A
PESSOA INTERIOR
Antonio
Damasio (Nature Maio 2003)
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
Se fosse solicitado aos leitores de Nature que definissem
o conceito de "eu", acho que as respostas
ficariam nas proximidades de dois significados principais.
Um seria revigorantemente preciso: "aquilo que
o sistema imune identifica como pertencente ao corpo",
um tópico que já foi examinado competentemente
por Guy Nossal em um ensaio anterior dessa série.
O outro significado, correspondendo à idéia
convencional do eu mental, seria de classificação
mais difícil. As respostas incluiriam: "o
senso do próprio ser" ou " a soma total
das qualidades que distinguem a mente de uma pessoa
da mente de outra", ou "a identidade pessoal
da pessoa". Podemos tornar mais preciso o conceito
de eu mental? Será que o eu imunológico
e o eu mental estão interrelacionados? Acho que
a resposta é afirmativa para as duas perguntas.
Em
uma tentativa de ver alguma coisa através da
névoa do eu mental, passei a considerá-lo
sob dupla perspectiva: a da introspecção
e a da biologia. A introspecção me diz
que o eu mental não é uma coisa, mas um
processo que produz fenômenos que vão desde
o muito simples (o senso automático de que eu
existo separadamente de outras entidades) até
o muito complexo (minha identidade completa, com diversos
detalhes biográficos). Por um lado, combinar
os resultados da introspecção com uma
perspectiva biológica sugere-me que o eu mental
representa a individualidade e a continuidade de um
organismo vivo.
O
valor de um tal símbolo é que ele serve
de referência para outros conteúdos da
mente, tais como representações de objetos
com os quais os organismos interagem, e dos eventos
dos quais os organismos participam. Ter um senso do
eu enquanto componente regular da mente nos permite
criar uma entidade que acaba de ser cunhada: um protagonista
para os objetos e eventos que povoam nosso universo
mental. Com efeito, o nível mais simples de eu
nos permite manufaturar a idéia de que os objetos
e eventos são percebidos a partir de uma só
perspectiva, a do organismo simbolizado pelo eu. Em
nível mais complexo, podemos gerar a idéia
de que os processos mentais que ocorrem nesse organismo
são nossa propriedade. Finalmente, com a assistência
de lembranças de objetos e eventos do passado,
podemos montar uma autobiografia e reconstruir nossa
identidade e nossa individualidade incessantemente.
Onde
devemos procurar a base neural desses processos auto-envolventes?
Proponho que procuremos na cartografia neural de nosso
próprio corpo, porque o corpo como um todo é
a "coisa-processo" que é simbolizada
como o eu mental. Outros já tiveram essa intuição
antes: Benedict Spinoza e William James talvez com mais
vividez, mas também Friedrich Nietzsche, Martin
Heidegger, Maurice Merleau-Ponty e Charles Scott Sherrington,
um venerável fundador do que hoje chamamos de
neurociência.
Há
duas razões pelas quais o mapeamento do corpo
ajusta-se bem na atribuição de significado
do eu na mente. Uma é a relativa invariância
do corpo - o desenho e as operações do
corpo permanecem geralmente os mesmos através
da vida. A outra razão é um fato pouco
notado: a representação cerebral da estrutura
e das operações do corpo é contínua.
Para
ilustrar isso, levante os olhos da página que
você está lendo e observe atentamente o
que estiver à sua frente por alguns segundos,
e depois volte a olhar a página. Quando você
levantou os olhos, muitas estações neurais
de seu sistema visual, das retinas ao córtex
cerebral, passaram da cartografia neural da página
para a do aposento que está à sua frente.
Mas quando você retornou à página
esses componentes retomaram o mapeamento da página.
Em rápida sucessão, as mesmas áreas
cerebrais visuais construiram mapas neurais inteiramente
diferentes, por causa dos diferentes inputs sensoriais
que você recebeu, resultando em diferentes imagens
mentais. Entretanto, enquanto seu cérebro visual
se modificava de acordo com isso, diversas regiões
de seu cérebro "atento ao corpo", que
tem a função de cartografar diversos aspectos
de seu corpo, nada mudou em termos do tipo de objeto
que eles representavam. O corpo continuou sendo o "objeto"
do cérebro "atento ao corpo" durante
todo o tempo.
A
moral dessa história é que algumas partes
do cérebro são livres para percorrerem
o mundo e mapearem qualquer som, forma, sabor ou aroma
que o projeto do organismo permitir cartografar. Mas
algumas outras partes do cérebro - aquelas que
representam a própria estrutura e o estado interno
do organismo - não tem nenhuma liberdade para
viajar; nada podem cartografar senão o corpo,
e são platéia cativa do corpo. É
razoável lançar a hipótese de que
esta é a origem do sentido de ser contínuo
que fundamenta o eu mental.
Estamos
começando a descobrir o maquinário neural
exigido para se mapear o corpo. Esse maquinário
inclui vias que transmitem sinais químicos do
meio interno, através da corrente sangüínea,
diretamente para regiões cerebrais como a área
prostema ou o hipotálamo; e sinais neurais das
vísceras e dos músculos que são
transportados por fibras nervosas para regiões
cerebrais da medula e do tronco encefálico. No
interior do próprio cérebro, vias dedicadas
sinalizam essas informações relacionadas
ao corpo para certas seções do tálamo
(um núcleo conhecido como VMpo) e do córtex
cerebral (um setor da insula). A integração
desses sinais elabora mapas compostos e dinâmicos
do estado corporal a cada momento.
Estas
vias e regiões dedicadas não evoluiram
para que pudéssemos elaborar um eu mental, mas
porque mapas continuamente atualizados do estado corporal
são necessários para que o cérebro
regule a vida. Como é intrigante que a natureza,
sempre fazendo remendos, possa convenientemente utilizar
o mesmo equipamento para outro propósito: fundamentar
o eu mental. Curiosamente, visto assim, o eu mental
se torna um parente próximo do eu imunológico.
Antonio
Damasio faz parte do
Department of Neurology,
University of Iowa College of Medicine,
200
Hawkins Drive
Iowa City, Iowa 52242, USA
|