CHARLES
BAUDELAIRE
JOURNAUX
INTIMES
(FUSÉES, MON COEUR MIS A NU, CARNET)
Édition critique établie par Jacques Crépet
et Georges Blin
Librairie José Corti, Paris, 1949
Seleção
e tradução: Pedro Lourenço Gomes
Mesmo
que Deus não existisse, a Religião seria
ainda santa e divina. (p. 7)
Deus
é o único ser que para reinar nem precisa
existir. (p. 7)
O
que é criado pelo espírito é mais
vivo do que a matéria. (p. 7)
Eu
afirmo: a única e suprema volúpia do amor
está na certeza de praticar o mal. E o homem
e a mulher sabem desde que nascem que no mal se encontra
toda volúpia. (p. 11)
Quando
um homem cai de cama, quase todos os seus amigos têm
um desejo secreto de vê-lo morrer; uns, para constatarem
que ele tinha uma saúde inferior à deles;
outros, na esperança desinteressada de estudar
uma agonia. (p. 12)
Nós
amamos as mulheres à medida que elas nos são
mais longínquas. Amar as mulheres inteligentes
é um prazer de pederasta. Assim a bestialidade
exclui a pederastia. (p. 13)
A
magreza é mais nua, mais indecente que a gordura.
(p. 13)
O
entusiasmo aplicado a qualquer outra coisa que não
abstrações é um sinal de fraqueza
e de doença. (p. 13)
A
vida só tem um encanto verdadeiro; o encanto
do Jogo. Mas e se nos for indiferente ganhar ou perder?
(p. 15)
As
nações só têm grandes homens
a despeito delas - como as famílias. Elas fazem
todos os esforços para não os terem. Assim,
um grande homem tem necessidade, para existir, de possuir
uma força de ataque maior do que a força
de resistência desenvolvida por milhões
de indivíduos. (p. 16)
A
propósito do sono, aventura sinistra de todas
as noites, pode-se dizer que os homens adormecem todos
os dias com uma audácia que seria ininteligível
se não soubéssemos que é resultado
do desconhecimento do perigo. (p. 16)
Vem
de uma sociedade incrédula o gesto de enviar
Robert Houdin aos árabes para lhes deturpar os
milagres. (p. 16)
O
que não é ligeiramente deformado tem um
ar insensível - daí segue-se que a irregularidade,
quer dizer, o inesperado, a surpresa, a admiração,
são parte essencial e a característica
da beleza. (p. 18)
Prazeres
espirituais e físicos causados pela tormenta,
a eletricidade e o relâmpago, toxina das lembranças
amorosas, tenebrosas, dos anos antigos. (p. 20)
Encontrei
a definição do Belo - do meu Belo. É
qualquer coisa de ardente e de triste, qualquer coisa
um pouco vaga, deixando caminho para a conjetura. Vou,
se quiserem, aplicar minhas idéias a um objeto
sensível, ao objeto, por exemplo, mais interessante
da sociedade, um rosto de mulher. Uma cabeça
sedutora e bela, uma cabeça de mulher, digo,
é uma cabeça que faz sonhar a um só
tempo - mas de uma maneira confusa - com volúpia
e tristeza; que comporta uma idéia de melancolia,
de lassidão, até mesmo de saciedade -
seja uma idéia contrária. Quer dizer,
um ardor, um desejo de viver, associado a um azedume
em refluxo como se vindo da privação ou
da desesperança. O mistério, o desgosto,
também são características do Belo.
(p. 21).
Apoiado
sobre - outros diriam: obcecado por - essas idéias,
acho que será difícil não concluir
que o tipo mais perfeito de beleza viril é Satã
- à maneira de Milton. (p. 22)
Este
livro não poderá escandalizar minhas mulheres,
minhas filhas e minhas irmãs. (p. 25)
Quando
eu tiver despertado horror e desgosto em todos, terei
conquistado a solidão. (p. 26)
O
que há de enervante no mau gosto é o prazer
aristocrático de desagradar. (p. 27)
De
religião, acho inútil falar ou procurar
seus vestígios, pois ainda se dar ao trabalho
de negar Deus é o único escândalo
em assuntos assim. (p. 35)
Eu
cultivei minha histeria com alegria e terror. Agora
tenho sempre vertigens, e hoje, 23 de janeiro de 1862,
tive um singular pressentimento: senti passar sobre
mim o vento das asas da imbecilidade. (p. 39)
A
cada minuto somos esmagados pela idéia e sensação
do tempo. E só existem duas maneiras de escapar
desse pesadelo, esquecê-lo: o prazer e o trabalho.
O prazer nos usa. O trabalho nos fortifica. Escolhamos.
Quanto mais nos servimos de um desses meios, mais o
outro nos inspira repugnância. (p. 40)
Higiene.
Conduta. Método.
Juro a mim mesmo adotar de hoje em diante as seguintes
regras como regras eternas da minha vida:
Fazer todas as manhãs minha prece a Deus, reservatório
de toda força e de toda justiça, a meu
pai, a Mariette, e a Poe, como intercessores; pedir
que me mande a força necessária para cumprir
todos os meus deveres e conceder à minha mãe
uma vida muito longa para que se alegre com minha transformação;
trabalhar todo o dia, ou pelo menos o tanto que minhas
forças permitirem; confiar em Deus, quer dizer,
na própria justiça, para a realização
de meus projetos; fazer todas as noites uma nova prece
para pedir a Deus vida e força para minha mãe
e para mim; dividir tudo o que ganhar em quatro partes
- uma para o correr da vida, uma para meus credores,
uma para meus amigos e uma para minha mãe; obedecer
aos princípios da mais estrita sobriedade, cuja
primeira coisa é a supressão de todos
os excitantes, quaisquer que sejam. (p. 47)
Da
vaporização e da centralização
do Eu. Está tudo lá. (p. 51)
A
mulher é o contrário do dandy.
Por isso elas precisa nos causar aversão.
A mulher tem fome e quer comer. Sede, e quer beber.
Está no cio e quer ser possuída.
Grande mérito:
a mulher é natural, quer dizer, abominável.
E ela é também sempre vulgar, quer dizer,
o contrário do dandy. (p. 53)
Consentir
ser condecorado: é reconhecer ao Estado ou ao
príncipe o direito de vos aviltar ou vos enaltecer,
etc. (p. 53)
Existe
em toda mudança qualquer coisa de infame e de
agradável a um só tempo, qualquer coisa
ligada a infidelidade e desencontro. Isto basta para
explicar a revolução francesa. (p. 55)
Minha
embriaguez em 1848.
Qual era a natureza dessa embriaguez?
Gosto pela vingança. Prazer natural de demolição.
Embriaguez literária: lembrança das leituras.
O 15 de maio - sempre o gosto pela destruição.
Gosto legítimo, se tudo o que é natural
é legítimo. (p. 56)
Só
estimamos Robespierre por causa de algumas boas frases.
(p. 57)
A
Revolução, pelo sacrifício, confirma
a superstição. (p. 57)
Podem-se
fundar impérios gloriosos sobre o crime, e nobres
religiões sobre a impostura. (p. 58)
Sentimento
de solidão, desde minha infância. Apesar
da família - e sobretudo entre amigos - sentimento
de destino eternamente solitário.
Ainda assim, gosto acentuado pela vida e pelo prazer.
(p. 58)
Deve-se
trabalhar, senão por gosto, ao menos por desespero.
Pois, tudo bem verificado, trabalhar é menos
aborrecido do que se divertir. (p. 61)
Retrato
da canalha literária. Doctor Estaminetus Crapulosus
Pedantissimus. Seu retrato feito à maneira de
Praxíteles. Seu cachimbo. Suas opiniões.
Seu hegelianismo. Sua caspa. Suas idéias sobre
arte. Sua bílis. Seu ciúme. Um belo quadro
da juventude moderna. (p. 72)
A
teologia. O que é a queda? Se for a unidade transformada
em dualidade, foi Deus quem caiu. Em outros termos,
não será a criação a queda
de Deus? (p.73)
O
que é o amor? A necessidade de sair de si. O
homem é um animal adorador. Adorar é se
sacrificar e se prostituir. Também, todo amor
é prostituição. (p. 79)
O
ser mais prostituido é o ser por excelência,
é Deus, pois ele é o amigo supremo para
cada indivíduo, pois ele é o inesgotável
reservatório comum do amor. (p. 80)
Um
capítulo sobre a indestrutível, eterna,
universal e engenhosa ferocidade humana. O amor pelo
sangue. A embriaguez do sangue. A embriaguez das multidões.
A embriaguez do supliciado (Damiens). (p. 81)
Desafiemos
o povo, o bom senso, o coração, a inspiração
e as evidências. (p. 81)
Sempre
fiquei surpreso que deixassem mulheres entrar nas igrejas.
Que conversa elas podem ter com Deus? (p. 82)
Os
diretores de jornais franceses, Buloz, Houssaye, Rouy,
Girardin, Texier, de Calonne, Solar, Turgan, Dalloz.
Lista de canalhas. Solar em primeiro lugar. (p. 83)
Ser
um grande homem e um santo para si mesmo, aí
está a única coisa importante. (p. 83)
É
esse horror da solidão, a necessidade de esquecer
seu eu na carne exterior, que o homem chama nobremente
de necessidade de amar (p. 92)
Quando
Jesus Cristo disse "Felizes aqueles que estão
famintos, pois serão saciados", Jesus Cristo
fez um cálculo de probabilidades. (p. 97)
Toda
idéia é, por ela mesma, dotada de um vida
imortal, como uma pessoa. Toda forma criada, mesmo pelo
homem, é imortal. Porque a forma é independente
da matéria, e não são as moléculas
que constituem a forma. (p. 99)
Todos
os imbecís da burguesia que pronunciam sem cessar
as palavras "imoral, imoralidade, moralidade na
arte" e outras besteiras, me fazem pensar em Louise
Villedieu, puta de cinco francos, que me acompanhou
uma vez ao Louvre, onde jamais havia ido. Começou
a ficar encabulada, a cobrir o rosto, puxando-me a todo
instante pela manga, e me perguntou diante das estátuas
e dos quadros imortais como se podiam expor publicamente
tais indecências. (p. 102)
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