RECEITA
QUÂNTICA PARA A VIDA
PAUL
DAVIES (Nature 06 Oct 2005)
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
Um dos mais influentes livros de física do século
20 era, em verdade, sobre biologia. Em uma série
de palestras, Erwin Schrödinger descreveu como
achava que a mecânica quântica, ou alguma
variante dela, logo resolveria o enigma da vida. Essas
palestras foram publicadas em 1944 com o título
de O Que é a Vida?, e algumas pessoas
consideraram-nas como o início da era da biologia
molecular.
No
século 19, muitos cientistas achavam que conheciam
a resposta para a pergunta retórica de Schrödinger.
A vida, afirmavam, era algum tipo de matéria
mágica. O uso continuado do termo 'química
orgânica' é uma reminiscência daquela
época. A crença de que existe uma receita
química para a vida levou à esperança
de que, se nós soubéssemos o que ela é,
poderíamos combinar o material certo em um tubo
de ensaio e produzir vida no laboratório.
A
maior parte da pesquisa em biogênese seguiu essa
tradição, supondo que a química
era uma ponte - e uma ponte bem comprida - ligando a
matéria à vida. Elucidar essa via química
tem sido um cobiçado objetivo, instigado pelo
famoso experimento de Miller-Urey de 1952, no qual foram
criados aminoácidos através da emissão
de fagulhas elétricas através de uma mistura
de água e gases simples. Mas essa idéia
acabou virando um beco sem saída, e o progresso
posterior da síntese pré-biótica
química tem sido desanimadoramente lento. A origem
da vida continua a ser um dos grandes e notáveis
mistérios da ciência.
Aceitando-se
a sugestão de Schrödinger, uma solução
radical para a questão O Que é a Vida?
poderia ser que a mecânica quântica permitiu
que a vida emergisse diretamente do mundo atômico,
sem necessidade de uma complexa química intermediária.
A vida deve ter uma base química: as moléculas
orgânicas fornecem o hardware para a biologia.
Mas, e quanto ao software?
Quando
Schrödinger indagou O Que é a Vida?,
ele já tinha uma visão da importância
fundamental do armazenamento de informação
e dos processos de replicação da célula,
mesmo que o papel do DNA e o código genético
ainda estivessem por ser descobertos. Hoje em dia a
célula não é vista como matéria
mágica, mas como um computador - um sistema de
processamento de informação e de replicação
que tem precisão surpreendente.
Quando
a vida é vista em termos de processamento de
informação o problema toma diferente forma.
Os biólogos sempre consideraram que a reprodução
- uma das características definidoras da vida
- tinha a ver com estruturas replicantes, fossem elas
moléculas de DNA ou células inteiras.
Mas para dar início à vida, tudo o que
se precisa é replicar informação.
A
informação pode ser processada no nível
quântico várias ordens de magnitude mais
rapidamente do que pode ser processada de modo clássico,
o que explica a corrida para se construir um computador
quântico. Além disso, sistemas quânticos
podem fazer uso de fenômenos como superposição,
correlação (entanglement) e tunelamento
para incrementarem seus desempenhos.
Um
replicador quântico não precisa ser um
sistema atômico que clona a si próprio.
De fato, existe um teorema quântico de não-clonagem
que proibe a replicação de funções
de onda. Ao invés, o conteúdo de informação
de um sistema atômico deve ser copiado de modo
a ficar mais ou menos intato - não necessariamente
em uma etapa, mas talvez depois de uma seqüência
de interações. Essa informação
pode muito bem estar em forma binária, fazendo
uso da orientação do spin de um elétron
ou átomo, por exemplo. Dessa maneira a mecânica
quântica fornece uma discretização
automática da informação genética.
O
que é esse Adão atõmico, esse replicador
quântico que gera vida? Confesso que não
faço a menor idéia sobre o melhor lugar
para se encontrar tal coisa, ainda que eu saiba que
não será no quadro da sopa primordial
da tradição. Pode até mesmo ser
um lugar gelado, tal como um cristal interestelar. Seja
onde for, uma vez que uma população de
replicadores de informação se estabeleceu,
a incerteza quântica forneceu um mecanismo embutido
para a variação. Junte um mecanismo de
seleção, e o grande jogo darwiniano podia
começar.
Como
é que, então, surgiu a vida orgânica?
A informação pode ser prontamente passada
de um meio para outro. Em algum estágio a vida
quântica pode ter cooptado grandes moléculas
orgânicas para a montagem de um registro de memória.
Eventualmente a matéria orgânica assumiria
uma vida própria. A perda de velocidade de processamento
teria sido compensada por maior complexidade, versatilidade
e estabilidade das moléculas orgânicas,
o que por sua vez permitiria que a vida orgânica
invadisse muitos habitats.
Algo
está faltando na explicação até
esse momento - complexidade. Replicar um simples bit
de informação é uma coisa; gerar
e replicar longas concatenações de bits
é outra bem diferente. Como a complexidade surge
em sistemas quânticos é um assunto ainda
em sua infância, mas os princípios envolvidos
poderiam ser esclarecidos aplicando-se a teoria da complexidade
algorítmica à teoria quântica da
informação.
Quando
Schrödinger publicou seu livro, os físicos
quânticos estavam embevecidos com o sucesso da
explicação da natureza da matéria.
A vida é, afinal de contas, apenas um estado
da matéria, apesar de ser um estado anômalo.
Sessenta anos depois, a expecativa de Schrödinger
ainda não foi preenchida. Os biólogos
moleculares estão contentes com os modelitos
baseados em conceitos clássicos. Mas enquanto
se apegarem a isso a origem da vida permanecerá
um mistério.
Mesmo
se não pudermos reconstituir os detalhes precisos
do surgimento da vida, conhecer os princípios
gerais seria um grande avanço. Provar um teorema
quântico-mecânico que coloca uma fronteira
na probabilidade de que tal ou qual sistema pode se
replicar com uma certa precisão, e evoluir até
um nível particular de complexidade, poderia
responder à febril indagação da
astrobiologia: seria a origem da vida conhecida um acidente
peculiar ou seria o resultado esperado de leis intrinsecamente
bio-amigáveis da física? Significativas
explicações surgiriam da resposta, já
que o problema se refere a uma das questões mais
profundas da existência: a vida é um fenômeno
cósmico ou estamos sozinhos na vastidão
do universo?
(Paul
Davies é físico, do Centro Australiano
de Astrobiologia, Macquarie University, Sydney, e autor
de The Origin of Life, Penguin Books, 2003).
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