local superior de
plantas e animais domesticados na Eurásia do
que nas Américas é que o eixo principal
da Eurásia é de leste/oeste, ao passo
que o eixo principal das Américas é de
norte/sul. O eixo leste/oeste da Eurásia significou
que as espécies domesticadas em uma parte da
Eurásia podiam ser facilmente disseminadas por
milhares de milhas na mesma latitude, encontrando a
mesma duração do dia e o mesmo clima aos
quais já estavam adaptadas. Como resultado, galinhas
e frutas cítricas domesticadas no sudeste da
Ásia espalharam-se rapidamente para o oeste,
para a Europa; os cavalos domesticados na Ucrânia
espalharam-se rapidamente para leste, para a China,
e os carneiros, bodes, gado, trigo e centeio do Crescente
Fértil rapidamente se disseminaram tanto para
o leste como para o oeste.
Em
contraste, o eixo norte/sul das Américas significou
que espécies domesticadas em uma área
não podiam se espalhar para muito longe sem encontrar
duração de dia e clima aos quais não
estavam adaptadas. Como resultado, o peru nunca se afastou
de seu local de domesticação no México
para os Andes, os lhamas e as alpacas nunca saíram
dos Andes para oMéxico, de modo que as civilizações
nativas das Américas Central e do Norte permaneceram
completamente privadas de animais de carga, e demorou
milhares de anos para que o milho que se desenvolveu
no clima do México se modificasse em um milho
adaptado à curta estação de crescimento
e à mutante duração do dia conforme
as estações da América do Norte.
As
plantas e os animais domesticados da Eurásia
eram importantes por diversas outras razões que
não deixar o europeus desenvolverem germes mal-comportados.
Plantas e animais domesticados produzem mais calorias
por cada acre (NT - cada acre americano cobre uns 4.000
m2) do que os habitats selvagens, nos quais a maioria
das espécies não são comestíveis
para os humanos. Como resultado, as densidades populacionais
de fazendeiros e criadores são tipicamente de
dez a cem vezes maiores do que as dos caçadores/coletores.
Apenas este fato explica porque os fazendeiros e criadores
por todo o mundo foram capazes de expulsar os caçadores/coletores
das terras apropriadas para a agricultura e a pecuária.
Os animais domésticos revolucionaram o transporte
terrestre. Também revolucionaram a agricultura,
permitindo que um fazendeiro arasse e adubasse muito
mais terra do que ele o poderia fazer por seu próprio
esforço. Além disso, as sociedades de
caçadores/coletores tendem a ser igualitárias
e a não ter organização política
para além do nível de um bando ou uma
tribo, ao passo que os excedentes e o armazenamento
de alimentos que a agricultura tornou possíveis
permitiu o desenvolvimento de sociedades estratificadas
e politicamente centralizadas, com elites governantes.
Aqueles excedentes de alimentos também aceleraram
o desenvolvimento da tecnologia, sustentando artesãos
que não criavam seu próprio alimento e
que ao invés podiam se devotar a desenvolver
a metalurgia, a escrita, espadas e canhões.
Assim,
nós começamos identificando uma série
de explicações adjacentes - canhões,
germes, etc. - para a conquista das Américas
pelos europeus. Estes fatores adjacentes me parecem
poder ser devidos em grande parte ao maior número
de plantas domesticadas do Velho Mundo, ao maior número
de animais domesticados e ao eixo leste/oeste. A cadeia
de causalidade é muito direta na explicação
das vantagens do Velho Mundo referentes a cavalos e
a germes mal-comportados. Mas as plantas e os animais
domesticados também levaram mais indiretamente
à vantagem da Eurásia em canhões,
espadas, barcos oceânicos, organização
política e a escrita, todos os quais eram produto
das sociedades grandes, densas, sedentárias e
estratificadas possibilitadas pela agricultura.
A
seguir vamos examinar se este esquema, derivado da colisão
dos europeus com os nativos americanos, nos ajuda a
entender o padrão mais amplo da história
africana, que resumirei em cinco minutos. Vou me concentrar
na história da África subsahariana, porque
ela estava muito mais isolada da Eurásia pela
distância e pelo clima do que a África
do Norte, cuja história está estreitamente
ligada à história da Eurásia. Vamos
lá, novamente:
Assim
como perguntamos por que Cortés invadiu o México
antes que Montezuma pudesse invadir a Europa, podemos
igualmente perguntar porque os europeus colonizaram
a África subsahariana antes que os subsaharianos
pudessem colonizar a Europa. Os fatores adjacentes foram
aqueles mesmos já conhecidos, canhões,
aço, barcos oceânicos, organização
política e a escrita. Mas novamente podemos indagar
por que canhões, barcos e tudo mais acabaram
sendo desenvolvidos na Europa e não na África
subsahariana. Para quem estuda a evolução
humana esta questão é particularmente
desconcertante, porque os humanos vinham se desenvolvendo
por milhões de anos a mais na África do
que na Europa, e mesmo o anatomicamente moderno Homo
sapiens só pode ter alcançado a Europa
a partir da África nos últimos 50.000
anos. Se o tempo fosse um fator crítico no desenvolvimento
das sociedades humanas, a África teria desfrutado
de uma enorme vantagem inicial sobre a Europa.
Novamente,
este resultado reflete amplamente diferenças
biogeográficas na disponibilidade de espécies
de animais e plantas selvagens domesticáveis.
Tomando os animais domésticos em primeiro lugar,
é notável que o único animal domesticado
dentro da África subsahariana tenha sido (você
adivinhou) uma ave, a galinha d'angola (NT - "Guinea
fowl", Numida meleagris). Todos os mamíferos
domesticados da África - gado, ovelhas, cabras,
cavalos, até mesmo os cachorros - entraram na
África subsahariana através do norte,
da Eurásia ou da África do Norte. A princípio
isto parece espantoso, já que agora pensamos
na África como o continente dos grandes mamíferos
selvagens. De fato, nenhuma destas espécies dos
famosos mamíferos grandes e selvagens da África
comprovou ser domesticável. Todas foram desqualificadas
por um problema ou outro, como: organização
social insatisfatória; comportamento intratável;
lenta taxa de crescimento, e etc. Pense só no
que o curso da história poderia ter sido se os
rinocerontes e hipopótamos africanos tivessem
se prestado à domesticação! Se
isto tivesse sido possível, uma cavalaria africana
montada em rinocerontes ou hipopótamos teria
feito picadinho da cavalaria européia montada
em cavalos. Mas não pode ocorrer assim.
Ao
invés, como mencionei, os rebanhos adotados na
África eram espécies eurasianas que vieram
do norte. O longo eixo africano, como o das Américas,
é norte/sul e não leste/oeste. Aqueles
mamíferos domésticos eurasianos se disseminaram
para o sul muito lentamente na África, porque
tinham que se adaptar a diferentes zonas climáticas
e diferentes doenças de animais.
As
dificuldades impostas por um eixo norte/sul para a disseminação
de espécies domesticadas são ainda mais
impressionantes para as plantações africanas
do que para seus rebanhos. Lembre-se que os alimentos
essenciais do antigo Egito eram colheitas do Crescente
Fértil e do Mediterrâneo como trigo e cevada,
que exigem chuvas de inverno e variações
sazonais da duração dos dias para sua
germinação. Estas plantações
não podiam se disseminar para o sul além
da Etiópia, para além da qual as chuvas
vêm no verão e há pouca ou nenhuma
variação sazonal da duração
dos dias. Ao invés, o desenvolvimento da agricultura
no Sub-Sahara teve que esperar a domesticação
de espécies vegetais como o sorgo e o painço,
adaptadas às chuvas de verão da África
Central e a uma duração do dia relativamente
constante.
Ironicamente,
estas plantações da África Central
foram incapazes, pela mesma razão, de se disseminarem
para o sul, para a zona mediterrânea (NT - "to
spread South to the Mediterranian zone of South Africa".
Certamente, Diamond não está se referindo
ao Mar Mediterrâneo) da África do Sul,
onde mais uma vez as chuvas de inverno e as grandes
variações sazonais na duração
dos dias prevaleciam. O avanço para o sul dos
fazendeiros africanos nativos com as plantações
da África Central pararam em Natal, para além
da qual as plantações centro-africanas
não conseguiam se desenvolver - com enormes consequências
para a história recente da África do Sul.
Em
suma, um eixo norte/sul e uma escassez de espécies
animais e vegetais selvagens adaptáveis à
domesticação foram decisivos na história
da África, assim como o foram na história
nativa americana. Apesar dos nativos africanos domesticarem
algumas plantas no Sahel (NT - região da África
Ocidental entre o Sudão e o deserto de Sahara,
onde chove apenas entre julho e outubro, numa pequena
média de 5 a 20 polegadas por ano. Na estação
seca sopra o vento harmattan, do Sahara, que cria uma
constante névoa de fina poeira. A água
permanente é rara e a vida selvagem escassa.
O capim cresce apenas em pequenos tufos e a vegetação
típica são arbustos com espinhos e pequenas
árvores), na Etiópia e na África
Ocidental tropical, eles adquiriram animais domésticos
de valor apenas mais tarde, vindos do norte. As vantagens
resultantes dos europeus em canhões, barcos,
organização política e escrita
permitiram que os europeus colonizassem a África,
e não que os africanos colonizassem a Europa.
Vamos
concluir agora nossa turbilhonante passagem em volta
do globo devotando cinco minutos ao último continente,
a Austrália. Lá vamos nós de novo,
pela última vez.
Nos
tempos modernos a Austrália era o único
continente ainda habitado apenas por caçadores/coletores.
Isto faz da Austrália um teste crítico
para qualquer teoria sobre diferenças continentais
na evolução das sociedades humanas. A
Austrália nativa não tinha plantadores
ou criadores, nem escrita, nem ferramentas de metal,
e nenhuma organização política
acima da tribo ou do bando. Estas, é claro, são
as razões pelas quais as armas e os germes europeus
destruíram a sociedade australiana aborígene.
Mas por que todos os nativos australianos permaneceram
caçadores/coletores?
Há
três razões óbvias. Primeira, até
hoje nenhuma espécie animal nativa australiana
e apenas uma espécie vegetal (a noz da macadâmia)
se mostrou adequada para domesticação.
Ainda não existem cangurus domésticos.
Segunda, a Austrália é o menor continente,
e a maior parte dela só pode sustentar pequenas
populações humanas, por causa de pouca
chuva e baixa produtividade. Portanto, o número
total de caçadores/coletores australianos era
de mais ou menos 300.000. Finalmente, a Austrália
é o continente mais isolado. Os únicos
contatos externos dos aborígenes australianos
eram tênues ligações marítimas
com habitantes da Nova Guiné e da Indonésia.
Para
se ter uma idéia da importância daquele
pequeno tamanho populacional e isolamento com relação
à velocidade do desenvolvimento na Austrália,
considere a ilha australiana da Tasmânia, que
teve a mais extraordinária sociedade humana do
mundo moderno. A Tasmânia é apenas uma
ilha de tamanho modesto, mas era a última extremidade
do mais remoto continente, e isto esclarece uma grande
questão da evolução de todas as
sociedades humanas. A Tasmânia fica 130 milhas
a sudeste da Austrália. Quando foi visitada pela
primeira vez pelos europeus em 1642, a Tasmânia
era ocupada por 4.000 caçadores/coletores relacionados
aos australianos do continente, mas com a tecnologia
mais simples do que de qualquer população
recente da Terra. À diferença dos aborígenes
australianos do continente, os tasmanianos não
conseguiam fazer fogo; não tinham bumerangues,
lanças ou escudos; não tinham armas feitas
de ossos, ferramentas de pedra especializadas, e nenhuma
ferramenta composta, como uma cabeça de machado
montada em um cabo; eles não podiam cortar uma
árvore ou escavar uma canoa; não faziam
costuras para fabricar roupas, a despeito do frio inverno
tasmaniano, onde neva; e, incrivelmente, apesar de viverem
na maioria das vezes na costa marítima, os tasmanianos
não pegavam ou comiam peixes. Como surgiram estas
enormes lacunas na cultura material tasmaniana?
A
resposta provém do fato de que a Tasmânia
costumava ser ligada à parte sul do continente
australiano na época do Pleistoceno em que havia
uma nível baixo do mar, até que aquela
ponte de terra foi seccionada pelo crescente nível
do mar há 10.000 anos. As pessoas andavam até
a Tasmânia há dezenas de milhares de anos,
quando ainda era parte da Austrália. Uma vez
que aquela ponte de terra foi seccionada, entretanto,
não houve absolutamente nenhum contato posterior
dos tasmanianos com os australianos do continente ou
com qualquer outro povo da Terra até a chegada
dos europeus em 1642, porque tanto os tasmanianos como
os australianos do continente não tinham embarcações
capazes de cruzar aquele estreito de 130 milhas entre
a Tasmânia e a Austrália. A história
tasmaniana é, então, um estudo do isolamento
humano sem precedentes, exceto na ficção
científica - a saber, isolamento completo de
outros seres humanos por 10.000 anos. A Tasmânia
tinha a menor e mais isolada população
humana do mundo. Se o tamanho da população
e seu isolamento tivessem qualquer efeito sobre a acumulação
de invenções, esperaríamos ver
este efeito na Tasmânia.
Se
todas estas tecnologias que mencionei, ausentes da Tasmânia
mas presentes no continente australiano à sua
frente, foram inventadas pelos australianos nos últimos
10.000 anos, podemos pelo menos concluir com certeza
que a pequena população da Tasmânia
não as inventou independentemente. De modo surpreendente,
os registros arqueológicos demonstram algo mais:
em verdade os tasmanianos abandonaram algumas tecnologias
que tinham trazido com eles da Austrália, e que
persistiram no continente australiano. Por exemplo,
ferramentas de ossos e a prática da pesca estavam
ambas presentes na Tasmânia na época em
que a ponte de terra foi seccionada, e ambas desapareceram
da Tasmânia por volta de 1500 A.C. Isto representa
a perda de valiosas tecnologias: os peixes poderiam
ser defumados para fornecer alimento durante o inverno,
e agulhas de ossos poderiam ter sido usadas para costurar
roupas quentes.
Que
sentido podemos tirar destas perdas culturais?
A
única interpretação que faz sentido
para mim é a seguinte: primeiro, a tecnologia
tem que ser inventada ou adotada. As sociedades humanas
variam quanto a muitos fatores independentes que afetam
sua abertura para inovações. Daí,
quanto maior a população humana e quanto
mais sociedades existirem em uma ilha ou em um continente,
maior a chance de qualquer dada invenção
ser concebida e adotada em algum lugar ali.
Segundo,
para todas as sociedades humanas, exceto para aquelas
da totalmente isolada Tasmânia, a maior parte
das inovações tecnológicas se difundem
vindo do exterior, ao invés de serem inventadas
localmente, de modo que se espera que a evolução
da tecnologia prossiga mais rapidamente em sociedades
mais estreitamente ligadas com sociedades externas.
Finalmente,
a tecnologia não só tem que ser adotada;
ela também tem que ser mantida. Todas as sociedades
humanas passam por tendências nas quais elas ou
adotam práticas de pouca utilidade ou então
abandonam práticas de considerável utilidade.
Sempre que tais tabus economicamente sem sentido surgem
em uma área com muitas sociedades humanas rivais,
apenas algumas sociedades irão adotar o tabu
em uma dada época. Outras sociedades reterão
a prática útil, e ou sobrepujarão
as sociedades que a perderam ou então lá
estarão como modelos para que as sociedades com
tabus deplorem seu erro e readquiram a prática.
Se os tasmanianos tivessem permanecido em contato com
os australianos do continente, poderiam ter redescoberto
o valor e as técnicas da pesca e da fabricação
de ferramentas de ossos que haviam perdido. Mas isto
não poderia acontecer no completo isolamento
da Tasmânia, onde as perdas culturais se tornaram
irreversíveis.
Em
resumo, a mensagem das diferenças entre as sociedades
da Tasmânia e da Austrália continental
parece ser a seguinte: Mantendo-se todos os outros fatores
iguais (NT - "All other things being equal",
o conhecido ceteris paribus), a taxa de invenção
humana é mais rápida, e a taxa de perda
cultural é mais lenta, em áreas ocupadas
por muitas sociedades rivais que tenham muitos indivíduos
e que estejam em contato com sociedades de outros lugares.
Se esta interpretação estiver correta,
então é provável que tenha uma
importância mais ampla. Provavelmente ela fornece
parte da explicação de porque os nativos
australianos, no menor e mais isolado continente do
mundo, permaneceram caçadores/coletores da Idade
da pedra, enquanto povos de outros continentes estavam
adotando a agricultura e o metal. Também é
provável que contribua para as diferenças
que já discuti entre os fazendeiros da África
subsahariana, os fazendeiros das Américas, muito
maiores, e os fazendeiros da ainda maior Eurásia.
Naturalmente,
há muitos fatores importantes na história
do mundo que não tive tempo de discutir em 40
minutos, e que discuto em meu livro (NT - Guns, germs,
and steel: the fates of human societies). Por exemplo,
eu disse pouco ou nada sobre a distribuição
de plantas domesticadas (três capítulos);
sobre a maneira precisa como as complexas instituições
políticas e o desenvolvimento da escrita, da
tecnologia e da religião organizada dependem
da agricultura e da pecuária; sobre as fascinantes
razões para as diferenças, na Eurásia,
entre a China, a Índia, o Oriente Próximo
e a Europa; e sobre os efeitos dos indivíduos
e das diferenças culturais, na história,
que não estão relacionadas ao meio ambiente.
Mas agora é hora de resumir o significado total
desta viagem turbilhonante pela história humana,
com seus mal-distribuídos germes e armas.
O
padrão mais amplo da história - a saber,
as diferenças entre as sociedades humanas em
diferentes continentes - parece-me ser atribuível
a diferenças entre os ambientes continentais,
e não a diferenças biológicas entre
os próprios povos. Em particular, a disponibilidade
de espécies vegetais e animais selvagens adequadas
à domesticação, e a facilidade
com que estas espécies puderam se disseminar
não encontrando climas inadequados, contribuiram
decisivamente para as taxas variáveis de crescimento
da agricultura e da pecuária, que por sua vez
contribuiram decisivamente para o aumento dos números
das populações humanas, das densidades
populacionais e dos excedentes de alimento, que por
sua vez contribuiram decisivamente para o desenvolvimento
de doenças infecciosas epidêmicas, a escrita,
a tecnologia e a organização política.
Além disso, as histórias da Tasmânia
e da Austrália nos advertem que as diferentes
áreas e os diferentes isolamentos dos continentes,
determinando o número de sociedades rivais, podem
ter sido outro importante fator no desenvolvimento humano.
Enquanto
biólogo que pratica ciência experimental
em laboratório, sei que alguns cientistas podem
se inclinar a descartar estas interpretações
históricas como se fossem uma especulação
improvável, porque elas não estão
fundamentadas em experimentos replicados em laboratório.
A mesma objeção pode ser levantada contra
qualquer das ciências históricas, incluindo
astronomia, biologia evolutiva, geologia e paleontologia.
É claro que a objeção pode ser
levantada contra todo o campo da história, e
a maior parte do campo das ciências sociais. É
por esta razão que não ficamos confortáveis
ao considerarmos a história como uma ciência.
Ela é classificada como uma ciência social,
o que é considerado não muito científico.
Mas
lembre-se que a palavra "científico"
não se deriva da palavra latina para "experimento
replicado em laboratório", mas ao invés,
da palavra latina "scientia", para "conhecimento".
Em ciência, nós procuramos o conhecimento
através de quaisquer metodologias que estejam
disponíveis e sejam apropriadas. Existem muitos
campos que ninguém hesita em considerar como
ciência, mesmo que os experimentos destes campos
replicados em laboratório sejam imorais, ilegais
ou impossíveis. Nós não podemos
manipular algumas estrelas enquanto mantemos as outras
estrelas como controles; nós não podemos
iniciar e interromper idades de gelo, e não podemos
fazer experimentos com projeto e desenvolvimento de
dinossauros. Mesmo assim, podemos ainda obter consideráveis
conhecimentos nestes campos históricos por outros
meios. Então poderíamos certamente ser
capazes de entender a história humana, porque
a introspecção e as obras escritas preservadas
nos dão muito mais conhecimento de como eram
os humanos antigos do que como eram os antigos dinossauros.
Por esta razão estou otimista quanto ao fato
de que eventualmente poderemos chegar a explicações
convincentes para estes padrões mais amplos da
história humana.
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