HERÁCLITO
E A FILOSOFIA
A
VIDA HUMANA, O DESTINO E A MORTE
KOSTAS
AXELOS
Tradução:
Pedro Lourenço Gomes
Heráclito também quer apreender o drama
concreto da vida humana. São numerosos os testemunhos
doxográficos que nos fornecem preciosos esclarecimentos
sobre este movimento que conduz do nascimento à
morte, e, para além da morte, a novos nascimentos.
Ainda que todos estes testemunhos sejam, e devam permanecer
sendo, relativamente suspeitos, não deixam de
nos esclarecer, ainda que indiretamente. O incansável
doxógrafo Aetius escreve: "Heráclito
e os Estóicos dizem que os homens começam
a atingir sua perfeição por volta dos
quatorze anos, época na qual o líquido
seminal se põe em movimento". O gramático
romano Censorinus precisa: "Um século é
a maior duração da vida humana, que é
limitada pelo nascimento e pela morte. Aqueles, por
consequência, que reduziram o século a
um espaço de trinta anos, cometeram manifestamente
um grande erro. É Heráclito que chama
este lapso de tempo de 'geração', já
que ele envolve uma revolução da idade
do homem; e ele chama de revolução da
idade do homem todo o período durante o qual
a natureza humana faz o retorno do semeado à
semeadura". E Plutarco de Querônia: "A
duração de uma geração é
de trinta anos, segundo Heráclito, espaço
de tempo no qual o pai vê seu filho capaz de engendrar".
Philon de Alexandria confirma: "Em seu trigésimo
ano um homem pode se tornar avô. Com efeito, ele
chega à puberdade aos quatorze anos, idade em
que pode engendrar; e aquele que ele engendrou, vindo
ao mundo ao fim de um ano, pode por sua vez, em seu
décimo-quinto ano, ter engendrado um ser igual
a ele mesmo".
A criança é um ser incompleto; ela se
torna (devém) homem. A verdade do ser humano
está em seu desenvolvimento. Quando tem quatorze
anos, a criança entra na fase de puberdade e
começa desse modo a atingir a perfeição
humana; seu líquido seminal está formado.
O úmido é sempre o que está ligado
ao nascimento, e, como "a alma exala dos úmidos",
o úmido do líquido seminal é o
que faz nascer o homem enquanto homem adulto. A partir
da puberdade o ser humano pode participar direta e ativamente
do movimento do devenir, pois ele é capaz de
engendrar. Aquele que foi engendrado pode novamente
engendrar no espaço dos trinta anos, que constituem
assim os limites extremos de uma "geração".
Duas vezes quinze anos formam uma geração,
justamente porque durante este período o ser
humano tem o tempo para ser avô; o líquido
seminal descreve com seu movimento um círculo
e retorna, por assim dizer, a seu ponto de partida,
mas em um nível superior: a fivela está
afivelada, o caminho para cima "e" o caminho
para baixo se unem no círculo.
A duração temporal da vida humana ultrapassa
portanto os trinta anos que são apenas uma "geração".
A duração da vida é o período
que se estende do nascimento até a morte. Os
momentos principais de uma vida humana são então
os seguintes: nascimento (começo de uma vida
humana), puberdade e capacidade de engendrar e de ter
engendrado (quatorze ou quinze anos), revolução
da idade do homem, onde aquele que foi engendrado vê
por sua vez seu filho capaz de engendrar ( a idade de
trinta anos, "geração", morte
(fim da duração da vida humana). As linhas
e as cores desse afresco são sóbrias e
se restringem ao absolutamente necessário, àquilo
que torna possível o correr do rio da vida humana
no tempo. No curso desse devenir os contrários
se unem; a colocação de uma criança
no mundo por um homem já significa o começo
da morte desse homem que realizou o estritamente necessário
de sua tarefa na tragédia humana. A dialética
harmoniosa da vida torna o homem capaz de engendrar
um ser que, por sua vez, vai ultrapassá-lo. O
tempo total é uma brincadeira de criança.
O tempo da vida humana faz o ser humano (dado à
luz) passar da infância e da adolescência
à idade madura, à velhice (onde o homem
retorna à infância) e à morte. Enquanto
isso, o homem começa a "morrer" a partir
do momento em que seu filho é dado à luz.
Este é o jogo do tempo, que brinca com as crianças
que são os homens.
O movimento do líquido seminal não é
de natureza erótica? Sem qualquer dúvida,
o Eros no Cosmos é o que mantem unidas entre
si as "partes" do mundo, fazendo com que se
religuem a despeito de suas lutas antagônicas.
"Também a natureza ama os contrários,
e é com eles e não com os semelhantes
que ela produz o acordo; é assim, por exemplo,
que ela une o macho à fêmea, mas não
cada ser a seu igual, e que ela efetua a concordância
primeira pela união dos contrários e não
dos iguais... As uniões são inteiras e
não-inteiras, concórdia e discórdia,
acordo e desacordo", lemos no fragmento 10. O movimento
do devenir provém, com efeito, da união
dos contrários. A união de dois seres
opostos assegura a permanência do devenir humano.
Com o eros unificador se compõe a guerra inevitável.
O ser humano, enquanto ser cósmico, nasce portanto
de um encontro entre dois seres opostos e perpetua,
por sua vez, a espécie; o que o impele são
as forças cósmicas "e" o movimento
de seu próprio líquido seminal, que, sendo
uma das manifestações da água e
do úmido, torna-se igualmente fogo ao correr
do processo das metamorfoses. Toda a dialética
é apenas um encadeamento das engendrações;
o movimento do nascimento articula o movimento do devenir.
O úmido e o fogo do Universo estão estreitamente
ligados e alimentam o úmido e o fogo do organismo
humano (indissociavelmente psicossomático). Nesta
coesão biocósmica se manifestam as potências
eróticas. O úmido é o elemento
que caracteriza o nascimento, e o fogo está ligado
ao desenvolvimento. Os Estóicos, com sua teoria
do logos espermático universal, explicitam, extrapolam
e racionalizam o que está implicitamente contido
no pensamento heraclitiano; eles estabelecem o movimento
de potências transformadoras. "Apesar de
seu heraclitianismo, o mundo estóico dá
mais a impressão de estabilidade que de fluxo
contínuo", conclui com justeza Émile
Brehier em seu livro Chrysippe et l'Ancien Stoïcisme.
Qual é o significado da vida humana, deste ponto
que conduz do nascimento até a morte, passando
pela reprodução? Da vida humana dada pela
natureza, passamos à vida que os homens se dão.
Quando nascem, querem viver e receber seus mortos, ou
então repousar; e abandonam as crianças
para que nasçam os mortos (Frag. 20). Entramos
e não entramos nos mesmos rios, somos e não
somos (49 A). Lutar contra seu coração
é difícil; tudo o que ele quer, ele compra
ao preço da alma (85). O ethos do homem é
seu demônio (110).
O ciclo da vida humana - nascimento, infância,
morte - se realiza inelutavelmente; os tons são
sombrios. Exprime Heráclito um pessimismo fundamental?
É o nascimento considerado como infelicidade
e a morte como liberação? Parte de vida
(moira) e parte de morte (moros) serão idênticas?
Os temas das infelicidades da vida humana aparecem na
poesia e no pensamento helênicos muito antes de
Heráclito, e não apenas na sabedoria helênica.
O homem é fraco e impotente, diz a Odisséia,
passa como as folhas, nos ensina a Ilíada. Hesíodo,
em O Trabalho e os Dias, não faz outra coisa
que por em relevo as infelicidades humanas. O poeta
iâmbico Semônides de Amorgos queixa-se que
os homens não têm sabedoria, que vivem
como animais, sustentados apenas pela ilusão
e pela esperança, ameaçados pelas doenças,
pela velhice e pela morte. Solon também se queixa
do destino, que não pode ser suplantado pelo
conhecimento que possamos ter dele, e declara: "nenhum
homem é feliz". E este ditado da sabedoria
arcaica: "não considere nenhum homem feliz
até que ele chegue à morte" exprime
o mesmo ponto de vista sobre a vida. Os Pitagóricos
se esforçam apaixonadamente para purificar a
vida da infelicidade do nascimento, e os grandes poetas
trágicos exprimem no mais alto grau as terríveis
(e grandiosas) contramarchas da existência dos
mortais. Heráclito retoma, condensa e pensa todas
essas meditações com uma intensidade singular,
e ele as exprime sob formas lacônicas e radicais.
É isso melancolia e pessimismo? Partindo de idéias
esquemáticas preconcebidas e imaginando os poetas
e pensadores gregos como "belas almas" que
vivem sob os encantos da beleza da vida, não
chegaremos a compreender do que se trata. O mito feliz
da Hélade feliz ignora quase deliberadamente
a Grécia de verdade, a Grécia trágica.
É um erro de perspectiva que nos faz embelezar
o antigo, sob o jugo da infelicidade atual. Os gregos
também cometem o mesmo erro, situando a idade
de ouro no passado. Toda a obra de Platão não
exprime a nostalgia profunda de um horizonte perdido,
nostalgia que alimenta o mito da reminiscência
da alma ?
Os pensamentos pré-heraclitianos e heraclitianos
que enfrentam a ferida enunciam verdades evidentes,
reconhecidas como tais pela época. Eles não
querem levar o homem a se lamentar, mas a suportar com
coragem e a viver sua vida. É uma visão
dramática e trágica do mundo e da vida;
dramática, porque ela exprime os fundamentos
das realizações e ações
dos homens, trágica porque visualiza o que é
fragmentário sob um prisma universal e aprofunda
a fenda e as ruturas inerentes à totalidade.
E como a arte trágica e arcaica dos séculos
7 e 6 (a. C.) se "individualiza" a seguir,
aprofundando a forma e o fundo do destino individual
(que ainda assim permanece fortemente ligado ao universal),
da mesma maneira este pensamento pré-sofista
só tem olhos para o que se situa na dimensão
do universal. Isto é particularmente verdade
em Heráclito. Seu pensamento abrange a totalidade
da vida humana e aponta seu caminho comum. Ele não
chora o curso inevitável da existência
humana, não deplora a perda do absoluto, pois
a necessidade se realiza inelutavelmente, ainda que
com maior ou menor perfeição. Ao invés
de se fixar nas misérias da subjetividade sofredora,
e sem mesmo levar isso em conta, Heráclito observa,
a um só tempo com alegria e tristeza, o grande
espetáculo da sucessão de gerações
sobre a Terra. Se ele considera a morte como repouso,
isto não deve levar a uma interpretação
cristã. A morte é apenas uma mudança
de situação, e nós já sabemos
que "tudo repousa na mudança". (84a).
Serão as escolas socráticas, e sobretudo
os filósofos menores, como Hegésias, conselheiro
da morte, que nos trarão uma atitude psicologicamente
pessimista e melancólica. A filosofia que aconselha
a morte é que partirá do princípio
do prazer, desenvolverá sua própria negação
e se colocará sob o signo da morte, aconselhando
o suicídio como meio de chegar a ela. Hoje em
dia damos voluntariamente um caráter nostálgico
e romântico ao pessimismo; mas todo romantismo
está ausente na época que viu nascer o
pensamento de Heráclito. Ele repensa os temas
da intuição popular no próprio
nível dos grandes problemas que concernem a vida
e a morte. A sabedoria das nações (filosofia
popular) e a filosofia pretensamente eterna (philosophia
perennis) são mais interdependentes do que pensam.
Heráclito se coloca a igual distância tanto
de uma como de outra. Em consonância discordante
com a sabedoria de seu tempo e de seu povo, ele questiona
os três grandes temas da vida humana e os traz
ao nível de questões. O juízo heraclitiano
não pode ser designado como melancólico,
romântico ou pessimista; o ritmo de seu pensamento
é inteiramente dramático e trágico,
de acordo com o Mundo.
A vida conduz irresistivelmente à morte. O arco
(biós) leva o nome da vida (bíos), mas
causa a morte; o rio da vida conduz o homem à
morte. Os contrários se unem. A unidade inata
da vida e da morte manifesta esta unidade harmoniosa
e discordante dos contrários que lutam entre
si no decurso do devenir que é rio e guerra.
O arco é uma arma de guerra e mortal, e o jogo
de palavras (biós-bíos) também
traz a marca da morte. A perspectiva da morte ilumina
as sombras da vida. O arco, símbolo da harmonia
dos contrários e instrumento guerreiro, não
é ele também um símbolo de Apolo,
o deus da luz? Entre os 130 fragmentos de Heráclito,
quinze se referem diretamente à morte. Ensinando-nos
o logos do cosmos, nos reconciliando com a justiça
da guerra e nos persuadindo da unidade dos contrários,
Heráclito nos mostra como filosofar é
aprender a viver e a morrer. O homem deve ficar sereno
diante do inevitável e reconhecer o inevitável
caminho que, enquanto caminho cíclico, leva constantemente
da vida à morte e da morte à vida. O homem
deve fixar seus olhos no termo fatal de sua viagem,
e o pensador não se ocupa em consolar os homens,
mas em desmascarar sua situação, destruir
suas ilusões. O rio corre como a vida, e a vida
é inesgotável como o rio. Ela é
sempre cambiante e nós não podemos reviver
(NT - revivre. Acho que Axelos queria dizer vivre, viver)
duas vezes o mesmo momento, pois nós também
mudamos: ao móvel corresponde o móvel.
Nós corremos como um rio e nos dissipamos como
uma chama, ao decorrer do tempo que é a unidade
do passado, do presente e do futuro. Nós somos
e não somos, porque a negatividade, que anima
o processo de transformações de tudo aquilo
que é, nos leva a nos transformarmos em amanhãs
diferentes. O segredo de nosso ser é o futuro.
No decorrer deste futuro que é o tempo, o homem
se dá cruelmente conta de que é difícil
lutar contra as paixões que, levando-nos na direção
da satisfação dos desejos, fazem com que
esqueçamos que não somos seres particulares,
mas fragmentos da totalidade. Tudo aquilo que queremos
é comprado ao preço de uma parcela de
nossa alma. A luta, o antagonismo, domina também
a existência do homem. A satisfação
do desejo, o prazer, leva as almas a se tornarem úmidas,
e este prazer úmido é a morte da alma
(fr. 77). Por que é então doloroso lutar
contra a morte da alma? É tão difícil
lutar contra seus desejos porque a violência do
desejo (thymos) e a pureza da alma (psyché) estão
em relação inversamente proporcional.
Se damos livre curso aos nossos desejos o fogo sábio
e vivificante da alma se volta contra o animal da umidade
mortal. Dar livre curso às paixões do
desejo é coisa fácil. A tarefa dolorosa
e difícil consiste na luta contra as paixões,
porque uma paixão, mesmo vencida, tem repercussões
dolorosas sobre nossa alma. Além disso, é
penoso lutar contra os prazeres que conduzem a alma
na direção da umidade, quer dizer, em
direção à morte, porque no fundo
é penoso para a alma lutar contra suas próprias
tendências mortuais. Nós devemos lutar,
talvez, com a morte na alma contra a morte da alma.
A proporção thymos e psyché não
é algébrica, mas dramática. O homem
é este ser situado entre o animal e o deus que
tem todas as dores do mundo para edificar um ethos para
si, porque as forças que o movem se compensam
uma à outra, necessariamente e justamente. A
negatividade (origem da negação) está
sempre ativa e impede a estagnação do
ser vivo. A realização total dos desejos,
no limite, é impossível, portanto nefasta;
a maior realização possível daquilo
que nos ordenam as paixões e os desejos avilta
a alma. Portanto é difícil lutar contra
seu coração, pois tudo o que ele deseja
é comprado ao preço da alma (fr. 85),
e ao mesmo tempo é melhor que todos os nossos
desejos não se realizem (fr. 110). Tanto a satisfação
do desejo como a vitória sobre o desejo afetam
profundamente a alma. A integridade da alma é
talvez mais bem preservada no infortúnio. A luta
contra os desejos particularizadores, quer dizer, o
combate claro e não a retirada, se impõe
como necessária e dolorosa. O homem, ser que
não é unicamente movido por suas próprias
forças psicofísicas, pode empreender e
manter esta luta, sabendo que é o negativo que
nos conduz ao positivo. Repitamos mais uma vez: Heráclito
não quer de maneira nenhuma trazer violência
à natureza humana em nome da moral ou da espiritualidade;
ele apenas se esforça em revelar aos humanos
o que é em realidade, em verdade, a natureza
humana, em seu devenir.
Assim o homem não deve jamais perder de vista
a totalidade de seu problema, e o problema é
bastante concretamente o de seu destino. O ethos do
homem é seu demônio, nos declara o famoso
fragmento 119. O ethos é a natureza profunda
do homem e constitui seu ser em devenir, e o demônio
é uma potência divina. À representação
que vê o destino humano como uma potência
exterior, regulando o decurso da vida humana em seus
menores detalhes, à concepção da
potência total dos deuses e dos demônios
e da impotência total do homem e seu demônio,
Heráclito opõe sua atitude dramática
e responsável diante do futuro. Ele marca o surgimento
do homem ocidental que quer agir e reagir em face de
seu destino, enquanto o homem oriental parece suportá-lo
resignando-se. O pensamento helênico acreditava
em princípio que uma Moira, fatal por definição,
governa a vida dos homens e a dirige de maneira meio
cega; por outro lado, acreditava na onipotência
divina, ficando os deuses, alternativamente, dominadores
desta Moira e submissos a ela. No pensamento homérico
em particular se manifesta uma profunda antinomia: os
humanos são como marionetes nas mãos dos
deuses, mas cada herói é quase responsável
pelo que é; na hora do veredito, à solução
imposta pelos deuses, responde, independente, mas sempre
correspondente, a resolução assumida pelos
heróis.
Heráclito dá um passo decisivo ao proclamar:
O ser do homem (seu ethos) é um ser divino (seu
demônio) (fr. 119). Ao fazer isto ele não
considera o homem individual como fundador de seu destino;
não torna o destino psicológico, nem mesmo
antropológico. O ser do homem (seu ethos) é
simplesmente declarado como sendo um ser divino (um
demônio). Como o fogo do mundo é seu próprio
destino, é o ser divino do homem que constitui
o motor interno do devenir humano. Heráclito
não diviniza o homem nem humaniza o divino; naturalmente
o demônio deixa de ser uma potência exterior,
estranha enquanto estrangeira, e se transforma em forma
e fundo da vida humana. Assim como a necessidade cósmica
e divina do destino forma a estrutura do Universo, o
ser divino do homem constitui sua harmonia discordante.
Necessidade e liberdade se unem graças à
harmonia dos contrários, e a liberdade do homem
consiste na aceitação plena de sua natureza
demoníaca.
A tragédia exprimirá também esta
relação entre o ethos e o démon
(NT - acho que Axelos gostaria de ter escrito daimon),
entre o ser do homem e o ser divino. No Prometeu de
Ésquilo não podemos discriminar onde acaba
seu ethos e onde começa seu demônio, porque
destinação (humana) e destino (divino)
se sobrepõe. Para a Antígona de Sófocles
é justamente seu ethos que é seu demônio;
aqui está precisamente o verdadeiro drama. Draw
(NT - lê-se dráo) significa agir, e agir,
em sentido profundo, significa realizar um destino e
uma destinação. Só o ethos realizador
é dramático, no sentido a um só
tempo ativo e trágico do termo. Toda a atitude
de Sócrates não consistia no esforço
desenvolvido para fazer coincidir o ethos do homem e
as prescrições de seu demônio? Heráclito
teria visto em uma tragédia o princípio
de elaboração de seu pensamento, desta
apreensão simultânea de ethos e de demônio,
que nos faz ver como o ser do homem concorda com seu
destino. Ainda mais, os grandes traços da grande
tragédia já se revelam em Heráclito:
pensamento heraclitiano e tragédia são
"inacabados" e fragmentários, porque
querem envolver e compreender a totalidade do destino
cósmico e humano; estão à procura
da unidade e por toda parte encontram ruptura; seu ritmo
é dramático, e toda a atividade humana
lhe parece livre e alienada, realizando desse modo o
acordo discordante entre a liberdade e a necessidade.
Os dois lutam apaixonadamente para introduzir luz nas
trevas, ainda que a obscuridade esteja instalada no
coração do luminoso.
Heráclito ainda unifica destinação
humana e destino, sem todavia reduzir a destinação
ao destino. A destinação, totalidade formada
pelo conjunto da vida e dos atos do homem, tanto positiva
quanto negativamente, é o destino, mas supera
toda ação e omissão particulares.
O destino não se reduz simplesmente ao destino,
do mesmo modo como o ser do homem não se reduz
a seu caráter, pela boa razão de que o
método heraclitiano não é redutivo,
mas procura a harmonia escondida - aquilo que liga o
homem, cujo ser é um ser divino, ao Todo, cuja
significação é o "mesmo"
ser divino.
Hoje tendemos a pensar em função das diversas
disciplinas do pensamento e das ciências, e é
verdadeiramente difícil para nós agir
de outra maneira. Ethos nos faz pensar em ética,
até em moral, caráter em caracterologia,
psyché em psicologia. Em Heráclito, ao
contrário, estas "disciplinas" só
existem enquanto disciplinas; o ser não se separa
do pensamento, e o que é plenamente não
se separa daquilo que deve ser. O pensamento heraclitiano
permanece sempre "holístico". O ethos
é a totalidade do ser do homem, e o démon
indica sua parte divina no devenir do grande Todo. Martin
Heidegger apreendeu da seguinte maneira o fragmento
119, transpondo-o para a linguagem que lhe é
própria e ligando-o ao testemunho de Aristóteles
(De part. anim., A 5, 645 a, 17 - D. A. 9), segundo
o qual Heráclito queria declarar aos estrangeiros
visitantes que pararam quando o viram se aquecendo diante
da lareira: "aqui também estão presentes
os deuses". Segundo Heidegger, Ethos significa
morada, lugar de habitação. Esta palavra
nomeia a região aberta onde habita o homem. A
abertura (das Offene) de sua morada deixa aparecer o
que avança em direção à
essência do homem, e nesta chegada se interrompe
nas proximidades. A morada do homem contém e
guarda a chegada daquilo ao qual o homem pertence em
sua essência. É, segundo a palavra daimon
de Heráclito, o deus. Diz a sentença:
o homem habita, enquanto homem, nas proximidades de
deus." (Carta Sobre o Humanismo).
Todavia, o homem se encaminha para a morte. Antes, enfrenta
ainda as doenças. A doença (Heráclito
não distingue entre doenças somáticas
e psíquicas) é uma ruptura da harmonia
que mantém ligados os opostos. A doença
é causada pela predominância excessiva
de um dos elementos da totalidade que é o organismo
psicossomático do homem. ela aparenta-se assim
estreitamente ao prazer. Ela rompe a unidade dialética
do bem e do mal, fazendo predominar o mal. Mesmo a presunção,
que indica uma rutura dos laços que ligam o homem
individual ao universal, é chamada de doença
por Heráclito; mais ainda, é chamada de
doença sagrada (fr. 46), porque afeta diretamente
o pensamento do homem, cujo corpo pode continuar sendo
saudável. E a medicina não pode impedir
a si mesma de praticar simultaneamente o bem e o mal,
em sua tentativa de restabelecer o equilíbrio
perturbado da saúde (fr. 58). O mal e a doença,
o prazer e a presunção, são partes
da totalidade que se tornaram autônomas, rompendo
deste modo o equilíbrio unitário. Nos
tratados hipocráticos, e em particular no De
Victu, encontramos claramente os traços desta
concepção dialética da saúde
e da doença.
O
homem morre um dia. É prazer ou morte para as
almas tornarem-se úmidas. (É um prazer
para elas entrar na vida)... Nós vivemos a morte
deles e eles vivem a nossa morte (D. 77). Imortais mortais,
mortais imortais; uns vivem a morte de outros, e outros
morrem a vida de uns (D. 62). A morte é aquilo
que despertos vemos, que adormecidos dormimos. Etc...
Com efeito, é prazer para as almas tornarem-se
úmidas, pois a umidade, em oposição
à secura da alma sábia, significa embriaguez
e predominância da sensualidade; a umidade da
alma conduz assim à morte final, o que já
sabemos pelo fragmento 36. O úmido é a
um só tempo a origem e o fim da vida da alma.
A alma nasce do úmido (neste estágio o
úmido se encontra estreitamente ligado ao prazer)
e finalmente volta ao úmido após sua morte.
O começo volta à partida - pois a implica
desde o início - o fim. Parece-nos ouvir ainda
o eco da voz de Anaximandro: "O ilimitado é
a origem do que existe (dos seres); ali onde os seres
nascem, ali mesmo se faz sua destruição,
como deve ser; pois se fazem justiça e expiam
uns pelos outros por suas injustiças, segundo
a ordem do tempo"(D. 12 B 1).
Como a alma nasce do úmido, seu nascimento está
ligado ao prazer. Entretanto, a umidade também
engendra a perda da alma. A potência do fogo,
ao contrário, procura liberar a alma da empresa
corruptora e mortal da umidade, conduzindo-a à
posse da verdadeira vida que é, não prazer,
mas vida conforme o universal. O impulso do prazer que
nos faz nascer do úmido procura a todo custo
realizar os desejos de nosso coração,
conduzindo-nos assim em direção à
morte; este impulso é difícil de ser dominado
e nos impede de saber para onde vamos, nos transformando
neste homem embriagado que é conduzido por uma
criança e não sabe para onde vai porque
sua alma está úmida. A verdadeira vida,
obedecendo ao fogo, exige a sabedoria: o homem que não
se afasta dela vive verdadeiramente sua vida, tendo
os olhos fixos no termo fatal de sua viagem.
Como podemos viver portanto a morte de nossa alma, e
como vive ela sua própria morte? E como os imortais
são mortais e os mortais imortais? O movimento
da dialética heraclitiana é constantemente
cíclico; o caminho para o alto e para baixo é
um só e o mesmo. Nascimento e morte, juventude
e velhice, morte e imortalidade são contrários
dialeticamente unidos; um conduz eternamente ao outro,
e o movimento não cessa jamais. Estudando o pensamento
teológico e religioso de Heráclito pudemos
ver o elo que une os homens ao divino, porque o ethos
do homem não reside em sua idiossincrasia, mas
naquilo que o liga à universal divindade. Desta
maneira, a morte (como falecimento) se encontra superada;
o ser e o não-ser se unem no devenir. Nós
vivemos efetivamente a morte de nossa alma, e ela vive
nossa própria morte, porque no decurso de nossa
existência nós podemos apreender o processo
da morte de nossa alma, dando-nos conta de nosa marcha
em direção à morte que, em verdade,
nos habita por toda nossa vida. A alma, por sua vez,
vive nossa própria morte, porque ela possui o
dom da superação que a liga ao Todo.
O homem, como todo ser cósmico que se move no
interior do Universo, segue os dois caminhos: aquele
em direção ao alto, conduzindo da terra
à água, da água ao ar e do ar ao
fogo, e aquele para baixo, conduzindo do fogo ao ar,
do ar à água e da água à
terra. O caminho para o alto é o do nascimento
da alma, e o caminho para baixo é o da morte.
Mas, como o caminho para o alto e para baixo é
um e o mesmo (fr. 60), e como na circunferência
do círculo o começo e o fim coincidem
(fr. 103), o caminho para o alto também é
o da morte da alma, e o para baixo o de seu nascimento.
O nascimento é a um só tempo ascenção
e queda, assim como a morte. A terra, começo
e fim do processo cíclico, é o verdadeiro
lugar do drama humano. A alma humana participa do fogo;
assim, após ter sido água e terra, quer
dizer, corpo humano, ela volta a ser fogo. Ela era em
princípio o fogo que anima o corpo, e quanto
mais seca ficava, mais sábia era.
Os mortais são então imortais, porque
ligados ao fogo imortal. Os imortais se "encarnam"
nos mortais. Vida e morte, morte e imortalidade, intercambiam-se
mutuamente e, sendo contrários, se unem no decurso
do movimento incessante. O pano de fundo de todos estes
pensamentos heraclitianos é constituído
pela mitologia homérica, pelas crenças
hesiodianas, pelo simbolismo órfico e pitagórico.
O pensador de Éfeso despe estes grandes temas
de suas vestes multicoloridas e põe a nu seu
sentido último. Naturalmente, o problema de saber
em que espaço e em que tempo estes processos
dialéticos ocorrem fica sem resposta. Nós
apreendemos a direção da especulação
heraclitiana num clarão, mas o papel concreto
dos protagonistas do grande drama quase sempre nos escapa.
Será que Heráclito não deixa as
trevas, ou nós é que nos perdemos neste
jogo de sombra e luz?
Perseveremos então em nosso esforço para
ver claro. A morte possui uma potência suprema.
Não podemos chegar a ver a significação
da morte senão no estado de vigília. Quando
dormimos, em troca, não nos damos conta de nada,
só fazemos dormir. A originalidade do fragmento
21 consiste na inversão dos termos da comparação;
o que se encontra ligado não é a vida
e o estado de vigília, por um lado, a morte e
o sono por outro. O sono nada mais é que uma
situação intermediária entre a
vida e a morte. A vida, se ela se desenrola em estado
de vigília, nos coloca em face da morte; ela
só é até que venha o grande sono,
a morte definitiva. Heráclito quer constantemente
clarear as trevas, ao ensinar que a vida não
é a morte, e até ela nos mergulha na obscuridade.
A vida só faz nos encaminhar em direção
à morte; os contrários são unidos,
sem estarem identificados por causa disso.
Quando o homem dorme, ele está "morto",
ainda que continue vivo. O sono realiza provisoriamente
a unidade dos dois contrários. "À
noite o homem acende uma luz quando sua visão
está apagada", nos é dito no fragmento
26. A luminosidade do fogo se manifesta igualmente na
obscuridade da noite. Constitui-se ela então
na luminosidade indispensável à visão
dos sonhos? Não o sabemos. O que podemos compreender
é que o ser adormecido é o ser vivo mais
próximo da morte, pois ele dorme e sai provisoriamente
da vida. O ser acordado também toca o ser adormecido,
porque ele próprio não pode escapar ao
sono; nem ao sonambulismo, nem ao sono provisório,
nem ao sono definitivo. O homem participa duplamente
de sua morte: tanto no sono como na vigília.
Vida e morte são "estados" muito próximos
um do outro; o sono é o signo de sua analogia
e torna-se então uma metáfora que, como
toda metáfora, transfere as propriedades de um
domínio para outro. Além do mais, o homem
toca o ser adormecido quando vive, porque os homens
não possuem a visão necessária
de seu destino mortal e agem frequentemente como pessoas
sonolentas e adormecidas. O sono torna-se desta maneira
a situação mais aparentada à morte,
afastando-nos dela em aparência, pela via do esquecimento
em que nos envolve. Os humanos em seu sono fecham os
olhos à vida (e à morte); quando se agitam,
fecham os olhos à morte (e à vida). A
vida torna-se assim um sonho inconsistente para os homens
que não sabem olhá-la no rosto para descobrir
nela as linhas de força que conduzem à
morte.
O que é jovem, vigilante e vivo, envelhece, adormece
e morre (fr. 88). A unidade combativa dos contrários
e o processo de suas (deles) transformações
ocorrem no tempo, e pelo tempo, que constitui o ritmo
necessário do devenir. Para que todas estas etapas
do devenir possam se transformar em seu contrário,
é preciso que já estejam unidas de antemão;
com efeito, elas o estão no seio da totalidade
cósmica e elas constituem a via antitética
do homem. O tempo nos leva de uma estação
a outra; nos faz envelhecer e nos faz morrer. O tempo
é a alma da harmonia combativa dos contrários,
porque a unidade dos contrários é harmonia,
já que a passagem de um estado a outro é
ao mesmo tempo movimento e repouso. O sono é
apenas um pequeno repouso, o repouso é a morte.
Toda mudança é um repouso; "transformando-se
ele repousa", havíamos aprendido no fragmento
84. Os homens, não podendo interromper o curso
inevitável do devenir, tentam ainda assim escapar
à fadiga, recusando a luta e o combate; isto
é impossível e ultrapassa a medida de
suas possibilidades. Durante toda sua vida eles apenas
se transformam, indo de uma posição à
outra, pela luta inevitável; eles repousarão
quando pararem de viver. O ritmo do destino humano é
inelutável, e o tempo é todo-poderoso.
O pensamento verdadeiro pode ajudar os homens a viver
sua vida sem esquecer sua morte. Ao procurar a estagnação
e o repouso imóvel eles se esquivam do curso
do Mundo e são mal sucedidos na vida. Estar aterrorizado
com a morte não significa coabitar com a morte;
continuando a viver pela metade, os homens apenas fecham
os olhos antes da hora. Enquanto que aquilo que o pensador
ensina deve levar todos que o querem escutar a viver
sua vida como homens acordados, ligados ao universal
e enfrentando com sabedoria sua morte.
O homem morre definitivamente. O que se torna seu corpo
e o que se torna sua alma?
Esperam os homens após sua morte, o que eles
não esperavam nem se imaginavam (D. 27). Os cadáveres
devem ser mais rejeitados do que estrume (D.96). As
almas umedecem no Hades (D.98). Ele fala também
de uma ressurreição da carne visível,
na qual nascemos, e sabe que Deus é o autor desta
ressurreição, falando assim: (lá,
diante daquele que é, eles se levantam e) tornam-se
guardiães daqueles que vivem acordados e dos
defuntos (D. 63).
Heráclito
não deixa de avisar os humanos que devem sempre
saber esperar o inesperado e esperar reencontrar o inesperado
(fr. 18). A incredulidade pura e simples denota um espírito
obtuso e fechado ao enigma do Mundo. Assim como os homens
não pensam em sua vida e em seu termo fatal,
também não pensam no que os espera depois
de sua morte.
A sorte do corpo morto é rapidamente regrada:
é para ser rejeitado. O cadáver não
exprime mais o homem; formado de terra e água,
só lhe resta reganhar a terra, sobre a qual o
homem vivo dá seus passos. A alma também
morre? Entendamos, não se trata da alma pessoal
e de sua sobrevivência individual. Não
há traços de uma doutrina da imortalidade
(pessoal) da alma (individual) no pensamento autêntico
de Heráclito.A alma que vive, não sendo
de modo nenhum subjetiva, como poderia ela, após
a morte do homem que ela animava, sobreviver individualmente?
A alma é um fragmento do Universo. Aetius escreveu
(IV, 7, 2 - D.A. 17): "Heráclito diz que
a alma é indestrutível, pois ao deixar
o corpo ela retorna à alma do Universo, com a
qual é homogênea".
As almas farejam talvez no Hades os aromas do fogo divino
e eterno, e, como Hades é o mesmo que Dionisyus
(fr. 15), elas continuam a viver para além de
sua morte, mas não num além evangélico.
Pode ser ainda que as (almas) daqueles mortais que morreram
pelo fogo, heroicamente, e sabiamente se tornem imortais;
os heróis e os sábios seriam assim os
"guardiães" dos vivos e dos mortos.
As estrelas mortas também animam o Universo.
A vida e a morte, a parte e o Todo, os mortais e os
imortais, sendo e não sendo idênticos,
continuam assim a constituir as etapas e as esferas
do devenir que, se modificando eternamente e se transformando
em seu oposto, dão desta maneira um sentido ao
movimento.
O fragmento 63, tirado dos escritos de Santo Hipólito,
deforma o pensamento heraclitiano cristianizando-o;
não há ressurreição da carne
nem Julgamento final para o Efesiano, ainda que assim
o pense o bispo de Roma. Heráclito permanece
pagão e pensa que a alma humana - depois de haver
animado o corpo de um homem que vive, tem um destino
e morre - junta-se de novo à Totalidade cósmica
que nunca deixou de a englobar.
Tradução
do capítulo II da Seção IV, da
segunda parte, de Héraclite et la Philosophie,
de Kostas Axelos, Les Éditions de Minuit, França,
1962, 2a edição de 1968.
Tradutor: Pedro Lourenço Gomes.
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